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LENDO CORDÉIS, RELENDO O MUNDO: A MÍDIA ALTERNATIVA NA CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA

Adriano Lopes Gomes - Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Este trabalho pretende abordar a literatura de cordel como um possível recurso na divulgação da ciência, adicionando ao caráter lúdico das narrativas a necessidade de esclarecer a população sobre formas de tratamento e prevenção de doenças, em razão da pouca incidência de temas relacionados à saúde no jornalismo local. No presente estudo, analisaremos os folhetos de cordel publicados pelo Ministério da Saúde do Brasil, na esfera federal, e Secretaria Estadual de Saúde Pública, no âmbito do governo do Estado do Rio Grande do Norte. Objetiva situar as interfaces entre os cânones da ciência e uma das formas seculares de divulgação popular que, ao longo do tempo, desperta atenção de leitores, ouvintes e pesquisadores.
O Nordeste do Brasil ainda é uma região onde a literatura de cordel está presente nos círculos sociais, quer em praças públicas ou nas tradicionais feiras livres, sobretudo nas pequenas cidades, guardando-se a mesma performance que não se perdeu na história da poesia popular: através da leitura oral, na íntegra ou memorizada, catalisando o interesse dos ouvintes para a aquisição dos folhetos. É um gênero que mantém estreita relação com os cantadores de viola e repentistas por apresentar a estrutura de rimas e métricas, notadamente representando narrativas de ficção, de situações épicas ou de episódios cotidianos. A origem da literatura de cordel no Brasil é revestida de alguns pressupostos históricos e teóricos cuja atmosfera de informações ainda é nebulosa. Maxado (1980) e Cascudo (1984) dizem que a literatura oral, na qual os cordéis se situam, sofreu influências européias. Soler (1995) destaca a ascendência árabe no folclore do sertão brasileiro, elucidando traços daquela cultura na região Nordeste, desde a colonização do Brasil, por um processo de transmigração de costumes do povo europeu. O autor faz comparações entre os cantadores de viola com os jograis e menestréis, sugerindo que esses artistas populares já foram herança das tradições árabes que aportaram, sobretudo, na França, Espanha e Alemanha. Abreu (1999) faz um
confronto entre as duas produções culturais – a literatura de cordel portuguesa e a literatura de folhetos do Nordeste do Brasil –, esclarecendo, segundo a autora, equívocos que sugerem a vinculação cultural em que uma seria a fonte da outra. Para Abreu (ibidem), os dois gêneros são autônomos. Já Sousa (2004:233) reconsidera a questão e afirma que “a literatura de cordel tem sua gênese assinalada pela divulgação dos romances, novelas de cavalaria, relatos heróicos e de viagens do povo de Portugal”.
Não é nossa intenção questionar sobre elementos primordiais da literatura de cordel, posto que o objetivo do presente trabalho dispensa tal procedimento. No entanto, para efeito de historicidade, os autores parecem concordar sobre as origens orais da literatura de cordel. É sobre tais aspectos que iremos nos debruçar.
Na ausência de circulação de livros em grande escala, durante a idade média, os textos eram transmitidos oralmente pelos menestréis, jograis, trovadores, segréis, romanceiros, cancioneiros, bardos, mimos e histriões. Eles constituíam uma classe de poetas populares ou artistas ambulantes que declamavam poesias, cantavam, interpretavam e contavam histórias, utilizando-se de recursos mnemômicos. E suas histórias eram em forma de rima, sem a revelação da autoria, definidas pelas características do conto popular, tais como o anonimato, a antigüidade, a persistência e a oralidade (CASCUDO, 1996).
A despeito de todas as habilidades que os poetas populares medievais possuíam, interessa-nos particularmente a de contar histórias através da literatura de cordel. Eles contavam utilizando-se de um instrumento - o alaúde, por excelência - e faziam de suas práticas um ofício profissional. Era assim que tais poetas populares formavam leitores-ouvintes, que fixavam em suas culturas o valor da literatura oral pelas gerações sucessivas. Os etnotextos, assim designados por Bouvier (1989:39) para classificar os documentos orais, revestiam-se de importância considerável pelo fato de sublinhar o seu valor de informação cultural global nas comunidades.
Na França, as canções de gesta expressavam a dinâmica da oralidade, através de poemas que eram declamados em praças públicas ou ambientes privados, traduzindo atos de heroísmo em batalhas e lutas travadas por personagens reais ou fictícios. São seculares as narrativas que ficaram arquivadas na cultura popular, como A História da Princesa Magalona, A Donzela Teodora, João de Calais, História da Imperatriz Porcina e a História do Imperador Carlos Magno e os Doze Pares de França (CASCUDO, 1984:24; ABREU, 1999). Fato curioso é que esses poemas épicos, obedecendo a uma estrutura de rimas e métricas, foram compostos numa extensão demasiadamente longa, e que ainda assim eram memorizados e vocalizados pelos “portadores da voz fácil”, na expressão de Zumthor (1993). Em muitas ocasiões, o jogral iniciava a declamação de um poema em um dia, havendo a necessidade de interrompê-lo em determinado trecho, para retomá-lo no dia seguinte, ao que anunciava ao público:
senhores (...) estais vendo que a noite cai e que eu me canso. Voltai amanhã mais cedo, e agora vamos beber, porque tenho sede e estou feliz de ver aproximar-se a noite. Tenho pressa de voltar para a casa; mas que nenhum de vós se esqueça de me trazer amanhã uma moedinha amarrada no pano da camisa... (ZUMTHOR, 1993:226).
Este trecho sugere a coleta de dinheiro para pagar os serviços prestados pelos jograis. Zumthor (1993:234) ainda destaca que, antes mesmo de acabar o poema diante da platéia atenta, o cantor - porque recitava as canções de gesta - dizia: aquele que quer ouvir bem minha canção, apresse-se em abrir sua bolsa, porque é hora de me pagar. A pausa de um dia para outro certamente deixava os ouvintes em suspense, promovendo interesses múltiplos e garantindo a presença do público nos dias seguintes para certificar-se do fim da história. No Brasil, os cantadores de viola passaram a adotar procedimentos semelhantes, reunindo-se para os chamados “desafios” . Por vezes, uma dupla de repentistas, como são chamados, fazem improvisações de seus versos cujo desafio atinge horas incontáveis, até que um ou outro se canse ou se dê por vencido na arte de compor as rimas, obedecendo a um tema que segue uma linha de coerência entre os pares.
Retomando a performance dos poetas populares, convém assinalar que os leitores-ouvintes eram exigentes e nem todos os cantores de gesta os agradavam. Para fazê-lo, em razão das exigências, ainda é Zumthor (1993) quem descreve uma cena interessante:
um cantor de gesta, bastante esfarrapado, trazendo sua viela, atravessa uma multidão em que se distinguem burgueses, clérigos, cavaleiros - ao ar livre aparentemente, uma vez que ele conserva seu mantel. Ei-lo que se detém e começa. Escuta-se sua primeira estrofe: se a impressão é boa, pede-se a seqüência; senão, ao pobre-diabo só resta tomar a estrada. Seu único capital é o repertório agradável (...) e uma voz clara para divulgá-lo (ZUMTHOR, 1993:231).
Aqui merece um comentário acerca de como Smith (1991:210) classifica a leitura em suas características essenciais: é objetiva, seletiva, antecipatória e baseada na compreensão. Ora, os leitores-ouvintes manifestavam competência mediante as práticas de leitura oralizada que ouviam com freqüência em ambientes próprios. Assim, eles constituíam seus repertórios de leitura e naturalmente faziam suas seleções sob a ótica da estética em que eram apresentadas as histórias. Faziam suas previsões e antecipações até chegarem à conclusão de que aquelas histórias iriam lhes satisfazer ou não.
Além da França, as manifestações dos poetas públicos ganharam espaço principalmente na Espanha e Alemanha. O anonimato permanecia acompanhando as produções orais por uma razão justificável. A igreja medieval não via com bons olhos a presença dos poetas a quem julgava sob a influência do “demônio” quando eles estavam no exercício de suas funções. A literatura era tida como “idolatria” pelos clérigos e que, portanto, não deveria estar ao alcance do público. Foi a própria Igreja quem deteve o privilégio das escrituras, de modo particular as sagradas, ficando com ela a dominação de acesso a qualquer texto. Aqueles textos que iam de encontro aos preceitos religiosos eram incluídos na relação do index librorum prohibitorum, ou os livros proibidos ao povo. Para imprimir o sentido sagrado, os clérigos contavam em seus cultos religiosos os exempla ou contos de exemplo, histórias curtas de conteúdo moral para determinar a hegemonia da fé em todas as camadas da sociedade. No entanto, alguns grupos pertencentes ao baixo clero, os goliardos, negligenciavam os critérios tradicionais da fé e compunham suas canções, muitas das quais sem nenhuma conotação religiosa. Os temas variavam entre amor, bebida, primavera, e situações irônicas, compostos em latim. Merecem registro os fabliaux, pequenas fábulas medievais oralizadas, que debochavam das hostes católicas e subvertiam a ordem social.
A tradição popular passou a despertar a atenção de estudiosos e encontrou respaldo nos meios intelectuais. No século XIX, mais precisamente em 1881, o francês Paul Sébilliot denominou de literatura oral a toda manifestação cultural destinada ao povo através da oralidade, acreditando ser um elemento de substituição da literatura erudita para um povo que não lê 2 (apud CASCUDO, 1984: 23), admitindo a distinção para enfatizar que o ato de ler - conforme sugerem suas palavras - seria privilégio daqueles que conseguiram apreender o código escrito e que, assim, passaram a fazer parte da cultura livresca.
Sobre tal concepção, Martins (1994:28) destaca: seria contra-senso insistir na importância da leitura restringindo-a aos livros ou, quando muito, a textos escritos em geral. Fica evidente, portanto, que aquele que ouve um texto de cordel, quer seja lido ou contado, também faz leitura, toma conhecimento sobre narrativas, informa-se, atualiza-se sobre situações cotidianas e se insere no universo cultural do qual faz parte. A diferença reside no canal por onde se processa a informação. Ouvir uma história equivaleria a ler com os olhos (CAGLIARI,1992). Por esta razão, entendemos que os folhetos de cordel - atividade do domínio oral, não obstante a versão escrita –, promove a formação de leitores.

O agendamento jornalístico e a tematização da saúde
O tema “saúde” nem sempre tem merecido uma editoria específica nas redações de empresas jornalísticas, tal como ocorre com política, economia e esporte. As matérias de saúde e, por extensão, as de natureza científica, muitas vezes ficam diluídas nos espaços gráficos ou nos tempos destinados aos vídeos dos telejornais ou noticiários radiofônicos, dividindo e competindo com outras notícias, algumas das quais não tão relevantes. Do mesmo modo, os acontecimentos na área de saúde passam ao longe das pautas diárias, apenas merecendo destaque quando o fato jornalístico incide no chamado “grau de noticiabilidade” (TRAQUINA, 2001; SOUSA, 2002; WOLF, 2003)3.
No processo de produção das notícias (newsmaking), a noticibilidade resulta na situação de hierarquia considerando-se a visibilidade dos acontecimentos que ganham projeção na sociedade, teoria que ficou conhecida no jornalismo por agenda-setting. Trata-se, pois, de procedimentos de previsão, seleção e exposição dos fatos, provocando uma espécie de debate público (TRAQUINA, 1993; 2001; 2004; SOUSA, 2002; WOLF, 2003) e imprimindo às pessoas não apenas o que pensar mas sobre como pensar. Tal concepção teórica surgiu nos Estados Unidos, em 1968, por ocasião de estudos sobre eleições presidenciais e ganhou repercussão na década seguinte de acordo com pesquisas feitas por McCombs e Shaw (ibidem).
A agenda-setting determina os processos de seleção e apresentação dos acontecimentos em forma de notícia (gatekeeping), alcançando o público e promovendo, assim, a construção da realidade social. Sobre tal situação, Kunczik (2001) destaca que
a seleção de notícias equivale a restringir o volume de informações, o que significa a seleção de assuntos que alguém acha que merecem ser publicadas. Os ´porteiros´ decidem quais os acontecimentos serão divulgados e quais não serão, contribuindo assim para moldar a imagem que o receptor tem de sua sociedade e de seu mundo (KUNCZIK, 2001:237).
Quando se trata de saúde, as notícias nesse segmento de âmbito científico pouco são exploradas e, quando abordadas, muitas vezes assumem o caráter de brevidade, carecendo de maior aprofundamento dos dados. Sabemos que tal situação reflete as condições das rotinas de produção e veiculação das notícias, em cujo contexto vamos identificar a ausência de informações que possam provocar reações públicas no tocante a hábitos saudáveis como forma de se precaver de enfermidades ou se advertir dos sintomas para procurar especialistas médicos objetivando fins terapêuticos.
O jornalismo, como atividade que permite a construção social da realidade, carrega consigo a responsabilidade de promover os atores sociais no que toca ao comportamento mais adequado diante de quadros de doença que os afetam. De outro modo, queremos dizer que o jornalista deve tomar para si a condição de mediador de conhecimentos para informar à população sobre os riscos que determinados malefícios podem resultar, apontando causas, modos de se contrair as doenças e mecanismos profiláticos. Sousa (2002) considera a comunicação jornalística como um elemento importante na organização da vida quotidiana, assim destacando:
De alguma forma, as notícias, entre múltiplas outras funções, participam na definição de uma noção partilhada do que é atual e importante e do que não o é, proporcionam pontos de vista sobre a realidade, possibilitam gratificações pelo seu consumo, podem gerar conhecimento e também sugerir direta ou indiretamente, respostas para os problemas que quotidianamente os cidadãos enfrentam (SOUSA, 2002:119).
Ora, se as notícias proporcionam “pontos de vista da realidade”, decorrendo daí a influência que a mídia exerce sobre a opinião, entendemos que a definição organizacional de editorias especializadas em jornalismo científico será absolutamente necessária para que a população possa entender de maneira clara os assuntos que dizem respeito à saúde. Acreditamos ser este um assunto que merece cuidadosa discussão no meio jornalístico no sentido de se propor maior especialização dos profissionais pois, assim sendo, estaremos atendendo possíveis expectativas dos leitores e demanda da população, além de estar cumprindo um papel importante na prestação de serviço.
Ao pesquisar a cobertura da AIDS através do jornal português O Diário de Notícias, Traquina (2001) constatou que o assunto tem merecido pouca atenção da mídia. Assegura o autor que a matéria somente recebe destaque no momento em que fatos isolados, inseridos nos graus de noticiabilidade, ganham projeção no cenário midiático, quando envolve personalidades conhecidas como a “estória” do atleta Magic Johnson, escândalos de transfusões de sangue (p.154), ou ainda a pessoa desesperada, o indivíduo enlouquecido que injeta seus amigos com uma seringa contaminada, a pessoa famosa que morre vítima do vírus (p.166). Para Traquina (ibidem), o estudo comprovou que a abordagem feita pelo noticioso gerou muito mais uma espécie de terror público sobre a doença do que esclarecimentos e “esperanças” sobre a possibilidade de viver, mesmo com a presença do vírus no organismo, assim enfatizando:
O drama do leitor soropositivo que tem o hábito de consumir as notícias é que a exposição diária às notícias fornece poucas ocasiões para carregar as velas da esperança; ao contrário, a leitura das notícias parece mais um exercício masoquista (TRAQUINA, 2001:166)
De outro modo, devemos considerar o limitado acesso da população aos meios impressos de comunicação, situação que compromete a legitimidade de uma sociedade leitora, que participa dos acontecimentos e que se informa através das páginas do jornal. Ao se levar em consideração o índice de analfabetismo funcional4, que chega a 67% da população brasileira, e que a TV está presente em 87,7% dos lares no Brasil5, podemos inferir que temos um contingente maior de espectadores de telejornais do que leitores de jornais impressos. Ainda assim, no meio televisivo a situação não é muito adversa, ou seja, não se observa a veiculação sistemática de matérias sobre saúde. Observamos, contudo, campanhas publicitárias sazonais, por parte do governo federal, alertando a população sobre os perigos de se contrair determinadas doenças como a AIDS e dengue, mas em períodos de maior registro da doença e índices elevados que configuram epidemia..
Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde Pública (Rio Grande do Norte, Brasil), no período de 01 de janeiro a 30 de junho de 2004 foram publicadas 141 matérias sobre saúde nos seis principais jornais impressos do estado, número que julgamos incompatível com a necessidade de difundir assunto tão relevante. Dentre os temas, o que obteve maior destaque foi a “dengue”, com 55 notícias, seguida de “vacinação”, com 33 notícias, e “hanseníase”, com 9 notícias. Outros, mereceram registros tais como: viroses, doação de sangue, câncer e tuberculose6. Como se vê, a dengue ainda é o principal ponto de pauta dos jornais em nosso Estado, provavelmente por apresentar uma situação ainda sem controle na instância do poder público. Os demais assuntos recaem sobre doenças tropicais e campanhas como vacinação infantil e doação de sangue.
Um recurso que vem sendo adotado pelos governos federal e estadual, possivelmente para preencher as lacunas possibilitadas pela mídia no tocante à divulgação de assuntos sobre saúde, é a literatura de cordel.

A divulgação científica através da literatura de cordel
No Rio Grande do Norte, a Secretaria Estadual de Saúde Pública começou a utilizar a literatura de cordel em 1992, época em que as informações científicas em torno da AIDS ainda eram escassas. Foi lançado um projeto educativo de prevenção à doença que consistia em distribuir os folhetos à população, sobretudo em feiras livres, mantendo a secular tradição dos cordelistas. O primeiro folheto, de uma série, teve como título “O bode que pegou AIDS”7, com uma tiragem inicial de 700 mil exemplares. Adotando uma linguagem simples e de fácil compreensão, conta a história de José que contraiu o vírus HIV por falta de cuidados preventivos em suas práticas sexuais, situação que termina por transmitir a doença à esposa e seu filho ainda em fase de gestação. Produzido em heptassílabas por um médico especialista da cidade do Natal-RN8, obedecendo à métrica ABCBDDB, diz algumas de suas estrofes:
Na rua onde residia
Ele era muito afamado,
Pois além de bonitão
Tinha a fama de tarado;
Seu negócio era transar,
Mas não pensava em casar
Para não viver amarrado.
Cada dia uma mulher
Passava na sua mão
Como passa a ventania
Como faz o furacão.
Rompendo qualquer barreira,
Zé, com sua furadeira,
Não perdia a ocasião.
Como se observa, o uso de palavras coloquiais favorece a compreensão imediata, pois atende a um repertório lexical e semântico do cotidiano, sem arrodeios, ainda que em determinados trechos se observe o emprego de expressões metafóricas (“amarrado”, “passava na sua mão”, “furadeira”). São versos que apresentam traços de humor para falar , sem comprometer o sentido em função do contexto em que são colocados. A narrativa possui um fim trágico, pois além de José ainda morrem de AIDS sua esposa e o filho, encerrando com uma advertência:
E seu João, todo saudade,
Faz seu alerta geral:
Use sempre camisinha
Na transa sexual,
Transe com a mesma pessoa
Pois vida é coisa boa
E AIDS é dor, grande mal.
Fazendo uso do discurso indireto, o eu-narrador se apropria da informação médica para recomendar aos leitores os cuidados com a AIDS. O texto traz marcas
de uma narrativa ficcional remetendo às circunstâncias da vida real, levando o interlocutor ao auto-questionamento sobre seu estar no mundo, condição admitida por Ataíde (1974) como um bom texto de ficção, assim enfatizando:
Um bom texto ficcional é aquele que satisfaz ao público ávido por uma boa narrativa travada de suspenses e clímax secundários e que seja ao mesmo tempo profundo e pleno de indagação sobre a natureza do homem (ATAÍDE, 1974:22)
Em 1994, foi lançado o folheto “A corrente do prazer”, com semelhante tom de alerta quanto aos cuidados que se deve ter em relação às doenças sexualmente transmissíveis. Depois das experiências bem sucedidas dos dois títulos de cordel, o mesmo autor publicou “A peleja de Zeca Treponema contra Chico Gonococo”. Utilizando-se do humor, e não obstante transmitindo informações de natureza científica, o autor desenvolve uma narrativa entre dois vírus que saem ameaçando a saúde de pessoas descuidadas, representando vilões transmissores de doenças como a sífilis e a gonorréia. O cordel apresenta, de modo acessível, as formas de contágio das doenças, assim como os sintomas que manifestam nos pacientes infectados, conforme as seguintes estrofes:
Posso deixar paralítico,
Cego, surdo ou impotente
Quem me deixou muito tempo,
Correndo no sangue quente...
Quando ataco o coração
Tiro as forças e a razão
Do mais sabido valente.
E posso causar aborto
Testa grande e meningite,
Manchas e bolhas na pele,
Nariz selado e Hepatite.
Trabalhando todo dia
Causo até Paralisia,
Sem perder meu apetite.
No âmbito federal, o governo vem procurando sensibilizar a população através da literatura de cordel, como forma de comunicação imediata, destacando temas mais voltados para acidentes e mortes no trabalho. Tanto assim que o Ministério da Saúde vem implementando a política nacional de notificações de acidentes e doenças no trabalho, dentro do Sistema Único de Saúde (SUS). Outra ação que está sendo desenvolvida é a campanha “Conte pra gente, conte com a gente”, lançada em Brasília no dia 28 de abril de 2004 para incentivar a notificação dos acidentes e das doenças relacionadas ao trabalho. É nesse contexto que a literatura de cordel passa a integrar as atividades de esclarecimento à população. Pelo menos sete folhetos de cordel já foram publicados, com tiragem média de 15 mil exemplares, os quais são distribuídos às secretarias estaduais de saúde para que estas possam complementar o trabalho de distribuição popular. Mantendo as capas com a tradicional e milenar técnica da xilogravura9, o Ministério da Saúde já editou os seguintes cordéis: “Manifesto do 28 de abril”, “Acidentes do Trabalho”, “Do que adoecem e morrem os trabalhadores rurais”, “Trabalho Infantil”, “O dia em que o SUS visitou o cidadão” e “Perigos a que estão expostos os homens do campo”.
Os temas obedecem a uma abordagem intimista e contestatória, de denúncia social em torno dos quais procura destacar aspectos relevantes ao conhecimento da população. Procura informar sobre as doenças, modos de prevenção e recursos profiláticos. Em determinadas estrofes de alguns dos folhetos, os autores fazem críticas a segmentos empresariais que, muitas vezes, submetem os empregados a trabalhos forçados e repetitivos, resultando daí em enfermidades, como é o caso do folheto “Ler/Dort”10 nas seguintes estrofes:
Senhores empregadores,
Quem não tem rabo de palha
Deve ouvir o operário,
Quando aponta alguma falha
Que possa prejudicá-lo
No local onde trabalha.

Merece ganhar medalha
Todo patrão brasileiro
Que dá voz ao empregado
E traça com ele o roteiro
Para eliminar os riscos
Do trabalho rotineiro.

Considerações finais

O estudo realizado permite concluir que a literatura de cordel pode ser um meio alternativo de informação ao público quando o jornalismo não procura agendar temas que possibilitem informações sobre saúde. A teoria da agenda-setting revela a hierarquização das notícias sobre as quais recaem o grau de importância que elas vão ter perante os leitores. Subjazem a esse processo de seleção das notícias os níveis de interesse pessoal e empresarial (gatekeeper) de onde não se descartam aspectos ideológicos que entram na definição da agenda pública. O fato é que a sociedade precisa estar bem informada sobre saúde, em um país cujo sistema ainda é deficiente em termos de infra-estrutura e de atendimento em postos e hospitais públicos, pois, além de recursos para garantir um bom estado de saúde aos cidadãos brasileiros, falta concentrar interesse político para reverter quadros acintosos de epidemias, desnutrição infantil, doenças tropicais. Não desconhecemos que será necessário definir estratégias de políticas públicas para garantir qualidade de vida à população através de saneamento básico, habitação, melhores condições de equipamentos e material nos postos de saúde, humanização e modernização no atendimento aos pacientes. Por extensão, entendemos que é indispensável estabelecer mecanismos de divulgação sobre hábitos salutares.
Cabe ao sistema jornalístico refletir sobre a relevância de falar sobre saúde, destinando maiores espaços editoriais no sentido de informar, advertir e esclarecer acerca de doenças. Enquanto tal não ocorre, a população tem como opção a literatura de cordel que, há séculos, catalisa a atenção de leitores e ouvintes, por possuir uma linguagem despojada, agradável e, via regra, abordar suas narrativas com recursos de ludicidade, tornando compreensível o discurso científico. De todo modo, é nessa situação em que identificamos a convergência entre ciência, jornalismo e cultura popular.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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KUNCZIK, Michel. Conceitos de jornalismo: manual de comunicação. Tradução por Rafael Varela Júnior.2 ed.

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