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  LEITURA DE IMAGENS DE OBRA DE ARTE, DO ENTORNO DA ESCOLA E DE MUNDO PARA CRIANÇAS DA EDUCAÇÃO INFANTIL

Suely Aparecida Iório - CEMEI “Alexandre Sartori Faria” – PMC- SP

“... Ao menos, o artista, ao representar o Universo tal como ele o imagina,
formula seus próprios sonhos. A propósito da natureza, é a sua própria alma que
ele celebra. E assim enriquece a alma da humanidade. Porque, impregnando de
seu espírito o mundo material, revela aos seus contemporâneos extasiados mil
matizes de sentimento. Ele lhes faz descobrir em si mesmos, riquezas até então
desconhecidas. Dá-lhes novas razões para amar a vida, novas iluminações
interiores para se conduzir...”
(Rodin).

CARACTERIZAÇÃO DA ESCOLA E COMUNIDADE

Não há uma data precisa sobre a fundação do lugarejo, mas a antiga casa da chácara Castália, a primeira que se tem notícia, mantinha uma placa datando a construção de 1842. O fundador da localidade foi o Major Luciano Teixeira Nogueira, e antes de ser chamado Joaquim Egídio teve duas denominações: Laranjal e São Luciano, em homenagem ao Major. Em 1885 a antiga fazenda Laranjal passou a ser propriedade de Joaquim Egídio de Souza Aranha, o Marques de Três Rios. E em 31 de dezembro de 1958 o então governador Jânio Quadros elevou o lugar a categoria de Distrito ligado a Campinas. Durante o final do século XIX e nos primórdios do XX, Joaquim Egídio vive sua época áurea, marcada pela fartura e prosperidade advindos do café, porém a crise de 1929 inicia o êxodo rural e a posterior divisão das terras em pequenos sítios e chácaras. A praga das brocas- do-café colabora para frustrar as expectativas de emancipação do local, que continuou ligado a Campinas.
(Revista Sarao, n. 4, jan. 2004).

O Centro Municipal de Educação Infantil “Alexandre Sartori Faria” está localizado no distrito de Joaquim Egídio a quinze quilômetros do centro de Campinas (SP). O distrito é limítrofe de outro denominado Sousas, que juntos somam uma área de mais de duzentos quilômetros quadrados1. Joaquim Egídio possui uma densidade demográfica menor que seu vizinho e a população espalha-se por fazendas e sítios obrigando as crianças a viajarem até quinze quilômetros de ônibus para freqüentarem o CEMEI. A professora Mônica, moradora do distrito desde 1964, conta-nos um pouco de sua história e como era o local onde foi construída a escola:

Meus pais vieram morar em Joaquim Egídio quando eu tinha 1 ano de idade. Na época nós éramos uma das poucas famílias que não tinham parentes aqui; aos poucos fomos criando laços e fazendo parte da história do distrito. Estudei, fiz muitas amizades, brinquei muito de subir em árvores, comi muitas amoras e jambos do grande pomar que tinha no terreno atrás da minha casa, que hoje numa parte está localizado o CEMEI “Alexandre Sartori Faria”, que foi construído após a reivindicação dos moradores para uma creche e no qual atualmente sou professora efetiva.

O atendimento abrange crianças de três meses a seis anos de idade, moradoras dos dois distritos tanto da área rural quanto urbana. Porém deixa de atender a um número igual de crianças que a freqüentam, ou seja, aproximadamente cento e vinte em lista de espera que dificilmente serão absorvidas durante o ano em curso. A escola é bastante procurada pelas famílias para obtenção de vaga para seus filhos porque é o único equipamento municipal da região que atende tanto berçário, quanto crianças maiores e em período integral.
Além disso, possui um trabalho de qualidade reconhecido pela comunidade que há alguns anos vem percebendo a diferença entre cuidar e educar para a vida. As famílias, em sua maioria, têm pouco poder aquisitivo; vinte por cento das crianças freqüentes vêm da área rural. Aproximadamente cinqüenta por cento das matriculadas
têm a mãe como provedora da família e em trabalho doméstico sem registro. A jornada de trabalho das mães e a distância do CEMEI dificultam uma participação maior delas no dia-a-dia de seus filhos e a comunicação que se faz comumente no portão com as educadoras passa a ser feita num caderno de recados.
Sousas e Joaquim Egídio pertencem a uma área de proteção ambiental, que é procurada por incorporações imobiliárias para condomínios de residências de médio e alto padrão e por comerciantes, para abertura de restaurantes e bares com mesas
sob árvores em locais bucólicos. As fazendas começam a implantar passeios ecológicos nos antigos e extintos cafezais e grupos de pessoas buscam as trilhas nos finais de semana para as caminhadas prazerosas. A escola possui cinco turmas divididas por faixas etárias denominadas de Agrupamentos:

* 1A - Berçário com crianças de três meses a dois anos;
* 2A - dois a três anos;
* 2B - três a quatro anos;
* 3A - quatro a cinco anos e
* 3B - cinco a seis anos incompletos.

Fazem parte da equipe do CEMEI “Alexandre Sartori Faria” um diretor educacional, um vice-diretor e um orientador pedagógico – que divide suas trinta e seis horas de trabalho semanais com outras duas escolas. Completam o quadro cinco professores, monitores em número suficiente para atender ao módulo de cada turma de acordo com a idade, um professor itinerante para atender as crianças com necessidades especiais – que também divide sua jornada com outras duas escolas – , três merendeiras, três serventes e um guarda.

A REALIDADE, AVANÇOS E DIFICULDADES

Em educação nada é tão fácil e bonito como às vezes pode parecer. O número de monitores nunca foi o ideal nos quatro anos que estive na direção da escola. Ora porque não havia servidores concursados suficientes para assumirem o trabalho, ora
porque os que trabalhavam estavam em licença saúde. Também faziam falta os afastados temporariamente por questões administrativas ou em projeto de redução de jornada de oito para seis horas. Assim, aqueles ainda na ativa necessitavam dobrar horas para atender as crianças, que sofriam as conseqüências pelas várias mudanças em curto espaço de tempo. A equipe toda tentava se cotizar. Inúmeras vezes o pessoal da limpeza, da cozinha, os especialistas e o guarda assumiram funções que não eram as suas, auxiliando os monitores.
Comumente esses funcionários de apoio participam no CEMEI “Alexandre Sartori Faria” de atividades relativas ao projeto e na rotina da creche, colaborando para a premissa que numa escola todos são educadores. No ano de 2004, o rodízio de profissionais foi intenso. Uma professora esteve em licença gestante e houve um processo de remoção voluntária de monitores numa época imprópria, durante o período letivo, antes que os novos monitores ingressantes pudessem tomar posse. Houve grande movimento também nos agrupamentos com saídas e chegadas de crianças, o que é muito comum em escolas de educação infantil, principalmente no berçário, que é o agrupamento mais sensível da creche. Neste setor as crianças são dependentes dos adultos para tudo, exigindo atenção constante da equipe, pois qualquer falha na rotina, que é bastante intensa, poderá ter conseqüências sérias. Todo cuidado é pouco. Alguns acontecimentos nos levaram a tomar atitudes enérgicas e necessárias para o momento, o que causou mudança na constituição da equipe e uma conseqüente quebra na sintonia da mesma, tanto nas relações interpessoais como na continuidade do projeto pedagógico, como se constatará no relato daquele setor. Geralmente no planejamento educacional para atendimento da demanda infantil, as redes públicas utilizam-se de um módulo que distribui o número de crianças por adulto para as diversas faixas etárias. Existe ainda um cálculo estatístico baseado na freqüência média mensal que é utilizado para as novas matrículas. Na maioria das vezes esses dados não refletem as licenças médicas constantes de funcionários e comumente quando essas ausências ocorrem não há planejamento para disponibilizar pessoal para substituí-los, mas as crianças estarão presentes para serem atendidas. Ainda, a assiduidade das crianças depende de muitos fatores, inclusive de variações climáticas e até mesmo de transporte, como é o caso da zona rural, portanto para oferecer novas matrículas são necessários não somente dados demonstrativos, mas analisá-los cuidadosamente e com responsabilidade.
Como constantemente a demanda reprimida tem que ser absorvida, pois existem os movimentos populares clamando por vagas e pressionando as autoridades, os administradores e gestores escolares sofrem pressões para efetuar cada vez mais um número maior de matrículas. Quando isso acontece, a tendência é haver um “inchaço” nas turmas e na escola com a criação de novas classes podendo sobrecarregar os profissionais e surgir até situações de risco para as crianças. O CEMEI “Alexandre Sartori Faria” tem mantido uma média constante de alunos matriculados e isso tem sido um fator importante na qualidade do trabalho pedagógico. Quando os novos monitores, ingressantes no serviço público, assumiram seus cargos na escola, iniciaram sem a devida experiência em lidar com a criança, sem saber ao certo como são as atividades de higiene que compreendem: trocar fraldas, banhar, escovar os dentes, trocar as roupas e também auxiliar o sono, cuidar para que a criança seja alimentada adequadamente e ainda administrar medicamentos, que fica a critério da direção, juntamente com o conselho de cada escola fazer ou não. Optou-se na escola administrar mediante receita médica, uma vez que a criança permanece no mínimo dez horas do dia no CEMEI e as mães não podem deixar seus trabalhos para medicá-los, pois perderiam seus empregos.
Essa inexperiência involuntária requer tempo e disposição para ser sanada, interesse pessoal e empenho para tentar acompanhar o projeto que está em andamento. O dinamismo de cada um irá incutir um ritmo que poderá ou não contagiar a equipe mas será sentido por todos, inclusive pela criança. Além do cuidar, existe a parte pedagógica onde o monitor é importante na medida em que deve estar integrado ao professor na discussão, elaboração e no desenvolvimento das atividades no restante do dia, como demonstram os textos que relatam o desenvolvimento dos trabalhos por projetos que compõem esse livro. No serviço público geralmente enfrentamos situações diárias de despreparo em todos os níveis da prestação de serviços à comunidade.
Para tentar sanar essas falhas são necessários: a criação de instrumentos de avaliação, uma adequada formação das equipes em serviço, ouvir a população e mais especificamente as comunidades em suas demandas locais. Quando os cursos de formação são oferecidos e disponibilizados, geralmente não são levados em consideração os diversos níveis de profissionais, as especificidades e atribuições de cada cargo, nem mesmo o local onde o equipamento está inserido, negando sua identidade que deixa de ser priorizada. Mais particularmente na educação, as questões ambientais, por exemplo, tendem a serem unificadas para toda uma rede, como se a fórmula mágica da resolução de questões pedagógicas pudesse ser estendida da região onde existe uma APA – Área de Proteção Ambiental – para outra desprovida de árvores e plantas, como os assentamentos em nossa cidade. Além disso, pelo retorno que essas práticas têm demonstrado, os cursos não têm garantido resultados profícuos nas escolas.
Pelo que vivenciamos no CEMEI, acreditamos que são necessárias pessoas gabaritadas inclusive na área de ensino, além de possuírem conhecimentos técnicos ou formação acadêmica, participando ativamente para dar suporte, questionar, trazer avanços, acompanhar as reuniões de formação quando elas existem no espaço da escola, pois é lá que tudo acontece. Como na maioria das vezes isso não ocorre, o gestor educacional, no nosso caso o núcleo de direção da escola e sua equipe, dependem de conhecimentos pessoais, trocas de favores, pessoas com grau de amizade que venham gratuitamente e voluntariamente dar sua contribuição para que o projeto saia do papel e se torne realidade.
Assim aconteceu ao longo desses quatro anos na escola.
Contamos com diversos profissionais nas mais variadas áreas, moradores idosos da comunidade que nos brindaram com suas memórias, artistas, pintores, escultores, escritores, artesãos.
Além disso, muitas saídas de nossos alunos pelas redondezas a pé ou em ônibus fretados, para que suas sensações fossem garantidas e suas sensibilidades trabalhadas. Tivemos a grande colaboração do subprefeito de Joaquim Egídio, assim como dos funcionários do distrito2 que nos atenderam não somente no dia-a-dia da escola, mas nos eventos programados. Ocupamos os espaços públicos que nos foram oferecidos para vivências, exposições, festas, teatros. Outros espaços foram conquistados, como a trilha que liga Sousas a Joaquim Egídio3, para a colocação de placas indicativas e de denominação de plantas e animais, um dos produtos do projeto. No trabalho do CEMEI, em que sua realidade foi priorizada e seu entorno tem sido valorizado, trabalhamos apesar de todas as dificuldades surgidas e temos conseguido um resultado de qualidade graças ao esforço e ao interesse de sua própria equipe para dar andamento as suas questões. Como na maioria das redes, não havia dotação de verba da Secretaria de Educação destinada para contratação de consultoria para desenvolvimento de projeto na escola. Tivemos porém, a sorte e a honra de termos ao nosso lado uma profissional com uma longa experiência em formação de educadores, com várias obras publicadas, inclusive em trabalhos por projetos, meio ambiente e arte educação, a Dra. Margareth Brandini Park, pesquisadora do Centro de Memória da UNICAMP, que tem participado voluntariamente, “por amor à arte de educar e no sonho de conquistarmos dias com qualidade de vida melhor e adultos mais conscientes”.

DIRETORA - MÃE

Assumi a direção do CEMEI em fevereiro de 2001. Comigo trazia Thiago, meu filho de sete meses que iria freqüentar o berçário. Era uma experiência totalmente nova para mim, não da direção da creche, mas especificamente daquela, pois segundo informações de colegas possuía um quadro de profissionais com grau de formação e com trabalho efetivo acima da maioria dos outros CEMEIs da Rede Municipal de Educação de Campinas. Além do pessoal, a estrutura física, apesar de necessitar conservação e de pequenos reparos, tinha um projeto arquitetônico interessante; todas as salas de aula com portas balcão maiores que as usuais dando acesso para a parte externa da escola, paredes de tijolinho à vista ao natural, vitrôs enormes com vidros e sem grades pintados de verde, fugindo ao padrão de todas as escolas que eu conhecia. Emoldurando o prédio, árvores em toda a sua volta e de muitas variedades, dentro da escola, nos quintais dos vizinhos, na rua e em todo o itinerário que dá acesso à escola.
Além da expectativa de assumir um local novo eu chegava com outra, a de ser mãe e diretora, tarefa nem sempre conciliatória, mas que de alguma maneira teria de ser garantida. A mãe acompanha a rotina de seu filho na escola, participa dos eventos, das reuniões de pais com educadores, escreve bilhetes referentes a seu filho no caderno de recados. A mãe diretora faz tudo isso, porém planejando no mínimo para uma centena de crianças, além de supervisionar todas as áreas da escola, da cozinha à limpeza, da área pedagógica à segurança do portão, sem esquecer de manter uma boa comunicação com a comunidade e com todos os equipamentos em seu entorno.
Uma situação não muito agradável em alguns momentos da mãe-diretora é o de conviver com outras mães funcionárias ou professoras que têm seus filhos no mesmo CEMEI. Para nós, mães, é difícil presenciarmos outras pessoas com nossos filhos, desempenhando as funções de higiene, alimentação, etc, principalmente quando ainda bebês, pois acreditamos ser as mais indicadas para isso e as que melhor desempenham essas tarefas.
No entanto quando em horário de trabalho, durante uma reunião ou tendo uma turma inteira para dividirmos nossas atenções, necessitamos ultrapassar essa dificuldade para sermos realmente educadoras. Nem sempre isso ocorre e a diretora, além de
lidar com essa luta interna com relação ao seu filho tem que tornar explícita essa falha para as outras mães da equipe.
A gestora de uma escola toma decisões que nem sempre agradam a seus colegas. Mas não pode se dar ao luxo de pensar em agradar quando sob sua responsabilidade tem todo o funcionamento da escola, que não pode parar e quando conta com a
confiança dos pais que trabalham o dia todo sabendo que seus filhos estarão bem. A mãe-diretora é ciente dos problemas de inter-relacionamento da equipe, percebe sua influência na sensibilidade da criança, então deverá buscar meios para amenizar e
tornar o trabalho pedagógico o mais prazeroso possível nas doze horas de funcionamento da escola. De que forma? Como?
Tendo a arte como desencadeadora e constitutiva do processo.
A arte dentre tantas possibilidades que pode desencadear, estimula o interesse em aprender, nos torna sensíveis para pequenos detalhes despercebidos no cotidiano e aflora sentimentos ocultos.


“... o fundamental é que se aprenda a aprender. O mesmo valendo para
as atividades estéticas e sensíveis: ao invés de uma catadupa de informações
acerca das artes e artistas, uma educação mais voltada ao desenvolvimento
da sensibilidade, do corpo, para que este aprenda a se relacionar de
maneira mais íntegra e plena com o mundo ao redor”
(Duarte Jr).

A SENSIBILIZAÇÃO DE MAÕS DADAS COM A ARTE

Sou arte-educadora e trabalho há anos com formação de educadores nessa área. Pude perceber a diferença qualitativa que o contato com a arte possibilita nas essoas. Ela sensibiliza o ser humano, possibilita uma maior reflexão sobre a vida, os sentimentos, o mundo e com isso produz uma melhora significativa na expressão daqueles que se deixam tomar pelo prazer que ela proporciona. Nos vários momentos de reunião pedagógica no início de 2001, lancei a idéia de trabalharmos arte com a equipe e com as crianças. A idéia caiu em solo fértil e surgiram propostas de projetos para trabalhos com música e plástica. Depois de algumas adequações e muitas conversas foi esquematizado um grupo de estudos que aconteceu em módulos, cada um com dez encontros. As atividades foram coordenadas por duas professoras4 que desenvolveram a área de plástica.
Esses estudos tinham como objetivo sensibilizar os educadores e estes, a tarefa de desenvolver atividades com seus alunos adequando-as às várias faixas etárias e cada equipe formada de professor e monitores planejaria essas atividades conjuntamente.
Para isso os professores receberiam horas pagas referentes a desenvolvimento de projeto e os funcionários, horas-extras5. Os módulos se seguiram e diversos artistas como pintores e escultores foram trazidos através de suas obras para conhecimento da equipe e muitas atividades experienciadas, o que despertou as pessoas para esse mundo tão falado e distante, mas pouco vivido, que é o da arte. Na avaliação de final de ano o projeto foi aclamado para ter continuidade no ano seguinte. Em 2002, outra professora assumiu a coordenação do projeto denominado de arte-educação6.
Houve avanço nos trabalhos e um movimento de sair da escola para mostrar os resultados em outros locais.
Em um desses momentos, num encontro na UNICAMP, trocamos convites mútuos com uma assessora pedagógica do município de Jarinu7; iríamos dar oficinas naquele município e ela viria ao CEMEI. Os convites foram aceitos por ela e por nós8.
Em 2003, iniciamos uma pesquisa de temas que contemplassem a memória local, a arte e os problemas no entorno da escola e, portanto, Joaquim Egídio e Sousas. Por dois anos seguidos houve enchentes nos dois distritos causados pelo Rio Atibaia. Em parte pelo movimento normal na vazão das chuvas e em parte pelo assoreamento das últimas décadas, as populações de Sousas e Joaquim Egídio sofreram as conseqüências com isolamento e perda de bens. Diante desse quadro, a equipe da escola elaborou um único projeto denominado “Memória, Cultura Popular e Meio Ambiente”, que englobou os existentes na escola: Bibliotecas Escolares, Arte Educação e Memória9 e que teve como eixo central o Rio Atibaia.
Esse título tem o objetivo de integrar e dar um tratamento interdisciplinar às questões e assuntos, discutindo no CEMEI com a equipe e as crianças, chamando a comunidade para participar e devolvendo a ela, de diferentes formas: reuniões de pais e educadores, protestos através de faixas, palestras, sinalizações na trilha, criação de jornal e sugestões para a melhoria da qualidade de vida.
Durante o desenvolvimento do projeto, enquanto diretora da escola10 procurei dar o suporte necessário tanto material quanto pedagógico à realização do mesmo, adquirindo:

* livros com temas que abordassem os vários assuntos explorados;
* máquina fotográfica digital, que auxiliou na confecção do jornal, convites para exposições, documentação diária das turmas, material de apoio;
* impressoras para computador;
* imagens de obras de arte xerocadas e coloridas, de boa qualidade, utilizadas para leitura com as crianças;
* material de apoio como sementes, frutas que não vinham no cardápio normalmente, mas que eram necessárias para conhecimento das crianças, papéis diversos, tecidos, tintas para fins diversos, pincéis, etc;
* textos xerocados e disponibilizados para toda a equipe;
* reuniões de formação, de trabalho docente e para oficinas profissionais com conhecimentos específicos para os diversos temas.

Foram providenciadas também melhorias na área da escola como:
* a construção de uma casinha de bonecas em tijolos, para o faz-de-conta tão necessário ao imaginário infantil;
* um espaço utilizado para ateliê e brinquedoteca com uma boa variedade de materiais, brinquedos e ainda inúmeras obras de arte doadas por artistas da região para comporem nosso acervo;
* reforma na biblioteca que, juntamente com outros espaços do CEMEI, é rodiziada pelas crianças diariamente para que as atividades aconteçam.

Como a valorização dos funcionários depende também dos espaços físicos que lhes são oferecidos nos locais de trabalho e do aspecto que eles apresentam, foi realizada uma reforma na escola e conseqüente melhoria, para que os funcionários se alimentassem e descansassem mais adequadamente. Para que os objetivos elencados anualmente se concretizassem toda a equipe trabalhou planejando festas, confeccionando doces, vendendo pizzas, participando de bingos, etc.11.
Percebo que a integração na escola será maior na medida em que o diretor se dispuser a participar ativamente nas ações dos educadores.
Acreditando nisso, disponibilizei também livros de arte de minha biblioteca, discuti com a equipe ouvindo idéias, sugerindo, aceitando críticas, acatando, discordando, enfim sendo realmente uma pedagoga aprendiz. Ao meu lado tive a sorte de contar com duas vice-diretoras. Cada uma em seu tempo e a sua maneira trouxe contribuições significativas, marcantes com suas personalidades e preciosas na divisão das tarefas e idéias12 . Esse livro é um recorte do projeto “Memória, Cultura Popular e Meio Ambiente”, que se encontra em seu terceiro ano em andamento. As muitas indas e vindas, o movimento diário de todas as turmas em plena atividade com as vozes das crianças e dos adultos, os olhares curiosos e as mãos sujas de tinta, infelizmente não podem ser retratados aqui na sua riqueza total. Fica, porém um pequeno exemplo de um trabalho rico e dinâmico no ano de 2004, um ano difícil e trabalhoso em todos os sentidos, mas por isso mesmo desafiador, que passou a ter para nós todos um sabor de vitória. Como não poderia deixar de ser, para que o sonho do livro se concretizasse em realidade, e pudéssemos compartilhá-lo com os leitores e colegas educadores a comunidade está trabalhando ativamente.
Um jantar foi programado no Restaurante Dona Dinha em Joaquim Egídio, bastante disputado principalmente nos finais de semana pela comida saborosa e caipira, para cobrir os custos referentes ao nosso livro. Com as mesas sob as árvores e o canto dos pássaros ao redor, sentiremos os odores e comeremos antes com os olhos observando sua confecção, uma deliciosa Paella patrocinada pelo Marcelino13, proprietário do local e grande entusiasta do projeto. Outros patrocinadores estão se cotizando: Luiz Antônio Monari da Mona’s Flowers, Júlio Cabrino da Cabrino Auto-Peças, a gráfica Duo Paper, Didática Vestibulares e João Ricardo Butuem da TGT Design. Agradecemos também ao Marcelo Moscardi Nishiyama da Netow Papel S/A. que além de patrocinar o papel para impressão do livro tem sido parceiro em vários momentos desse percurso.

NOTAS

1 Dados disponibilizados por José Ricardo M. Amaral, da Coordenadoria Sócio-econômica da SEPLAMA, Secretaria de Planejamento, Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente da Prefeitura Municipal de Campinas.
2 Senhor Antonio João Zanata, sub-prefeito, os funcionários Antonio Frizarin, o “Tonico”, Sebastião Rodrigues Bueno, Amauri Ruffi, Sebastião Frizarin, Olício José Bento e Wilson Furtuozo. In memorian Ibirajara Ataide Jr, o “Bira”.
3 Chamada de “linha” pela comunidade, essa trilha fazia parte do percurso de bondes que ligava Campinas à antiga Fazenda das Cabras, passando por Sousas e Joaquim Egídio. Atualmente ela é preservada e bastante utilizada para passeios a pé.
4 Beatriz Angélica Alcântara C. Camarcio e Mônica Eduarda de Almeida Pena.
5 Essa possibilidade existia até o final do primeiro semestre de 2004. Atualmente as horas para desenvolvimento de projetos foram incorporadas à jornada dos professores, porém com número bem inferior ao necessário. Cabe aqui ressaltar que o pagamento de horas para o desenvolvimento de um projeto não garante seu
rendimento, o alcance dos objetivos ou a participação efetiva da equipe, mas sim uma autonomia da escola na escolha de temas próximos a sua realidade e pessoas gabaritadas para assessorarem a equipe nas suas reflexões.
6 Kátia Salvador de Souza Coutinho.
7Dra. Margareth Brandini Park, integrante da equipe de pesquisadores do Centro de Memória da Unicamp.
8 Profª. Kátia S. de S. Coutinho e Suely Aparecida Iório.
9 Cada um deles coordenado respectivamente pelas profas. Claudia Lambiasi, Kátia S. de S. Coutinho até sua licença gestante e Mônica Eduarda de Almeida Pena.
10 Aposentei-me em fevereiro de 2005.
11 Esclarecemos que as escolas de educação infantis municipais de Campinas recebem uma verba bimestralmente para despesas como conta telefônica, pequenos reparos, material pedagógico, aquisição de equipamentos, inclusive de informática, mas que não abarcava o montante que necessitávamos para o desenvolvimento
do projeto.
12 Flávia de Barros Ferreira Leão, em exercício na escola desde setembro de 2002, que possibilitou um avanço com seus conhecimentos de informática, sua formação acadêmica e seu compromisso com o trabalho na educação. Maria Teresinha de Lourdes Sangion Pierina, de fevereiro de 2001 a setembro de 2002, que cooperou no equilíbrio das inter-relações pessoais e participou ativamente dos primeiros grupos de estudos em arte educação, incentivando todos da escola a participarem também.
13 Jaime Marcelino Pissolato do Restaurante Dona Dinha, rua Valentim dos Santos Carvalho, 37.

BIBLIOGRAFIA

DUARTE JR., João Francisco, O Sentido dos Sentidos, a educação (do) sensível. Curitiba - PR, Criar Edições, 2003.

GSELL, Paul. Uma entrevista com Rodin. Humanidades mês de jul./set. 1984, vol 2, n. 8, p. 128 - 9.

PARK, Margareth Brandini & IÓRIO, Suely Aparecida, Arte Educação e Projetos - Tao Sigulda para Crianças e Educadores, Jundiaí, Árvore do Saber, 2004.

 
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