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  AS CONTRIBUIÇÕES DO ENSINO DE MATEMÁTICA NA EDUCAÇÃO DE ADULTOS E IDOSOS NA FORMAÇÃO DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA


Vera Moreira Gonçalves - UERJ - Bolsista do PROALFA / UERJ


"Ninguém poderá ser um bom professor sem dedicação,
preocupação com o próximo, sem amor num sentido amplo.
O professor passa ao próximo aquilo que ninguém pode tirar de alguém,
que é o conhecimento.
Conhecimento só pode ser passado adiante por meio de uma doação."
Ubiratan D`Ambrosio (pg. 84)


INTRODUÇÃO


Este trabalho tem como objetivo de relatar experiências pedagógicas no ensino da matemática para adultos e idosos, com pouco ou nenhuma instrução escolar; ressaltando as contribuições e as dificuldades oriundas do ensino desta disciplina por meio de oficinas do Programa de Alfabetização, Documentação e Informação – PROALFA – UERJ. Durante as aulas da Oficina de Matemática, os alunos compartilham, resgatam vivências, constroem seu próprio conhecimento e raciocínio matemático. Estas experiências em sala de aula contribuem não só para a formação dos alunos, mas para a construção de um novo olhar sobre o ensino de matemática na Educação de Jovens e Adultos.

PROALFA

Antes de relatar esta comunicação, se faz necessário localizar a importância do programa no qual está inserido a Oficina de Matemática. O Programa de Alfabetização, Documentação e Informação – PROALFA foi criado a partir da necessidade de se alfabetizar, formar professores e produzir pesquisas sobre a Educação de Jovens e Adultos dentro do espaço acadêmico. Este programa de extensão da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – completa em agosto 10 anos de existência e desenvolve os seguintes projetos:

? PROJETO I – Classes de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos
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Proporciona educação não formal em leitura, produção textual e matemática para jovens, adultos e idosos, com ou sem escolaridade. Existem cinco turmas das quais uma é de jovens entre 10 à 17 anos que vivem em abrigos e as demais, constituída de adultos e idosos (turmas Mangueira I, Mangueira II, Unati I, Unati II). Cada classe possui professores regentes que acompanham todo o desenvolvimento do processo de aprendizagem dos alunos, inclusive durante a realização das oficinas de leitura, escrita e matemática. As aulas são realizadas de terça à quinta-feira no horário de 14 às 17 horas. O planejamento das aulas são desenvolvidos a partir da eleição de um módulo pela equipe pedagógica. Os professores são alunos das graduações de Letras, Pedagogia e Matemática.

? PROJETO II – Apoio Educacional à Enfermaria do Hospital Universitário Pedro Ernesto
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Oferece apoio pedagógico às crianças da Enfermaria do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE), três vezes na semana e atende em média 30 crianças por mês. Os bolsistas que desenvolvem este trabalho são do curso de Pedagogia.

? PROJETO III – Ciclos de Estudos e Alfabetização
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Promoção de eventos mensais como debates temáticos sobre Educação de Jovens e Adultos, Alfabetização, Leitura e assuntos associados à educação. O objetivo principal é aumentar a divulgação das práticas e experiências profissionais, ampliar a discussão e métodos educacionais. Para atender este projeto, existe uma aluna da graduação de Comunicação Social da própria universidade.

? PROJETO IV – Acervo Especializado “Emília Ferreiro”
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Trata-se do acervo de livros, periódicos, monografias e demais recursos especializados em alfabetização. Para controle, organização e manutenção desse acervo, se disponibiliza uma aluna da graduação de Biblioteconomia (como a UERJ não possui o curso, os estagiários são de outras universidades públicas).

? PROJETO V – Alfabetização de Jovens de Classes Populares
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Este projeto tem como objetivo oferecer uma oportunidade educativa, em leitura, escrita e matemática, para jovens, que devido à vivência nas ruas, romperam o vínculo com a escola.

Como o PROALFA realiza um ensino não formal (sem certificação ou período de conclusão do curso), em suas reuniões pedagógicas de capacitação e planejamento das aulas, foi escolhido um tema anual no qual os professores/ bolsistas se baseiam para ministrar aulas. O tema atual é “HISTÓRIAS E HISTÓRIAS: ressignificando o passado, compreendendo o presente e construindo o futuro”, dividido em sub-temas. No primeiro semestre o conteúdo desenvolvido foi: “AS HISTÓRIAS QUE CONSTROEM A HISTÓRIA DO BRASIL”.

As avaliações acontecem no passar das aulas e vários alunos estudam a mais que 2 anos, podendo permanecer no programa o tempo que desejarem.

OFICINA DE MATEMÁTICA

A Oficina de Matemática foi criada para atender a esses alunos. As aulas acontecem uma vez por semana, durante uma hora e meia, são planejadas através de uma avaliação prévia dos alunos, no decorrer dos módulos anteriores. Cada turma tem suas características próprias, assim se constroem atividades adequadas, problematizando-se questões vivenciadas pelos alunos, estimulando o pensamento crítico e o raciocínio matemático.

O professor dessa oficina deve ser antes de tudo ser pesquisador, estar atento às situações vivenciadas em sala e refleti constantemente os resultados dessa prática. É necessário conhecer os limites de aprendizagem de cada aluno individualmente, antecipando possíveis desdobramentos advindos dessas atividades e criando aulas especificas para essa clientela de alunos. No livro “Educação Matemática de Jovens e Adultos”, a autora Maria da Conceição F. R. Fonseca, assim se posiciona sobre este processo de conhecimento e reflexão:

“ Os educadores devem ser orientados tanto em relação à necessidade de conhecer melhor seus alunos, como indivíduos e como grupo social, quanto em relação à seleção e/ou produção de instrumentos e critérios para proceder a diagnósticos do público que atendem, sejam formais e dirigidos, sejam informais e processuais. Os diagnósticos são uma necessidade de uma instituição ainda mais perplexa diante das novas tarefas que se lhe impõem no campo educacional, mas são também ferramentas para construção de uma dinâmica de ensino-aprendizagem que procura construir seus atores – educadores e educandos – como sujeitos de conhecimento. “

AS DIFICULDADES EM ENSINAR MATEMÁTICA

Esta disciplina é considerada muito teórica, “difícil de ser aprendida” e vários mitos confirmam esta visão deturpada, desestimulando os alunos. Um dos motivos é a dificuldade de se preparar aulas específicas para adultos e idosos. Para realizar um bom trabalho é necessário uma boa proposta pedagógica e para isto, devemos buscar outros caminhos, mas chegamos a outro obstáculo: a falta de uma literatura especializada para Educação Matemática em pesquisas no processo de aprendizagem e cognição na matemática por um público adulto. Isto foi evidenciado por Marta Oliveira (1999):

“As teorias do desenvolvimento referem-se, historicamente, de modo predominantemente à criança e ao adolescente, não tendo estabelecido, na verdade, uma boa psicologia do adulto. Os processos de construção do conhecimento e de aprendizagem dos adultos são, assim, muito menos explorados na literatura psicológica do que aqueles referentes às crianças e adolescentes.” (pg. 60)

Diante da necessidade de oferecer educação de qualidade a este público, comecei a questionar que tipo de professor desejaria me formar e como alcançaria este objetivo. No Programa de Alfabetização, Documentação e Informação – PROALFA, temos levantado diversas discussões a partir do registro e reflexão dessas experiências que beneficiaram a formação desse professor de matemática, mais sensível e humano.

DESCRIÇÃO DA TURMA MANGUEIRA II

A turma Mangueira II possui 36 alunos matriculados, sendo a freqüência em média de 20 alunos. A faixa etária está entre 45 - 87 anos. Os alunos já são alfabetizados e procuram estar em sala de aula, visando o desenvolvimento de atividades que favoreçam o aperfeiçoamento e aprofundamento na leitura e na escrita.

ATIVIDADE

OBJETIVO:

? Levantar conhecimentos prévios dos alunos sobre estatística;
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? Interpretar informações em tabelas;
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? Construir um gráfico a partir de uma pesquisa coletiva.
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DESCRIÇÃO DA ATIVIDADE:

Foram entregues para cada dupla ou trio de alunos uma folha com duas tabela com os nomes da mulheres estudadas e mulheres não estudadas, respectivamente. Cada grupo escreveria o nome de cada integrante nas respectivas colunas das mulheres que mais gostou de estudar (podendo votar até 2 vezes). O mesmo procedimento para a tabela de mulheres não estudadas pela turma.

Ao final do tempo estipulado, o professor junto com a turma contabiliza os votos dos grupos para as mulheres mais votadas dentre as estudadas. Discussão dos resultados e conversa sobre o que é um gráfico.

Com os dados da pesquisa coletiva e das discussões, construir um gráfico de barras.

COMENTÁRIOS

No início, comecei a motivar os alunos a preverem qual das mulheres seria a mais votada pela turma, argumentando a causa da vitória da mesma. Prosseguindo a atividade, no quadro, reproduzi a tabela de mulheres estudadas e perguntei para cada grupo os nomes votados por eles.

Quando finalizou a listagem de votos, iniciei uma discussão sobre as previsões dos alunos e se o resultado da pesquisa seria diferente se consultássemos um conjunto de pessoas diferentes da turma. Eles responderam que certamente a Princesa Isabel venceria se a pesquisa fosse nas ruas, por ser mais conhecida. Como a turma estudou outras mulheres não tão famosas, o resultado das previsões dos alunos foram confirmados: Nise da Silveira e Olga Benário. com 8 votos.

Daí, afirmei que os dados poderiam estar dispostos num gráfico e perguntei o que seria isto. A maioria respondeu que nunca ouviu falar ou dava outras hipóteses para determinar aquilo. Então um dos alunos lembrou que na conta de luz tem o “tal gráfico” e o desenhou com gestos no ar. Assim, esbocei no quadro uma das colunas de um gráfico de barras semelhante ao da conta. Acima da coluna, coloquei o valor em consumido em energia elétrica referente um mês desse ano. Em seguida, desenhei outra coluna e perguntei a turma qual poderia ser o valor do consumo de energia e qual seria o mês seguinte. Todos deram valores comparando com a primeira coluna desenhada e quando tinha discrepâncias de valores, eles argumentavam qual deles era mais indicado para a coluna desenhada. Continuei desenhando colunas e questionando quais seriam os seus respectivos valores. Durante este momento os alunos riam das situações que eu apontava, construíam hipóteses para justificar o menor ou maior consumo em determinadas épocas (como natal, o mês de fevereiro ou horário de verão) ou quando o valor de consumo era altíssimo.Pedi para que observassem quais seriam as características do gráfico desenhado no quadro (a localização dos eixos e quais unidades utilizadas).

Perguntei se eles conheciam outros tipos de gráficos. Uma aluna respondeu que tem “aquele que sobe e desce”. Outra vez a partir de um comentário e solicitei que ela me ajudasse para tentar desenhar este gráfico. Antes de começar, outro aluno recordou que “este aparece na televisão na época de eleição”. Mudei minha estratégia e pedi que eles dissessem dois políticos quaisquer. Então utilizando cores distintas desenhei o gráfico (de linhas) e a respectiva legenda.

Os alunos determinaram qual dos candidatos mereceria “estar perdendo” e apontavam como seria a curva. Com o mesmo procedimento realizado no primeiro gráfico, estipulei valores para determinados pontos do gráfico e os alunos comparavam as alturas dos pontos em relação ao eixo(abscissas) para responder. O mesmo foi feito para a curva que representava o segundo político. Alguns alunos já começavam a antecipar os resultados e quem venceria o ibope. Feitas as comparações, eles constataram que o candidato que deveria “estar perdendo” estava de fato ganhando. A pedidos, alterei a curva para o candidato “bonzinho “ estivesse na frente.

Novamente, perguntei qual seria as diferenças e semelhanças entre os gráficos desenhados e se para qualquer pesquisa poderia se utilizar um ou outro (exemplos do dia a dia). Alguns responderam que dependeria da pesquisa e os demais confirmaram.

Os alunos comentaram que os gráficos (de barras) apareciam em posições diferentes. Mas quanto perguntei se existia alguma alteração de informações, responderam que “só mudou a posição” e que os valores continuavam os mesmos. Formulei a seguinte pergunta: “ por que será que na conta de luz não aparece um gráfico como este (linha) ?” A turma coletivamente respondeu que era mais fácil, “nem todas as pessoas vão entender” as informações da conta.

Após a discussão, eles construíram um gráfico (de barras) numa folha com um espaço quadriculado, utilizando os dados votados na turma. A maioria teve dificuldade de identificar a qual unidade(um quadrado) deveria ser usada na construção das colunas.

CONCLUSÃO

Esta atividade proporcionou aos alunos o resgate de experiências, e a partir de interações com o professor, eles (re)construíram um outro conhecimento. Permitiu também despertar nos alunos a buscar por soluções, reflexões e hipóteses. O mesmo só foi possível, pois o professor interagiu com a capacidade de conhecer do aluno, pesquisou e planejou as aulas de acordo com a realidade deles.

Diante das dificuldades oriundas das situações ensino-aprendizagem, das resistências dos alunos, torna-se necessário que o educador traga para a sala de aula, atividades que despertem interesse e desenvolvimento do raciocínio matemático.

A Oficina da Matemática constitui-se um duplo espaço de aprendizagem, ou seja, o aluno se apropria e ressignifica seus conhecimentos; e o professor também aprende com os educandos a se torna um educador.

BIBLIOGRAFIA

FONSECA, Maria da Conceição Ferreira Reis: Educação Matemática de Jovens e Adultos - Especificidades, desafios e contribuições. Coleção Tendências em Educação Matemática . Belo Horizonte. 2002.

D`AMBROSIO, Ubiratan : Educacao Matematica da teoria à prática. Parirus. Campinas - SP. 2000

 
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