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  A ESCOLA DO CHICO BENTO: UMA ANÁLISE CULTURAL

Adriana Lemes - Universidade Luterana do Brasil – ULBRA

O presente trabalho origina-se de uma parte da dissertação de mestrado realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu) da Universidade Luterana do Brasil, defendida pela autora em maio de 2005. O objetivo desta pesquisa é analisar a representação docente presente nas histórias em quadrinhos de Mauricio de Sousa, em específico nas revistas do Chico Bento, para identificar, através da recorrência, qual a imagem de professora chega às mãos (e mentes) de crianças (e de adultos), legitimando significados postos em circulação nesses artefatos culturais.
Pela incursão no campo dos Estudos Culturais Pós-modernistas, autores como Stuart Hall, Marisa Vorraber Costa, Rosa Hessel Silveira, Tomaz Tadeu da Silva, entre outros/as, orientam teoricamente as análises das representações circulantes nas historinhas do Chico. Apoiando-se nesse terreno teórico (dos EC ), que se interessam pelas questões de representação, identidade e poder, busca-se focalizar dimensões específicas da identidade da professora
Através de análise textual, a figura da professora é destacada de seu contexto a fim permitir o estudo da composição da personagem que carrega consigo o estereótipo da professora tradicional e conservadora, enfatizando o perfil físico, psicológico e profissional que, em composição, produzem os significados correntes.
Em relação à questão da representação da docência, vale lembrar Silveira (2002, p.8):

As representações de professora e de professor oscilam em nossas culturas ocidentais urbanas entre a conveniência de se preservar o valor e a dignidade da profissão de professora, seu alegado caráter de sacrifício e dedicação, dentro de uma imagem mais geral de seriedade da instituição escolar, e a visão burlesca, na qual a instituição é vista como abrigo de professoras “histéricas”, irritadiças, com alunos impertinentes(...)

Dentro desse enfoque teórico, interessa destacar, nas imagens encontradas, as recorrências, as continuidades, os traços mais marcantes, articulando-os com representações circulantes em nossa cultura
As mudanças nas concepções de educação, a utilização de novas tecnologias no campo pedagógico, o incremento da incorporação das práticas educativas pautadas pelo discurso da construção do conhecimento e outras modificações dos discursos pedagógicos, sugerem-nos a busca por essa representação de professora.
As representações presentes nas obras são tomadas como constituidoras de significados sobre os elementos analisados, sendo o conceito de representação um dos pilares teóricos dos Estudos Culturais. Para Hall (apud Silveira 2002) ”representação é a produção de sentido através da linguagem (...) e [nela] não há uma simples relação de reflexo, imitação ou correspondência um-a-um entre a linguagem e o mundo real”.
No trânsito das Hqs entre os leitores pode ocorrer um processo de naturalização dessas representações, que, deixando de ser questionadas, ganham estatuto de verdade.
Nessas histórias, dirigidas a leitores jovens (mas que atingem a uma variedade de público ilimitada), é o conjunto de signos que marca e identifica como tal, a professora.
É necessário ressaltar que não há a pretensão de avaliar a postura docente ou sua prática pedagógica, mas evidenciar as representações, provocando a problematização, para que, com a reflexão, as redes de significados que vierem a ser levantados possam auxiliar para que as relações entre esses elementos possam ser melhor entendidas a partir desse e em diversos outros artefatos culturais.

A professora do Chico
A função docente, nas histórias do Chico Bento, é desempenhada pelo estereótipo consagrado de mestra. Trata-se da representação da professora tradicional circulante nos produtos culturais de nosso cotidiano. Como não podia deixar de ser, a docência é atribuída a uma personagem feminina, reforçando a feminização do trabalho docente : Dona Marocas, a professora da escola de Chico Bento, em todas as histórias, apresenta compondo o mesmo visual - cabelo amarrado em coque, óculos, sapato baixo, brincos discretos, roupas que alternam entre conjunto saia/ blusa e vestido, mas ambos na altura dos joelhos - é representada, também, por uma composição carregada de “emblemas” da profissão, como livros, réguas, e materiais afins.
Quando Louro (2002) descreve as antigas professoras, reconstituídas através de imagens fotográficas, parece estar descrevendo Dona Marocas:

figura severa, de poucos sorrisos, cuja afetividade estava de algum modo escondida.(...)Roupas(...) abotoadas,(...)cabelo em coque, costas retas (...), munida de uma vara para apontar o que está escrito no quadro-negro; quase sempre de óculos.(...)Disciplinadora de seus alunos e alunas.

A própria deferência no tratamento, remonta, segundo Louro, às primeiras escolas, onde a professora era tratada por “Dona”, como comprova um relato datado de 1877, no qual uma jovem brasileira justifica seu ingresso no Magistério, por orientação da professora, Dona Maria das Dores da Silva Cardoso (p. 463).

1 O visual e o sensual
É interessante observar como Eisner (2001, p.100) refere-se ao trabalho do artista seqüencial ao elaborar a forma humana, nos quadrinhos. Diz ele que o “corpo humano, a estilização da sua forma, a codificação dos seus gestos de origem emocional e das suas posturas expressivas são acumulados e armazenados na memória, formando um vocabulário não-verbal de gestos”. Daí a importância de se analisar os detalhes com que Mauricio de Sousa compõe a personagem da professora, apontando elementos que podem ser significativos na representação docente nos quadrinhos e seu alcance percebido pelo leitor.
Citada por Daniela Ripoll (2002), Guacira Louro aponta para a necessidade de se demonstrar que

não são propriamente as características sexuais, mas é a forma como essas características são representadas ou valorizadas, (...) que vai constituir, efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento histórico.

Ou seja, a questão do vestuário e a expressão corporal, propriamente dita, podem levantar questões interessantes sobre a regulação dos corpos e das sexualidades e sobre a demarcação do que é feminino e do que é masculino.
Ainda que mantenha características básicas de um modelo mais “clássico” de docência difundido entre nós , Dona Marocas subverte a imagem assexuada com que é retratada, freqüentemente, nos mais diversos artefatos culturais, a professora, ao ser representada com uma dose de sensualidade que poderíamos entender como incomum à professora tradicional da zona rural. Ela aparece de batom vermelho, suas roupas, embora nos comprimentos usuais, são bastante coladas ao corpo, delineando suas formas bem marcadas de acordo com o padrão de beleza da mulher brasileira: os seios fartos e empinados, as nádegas volumosas em proporção à cintura fina. A pele das partes visíveis do corpo é clara, sem marcas, demonstrando uma certa preocupação da professora com seu corpo. Em nenhum momento das histórias analisadas faz-se referência à sua idade, mas a ausência de rugas, a estrutura do corpo e o modo de vestir podem sugerir uma mulher entre 25 e 30 anos.
A professora chega a aparecer de biquíni na história em que flagra Chico nadando ao invés de estudar. Ainda assim, não se desfaz dos óculos e de alguns recursos como o quadro-negro e a ponteira , e o que se percebe é que o garoto não demonstra nenhum estranhamento ao ver a professora de biquíni, tampouco registra-se constrangimento entre os dois, desinstaurando qualquer relação de apelo erótico entre professora e aluno, ao contrário do que é analisado por Daniela Ripoll (2002) , quando remete à questão do amor e da paixão não-filial do aluno pela professora como fator de influência no desempenho escolar do mesmo.
Fora da sala de aula, a professora mantém o mesmo visual profissional, sempre carregando seus livros, reforçando a imagem da professora que vive dedicada à profissão, leva trabalho para casa, sempre está envolvida com livros e cumpre, em tempo global, sua missão, reforçando, segundo Louro (2002, p.466), “a representação de professora ideal – a grande mestra – dedicada integralmente aos alunos e completamente afastada de outras relações afetivas”.
Nas revistas examinadas, de 1995 a 2005, sempre encontramos a professora representada da mesma forma, demonstrando a intenção marcada do autor em manter na figura da professora seu perfil atemporal, da professora tradicional da zona rural, recatada, mas sutilmente sensual; assim como não segue as tendências ditadas pela moda, também resiste às inovações pedagógicas, como se poderemos ver na seção Práticas Docentes. Nesse sentido, reafirmamos a postura do autor quando, ao propor uma substituta, apresenta outra professora (Dona Benairdes) com o mesmo estilo: recatada, mas sensual.
Dona Marocas, freqüentemente, nos quadrinhos de Mauricio de Sousa, aparece acompanhada pela figura da maçã. De acordo com o dicionário de símbolos , a maçã é o símbolo figurado do conhecimento, do saber, de ciência, da revelação. De outra forma, Bettelheim (1999), lembra que “em muitos mitos e contos de fadas, a maçã representa o amor e o sexo, nos seus aspectos benevolentes e perigosos” e ressalta, ainda, que “o vermelho da maçã evoca associações sexuais”, referindo-se à parte vermelha da fruta como erótica. De forma ingênua, podemos considerá-la, também, apenas um clichê a mais, a reforçar a figura estereotipada da professora e o hábito de os alunos oferecê-la, carinhosamente à professora, especialmente à das séries iniciais. Ainda no dicionário de símbolos consta a informação de que, na mitologia escandinava, a maçã é fruto que mantém a juventude, é símbolo de renovação e de frescor perpétuo, o que justificaria a juventude, marcada, da professora.
Parece que a professora do Chico cumpre um regulamento escolar que nos é lembrado por Louro (2002, p.460), “de se trajar de modo discreto e severo” (ainda que, nesse ponto, subverta, a seu modo, a regra),” manter maneiras recatadas e silenciar sobre sua vida pessoal”, pois nada é dito sobre sua família, seu estado civil, se mora com os pais, se tem namorado, se quer ter filhos, qual sua formação profissional, sua religião, seu salário, etc. Essa representação de professora é muito adequada para

fabricar e justificar a completa entrega das mulheres à atividade docente, serve para reforçar o caráter de doação e para desprofissionalizar a atividade. A boa professora estaria muito pouco preocupada com seu salário, já que toda sua energia seria colocada na formação de seus alunos e alunas. Esses constituiriam sua família; a escola seria o seu lar e (...) de certa forma, essa mulher deixa de viver sua própria vida e vive através de seus alunos e alunas; ela esquece de si. (idem)

Para Eisner (2001, p.100), “quando uma imagem é habilidosamente retratada, ao ser apresentada ela consegue deflagrar uma lembrança que evoca o reconhecimento e os efeitos colaterais sobre a emoção. Trata-se aqui,(...) da memória comum da experiência.” O aspecto universalizante que Mauricio de Sousa cria, a partir de sua personagem, para a função docente, pode contribuir para que a representação da mesma aproxime-se ou afaste-se do estereótipo mostrado, dependendo da experiência individual. A “leitura” da postura ou da “linguagem corporal” da professora pode desenvolver a habilidade de reconhecimento de diversos indicadores externos de sensações internas. Para o precursor da Hq moderna, “nas histórias em quadrinhos, a postura do corpo e o gesto têm primazia sobre o texto. A maneira como são empregadas essas imagens modifica e define o significado que se pretende dar às palavras”.(Idem, 2001, p.103).

2 Práticas docentes
Freqüentemente posicionada em frente ao quadro-negro, a postura da professora reflete a metodologia que tradicionalmente é associada à docência: olhos fechados, indicando a propriedade e seriedade com que expõe seu saber, recorrendo, muitas vezes, à ponteira para indicar o conteúdo, no quadro-negro, seguindo roteiro pré-estabelecido registrado em livro ou em folha de papel.
É relevante ressaltar, nessa seção, a recorrência da imagem da professora dando aula sentada à sua mesa. Em diferentes momentos e situações, inabalavelmente, permanece sentada, ereta, frente aos alunos.

a) A dona da verdade
De olhos fechados e dedo em riste, a professora expõe seu conteúdo, sem intervenções dos alunos, atribuindo, com seu tom magistral, maior veracidade à sua exposição.
De seu discurso, podemos depreender o tratamento tradicional que dá aos conteúdos, entre outros, quando afirma, com propriedade, terem aprendido tudo sobre o corpo humano. O contexto marca tão intensamente que o sujeito da ação é a própria professora, que nem mesmo a escolha pela conjugação do verbo na 1ª pessoa do plural, convence de que tenha havido alguma coletividade no ato. Para Silveira (1996), “a utilização de tais formas professorais [nós] simula uma relação de aproximação concreta de posse entre conteúdo e aluno/professor.”

b) Diz aí...
Predominantemente a professora é retratada dirigindo-se oralmente aos alunos, seja através da técnica de perguntas, seja induzindo a respostas “prontas”, ressaltando a memorização dos conteúdos, sem evidências da incorporação de novas estratégias que levem a uma maior problematização sobre as informações. A propósito, Silveira (1996) observa que a “verificação do conhecimento” é uma das funções do uso da “estrutura lingüística de pergunta”, indicando que “o uso da “pergunta pedagógica”é um dos instrumentos mais freqüentemente utilizados para o exercício do controle sobre o processo pedagógico, por parte do(a) professor(a”). (Grifos da autora). Vale ressaltar a perplexidade da professora frente às respostas não esperadas/desejadas.

c) Professora inovadora (?)
A professora parece não convencer quando faz tentativas frustradas de aliar o lúdico ao tradicional na sistematização de conteúdos. Os alunos, por exemplo, demonstram estranhar essa metodologia não usual da professora, pois as ações da mestra mantêm a formatação tradicional e conservadora, implicando incongruências, por exemplo, entre “brincadeira” e dedo em riste, com tom de superioridade, bem como entre o convite à brincadeira, por um lado, e a atribuição de “nota” à mesma, por outro. Para os alunos, é evidente, através da pronta reação ao convite, a desvinculação de “aula” com o “brincar”, vistos como dois acontecimentos completamente dissociados no tempo e no lugar.


d) Responsável
Uma das histórias analisada aponta para um aspecto bastante recorrente da profissão docente, qual seja a elevada carga horária da professora, sendo que, pela manhã, ela trabalha com a turma (de alfabetização) de Chico e, durante a tarde, atende outra turma não especificada. Além disso, o compromisso que tem com as turmas é bastante observado, visto que o Chico estranha o fato da professora alegar estar doente, como se isso fosse algo incomum.

2.1 A aula
a) Monotonia
Além de reforçar a idéia de que Chico esteja na classe de alfabetização (pois a professora o faz escrever o alfabeto no quadro), a atividade é tão enfadonha que o aluno chega a dormir, o que, com um tom de ironia, é recorrência freqüente desse personagem.
O sono durante as aulas, situação freqüentemente retratada em relatos humorísticos sobre escola, constitui o sinal visível do aborrecimento e do tédio do(s) aluno(s) em situação escolar.
A representação do aluno chateado em aula serve de representação em variados artefatos culturais que tratam da escola e temas escolares. No Conto de Escola , de Machado de Assis, por exemplo, o aluno, tal qual Chico Bento, de primeiras letras, prefere outras atividades a participar da aula:

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agra que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, (...) um papagaio de papel (...). E eu na escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.


Note-se que os contextos dos alunos são diferentes, mas a sensação é a mesma. Contrapõem-se zona urbana e zona rural, em épocas distintas, porém a aula, a escola provocam, nos alunos, sentimentos afins.

b)Vigiar...
Diversas passagens que retratam a figura da professora à porta, recepcionando os alunos ou despedindo-se deles a seguir sugerem inspiração do olhar foucaultiano que estabelece relações entre disciplina, controle e vigilância; o cuidado que a professora dispensa aos alunos envolve a distribuição dos mesmos nas dimensões do tempo, espaço e agência. (Silveira, 2002). Foucault examina o uso de instrumentos simples, como o olhar hierárquico; sem dúvida, o olhar vigilante da professora onipresente. (Idem)
Até fora do horário escolar a professora aparece cobrando que o Chico Bento esteja envolvido, de alguma forma, com as atividades escolares, sobrepondo essa obrigação ao lazer.
Como nos afirma Silveira (idem), o cuidado e a vigilância da professora podem ser exercidos na dimensão tempo, do horário das ações (...) .De certa forma tem-se uma espécie de professora-relógio, sempre atribuindo nota à pontualidade dos alunos, disciplinando e estabelecendo seus limites.

c) E punir...
Dona Marocas se apresenta, em diferentes situações, infligindo penas a ações inadequadas de seus alunos, em especial, do Chico Bento.
O fato de o aluno dormir na aula e a turma respondendo, em coro, às perguntas da professora, induzia o aluno, já sonolento e disperso, a um estado de relaxamento tão profundo, que o fazia roncar. Essa ação espontânea e incontrolável de seu estado físico, propiciado justamente pela forma com que a professora conduzia a aula, fez com que o aluno fosse punido. O objetivo desse ato punitivo seria o de expor, o aluno infrator, à frente da turma, cerceando-lhe as ações; privando a criança em idade escolar (ativa, dinâmica, inquieta) de seus movimentos. Já no castigo, insistindo na falta, para total irritação da professora, o aluno recebe a segunda punição: escrever cem vezes a mesma frase (ditada pela professora) a fim de apropriar-se da autoria da afirmação, demonstrando arrependimento pelo mau comportamento, implicitamente comprometendo-se a não incidir no erro. É importante observar que, na escrita do Chico, geralmente marcada pela oralidade, predomina uma transcrição da fala correta (como o r final de dormir) da professora. Para o aluno, a professora verbalizara cem vezes, a fim de, com a repetição, ele não esquecesse de que havia errado e como não deveria fazer mais. Essa forma de castigo, tão tradicional quanto os estereótipos de escola, veiculados nos mais diversos artefatos culturais, predominou por muito tempo nas práticas escolares.

Na mesma revista, de modo a ressaltar a face punitiva da professora, a mestra é flagrada induzindo o aluno ao recorrente banquinho, destacando como esse objeto mantém seu lugar e função específicos e demarcados na sala de aula, tão naturalmente disposto, quanto as classes, o quadro-negro, a lixeira, as janelas, etc. Vale apontar o vocabulário coloquial, produzido pelo nível de irritação da professora, para dirigir-se ao aluno, e a atitude submissa (com ombros baixos, olhos tristonhos, balançando a cabeça sem nada dizer) do mesmo ao, resignado, cumprir sua pena.

3 Externando sensações
a) Positivas
Em poucas situações a professora é retratada expondo o conteúdo, sorrindo, terna, para com os alunos. Em algumas vezes a professora demonstra paciência ao explicar e carinho na condução de algum diálogo; aparece, uma vez, atenciosa, dispondo-se a atender um aluno com dificuldade após o término da aula, aconselhando e propondo um ensino individualizado.

c) Negativas
A relação que se estabelece entre a figura da professora descontrolada e a cultura escolar, remete-nos, pela incidência, à construção de uma identidade fortemente marcada por essa característica, para generalizar o corpo docente. Análises dessa ocorrência podem ser aprofundadas em obras como as de Silveira , que analisa o discurso escrito de obras de literatura infantil, a partir das representações dominantes, apresentando seções, como Quanto mau humor! que, dentre outras seções, analisa a faceta repressiva e destemperada das personagens professoras. Nessa linha, destacamos o perfil descontrolado de Dona Marocas.
O primeiro sinal demonstrativo de irritabilidade, constituindo a figura de uma professora braba, se dá pelas mãos na cintura e as sobrancelhas franzidas. Outras atitudes reforçam o caráter carnavalesco imprimido pelo autor/desenhista para fazer com que o ridículo e o grotesco constituam fonte de humor constante (Silveira, 2002). Assim caracteriza-se a professora como descontrolada emocionalmente, com direitos a chiliques (idem), ridicularizando a função docente.

4 Produção textual
A forma com que a professora propõe essa atividade está longe de ser comparada à abordagem contemporânea de produção textual, prescrita, por exemplo, pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, principalmente no que tange à proposta, em si. A recorrência ao tema livre, sem estímulo visual ou de referência (ação já realizada ou debate sobre tema, por exemplo) reforça a perspectiva de fracasso escolar, causado pela desmotivação para a escrita, pela visão de escrita como um castigo, espaço de incompetência lingüística, de vazio, de branco, podendo fazer com que os leitores tenham as mesmas sensações, identificando-se, prontamente, com as personagens.

5 A avaliação
Reforçando o caráter tradicional da representação pedagógica, a professora avalia, quantitativamente, todos os aspectos de desenvolvimento dos alunos. Exercendo soberanamente o poder de avaliar (quantificar), a professora demonstra tristeza ao atribuir notas altas e satisfação em atribuir notas baixas.

6 A cola
O tratamento dispensado pela professora à prática da cola, assume o caráter de exagero.Em dia de prova, a “revista” nos alunos, em busca de cola, é prática corrente. Vale ressaltar que, em todas as buscas, a professora consegue apreender as colas e esse ato nunca atinge o sucesso.

7 Linguagem correta
A professora não compactua com seu grupo a fala regional. Seu nível de linguagem, mesmo oral, é o padrão, o que a distancia, de certa forma, dos alunos. É interessante notar que a professora não tem preconceito lingüístico, pois não foi observada correção à fala dos alunos ou qualquer espécie de repressão expressiva.

Considerações finais
Ao finalizar este texto, retomamos um de seus pressuposos, que é o de que qualquer investigação sob a ótica dos estudos Culturais não se presta à emissão de julgamentos ou, para a área da Educação, como foi o caso desse estudo, para o estabelecimento de prescrições de práticas educativas. A proposta consiste, sim, em destacar, nos mais diversos artefatos culturais, aspectos impregnados de significados diversos que, contextualizados, inseridos em nosso cotidiano, passam-nos despercebidamente.
A análise dos gibis do Chico Bento, do quadrinista Mauricio de Sousa, enquanto texto cultural, mostrou-nos um jeito de “ver” a professora e a problematização dessa figura traz à tona representações que têm sido difundidas, naturalizadas e cunhadas, atuando na construção da identidade do/a professor/a dos pequenos alunos leitores, e na elaboração da idéia do que é/pode ser a professora e suas práticas; além disso, esse gênero (Hq) tem tido uma penetração bastante grande dentro e fora do campo educacional, disseminando “verdades”, dentro do formato de um produto de entretenimento.
Para Wortmann (2002), “trabalhar com representações implica descobrir e interpretar entendimentos dos sujeitos sobre “o mundo real”, buscando aproximá-los de “modelos e padrões” já definidos”. A autora esclarece que, na perspectiva pós-estruturalista, segundo Tomaz Tadeu da Silva, a representação é entendida como inscrição, marca e traço. Para esse autor (apud Wortmann, 2002), o significado, aquilo que é supostamente representado, nunca está plenamente presente no significante; a representação – como processo e como produto – nunca é fixa, estável, determinada, é um sistema de significação e os processos e as práticas de significação são fundamentalmente sociais. Ainda segundo esse autor (idem), é em sua inserção em um sistema de significação que a representação adquire sentido.
Citando Hall, Wortmann (idem) acrescenta que a importância dos sons, palavras, notas musicais, gestos, expressões e roupas para a linguagem não vem do que esses elementos são, mas do que eles fazem, de sua função; eles constroem significados e os transmitem – eles significam e a produção e a circulação de significados dá-se na linguagem e na cultura. Nessa vertente, tomamos as representações de escola e seu universo, presentes nas histórias em quadrinhos do Chico Bento, como constituidoras de significados sobre tal instituição e de sujeitos envolvidos com a mesma, ressaltando que esse exame é apenas uma das muitas opções possíveis para discuti-las.
A professora é representada como protagonista de um ensino “tradicional”, percebendo-se, nas histórias, a referência a métodos de ensino considerados “ultrapassados” de acordo com as novas “tendências pedagógicas”. A solicitação de redações (e não produções textuais), bem como o tratamento a ela dispensado (de rígida cobrança, de valoração quantitativa e falta de contexto), além da ênfase à memorização de conteúdos, a utilização de um único instrumento de avaliação (prova), a intensa investida contra as “colas” e a aplicação do castigo são exemplos de prática docente há muito discutida.
Com o vestuário atribuído historicamente às professoras (de recato, pudor, decência, virgindade..), pode-se pensar na relação que as histórias estabelecem entre as questões de gênero e sexualidade e a imagem “clássica” da docência: a professora jovem, bonita, recatada, mas sensual; aparentemente solteira, por não haver referência a nenhuma ligação afetiva ou de qualquer espécie e que, nesse nível de ensino, não desperta qualquer espécie de atração física nos alunos. Ao inventar sua professora, Mauricio de Sousa institui e veicula sua representação “ideal” de mulher docente
O posicionamento corporal frente ao quadro ou frente à turma e a utilização que faz dos recursos didáticos e das técnicas de ensino é um traço característico da concepção mais tradicional de professora. As ameaças, os gritos, o descontrole, podem revelar o imperativo na cultura escolar relativo à manutenção da disciplina ou da autoridade do/a mestre/a.
Por outro lado, apesar de não considerar o ritmo de aprendizagem diferente de aluno para aluno, a professora surpreende por aceitar, dada a ausência de repreensão, a diversidade lingüística de seus alunos, não demonstrando tomar a gramática-padrão como a única forma (e “correta”) de expressão oral e escrita. Surpreende, também, pelo relacionamento (longe de ser afetivo) com seus alunos, tidos como da fase de alfabetização, subvertendo a relação entre maternidade e docência das séries iniciais, que está presente em outros artefatos culturais e que integra também um discurso corrente sobre afeto e educação.
Através das histórias em quadrinhos, todas essas representações são difundidas mesclando prazer e entretenimento com a fascinante demonstração da arte e criatividade do autor, o que justificaria a ascensão desse gênero a um patamar mais atual tanto na literatura quanto na arte.
A reflexão que se propôs sobre como os gibis representam a escola e sua relação com as posturas pedagógicas, reflete justamente a preocupação dos Estudos Culturais em mostrar o quanto os artefatos culturais contêm pedagogias culturais, ligadas a determinadas representações e “conceitos” veiculados. As histórias em quadrinhos do Chico Bento, ao enfatizar características marcantes dos personagens e determinadas práticas educativas para significar claramente um ensino tradicional, “conservador”, conseguem particularizar as ações e transmitir conceitos de modo bastante eficiente, como igualmente acontece com as charges, as piadas, os livros de literatura infantil, a TV e diversas produções culturais onde também “se criam e recriam significados sociais” para as mais diversas questões e “produzem-se e reproduzem-se valores culturais” sobre as mesmas, “articulando e rearticulando identidades” (Wortmann, 2002).
Resta a sugestão de se investir em análises dos diferentes artefatos, buscando “dimensões para aprofundar o estudo das representações da docência” (ou de outros papéis social/culturalmente desempenhados), “de suas contradições, inconsistências, associações esdrúxulas e práticas escolares” (entre outras). (Silveira, 2004)

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