Voltar    
  REINVENTANDO SENTIDOS E SIGNIFICADOS: MEMÓRIA E EXPERIÊNCIA EM PROCESSOS DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL
PINTANDO A INFÂNCIA: UMA EXPERIÊNCIA DE REGISTRO

RENATA ESMI LAUREANO (SME - Campinas)

RESUMO

A prática do registro é sempre foco das discussões nos grupos de formação. Além de se constituir num tema de estudo, é durante os mais diversos momentos que o praticamos. Usando a imaginação, os grupos criam e recriam as mais diferentes formas de registrar o discutido e a sistematização dos conhecimentos. Nesta perspectiva, apresentamos uma experiência que teve como tema a infância, no qual recorremos à linguagem artística (especificamente a pintura) como forma de registro. O trabalho com arte deu visibilidade às representações do grupo sobre a infância que viveram e a que convivem atualmente. Mais do que" pintar com tinta", esta linguagem possibilita outras formas de registrar o vivido.

TEXTO

A presente comunicação, tem por objetivo expor um trabalho com o tema infância, realizado no ano de 2004 junto à um grupo de 12 monitoras de creche que fazem parte do Curso de Aperfeiçoamento para monitores oferecido pela Secretaria Municipal de Educação de Campinas. Deste trabalho apontaremos para duas questões pertinentes à formação: o registro e criatividade.
O tema infância é geralmente um assunto que transcorre todo o ano e perpassa as mais variadas discussões e, embora todos os grupos trabalhem com este tema, ele é explorado a partir da criatividade de cada um. No nosso grupo, a infância foi alvo de um debate mais intenso no primeiro semestre do ano passado. Culminou em inúmeras atividades (leituras variadas, discussões, lembranças de vivências na infância, pesquisa em documentos, trabalho em grupo, pintura, etc ) e, durante esse processo de estudo, possibilitou a discussão de muitas questões relacionadas ao trabalho cotidiano.
Assim, as pinturas sobre infância – título desta apresentação - são na verdade, fruto de um trabalho que vinha transcorrendo há algum tempo no grupo, cuja trajetória é o foco desta exposição.
Durante a leitura de alguns textos sobre a história da Educação Infantil as monitoras começaram a falar sobre as diferenças no modo de ser criança. Falavam de suas vivências de infância e do que presenciam e proporcionam hoje para as crianças com quem trabalham.
Folheando e lendo alguns trechos do livro de ARIÉS (1981), as discussões iam aumentando e ganhando criticidade. Combinamos então de trazer uma tarefa pertinente a frase: Infância é... O resultado foi uma série de poesias, poemas, fotos, relatos, trazidos pelas monitoras. Mais uma vez foi um momento de trocas afetivas, de compartilhar com o grupo algo particular ocorrido na infância, foi também momento de risada, de choro, de saudade. Sentimos a necessidade / desejo de dedicar um de nossos encontros para as narrativas de nossas infâncias.
Dos materiais trazidos, destacamos um texto que movimentou os sentimentos de todos, abordando a questão da infância dos meninos de rua. Estabelecendo conexões entre o nosso cotidiano e o contexto mais amplo da própria estrutura da sociedade Capitalista, pudemos discutir sobre o que temos feito na educação infantil. De que forma temos proporcionado / contribuído para a criança viver sua infância?
Surge desta discussão a relevância de conhecermos e discutirmos os direitos das crianças. Encaminhando os estudos em torno do tema infância, optamos por pesquisar em nossas unidades sobre como os documentos construídos coletivamente (em específico o projeto pedagógico) traziam a questão da infância bem como sobre os direitos das crianças.
Alguns dias depois, algumas monitoras trouxeram um trabalho em grupo apontando para a concepção de infância relatada nos documentos, outras elaboraram um trabalho sobre como os direitos das crianças têm sido garantidos no cotidiano da creche.
É fato, que durante estes encontros, as monitoras ampliavam o olhar para a complexidade de seu trabalho, para as responsabilidades dos profissionais da educação infantil, ao mesmo tempo em que se reconheciam como sujeitos produtores da cultura infantil.
Por outro lado, também atentávamos o olhar para o mundo em que a creche está inserida. Percebíamos que os fatores sociais, políticos, econômicos e culturais transitam entre a creche e o mundo fora dela.
Não para concluir, mas talvez para sintetizar este processo de estudo e aprendizagem, sugerimos o registro através de uma pintura sobre a infância.
Na verdade, o registro aconteceu durante todos os encontros, com a escrita de trabalhos, resumo dos textos, anotações na lousa de palavras ou idéias chaves, enfim, procuramos sempre registrar juntas o que íamos discutindo. Porém, com o intuito de propiciar um momento descontraído para retomar e organizar o que havia sido construído acerca da infância, optamos por utilizar uma outra linguagem: no caso a pintura.
Segundo Madalena Freire:

“O registro permite romper a anestesia diante de um cotidiano cego, passivo ou compulsivo, porque obriga pensar. Permite ganhar o distanciamento necessário ao ato de refletir sobre o próprio fazer sinalizando para o estudo e busca de fundamentação teórica.... “O registro permite a sistematização de um estudo feito ou de uma situação de aprendizagem vivida. O registro é História, memória individual e coletiva eternizadas na palavra grafada.”(FREIRE:2005)

Quanto à pintura, gostaríamos de ressaltar que, longe de fazer uma oficina de artes, nossa pretensão foi vivenciar algo que fosse diferente e desafiador. É como se quiséssemos plantar uma sementinha da criatividade e imaginação.
Um dos grandes desafios quanto à formação dos profissionais é trabalhar com os limites de cada um, desenvolver o trabalho em grupo e aprender a lidar também com questões internas da constituição subjetiva dos profissionais. Assim, este curso de formação busca trabalhar com um sujeito que é inteiro, que tem mente e sentimento. Portanto, a aprendizagem e estudo de um determinado assunto é mais do que leitura e debate e passa por questões pessoais.
No trabalho com as crianças vivemos uma grande busca de articulação entre corpo e alma e também com a formação de monitoras não pretendemos desarticular esta relação.
Sobre a criação com diferentes materiais e, em específico a importância de oportunizar estes momentos, Holm (2004) argumenta:

“ As crianças deveriam aprender a pesquisar, a ter confiança em si mesmas e a ter coragem de se pôr a trabalhar em coisas novas. As crianças não deveriam ser preparadas para um tipo determinado de vida; deveriam, sim, receber ilimitadas oportunidades de crescimento. Aprendendo que uma tarefa pode ter várias soluções,adquirindo força e coragem”(HOLM, 2004:84)

Do mesmo modo, os profissionais que estão em continua formação, devem vivenciar experiências que se mostrem desafiadoras e diferentes, a ponto de vencer limites e reconhecerem o potencial para criação e indo mais além para a transformação do que está dado.

“ É importante que nós próprios sejamos bons em tomar a iniciativa, inventar, ter coragem, energia, ter a mente aberta para experimentar, para investigar, para estar no desconhecido.”(Idem:85)

Neste sentido, é que levantamos a tona a necessidade dos cursos de formação ampliar as possibilidades de exploração e vivências. As monitoras também necessitam vivenciar outras formas de representar o mundo. E para isso é preciso arriscar. Tentar olhar o mundo de outra forma.

“É preciso segurança para poder criar. É importante que os adultos ousem mostrar quem são. Não ter a resposta para tudo, mas como adultos, estar prontos a encontrar a resposta juntamente com as crianças.” (Idem: 90)

Às crianças, é esperado que se expressem por diferentes linguagens. A rotina da educação infantil procura contemplar inúmeras experiências que possibilitem um contato com o mundo através das diferentes linguagens. A arte em suas mais diversas manifestações representa um contato com o mundo que, possibilita uma outra percepção do mesmo. Trabalhar com a arte é buscar uma nova forma de ler e sentir o mundo a nosso redor.
A escolha da utilização da pintura naquele momento no grupo foi, de oportunizar um momento descontraído para sintetizar um conhecimento que vinha sendo construído sobre infância, utilizando um outro modo de expressão, o qual não estamos acostumados a utilizar no dia-a-dia.
Durante a realização das pinturas pudemos presenciar comentários quanto ao medo de errar, a insegurança em fazer os traços no papel, mas também ouvimos os risos, as recordações de quando eram crianças e pintavam, o incentivo e encorajamento para as demais colegas; enfim, a experiência foi sem dúvida muito mais do que pintar com tinta a infância.

Bibliografia

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família.2º ed. RJ: Editora LTC. 1981

ARROYO, Miguel G. O significado da infância. Revista Criança. nº 28, 1995.

CORAZZA, Sandra Mara. Era uma vez...Quer que conte outra vez? As Gentes pequenas e o Indivíduo. In: Infância e Educação. Petróplis: Vozes, 2002.

FREIRE, Madalena. O papel do registro na formação do educador. Site: http://www.pedagogico.com.br/edicoes/8/artigo2242-1 em 01-5-2005
HOLM, Anna Marie. A energia criativa natural. Pró-posições. Vol. 15.n.1 (43) – jan./abr. 2004.

 
Voltar