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A MÍSTICA NA EDUCAÇÃO DO MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA

Kiyomi Hirose - Universidade Estadual de Maringá-UEM

O ponto de partida para o presente trabalho foi a participação no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) como educadora por meio do projeto Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA), política pública específica do governo federal cujo objetivo é estimular, propor, criar, desenvolver e coordenar projetos na área de educação nos assentamentos de reforma agrária, do Ministério Extraordinário de Política Fundiária (MEPF). Foi uma parceria entre a Universidade Estadual de Maringá (UEM), o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e o MST da região noroeste do Estado do Paraná. O referido projeto se destinou à formação de monitores alfabetizadores das áreas de assentamentos/acampamentos, com uma formação voltada para o projeto político-pedagógico do movimento, numa proposta metodológica que permitisse trabalhar as necessidades dos assentados/acampados do movimento.

Para tanto, temáticas, programas, seleção dos conteúdos, atividades foram elaborados coletivamente, envolvendo, inclusive, a comunidade nas atividades do projeto. O pressuposto básico tendo embasamento nas produções escritas de Paulo Freire, de que ninguém educa ninguém, mas as pessoas se educam mutuamente, desenvolvendo as suas potencialidades e possibilidades de produção. Nesse sentido, o projeto se desenvolveu em duas ações distintas e simultâneas, mas convergentes. A primeira, a formação de grupos de estudos e a segunda, a formação continuada dos educadores/educadoras. Essas etapas foram acontecendo concomitantemente e, da experiência como agente formadora, destacamos como objeto de estudo, a relevância da especificidade do papel da mística na educação, no movimento social campesino brasileiro, mais especificamente, no MST. A mística foi o maior diferenciador do modelo de educação do mundo urbano, da escola formalizada pelo Estado, perpassando por todos os momentos da vida cotidiana dos acampados/assentados, considerado pelo movimento como um valor e um dos seus princípios educativos.

A mística, enquanto manifestação do processo educativo, não é uma mera atividade marcada por simples rituais, uma prática coletiva, socialmente organizada que encerra e demarca momentos, que traduz sonhos, preocupações, esperança e luta por um projeto popular para o Brasil que, nas palavras do movimento, eles não querem só um pedaço de terra e comida, querem também cultura, arte e cidadania.

Foi analisado o processo educativo das diferentes manifestações místicas nos espaços coletivos, não nos moldes da escola formal urbana, mas nos diferentes grupos de estudos organizados, conforme a dinâmica de vida de cada região, das lutas, dos momentos vividos, sempre vinculados aos objetivos do projeto de conquista dos direitos socioeconômicos e culturais. Essas apresentações místicas são inseridas no contexto educativo expressando os anseios, como bem expressa Bogo (2001):

Na poesia do cantador se misturam o desejo da terra e dos homens, na grande sinfonia da esperança que aponta o horizonte, e o longe fica perto quando se caminha adiante.

[...]

Que a noite escura da dor e da morte passe ligeira, que o som de nossos hinos anime nossas consciências e que a luta redima nossa pobreza, que o amanhecer nos encontre sorridente, festejando a nossa liberdade (Bogo, 2001, CD).

É confiando no potencial do homem que o movimento explora a sua intelectualidade e é por meio dela que é possível criar um mundo interior que espelha não somente a realidade exterior mas , também, uma existência própria que pode levar um indivíduo ou uma sociedade a agir sobre o mundo exterior. O domínio psicológico envolve um certo número de fenômenos característicos da natureza humana, aos quais, Capra (1982, p.288) afirma que se incluem a “[...] autoconsciência, a experiência consciente, o pensamento conceitual, a linguagem simbólica, os sonhos, a arte, a criação de cultura, senso de valores, interesse no passado remoto e preocupação com o futuro distante”.

Para os que vivenciam as atividades diárias do MST, a articulação dos sonhos e realidade está presente na busca da mística para concentrar a força interior para poder agir no mundo exterior com intuito de fortalecer a sua luta pela terra, cuja origem está na religião, cujo objetivo é aproximar o futuro do momento presente, reverenciando os exemplos do passado remoto ou próximo, significando crença ou sentimento arraigado de devotamento a uma idéia de esperança que conduza as massas nas lutas por um pedaço de chão. Influenciada, em especial, pelo trabalho pastoral das Igrejas Católicas e Luteranas e também pela experiência acumulada pelas coordenações do movimento. O desenvolvimento se dá pela prática, inspirada no ideário das lutas socialistas históricas, na luta universal por melhores condições de vida, desencadeada ao longo da história da humanidade.

A mística tem um papel coletivo e individual fundamental para fomentar as lutas de massa, comemorando e celebrando não somente as alegrias, derrotas e vitórias, mas também para animar, para revigorar novas e outras lutas, com intuito de unir, fortalecer e dar consistência ideológica ao trabalho cotidiano. É uma prática com o objetivo de contagiar todos os militantes pelo desejo de transformar a sociedade e é exercida em todos os setores, instâncias, escolas, cooperativas e acampamentos/assentamentos. Por meio dessa prática é desenvolvida a preocupação consciente voltada para a construção de uma identidade de Sem-Terra, em busca da reafirmação dos ideais e desejos condensados na luta, como afirma Capra (1982, p.289):

Como seres humanos, amoldamos nosso meio ambiente com muita eficácia porque somos capazes de representar o mundo exterior simbolicamente, pensar conceitualmente e comunicar nossos símbolos, conceitos e idéias. Fazemo-lo com a ajuda da linguagem abstrata, mas também de modo não-verbal, através da pintura, música e outras formas de arte.

Essa forma simbólica da mística é vivenciada em diferentes momentos e oportunidades, com a preocupação de fazer parte da memória coletiva dos militantes, que se busca contextualizar permanentemente os significados para continuar a luta. A mística, centro desta “[...] configuração estética de caráter interativo, é um evento performático, criado e recriado em cada encontro de que o MST participa” (CASTELL, 2002, p.264).

A bandeira, o hino, a cruz na Encruzilhada Natalino , a Marcha Nacional , os instrumentos agrícolas, bem como toda e qualquer matéria viva ou não, mas que esteja carregada de significado, são elementos utilizados para a mística no MST, não com intuito apenas de evocar e congregar, mas de comunicar e fazer acontecer. E ações e eventos, bem como os resultados do MST, em todo o território brasileiro, comprovam-no.

Dessa forma, ao MST

[...] os símbolos desempenham o papel de guias que representam o esforço coletivo; não são mitos, são reais e, por isso, cantar o Hino (Nacional) com os punhos fechados não é um simples gesto, representa desobediência à ordem estabelecida. A bandeira e a foice são os principais símbolos do MST e devem ser exibidos com orgulho e destaque nas caminhadas, ocupações de prédios públicos, marchas, acampamentos e invasões de terra. A militância precisa de um templo que consolide seu caráter e compromisso com os ideais de uma nova sociedade: a Mística tem essa função (AMARAL, 1999, p.1)!

Para que a mística tenha sentido, deve estar estreitamente vinculada à [...] “vontade superior de triunfar” (BOGO, 1998, p.15). E como enfatiza o autor, [...] “é uma coisa do coração, do sentimento, alimentada por esta esperança de alcançar aquele sonho, ideal objetivo seja lá o que se queira o que importe que isto se transforme em uma causa consciente, que se passe a viver por ela e por causa dela” (BOGO, 1998, p.15).

É a vivência dessa caracterização mística das ações que faz o militante agir refeito a cada reunião com seus pares. E na visão de Boff, a mística significa [...] “o conjunto de convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam as pessoas e movimentos na vontade de mudanças ou que inspiram práticas capazes de afrontar quaisquer dificuldades ou sustentam a esperança face aos fracassos históricos” (1998, p.37).

E continua Boff (1999, p.23):

A palavra mística é adjetivo de mistério, que quer dizer perceber o caráter escondido, não comunicado, de uma realidade ou de uma intenção, não possui um conteúdo teórico, mas está ligada à experiência religiosa, nos ritos de iniciação. A pessoa é levada a experimentar, através de celebrações, cânticos, danças, dramatizações e realização de gestos rituais, uma revelação ou uma iluminação conservada por um grupo determinado e fechado.

Numa visão político-social, a mística está vinculada a uma utopia, novos sonhos. É aquele sentimento que impele a, mesmo quando derrotados, não desistir, resistir e retomar a luta, fazer acontecer uma nova realidade. É aquele sentimento de subversão da ordem, que em oposição ao poder dominante, busca bandeiras libertadoras para uma transformação do “status quo” da sociedade. Por meio da mística se busca transformar as derrotas em novas lutas, o entusiasmo infantil, em garra necessária para combater as injustiças e avivar e reavivar os sonhos de uma nova sociedade mais justa. Além da força para a luta, a mística é celebrada também nas derrotas, ou recuos estratégicos, como afirmam os coordenadores do movimento, para re-unir o que está solto, fragilizado pelo momento.

Grein (2002, p.6), coordenadora do setor de educação para o Estado do Paraná, explica a mística como:

[...] o conjunto de convicções profundas, as visões grandiosas e as paixões fortes que mobilizam as pessoas e movimentos na vontade de mudanças, ou que inspiram práticas capazes de afrontar quaisquer dificuldades ou sustentam a esperança face ao fracasso histórico. Na mística político-social age sempre a utopia.

A mística não pode ser expressa apenas como repetição cega de um ritual, baseado apenas na emoção, nos gestos e palavras. Ela tem que estar carregada de forte conteúdo de luta, de resistência, de clareza dos objetivos propostos. A maneira de expressar esses valores de luta depende de cada lugar ou de grupos de pessoas. A manifestação de norte a sul, no campo e na cidade, num grupo de homens e mulheres, entre jovens e crianças terá que ser respeitada. Portanto, cada qual procurará organizar a melhor forma de celebrar a mística, sem se desvincular de seus princípios básicos, tendo em vista que

[...] as respostas ao meio ambiente são, portanto determinadas não tanto pelo efeito direto de estímulos externos sobre o nosso sistema biológico, mas, antes, por nossa experiência passada, nossas expectativas, nossos propósitos e a interpretação simbólica individual de nossa experiência perceptiva (CAPRA, 1982, p.289).

Dependendo da ocasião, a mística aparecerá com caráter de prazer de festa, ou de agradecimento a uma boa colheita, ou de indignação, ou de conflito, ou de dor, ou de rebeldia. O importante é que os atos estejam revestidos do ideal de justiça, liberdade e igualdade, de convicções profundas com a finalidade de reforçar a luta e atrair novos combatentes, de reforço básico na hora da luta e nos momentos de derrota e de questionamento. O objetivo básico é exercitar sempre a capacidade de indignação, não arrefecer ou imobilizar diante das injustiças sociais. A ternura que aproxima, permeia a dura realidade da falta de condições materiais e reflete-se nas buscas por recursos coletivos e alternantes de acordo com as diferentes situações.

Peloso (1998, p.7) assim expressa a mística: [...] “este ânimo interior torna as pessoas combativas e carinhosas, abertas e perseverantes, mas sobretudo, companheiras. É a afirmação e o alimento de nossa esperança, em qualquer conjuntura”.

A mística é o meio para formar em todos e em cada um, a capacidade de resistência e/ou a rebeldia, mesmo por um longo período, se necessário, sem marcar datas no calendário, lembrando sempre que as revoluções não se fizeram e nem se fazem apenas com discursos e em hora marcada. A revolução só acontece quando as coisas extraordinárias se tornam cotidianas; e isso só se faz no embate das idéias e das ações. Como bem coloca Paulo Freire (2002, p.87), a [...] “resistência ao descaso ofensivo de que os miseráveis são objeto. No fundo, as resistências ? a orgânica e/ou a cultural ? são manhas necessárias à sobrevivência física e cultural dos oprimidos”. E, continua o autor (Ibid.), [...] “não é na resignação, mas na rebeldia em face das injustiças que nos afirmamos”.

Pode-se entender que, para a educação, a rebeldia é uma face cultural cultivada para que haja união em torno dos projetos do movimento. Dessa forma, Bogo afirma que a dimensão pedagógica a ser trabalhada é a do processo de significação da luta dos seus antepassados, lutadores da causa da justiça e igualdade de direitos, bem como a busca de gostar do que são, assumir suas raízes e ver, no futuro, a necessidade de continuar a luta pelos seus direitos através,

[...] da construção de uma consciência crítica sobre sua condição social e a de seus semelhantes, o ânimo e o compromisso com a luta pela transformação da realidade em que vivem e o exercício de uma prática política cotidiana baseada em valores humanistas (in: MEDEIROS, 2002, p.228).

Essa disciplina passa do cotidiano à disciplina revolucionária, quando buscam os exemplos em Jose Martí, Makarenko, Che Guevara, entre muitos outros. Estão presentes, também, os educadores brasileiros como Paulo Freire, Florestan Fernandes, Milton Santos e outros. Em todas as oportunidades de encontros, essas personalidades são lembradas e reverenciadas na sensibilização da MÍSTICA, que é o processo de manter, acender, reacender a chama da esperança, procurar deixar acesa a memória dos mártires, companheiros que tombaram na defesa dos ideais do MST, da necessidade de estar reforçando a esperança de uma vida mais justa, de uma sociedade mais igualitária. Tanto que eles, do movimento, constantemente reforçam em seus momentos de mística que “O movimento tem lutas: conquistas e repressões, nunca derrotas”.

E nessa perpetuação de suas esperanças, nessas místicas que o MST

[...] celebra seus mortos, rendendo homenagens a todos aqueles que ao longo da luta em defesa da sociedade socialista ou da Reforma Agrária no Brasil são colocados como modelo a ser seguido, bem como aqueles que na história da humanidade tombaram em defesa da classe trabalhadora (BEZERRA NETTO,1999, p.38).

Em todas as celebrações da mística, se hasteia a bandeira do MST e se entoa o hino, com seus punhos cerrados, simbolizando ser uma luta de esquerda. E também apresentam os seus símbolos: a foice, o facão e a enxada e ainda alguns produtos da terra. A constância dos símbolos nacionais e da identidade numa mensagem musical sonora, buscado num misto das melodias religiosas com as sertanejas, é uma abordagem pedagógica que nos remete aos planos jesuítas para doutrinar, com outros fins. No entanto, esses traços não podem passar desapercebidos por significarem a presença mística que trabalha a sensorialidade pela constância. A vibração musical é energia que transmite mensagens ao cérebro com toda a plasticidade possível de ser desenvolvida pelo humano. O visual compõe as dimensões de compreensão da letra e isso é materialmente abstraído e dá forma ao parecer pessoal e a interpretação coletiva imediata. Nesse processo de constância, reside a possibilidade do uso dessa energia.

Nessas celebrações desenvolvem processos de sensibilização para resistência, mesmo que corram risco da violência e até de morte, no intuito de buscar vida condigna. “Preferimos morrer lutando do que morrer de fome – dizem os camponeses [...] fazer da resistência uma atitude política coletiva, um instrumento de luta. Dispõem-se a arriscar a vida para conseguir mais vida [...]” (STÉDILE; FREI SÉRGIO, 1993, p.56).

 

Momento de uma celebração da mística

No período de formação dos educadores do MST no PRONERA, a celebração da mística foi uma constância, na medida em que programavam as atividades referentes à formação dos educadores. Ao selecionar os conteúdos a serem trabalhados, o grupo já começava a delinear as atividades da mística, buscando a sua articulação dentro da proposta de trabalhos com os conteúdos e práticas educacionais formadoras.

Relatamos, a seguir uma das atividades da mística, preparada pelo grupo de educadores, realizada em outubro de mil novecentos e noventa e nove que, após discussão coletiva, elaboraram o roteiro, cuja temática foi COMPROMISSO COLETIVO.

Iniciaram a atividade, como sempre, cantando as suas músicas. Produziram o texto abaixo, que cada qual foi fazendo a sua leitura solene, para socializar a produção própria.

A MILITÂNCIA é:

Vivenciar os momentos místicos é estar vivendo, construindo e conservando as raízes do povo intercalando com a mística.

Nós educadores e militantes do MST não podemos perder de vista o nosso horizonte. A luta é constante, é omnilateral. Ao mesmo tempo que temos que trabalhar, temos que estudar, pesquisar, cantar...

Temos que desenvolver e construir aspectos ligados ao comportamento na relação humana.

A educação no MST não poder fugir da realidade do nosso povo, há momentos tristes e alegres. Em todo processo organizativo existem e permanecem raízes místicas dos trabalhadores sem terra na luta.

O ser humano é o centro e o maior símbolo da nossa organização. Tudo isso que existe no MST é mística.

Como trabalhar os símbolos e a mística com os grupos de estudo?

Levantar o significado dos símbolos, resgatar valores.

A mística nós vivemos ela todos os dias, nós imitamos o que nossos pais faziam para trabalhar. A mística é a imitação, a encenação, o ritual que temos em nosso trabalho. Nós, como monitores temos que passar aos alfabetizandos a idéia de mística. As crianças que vivem nos acampamentos brincam de desocupação e saem atirando nos seus companheirinhos. Isso é a mística.

Como vivenciar a mística em processo (cursos, comunidade, indivíduo...)? Como está no nosso espírito místico, a educação no MST?

A mística não tem uma explicação. Cada um pode fazer uma relação com os momentos místicos da Igreja. O pão e o vinho e o padre com vestes místicas. A ornamentação da igreja e o roteiro estão voltados para um objetivo que é pregar. O MST também tem a sua mística. O padre vive a mística em todos os seus momentos, em um ambiente especial com encenações preparadas com símbolos significativos.

O momento da mística serve para passar conhecimentos, lembrar pessoas, para incentivar a educação, para renovação da criatividade, ela é a força que anima o militante. Através da mística se vive o reforço ideológico. Devemos arrepiar os cabelos dos braços. Quando ela é vivida e as pessoas não sentem emoção não teve valor. Ela deve mexer com nossos anseios, com nossos sentimentos.

A vida em coletivo durante tantos dias deve ser a nossa mística nesse encontro. O carisma e força ideológica devem estar presentes todos os dias em nossas ações individuais e coletivas aqui e nos grupos de alfabetização.

Como encaminhamos a mística nos grupos de estudo? Nós valorizamos o saber do povo. Nós resgatamos os valores da mulher? Como nós podemos criar o lado místico da vida das mulheres no movimento?

No caso de uma desocupação, um policial apontava arma para uma criança e ela passou o dedo no cano do rifle e disse: “que cano grosso”, esse é um momento místico.

O que a gente faz é com sentimento, o tocar violão para o grupo tem significado.

Compor uma música é viver a mística. Como é que nós sentimos os nossos cantos, nossas palmas? O que nós sentimos quando cantamos? Ela joga a gente para cima, nos deixa tranqüilo. A música faz parte da mística, ela faz parte da vida das pessoas. Ela denuncia momentos alegres e tristes. Ela nos faz reviver a história do MST.

A reflexão sobre a música é um ato de importância na mística. A conscientização, a animação e a indignação são funções da música. A marcha ocorreu como símbolo de força que faz as pessoas caminharem. Nós gravamos a imagem das pessoas que morreram na luta pelo objetivo da transformação e eles se transformam em nossos símbolos assim como a bandeira, o hino, a música.

A bandeira tem nas suas cores várias místicas: vermelho - sangue derramado; verde - é terra, são os campos plantados, é a esperança, as idéias de reconstrução da natureza; preto - é luto; branco é paz (distribuição de terra); o casal de trabalhadores (homem e a mulher), companheiros de luta, estão construindo juntos o MST. O homem e a mulher fazem parte da natureza a ser transformada.

Por quê o facão? É a prontidão para o trabalho. Trabalho de derrubada da cana, da seringueira. O facão vai além do mapa do Brasil. Mostra que a luta é do povo trabalhador em outras nações. É a luta dos excluídos para a construção de uma sociedade diferente. O mapa para identificar a luta no território brasileiro.

A bandeira retrata a luta da classe trabalhadora no Brasil. Ela significa o apontamento da saída, é a visão de um horizonte que possibilita a transformação.

Como alfabetizador, devemos respeitar a bandeira do MST. O peso da bandeira é o peso da conscientização que temos da realidade social brasileira.

Hino. O hino pode ser trabalhado com o significado das palavras, o ritmo da música, no texto da letra (a composição das estrofes). O uso do braço esquerdo é para mostrar que o MST é da esquerda, é a realidade de não aceitação da sociedade que está aí, é o se colocar em situação diferenciada, de lutador contra o sistema da burguesia se organizar socialmente. O ser humano é o maior símbolo de todo o trabalho do MST.

A letra mostra nossa força, nossa garra, nosso espírito de companheirismo que nos leva a edificar. O hino tem que ser cantando em momentos místicos, solenes. Observar que a posição de entoar o canto é a de trabalhador em posição ereta. Existe um ritual para se cantar o hino. Ele nos eleva o pensamento para a condição humana. Os depoimentos sobre o significado do hino podem ser uma forma de resgatar a história do movimento e das pessoas.

Diz a monitora Gislaine: O hino faz parte do nosso dia-a-dia. Me recordo de um momento marcante que ocorreu em São Paulo quando os companheiros daquela região fizeram um saque de alimentos de um caminhão. Os policiais recolheram os alimentos deles. Fizeram o saque porque não tinham o que comer. A empresa recorreu e o governo daquele Estado autorizou a operação de recolhimento dos alimentos que os companheiros pegaram. Foi um momento de grande emoção. A comunidade fez a arrecadação para que os mesmos pudessem ser devolvidos.

Os policiais chegaram. Fizeram duas colunas. Os companheiros passavam entre a coluna e entregavam os alimentos nas mãos dos policiais. O restante dos companheiros cantava o Hino do MST. Isso comoveu os policiais; um deles, ao pegar o alimento das mãos de uma criança sofrida e humilhada, ouviu as seguintes palavras: “O que vocês estão tirando a comunidade retribuirá”. O hino já estava perfurando o interior daquele homem e as palavras daquela criança foram o toque final. Ele abandonou o rebanho em lágrimas dizendo: não tenho espírito para isso. Eu tenho família, eu não sou um covarde. Isso nos faz lembrar o seguinte pensamento:

“Se você sente indignação diante de uma injustiça cometida a qualquer pessoa deste mundo, então somos companheiros “(Ernesto Guevara).

Uma monitora fez a seguinte reflexão: Os confrontos também são momentos místicos. O respeito pelo comportamento dos companheiros menos experientes no entoar o canto é compromisso do militante.

Em tom mais contundente e forte, cada participante se pronuncia:

• Lutar pelo povo;
• Seguir o caminho coletivo;
• Fazer o trabalho de conscientização;
• Estar sempre em processo de formação
• Ter a formação política, visão do todo;
• Lutar para ser extraordinário;
• Ser criativo;
• Ter a parte técnica, científica e prática;
• Ter e criar espírito de indignação;
• Estar informado;
• Ter princípios pela bandeira levantada;
• Fazer o trabalho voluntário;
• Não desistir perante as dificuldades, ser linha de frente;
• Ser pessoas responsáveis;
• Ser consciente, com força de vontade;
• Estar buscando técnica motivadora;
• Ser exemplo e não conselheiro;
• Sonhador, lutador;
• Lutar pelo desejo e anseio do povo por uma nova sociedade;
• Ser corajoso;
• Ter vontade de crescer no coletivo;
• Ser construtor do processo;
• Ser pertencente ao MST;
• Assumir a identidade de ser SEM-TERRA - MST;
• Ser compreensível;
• Não ter preconceito;
• Avançar no potencial, ser produtivo, participativo e criativo;
• Ter disciplina, auto-controle e respeito;
• Estar aberto para o novo;
• Se doar um pouco para com o próximo;
• Desenvolver a consciência nos aspectos estratégicos;
• Estar em atividade permanente;
• Ser o MST é ficar indignado com os fatos que ferem o povo:
• Estar prontos em todos os momentos;
• É dar resposta das funções que lhes foi concebido. É estar presente e participar de várias avaliações.

Enfim,

Ser militante é trabalhar em prol do MST, de uma nova sociedade, do novo homem e uma nova mulher.

É ser MST.

À guisa de conclusão retomamos o percurso realizado para colocar em evidência alguns pontos que consideramos articuladores para a educação de pessoas que vivem uma realidade concreta de luta por uma sociedade transformada, com princípios políticos e educacionais diferenciados e distintos da escola regular sistematizada. Educar no MST é mais do que focar métodos, processos e formas, mas empreender um desvendamento de códigos de leitura e escrita e de transformação de idéias e pensamentos. Nas palavras de Paulo Freire, no ato de leitura e escrita do mundo, necessariamente estaria também o conhecer e saber reivindicar os direitos de cidadão.

A preocupação primordial do movimento é que a mística seja desenvolvida coletivamente e, mesmo nos momentos individuais, são trabalhados os elementos fundamentais voltados para o “viver” e não apenas ao “fazer”. A linha norteadora é a libertação do proletariado e o caminho é a reforma agrária e o socialismo. Para que isto se materialize, há a necessidade de que se vincule a essa prática, as histórias de cada grupo, de cada setor. Por isso, os setores discutem os seus símbolos, seus planos, suas metas, remetendo sempre aos símbolos maiores, da organização como um todo: bandeira, hino, histórias passadas do povo e de outros povos que buscaram os mesmos ideais.

Para o MST, a educação está intimamente carregada desses valores presentes na mística. Por meio da educação e tendo em vista uma prática de libertação popular, se exercita a leitura de luta pela reivindicação do Estado de Direito que lhes foi negado enquanto seres humanos.

REFERÊNCIAS:

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BEZERRA NETO, Luiz. Sem-Terra aprende e ensina: estudo sobre as práticas educativas do movimento dos trabalhadores rurais. Campinas: Autores Associados, 1999.

BOFF, Leonardo . Ética do humano: compaixão pela terra. Petrópolis: Vozes, 1999.

______. Alimentar nossa Mística. Mística: uma necessidade no trabalho popular e organizativo. Caderno de Formação, São Paulo: MST, n.27, p.20-46, 1998.

BOGO, Ademar. Como melhorar nossa mística. Mística: uma necessidade no trabalho popular e organizativo. Caderno de Formação, São Paulo: MST, n.27, p.15-19, 1998.

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CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação: a ciência, a sociedade e a cultura emergente. São Paulo: Cutrix, 1982.

CASTELL, Alicia Norma Gonzáles de. A ritualização dos valores do MST. In: VENDRAMINI, Célia Regina. Educação em movimento na luta pela terra. Florianópolis: NUP/CED, 2002. p.2250-268.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

GREIN, Maria Izabel. Projeto Pedagógico do curso de Pedagogia aos educadores e educadoras do campo: Processo nº 24816/2002. Maringá: UEM, 2002.

MEDEIROS, Evandro Costa de. Formação política no MST: o coletivo como espaço e sujeito educativo. In: VENDAMINI, Célia Regina. Educação em movimento na luta pela terra. Florianópolis: NUP/CED, 2002. p.227-247.

PELOSO, Ranulfo. A força que anima os militantes. Mística: uma necessidade no trabalho popular e organizativo. Caderno de Formação, São Paulo: MST, n.27, p.7-14, 1998.

STÉDILE, João Pedro; FREI SÉRGIO. A luta pela terra no Brasil. São Paulo: Página Aberta, 1993.

 
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