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  A LEITURA E A PRODUÇÃO TEXTUAL ENTRE OS JOVENS E OS ADULTOS

Elisa Maria Klajn – NEEJA - Passo Fundo – RS


Durante o curso da vida, o indivíduo aprende a perceber, de forma mais minuciosa, certos aspectos da realidade quando o guia algum incentivo especial ou, particularmente, quando lhe foi oferecida uma educação com esse propósito. Entendemos que estimular a percepção sobre a realidade, elaborar conceitos afins e expressar as próprias opiniões sejam as tarefas reais de toda ação educadora. Infelizmente, a história da educação brasileira desenha-se a partir de muitos insucessos pessoais e sociais, de inadequadas e insuficientes políticas públicas, de frágil e restrito espaço de eqüidade e justiça. Ainda é grande o compromisso ético da sociedade brasileira quanto à qualidade da educação em face da presença e da permanência estarrecedora da exclusão educativa social no Brasil.

Compreendemos como qualidade da educação a capacidade de proporcionar aos alunos o domínio de códigos culturais básicos, o desenvolvimento da capacidade de resolver problemas e seguir aprendendo, o desenvolvimento de valores e atitudes compatíveis com uma sociedade que deseja uma vida de qualidade para os seus habitantes, a capacidade para a participação cidadã e democrática. E a democratização é o movimento que faz emergir o sujeito da educação, o qual, até o momento de acontecer o processo educativo, encontra-se imerso no contexto da sociedade. Enquanto imerso, é mero espectador. Emergindo, segundo Paulo Freire (1998), “descruza os braços, renuncia a ser simples espectador e exige participação. Já não se satisfaz em assistir; quer participar; quer decidir”.

Portanto, a educação que se faz necessária no Brasil é aquela que democratiza oportunidades, experiências, tornando o sujeito, seja ele criança, jovem ou adulto, um ser capaz de indagar, questionar, decidir, optar, criar, em um crescente e intenso processo de aprimoramento de sua trajetória. O sujeito, ao assumir uma postura crítica no processo de fazer-se sujeito histórico, aumenta a sua capacidade de analisar e expressar-se tanto em relação a ele mesmo como ao grupo a que pertence ou à situação de seu país. Conseqüentemente, a liberdade só se materializa através da expressão e esta gera a independência que possibilita a criação de uma cultura própria que permite aos habitantes de uma comunidade converterem-se em melhores seres humanos.

Sem o cumprimento satisfatório do direito à educação não só a vida de cada um empobrece e limita seu horizonte, mas também, dificilmente, podem ser realizados outros direitos como a participação política, o direito ao trabalho ou a livre expressão. Sabemos que a educação deve ser propiciada através de políticas educativas, da organização das instituições e das práticas pedagógicas e reconhecermos que a educação se faz ao longo da vida, entretanto, convivemos com o número alarmante de mais de quinze milhões de brasileiros que não chegaram à alfabetização mínima exigida para serem considerados alfabetizados. E a alfabetização não pode ser reduzida à simples aprendizagem de leitura.

Ensinar a ler, em uma primeira instância, é levar o aluno ao domínio do código escrito. Mas não basta alfabetizar. É preciso que esta alfabetização seja ocasião em que as relações do educando com seu mundo sejam repensadas, a fim de que ele organize seu futuro. A alfabetização eficaz supõe colocar os indivíduos à porta do poder, o que implica a posse do conhecimento pelo domínio da linguagem. O ato de ler é uma das elaborações culturais mais decisivas que a escola pode propiciar uma vez que condiciona as possíveis formas de ler, criar sentido e de construir as subjetividades, a partir dos valores contidos nos materiais lidos. Se ler é aprender a decifrar o pensamento de outrem, escrever será ocasião de mudar radicalmente de atitude em relação ao próprio meio. Escrever é produzir conhecimento, é inserir o educando na produção histórica do conhecimento. Ler e escrever, portanto, são necessidades para todos os indivíduos que integram a sociedade, enquanto mecanismos que potencializam o exercício da cidadania.

Considerando que a linguagem e a escola são inseparáveis, cultivar as habilidades da leitura e da escrita é função essencial da educação moderna, pois são instrumentos para penetrar na cultura. Entretanto, a alarmante desatenção que tem sofrido a leitura e a escrita no âmbito escolar foi o que em especial nos impulsionou a realizar o presente trabalho. Após termos lecionado durante quatro anos para alunos de Ensino Supletivo e, atualmente, estarmos fazendo parte do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (NEEJA) pelo segundo ano consecutivo, nos propomos a realizar uma pesquisa com nossos educandos, no sentido de verificar a influência e a mediação da escola quanto às práticas de leitura e escrita entre os alunos jovens e os alunos adultos, tentando compreender qual dos dois grupos tem atribuído de forma mais significativa novos sentidos ao ato de ler e de escrever, ampliando suas habilidades e competências, obtendo, assim, melhores resultados tanto no âmbito escolar como também no mundo do trabalho.

O Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos, vinculado à 7ª Coordenadoria Regional de Educação, na cidade gaúcha de Passo Fundo, é uma instituição educacional que tem uma história ainda bastante recente. Antigo Núcleo de Orientação do Ensino Supletivo (NOES), teve emitido o seu decreto de criação em 15 de janeiro de 2001 e a sua autorização de funcionamento em 27 de novembro de 2002. Conta, hoje, com 1.108 alunos jovens e adultos, assim distribuídos: 1.014 educandos na modalidade “presencial”, 51 na modalidade “semi-presencial” (exames fracionados) e 43 educandos portadores de necessidades especiais (deficientes auditivos) compõem a classe especial. O NEEJA oferece aula nos turnos da manhã, tarde e noite e possui, atualmente, um quadro docente composto por 50 educadores.

Ao tratar da educação de jovens e adultos, tomamos como base a Resolução nº 250/1999 do CEED/RS com base na LDB nº 9394/96, artigo 1º que diz que “a educação de jovens e adultos é uma oferta de educação regular, destinada àqueles que não tiveram acesso à escolarização na idade própria ou cujos estudos não tiveram continuidade nos níveis fundamental e médio, com características adequadas às suas necessidades e disponibilidades”. Neste sentido, um programa de educação de adultos deve ser avaliado não apenas pelo seu rigor metodológico, mas pelo impacto gerado na qualidade de vida dos educandos, sejam adolescentes, jovens ou adultos.

Tomando a faixa etária como uma das categorias de análise da pesquisa, principalmente em função do significativo e crescente número de jovens matriculados no Núcleo de Educação de Jovens e Adultos, consideramos que existe inicialmente a necessidade de compreender até aonde se estende a juventude. Sabemos que ser ou não ser considerado jovem depende de circunstâncias históricas determinadas, como é o caso do prolongamento da escolaridade nas sociedades mais avançadas e o aumento no período de convivência com a família. Entretanto, não é nossa intenção fazer uma análise mais apurada sobre os fatores determinantes da condição “jovem”, portanto adotamos a definição utilizada por vários autores que entendem por jovens aqueles que estão compreendidos na faixa etária que se estende dos 15 aos 25 anos.

Não podemos, entretanto, deixar de observar que, ser adolescente ou jovem, hoje, ultrapassa os limites da idade. A noção de ser jovem marca sua presença muito mais pelo que faz e como faz do que pelo que diz, fazendo com que a realidade passe a ser construída com representações e relacionamentos. A forma com que os adolescentes e jovens relacionam-se com o tempo e com todas as inúmeras possibilidades que a vida contemporânea lhes oferece, impede-os de participar de grupos e redes, tornando suas experiências cada vez mais fragmentadas. Desta forma, constroem sua identidade com raízes no presente e marcada pelo movimento e inconstância, contestando as posturas adultas dominantes.

Já o adulto, segundo Álvaro Vieira Pinto (2001), pode ser definido como o membro da sociedade ao qual cabe a produção social, a direção da sociedade e a reprodução da espécie. É o ser humano no qual melhor se verifica seu caráter de trabalhador. Em relação ao conhecimento, todos os adultos – uns mais, outros menos – contam com algum que lhes serve para enfrentar os problemas apresentados pela vida. Mas esses conhecimentos podem não ser suficientes e, em alguns casos, até ser desacertados, sobretudo se se trata de enfrentar situações estabelecidas por um estado de coisas de longa data. Os adultos têm determinados conhecimentos e experiências que lhes permitem suportar seus problemas da vida cotidiana. Mas também é verdade que muitas vezes lhes faltam conhecimentos e experiências para melhorar, principalmente se levarmos em conta que a vida cada vez mais depende da leitura e da escrita, da técnica e das ciências. Acreditamos que todo estudante deve ter acesso a ler e escrever em boas condições, mesmo que nem sempre tenha uma caminhada escolar bem traçada. Independente de sua história, merece respeito e atenção quanto a suas vivências e expectativas. Daí a importância da intervenção mediadora do professor e da ação sistematizada da escola na qualificação de habilidades indispensáveis à cidadania e à vida em sociedade, para qualquer estudante, como são ler e escrever.

É um direito de cidadania do aluno ter acesso aos meios expressivos construídos historicamente pelos falantes e escritores da língua portuguesa para se tornar capaz de ler e compreender todo e qualquer texto escrito nessa língua. O professor, então, é aquele que apresenta o que será lido, é aquele quem auxilia a interpretar e estabelecer significados, pois mais importante que reter a informação obtida pela leitura tradicional de textos, a prática de leitura e de escrita devem propiciar ao aluno condições para que ele possa, de forma permanente e autônoma, localizar novas informações, pela leitura de mundo, e expressá-las, escrevendo para o mundo. Portanto, como postula Freire (1985), para haver exercício da cidadania é imprescindível que o indivíduo participe como sujeito na interação progressiva com a sociedade letrada.

Não é preciso buscar razões ideológicas ou políticas para saber que a escola brasileira é, fundamentalmente, uma escola para o povo. Entretanto, extremamente insatisfatória, tanto quantitativa como qualitativamente. E, ao empreendermos essa pesquisa, fizemos um ensaio na tentativa de conhecermos um pouco mais os alunos com quem trabalhamos, repensando a nossa prática e, principalmente, compreendendo melhor a importância atribuída pelos educandos jovens e adultos à escola e ao ato de ler e escrever.

O instrumento de coleta de dados que embasou o presente trabalho constituiu-se de um questionário com questões fechadas aplicado a 50 educandos do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos. Inicialmente, observamos que a grande maioria dos alunos é formada por mulheres (84,6%) em detrimento dos homens (15,4%). Consideramos que a alta incidência do público feminino ocorre em função da disponibilidade de horário das mesmas no vespertino, turno ao qual pertencem e no qual foi realizada a pesquisa. A idade dos educandos oscila entre 15 e 65 anos, sendo que 38,46% constitui-se de jovens (15 aos 22 anos) e 61,54% de adultos (26 aos 65 anos), com uma média na faixa etária de 31 anos.

Em relação à condição de ocupação, 55,5% dos alunos adultos estão trabalhando e os setores nos quais se destacam são o de prestação de serviços e comércio; 32,2% estão desempregados, 12,3% encontram-se em outra situação (recebem pensão, vivem de renda). Já em relação aos alunos jovens, enquanto uma parcela significativa (15%) nunca trabalhou e não está procurando emprego outra menor (10%) está procurando colocação pela primeira vez. Relatos sobre empregos temporários e precários são freqüentes entre os alunos com menos idade.Tanto os alunos jovens quanto os adultos têm consciência da importância da certificação para o ingresso ou permanência no mundo do trabalho. Entretanto, sabem que as mudanças introduzidas na organização do processo de trabalho e a natureza das atividades exigem a constante qualificação e requalificação profissional.

Uma parcela significativa dos pesquisados fez seus estudos anteriores em escolas da rede pública, na própria cidade de Passo Fundo. Educandos mais jovens afirmaram ser recém-egressos do ensino regular. Alguns pararam há pouco tempo de estudar e a maioria possui um histórico de várias repetências e/ou problemas de indisciplina. Alguns adolescentes e jovens, por não corresponderem satisfatoriamente a certos saberes e competências que lhes foram exigidos na escola regular, muitas vezes foram classificados como fracassados, sendo excluídos do ambiente escolar. Fatores pedagógicos, políticos, legais e estruturais também fazem com que muitos educandos jovens procurem cada vez mais o NEEJA e a cada ano mais precocemente: falta constante de professores na escola pública de ensino regular, carência nas condições físicas das escolas (materiais didático-pedagógicos), facilitação de ingresso (redução na idade mínima), sistema de ensino (procedimentos que estimulam os alunos em defasagem idade/série a saírem da escola regular e irem para a EJA).

Já entre a maioria dos educandos adultos, o tempo de afastamento entre o período que deixaram suas escolas até o ingresso no NEEJA vai de seis a trinta e cinco anos. Quando argüidos sobre a causa do afastamento da escola, as respostas mais numerosas referem-se ao abandono em função da necessidade de trabalhar e, no caso das educandas, de ter de cuidar dos filhos. Torna-se relevante destacar que o mesmo trabalho que os afastou da escola agora exige o seu retorno, uma vez que um grande número de educandos justifica a sua volta “para poder trabalhar” (53,8%) ou “quer ter um emprego melhor” (23%).

Constatamos a ausência ou a baixa escolaridade entre os pais ou responsáveis dos alunos adultos: nenhum concluiu o ensino fundamental. Uma escolaridade um pouco maior foi detectada entre pais de educandos jovens, revelando, entretanto, que somente uma mãe concluiu o ensino médio. Entre os materiais de leitura presentes na casa onde passaram a infância, a pesquisa revela que existiam, em maior número, a bíblia, o dicionário e revistas. Os pais de alunos adultos costumavam ler a bíblia e livros religiosos e ler e escrever cartas e tarefas de trabalho. Já entre os alunos jovens, os materiais de leitura mais lidos pelos pais foram revistas e jornais. Hoje, na residência dos educandos, estão presentes: livros (76,9%), revistas (61,5%), bíblia (53,8%), jornais (46,1%), dicionários (38,4%) e enciclopédias (7,6%). Porém, é preciso considerar que a existência de livros e enciclopédias em suas casas não significa necessariamente que os mesmos sejam lidos ou consultados.

Interrogados quanto à freqüência com que praticam atividades culturais fora da escola antes e depois de serem alunos do Núcleo, percebemos que não houve alterações significativas de comportamento tanto entre os alunos mais jovens quanto os mais velhos. Acreditamos que um dos motivos que impede nossos educandos de freqüentarem por eles mesmos espaços culturais (cinemas, museus, teatros) seja, em primeiro lugar, a questão financeira: impossibilitados de pagar, não têm acesso a eles. Em segundo lugar, a falta de oportunidade. Percebemos um certo desconforto ou receio, especialmente dos educandos adultos, em pisar em alguns espaços onde há ou se faz cultura. Neste sentido, o NEEJA tem constantemente mediado a participação de seus alunos em atividades artísticas e culturais, tanto no Núcleo quanto fora dele.

Em relação à freqüência de leituras decorrentes da retirada de livros, revistas e jornais, constatamos um afluxo maior de educandos à biblioteca após terem iniciado os estudos no NEEJA. Porém, a biblioteca ainda não parece ser um espaço tão importante em suas relações com a leitura. Entre os alunos jovens, aqueles que retiravam ou consultavam materiais de leitura “`as vezes”, não intensificaram as suas visitas à biblioteca pelo motivo de estarem estudando. Entretanto, chama a nossa atenção o fato de que os alunos adultos que até então nunca haviam lido um livro, agora já o fazem. Muitos questionamentos surgem destas constatações: adultos não lêem porque não têm tempo? Jovens não lêem porque não têm interesse? Jovens e adultos não lêem porque reproduzem comportamentos adquiridos em ambientes familiares onde não se atribuiu grande importância à leitura, preenchendo seu tempo de lazer com outras práticas, como assistir à televisão? São perguntas que não serão respondidas neste momento, mas que nos desafiam a empreender, futuramente, um novo trabalho investigativo.

As atividades realizadas pelos educandos jovens e adultos, enquanto alunos de escolas do ensino regular, resumiam-se em copiar matérias, textos e exercícios do quadro-negro, copiar textos do livro, responder a questionários e fazer exercícios, escrever textos ditados pelo professor, ou seja, reproduzir mecanicamente atividades, procedimento típico de uma “educação bancária”, como tão sabiamente afirmou Paulo Freire. Enquanto alunos do NEEJA, sejam eles jovens ou adultos, os mesmos afirmam que passaram a desempenhar um papel muito mais atuante no processo de construção do seu conhecimento através da participação de debates, discussões, palestras, reuniões para organizar atividades ou tomar decisões, apresentação de seminários e trabalhos, elaboração de projetos de pesquisa, redações e relatórios, organização de trabalhos em grupo.

Quanto aos tipos de textos lidos nas escolas de ensino regular, em primeiro lugar estão as matérias, textos ou exercícios no quadro-negro (84,6%); em segundo lugar, textos ou exercícios em folhas avulsas (61,5%) e em terceiro lugar, livros didáticos (46,1%). A constatação da pouca diversidade de práticas leitoras e do fraco contato dos educandos jovens e adultos com os livros literários (seja pela inexistência de biblioteca nas escolas, acervo reduzido, desinteresse dos educandos, falta de tempo para leitura ou pela ausência de motivação/orientação dos professores), sinaliza para a necessidade de que deve ficar claro que formar leitores é a primeira tarefa do professor, sim, mas não é desejável que ela se limite exclusivamente à escola, pois é uma prática social. Desta forma, é preciso desenvolver no aluno a autonomia de leitura, a fim de que ele continue lendo após concluir os estudos.

Os textos mais lidos pelos educandos jovens e adultos desde o momento que se tornaram alunos do NEEJA foram os livros de literatura (62%), seguidos pelos seus próprios textos ou de colegas (54%) e revistas (45%). Aos poucos, percebem o valor da leitura como um meio de acesso à cultura, como um meio de educarem-se e tornarem-se conscientes politicamente de seus papéis de sujeitos históricos em uma sociedade que está cada vez mais exigente quanto à leitura. No seu tempo livre, os educandos mais velhos que costumam ler, dão preferência a jornais e à bíblia. Entre os educandos jovens que dedicam um tempo para a leitura, ganham destaque os gibis.

Em relação ao ato de escrever, somente 15,3% dos entrevistados afirmou que escreve algo no tempo em que estão em casa. Percebemos que a escrita é usada principalmente quando existe a obrigatoriedade de cumprir uma exigência (tarefa escolar), a necessidade de registrar algo (receita culinária) ou ainda o imperativo de estabelecer a comunicação, nem que seja minimamente (bilhete). Quando solicitados a produzirem textos mais longos ou elaborados, observamos que existe uma preocupação muito grande, principalmente entre os educandos adultos, quanto à ortografia.

Mesmo reconhecendo que ainda apresentam muitos problemas na escrita e deficiências na leitura, o NEEJA está ajudando na superação de suas dificuldades. Esta é a conclusão a que chegaram 60% dos educandos jovens e 75% dos adultos, que afirmam ter passado a “ler e escrever melhor” desde que freqüentam o Núcleo. Uma constatação que merece destaque é o depoimento dos alunos no sentido de perceberem que estão mais seguros no momento de expressar-se oralmente, prática pouco comum nas escolas regulares, pois muitos educandos vêm de uma história escolar de ensino tradicional, em que a eles era atribuído simplesmente o papel de receptores de informações a serem acumuladas.

A educação de adultos deve sempre tomar o educando como portador de um acervo de conhecimentos. Estes conhecimentos prévios são o resultado da prática social do homem e de sua formação até o momento em que começar a receber educação institucionalizada. Especialmente o adulto vem à escola já preparado por outra escola geral, que é a sociedade, o meio onde vive. Assim, os adultos e uma parcela significativa de jovens trazem para as relações pedagógicas uma série de experiências, vivências e saberes construídos na luta cotidiana pela sobrevivência.

Entretanto, há de se considerar que, geralmente, o adulto dos setores populares é propenso a menosprezar o que sabe e faz, se se compara com os setores “letrados” da sociedade a quem olha como se fossem os únicos proprietários da verdade e do direito de opinar e decidir. A maioria das pessoas está em inferioridade de condições, devido à necessidade de dedicar-se o tempo todo à sobrevivência, sem ter oportunidade de deter-se a analisar sua própria existência. Neste sentido, a educação de adultos deve propiciar o intercâmbio entre educador e educando, no intuito de deixar ao aluno a alternativa de amadurecer a partir de suas próprias experiências, visões e conotações. Assim, o educador permite que o aluno faça sua própria construção interna do que aprende, pois somente aprendemos algo quando o percebemos, o elaboramos e o expressamos.

Reconhecemos que ler e escrever não são processos fáceis e exigem acesso à informação socialmente veiculada, pois muitas propriedades da língua escrita só podem ser descobertas através de outros informantes e da participação em atos sociais, nas quais a escrita sirva para fins específicos. O educador de jovens e adultos deve estar atento aos conhecimentos que os educandos já possuem e preparado para construir com eles novas ações. Não basta desestruturar ou provocar conflitos cognitivos no aluno. O professor deve identificar a natureza das dificuldades que se apresentam, podendo lançar mão de diferentes recursos metodológicos, mas sempre respeitando o que o aluno já construiu antes de ingressar na escola. Desta forma, o trabalho docente só se tornará eficaz à medida que o educador, principalmente de jovens e adultos, compreender o seu papel de mediador no processo educativo e questionar constantemente sua tarefa.

Assinalamos que os resultados desta pesquisa são parciais, uma vez que devem ser levadas em consideração algumas variáveis, como número de entrevistados e o turno no qual foi aplicado o questionário. Entretanto, acreditamos que possam servir de importante objeto de reflexão das práticas docentes desenvolvidas no NEEJA, especialmente em um momento em que se intensifica a presença de adolescentes e jovens entre os educandos, gerando alguns conflitos que estão a exigir novas metodologias e posturas.

O que destacamos do trabalho realizado e os dados analisados mostram é que existem correlações entre as práticas de leitura e os usos da escrita dos pais e dos alunos. Outra constatação é a de que os educandos mais jovens, talvez pelo fato de estarem afastados menos tempo da escola, revelam melhores habilidades de leitura e escrita, embora não freqüentem mais a biblioteca do que os adultos. Saber ler e escrever bem é o desejo de todos, principalmente para ter um bom desempenho nas atividades que visem à busca de emprego. Mas destacam a importância, principalmente da leitura, para a vida.

O NEEJA está auxiliando-os na tarefa de tornarem-se melhores leitores e produtores de textos, embora reconheçam que ainda existe muito a ser feito e alcançado, tanto em relação a eles próprios como quanto ao Núcleo. As suas histórias de vida mostram que fatores econômicos, sociais e até geográficos determinaram a sua exclusão da escola regular e desejam agora que, não mais sozinhos e excluídos como até então se sentiam, mas coletivamente, enquanto parte de um todo que constitui o Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos, a escola possa dar-lhes alternativas de pertencimento social e crescimento pessoal. O desafio está aí posto: tornar jovens e adultos protagonistas é acenar com a educação continuada como campo de ampliação cultural e política. E, se formos pessoas inquietas e inconformadas com as desigualdades sociais, então estaremos ajudando nossos educandos a ler e escrever o mundo com outras letras e olhos capazes de elaborarem propostas que ultrapassem a inércia e o conformismo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREIRE, P. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.
GADOTTI, M. & ROMÃO, J.E. (Orgs.) Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta. 5.ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2002. (Guia da Escola Cidadã; v.5)
PINTO, A V. Sete lições sobre educação de adultos. 12.ed. São Paulo: Cortez, 2001.

 
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