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  A NARRATIVA DA EXPERIÊNCIA COMO POSSIBILIDADE DE FORMAÇÃO DOCENTE

Maria de Lourdes Gomes

RESUMO: Essa comunicação fará o relato de como um grupo de professoras e Orientadora Pedagógica de uma Escola Municipal de Ensino Fundamental de Campinas tem procurado transformar a reunião semanal de TDC (Trabalho Docente Coletivo) em um espaço/tempo de formação para os sujeitos envolvidos nesse processo. Para tanto, buscamos a narração das experiências individuais, em especial no que se refere às questões ligadas à leitura e escrita, como possibilidade de reconstrução do vivido e de ressignificação do presente. Nessa trajetória vislumbramos alternativas para entender e qualificar a nossa prática pedagógica junto às crianças de uma escola de periferia.

Puxando o fio – memórias escolares

D. Maria Helena, D. Dolores, D. Dulce, D. Nair...Lembranças não muito alegres...
D. Maria Helena, professora do Pré. Só me lembro que éramos obrigados a dormir deitados com a cabeça na mesa em uma almofadinha. Havia a professora da sala ao lado, a D. Nazaré. Essa era doce, velhinha e atenciosa com as crianças. As salas do pré ficavam no subsolo da escola, junto com o porão escuro onde guardavam os “esqueletos” da aula de ciências da escola.Que medo!
1ª. Série, D. Dolores. Rigorosíssima. Usava uma vara de marmelo para bater nas carteiras, na mesa e às vezes na cabecinha das crianças “cabeças duras”. Quando D. Dolores queria silêncio, ela batia com a varinha na sua mesa.
Certa vez, uma pessoa veio conversar na porta com ela e para que os colegas fizessem silêncio, começamos a bater com a régua na carteira. Fomos, em mais de dez pessoas para a diretoria. Eu, boa aluna, disciplinada, quieta, obediente, na diretoria porque queria ajudar a professora.
Não tenho lembranças agradáveis da escola primária: disciplina, obrigações, provas, medo de errar.
Maria Teresa Villas Boas
Professora de Educação Física da Emef Padre José Narciso Vieira Ehrenberg

O texto da Teresa foi produzido a partir das discussões ocorridas nas reuniões de TDC (Trabalho Docente Coletivo) no segundo semestre de 2003. A partir desse trabalho consegui, como orientadora pedagógica, vislumbrar as potencialidades da produção das memórias das professoras dentro de um processo de formação.
Nesse texto farei o relato de como eu, enquanto orientadora pedagógica e o grupo de professoras de 1ª. a 4ª. séries da EMEF Padre José Narciso Vieira Ehrenberg, uma Escola Municipal de Ensino Fundamental de Campinas, temos procurado transformar a reunião semanal de TDC (Trabalho Docente Coletivo) em um espaço/tempo de formação para os sujeitos envolvidos nesse processo. Considerando a narração das experiências individuais como possibilidade de reconstrução do vivido e de ressignificação do presente, procuramos vislumbrar alternativas para entender e qualificar a nossa prática pedagógica junto às crianças de uma escola pública.
Na SME/Campinas todos os professores têm previsto na sua jornada de trabalho, 2h/a semanais para o TDC (Trabalho Docente Coletivo), que consiste numa reunião, coordenada pela orientadora pedagógica, que tem objetivos ligados à formação continuada e construção de um trabalho coletivo na escola. Nessa escola , no que se refere à formação, há temas que são demandados pelo grupo de acordo com seus interesses e suas necessidades e há temas que são colocados em pauta pela própria Secretaria de Educação, ligados à implantação de políticas públicas (atualmente está em discussão um mapeamento/reorganização curricular proposto pelo Departamento Pedagógico). Quando falo em construção de um trabalho coletivo, refiro-me às discussões ligadas à organização do cotidiano escolar de um modo geral, inclusive as discussões de ordem prática como a organização do horário de recreio e preparação de eventos coletivos. Tenho clareza de que estes momentos também possuem um caráter formativo, mas não farei essa discussão aqui, tratando como formação os momentos planejados para esse fim, com uma intencionalidade definida.
Apresento esse contexto para que se possa compreender que um trabalho de formação planejado, com objetivos estabelecidos, dentro do TDC não acontece de maneira progressiva. Há sempre avanços e retrocessos. O desafio colocado é o de não abrir mão desse espaço como momento de formação, de maneira intencional, planejada, partilhada no grupo, pois a dinâmica do cotidiano escolar acaba favorecendo a dispersão dos objetivos e a fragmentação do trabalho.

TECENDO COM O FIO: UMA EXPERIÊNCIA, UMA HISTÓRIA

Primeiro é importante que se diga que relato, não uma experiência passada, que já teve seu começo, meio e fim. Ela está em processo, ainda sendo construída. Opto por relatá-la porque acredito que ao narrá-la, eu a organizo, a compreendo melhor e trago contribuições para a sua construção.
No trabalho realizado junto ao grupo de professores de 1ª. a 4ª. séries da EMEF Padre José Narciso Vieira Ehrenberg tenho, enquanto orientadora pedagógica, considerado a narrativa da experiência das pessoas como um importante conteúdo da formação. Pois, assim como Sônia Kramer acredito que:

“ Resgatar a história das pessoas significa vê-las reconstruírem-se enquanto sujeitos e reconstruir também sua cultura, seu tempo, sua história, reinventando a dialogicidade, a palavra. Tal resgate se apresenta como ponto crucial para a construção de um conceito humanizado de ciência: ouvir o que até então não pode ser expresso ou escutado, transformando as sobras, as dobras, as franjas em objeto de investigação, significa levar em conta o que vem sendo tratado como lixo.” (Kramer, 2001, p. 174)

Acredito que ao narrarem suas experiências, os professores poderão ressignificá-las, questionando o presente e reconstruindo suas práticas. Acredito que os professores se fortalecem enquanto grupo na medida em que conhecem mais a trajetória de vida pessoal e profissional daqueles com os quais trabalham. E ainda, que ao perceber a importância de recuperar sua história, o professor terá mais condições de construir uma prática que considera a história de vida de seus alunos.
Ao procurar as raízes dessas minhas crenças, volto ao ano de 2003, quando discutimos num grupo de formação de orientadoras pedagógicas trechos do livro “Como nos tornamos professoras?” de Roseli A. Cação Fontana. A partir das discussões foram produzidos textos de memórias escolares das pessoas desse grupo. Esta foi uma experiência que me inspirou a desencadear um trabalho semelhante com o grupo de professoras de 1ª. a 4ª. série durante as reuniões de TDC.
Buscando resgatar a nossa infância, procuramos na memória vestígios, fragmentos que remontassem a criança que fomos. Lemos Cora Coralina, ouvimos Milton Nascimento, buscando inspiração para a nossa narrativa.

“Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem prá me dar a mão...”
Milton Nascimento

Muitas professoras contaram suas histórias, muitas contaram e escreveram. Se num primeiro momento havia uma certa timidez em contar suas histórias, isso logo desaparecia e uma história puxava outra. O silêncio inicial era substituído por muitas falas e muitos risos. Ninguém poderia imaginar que nossa colega Sandra,“roubava” punhados de farinha e açúcar na venda do bairro em que morava ou que a professora Ana Maria, tão brava com seus alunos, tinha sido uma aluna com tantas de travessuras pra contar... Já escrever, era tarefa mais demorada. Assim, a escrita era feita em casa. Criei uma pasta, a que dei o nome de “Memórias” e à medida em que as pessoas foram escrevendo foram recheando a pasta. Na reunião seguinte líamos um ou mais dos textos das professoras e de outros autores que também escreveram sobre a sua infância, como Lya Luft :

“Sinto-me um pouco intrusa, vasculhando minha infância. Não quero perturbar aquela menina no seu ofício de sonhar. Não a quero sobressaltar quando se abre para o mundo que tão intensamente adivinha, nem interromper sua risada quando acha graça de algo que ninguém mais percebeu.
Tento remontá-la aqui num quebra-cabeças que vai formar um retrato - o meu retrato? Certamente faltarão peças. Mas, falhada e fragmentária, esta sou eu, e me reconheço assim em toda a minha incompletude.” (Luft, 2002, p. 13)
Além das histórias, objetos como: fotos, cadernos, bonecas das crianças que viraram professoras foram trazidos para a roda e transformados numa exposição, onde o conhecer uns aos outros contribuiu para o fortalecimento dos laços do grupo. O envolvimento era tal que não nos dávamos conta do horário de término da reunião. Em outros momentos de conversa, as histórias narradas no TDC eram relembradas e comentadas mostrando que a intimidade entre as pessoas aumentava.
E que lembranças temos da nossa relação com a escola, enquanto alunos? Narramos também as nossas memórias escolares, a relação com os professores e colegas, o começo da vida escolar, as dificuldades, os fatos marcantes... E ao falar sobre a aluna que fomos, no aproximamos ainda mais dos nossos alunos de hoje...

“Confesso que no início tive dificuldades para me adaptar a este mundo (o da escola) totalmente novo e distante da minha realidade de até então. Ficar sentada, quietinha por quase cinco horas, fazendo lição em silêncio não era nada fácil, principalmente porque eu me sentava ao lado de uma menina chamada Kátia, que era o “exemplo” do que a professora mais queria...” (Luciane Ribeiro Vilela – professora)

Esse trabalho ocorreu ao longo do segundo semestre de 2003 e foi bem avaliado pelo grupo. Senti que esse caminho parecia ser produtivo. Mas em 2004 outras demandas foram colocadas e as discussões tomaram outras direções. No entanto, as leituras que eu fazia, algumas conversas, aulas, encontros pareciam me indicar que a idéia de considerar as memórias das professoras como um rico material para o trabalho de formação continuava forte em mim.
Neste ano de 2005, esse grupo de professoras privilegiou como tema de discussão as questões ligadas à leitura e a escrita, uma vez que tornar o aluno leitor tem sido um grande desafio para todas. Dentro dessa temática voltei a propor que retomássemos as experiências das pessoas do grupo. Faríamos leituras de textos acadêmicos e leituras das narrações das histórias das pessoas que há muitos, ou há poucos anos trabalham com o ensino da língua escrita e acumularam saberes, dúvidas, questões que poderiam contribuir no crescimento do nosso trabalho. O grupo concordou com a proposta e novamente a narrativa das experiências tem sido fundamental nesse processo de estudo. Algumas professoras estão relatando no grupo como tem sido a construção dos seus saberes sobre o trabalho com a língua escrita junto a seus alunos. Que leituras foram marcantes? Que elementos das suas histórias contribuíram na sua formação como alfabetizadoras? Que aprendizagens acham importantes partilhar com o grupo?
Ao rememorar seu processo de formação, enquanto professora/alfabetizadora, Ilda nos relata uma situação bastante freqüente:
“Me formei no magistério em 1969, não fiz faculdade e trabalhei no comércio durante muito tempo. Somente em 1992 eu comecei a dar aulas. Comecei no “João Alves”(EMEF Dr. João Alves dos Santos) com uma 1ª. Série, sem nenhuma experiência, mas minhas colegas me ajudaram muito. A minha primeira turma terminou o ano com todo mundo lendo e escrevendo textos.”( Ilda Kazumi Akamatsu – professora)

A professora no início da sua carreira acaba ficando com a 1ª. Série e diante dos desafios busca a ajuda dos colegas de trabalho. Além de contar com as sugestões das companheiras, Ilda nos relata que ela busca modelos de ser professora nas professoras que teve ao longo da vida:
“Eu fiz também três anos de curso de japonês e eu aprendi muito com essa professora... Era uma alfabetização em japonês. Ela era muito dedicada, tinha muita paciência... Eu me lembro muito dessa professora. Ela se dedicava muito e eu procuro por em prática o que eu aprendi com ela.”(Ilda Kazumi Akamatsu - professora)
Ao organizar e dizer sua história, Ilda nos faz refletir sobre a nossa própria história como professora. Identificamos singularidades nas trajetórias, mas conseguimos também nos reconhecer como membros de uma mesma coletividade, participantes de uma história coletiva que precisa ser narrada, reconstruída, reconhecida, principalmente por nós mesmos.
Esse trabalho ainda em processo de construção, até este momento, permitiu-me identificar alguns pontos centrais ao processo de formação que estamos produzindo enquanto grupo:
• Há uma história coletiva a ser narrada – a narrativa de uma professora, da sua história pessoal, profissional, muitas vezes desconsiderada por ser particular, inscreve-se na história coletiva, desse grupo, e das professoras do nosso tempo.
• È fundamental que o professor seja narrador de sua própria experiência, autor de sua prática – ao refletir sobre os seus processos de formação e identificar na sua trajetória as formas pelas quais ela foi se tornando professor, ao organizar a sua narrativa, o professor se apropria do seu fazer e tem possibilidades de crescer como profissional.
• A reunião de TDC, enquanto espaço de formação, deve propiciar aos professores relatarem suas experiências e produzirem conhecimentos sobre sua prática docente.
Ao tecer essa narrativa pude perceber com maior clareza os fios da minha história se tecendo com outros fios de outras histórias e me construindo. Pude perceber um pouco trajetória como orientadora pedagógica e os caminhos que temos construído como grupo em busca do nosso processo de formação.

BIBLIOGRAFIA

FONTANA, Roseli Ap.Cação. Como nos tornamos professoras? Belo Horizonte: Autêntica, 2000.

KRAMER, Sonia. Por entre as pedras: arma e sonho no escola. São Paulo: Ática, 1993.

KRAMER, Sonia. Leitura e escrita como experiência – notas sobre seu papel na formação.In: Zaccur, Edwiges (org.) A magia da linguagem. Rio de Janeiro: DP&A, 2000, p. 101-121.

KRAMER, Sonia. Linguagem e história – O papel da narrativa e da escrita na constituição de sujeitos sociais.
In: Frigotto, Gaudêncio e Ciavatta, Maria (orgs.) Teoria e educação no labirinto do capital.Petrópolis, RJ: Vozes, 2001, p. 169-193.

 
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