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INDIVIDUAÇÃO E LINGUAGEM EM EDGAR VARÈSE: PENSANDO NUMA EDUCAÇÃO MENOR

André Pietsch Lima (Faculdade de Educação – UFRGS)


Rastros do Poema eletrônico

Certa vez, Varèse dirigiu-se a Henry Miller para lhe fazer um apelo urgente, apelo esse que pedia por uma resposta à beira da afasia. O compositor pedia-lhe, para seu novo opus, por mundos desconectados, cercados de silêncio, preenchidos de intensidades, mundos absolutamente novos: “quero algo da sensação do Deserto de Gobi” . Miller, por sua vez, lhe respondeu de modo extraordinário. Ele cantaria com Varèse esse mundo dissonante, de disjunções, onde nada estaria absolutamente pronto, onde tudo estaria ainda por fazer. Era necessário criar uma verdadeira paisagem sonora para atender ao apelo de Varèse, para encontrá-lo e responder-lhe convenientemente.

QUE O CORO REPRESENTE OS SOBREVIVENTES. QUE O DESERTO DE GOBI SEJA O LUGAR DE REFÚGIO. QUE OS CRÂNIOS SE EMPILHEM NUMA FORMIDÁVEL BARRI¬CADA À VOLTA DA ORLA DO DESERTO. CAI SOBRE O MUNDO UM SILÊNCIO. NÃO NOS ATREVE¬MOS A RESPIRAR SEQUER. NEM A ESCUTAR. TODA A GENTE SE IMOBILIZOU. UMA IMOBILIDADE ABSOLUTA. SÓ O CORAÇÃO BATE. BATE NUM SILÊNCIO SUPREMO. QUE UM HOMEM SE ERGA E FAÇA COMO SE FOSSE ABRIR A BOCA. QUE NÃO CONSIGA EMITIR NENHUM SOM. QUE OUTRO HOMEM SE ERGA E DE IGUAL MODO FALHE. AGORA UM GARANHÃO BRANCO DESCE DO CÉU. CURVETEIA NUM SILÊNCIO TOTAL. SACODE A CAUDA. O SILÊNCIO TORNA-SE MAIS PROFUNDO. O SILÊNCIO TORNA-SE QUASE INSUPORTÁVEL. SALTA UM DERVIXE E COMEÇA A RODOPIAR COMO UM PIÃO. O CÉU FICA BRANCO. O AR ARREFECE. SUBITA¬MENTE FULGURA UMA FACA E NO CÉU APARECE UM VISLUMBRE DE LUZ. UMA ESTRELA AZUL APROXIMA-SE CADA VEZ MAIS — UMA ESTRELA OFUSCANTE, CEGANTE. AGORA UMA MULHER ERGUE-SE E GUINCHA. OUTRA E MAIS OUTRA. O AR ENCHE-SE DE GUINCHOS PENETRAN¬TES. SUBITAMENTE CAI DO CÉU UMA ENORME AVE. MORTA. NINGUÉM SE MEXE PARA SE ACERCAR DELA. TENUEMENTE OUVE-SE UM CANTO DE CIGARRAS. DEPOIS AS NOTAS DE UMA COTOVIA, SEGUIDAS PELAS DO GAIO IMITADOR. ALGUÉM RI — UM RISO INSANO QUE DILACERA O CORAÇÃO. UMA MULHER SOLUÇA. OUTRA ROMPE NUM PRANTO. DE UM VARÃO UM GRANDE GRITO: ESTAMOS PER¬DIDOS! UMA VOZ DE MULHER: ESTAMOS SALVOS! GRITOS EM STACCATO: PERDIDOS! SALVOS! PERDIDOS! SALVOS! (...) .

(fragmento de O pesadelo de ar-condicionado, “Com Edgar Varèse no deserto de Gobi”)

Esta foi uma homenagem prestada por Miller a Varèse. E se era uma homenagem, era pelo fato de não se tratar de uma forma de significar ou ilustrar a obra do compositor, mas de aproximar-se de sua musicalidade, ou de intensificá-la. Varèse pedia por “frases mágicas” . O problema de um encontro desse tipo não é o de tomar um dado como atual para remontá-lo a outra atualidade ainda maior, mas o da própria criação. O problema da criação, por sua vez, não é outro senão o de como a vida resistirá à morte, os modos pelos quais ela inventa suas saídas e se recusará, por meio delas, a exaurir. Nesse caso, era também o de como extrair uma virtualidade literária daquilo que já estava numa condição de indiscernibilidade sonora. Para continuarem criando, era necessário que Varèse e Miller se livrassem dos fardos e das amarras de toda uma civilização (Miller tece suas considerações sobre a América, Varèse se volta para o fenômeno da ionização, para os prismas cristalinos, para sua poesia eletrônica...) e partissem para a construção de um lugar novo, involuído, intensivo.
Varèse iria conceber a música como um conjunto de ações disciplinadoras no caos . Mas, se a música era, para ele, “a corporificação da inteligência que há nos sons” , definição de música que considerava primorosa em Hoëné Wronski, era porque essa inteligência lhe era primeira, era ela quem organizava os modos pelos quais se inventavam em Varèse, musicalmente, os caóides que se apresentarão ao futuro por meio de novas expressões, abrindo vias a estranhas experimentações. Quando ele dizia querer “se aproximar tanto quanto possível de uma espécie de vida interior, microscópica, como aquela que se encontra em certas soluções químicas, ou através de uma luz filtrada” , ele já era intensamente trabalhado pelas forças pré-individuais, por toda uma vida inorgânica. A inteligência que há nos sons é parte dessa vida microscópica, ou das forças que a engendram, é parte daquilo que engajou Varèse na aventura em combinar, misturar, criar sons propriamente extraordinários tomando, para isso, de partículas do universo, de sua química ativa e invisível, criando composições com fluxos heterogêneos e produzindo com eles uma transmutação original. Quando Varèse compôs Déserts, ele o fez com elementos que compõem aqueles desertos “que atravessam ou que podem atravessar o homem, os desertos físicos, aqueles da terra, do mar e do céu, de areia, de neve, de espaços interestelares ou das grandes cidades” : um compositor, dizia, é um compilador de elementos díspares . Poema eletrônico era exemplar desse procedimento de compilar e virtualizar o heterogêneo, criando esse mundo que não era feito de tonalidades, nem de notas musicais, nem mesmo de ruídos, mas de uma infinidade de freqüências individuantes deformando-se reciprocamente numa paisagem heterogênea, desconhecida. Ao compô-lo, Varèse foi tomado pela caótica da matéria sonora e se tornou, ainda mais do que antes, “uma espécie de Parsifal diabólico não à procura do Santo Graal, mas da bomba que faria explodir o mundo musical" . O Poema é, precisamente, uma de suas bombas mais eficazes para molecularizar o som e, por isso mesmo, uma das suas maiores composições, uma das mais musicais. Quando explodiu, Parsifal emudeceu. Para criá-la, Varèse tinha a necessidade de se livrar dos romances de formação e de seus personagens para, enfim, criar um território no deserto e lá colocar uma voz que não reuniria as demais, que estilhaçaria a coesão som/palavra, desprendendo um sentido não mais reconhecível, mas um sentido livre, indiscernível.
Ao serem evocadas “questões de emissão vocal e da dissociação das palavras ou de sua explosão” , Boulez encontrava em Artaud preocupações fundamentais de muitos músicos contemporâneos: “tendo ouvido o poeta na leitura de seus próprios textos, acompanhados de gritos, ruídos, ritmos, tivemos indicações de como operar a fusão do som e da palavra, [de] como fazer jorrar o fonema quando a palavra não mais existe, em suma, [de] como organizar o delírio” . Parece-nos que Varèse era, como Artaud, um mestre nesse ofício delicado, nessa arte de organizar o delírio sem destruí-lo, operando com o som de modo a transformar os dados sonoros “originais” até deformá-los completamente. “Para criar o delírio eficaz é preciso levá-lo em consideração” . Por isso, a música varèsiana necessitava de uma “nova notação”, “semelhante a um sismograma”, uma “escritura ‘sismográfica’” que captasse sua agitação interior. Enquanto Artaud ia sendo tomado pela peste até não se distinguir mais dela (Anaïs Nin: tudo que ele pedia era mais intensidade, uma forma mais elevada de sentir e de viver), Varèse (que já fora deformado pelos prismas cristalinos e levado por partículas subatômicas a lugares improváveis) entrava em ressonância absoluta com cada uma das batidas do gongo em seu Poema, com cada vibração emanada dele e com as deformações de deformações sonoras que o acompanhava.
Entre os procedimentos mais notáveis de Varèse para criar com sua música estaria aquele que consistia em destilar a voz do humano e transmutá-la nos circuitos eletrônicos até que ela perdesse a palavra, até não dizer mais nada, produzindo vozes humanas e maquínicas e, com elas, levar o pensamento à sua última palavra, à imaginação sem imagem. Não de uma só vez, e foi necessário passar por Ecuatorial para alcançar essa potência não linguageira da voz, para acentuá-la em Étude pour “Espace” (duas ou três passagens dessa obra encontram-se transpostas, filtradas, desfiguradas no Poema eletrônico) e desprendê-la completamente do significado, da sintaxe e mesmo da linguagem no Poema. Um tal procedimento de destilação da voz é aquilo que faz com que ela se transforme no nascimento de vários cantos simultâneos, desarticulando a harmonia e a melodia em favor da música ininteligível, amoral, extraindo dela um puro timbre em variação contínua (esse seria o projeto levado aos seus limites extremos com compositores como Luciano Berio). Em Varèse, o homem não se reconhece mais enquanto HOMEM e sua voz tornou-se uma onda eletromagnética em meio ao mundo energético e invisível da eletrônica. A voz não implicava, nele, um sentido determinável, mas complicava-o numa composição de paisagens sonoras pré-humanas que não diziam mais nada para além de um pôr-se entre e, às vezes, no interior mesmo de outras vozes eletrônicas, percussivas, microtonalísticas, rodopiando (outros dervixes?) entre sons e imagens que se atravessavam num conjunto em combustão. Ele queria afinar sua música segundo as grandes perturbações cósmicas. Para isso, criaria paisagens insólitas, livres do temperamento, onde seria “possível a simultaneidade de elementos, sem nenhuma relação entre eles” , onde as imagens seriam dessincronizadas dos sons, os sons dessincronizados uns em relação aos outros, onde vozes não se conheciam mutuamente, mas se encontravam nas reuniões de miríades sonoras. Nessa paisagem esboçada com o Poema eletrônico, Varèse colocaria a voz não mais a cantar o HOMEM, mas melodias de timbres numa disjunção perturbadora criando, como o compositor queria, “novas zonas de intensidade” .
Estranho destino desses sons por ele organizados... Não há partitura do Poema, nunca houve senão alguns rabiscos, ele foi abolido em sua última execução : “pela primeira vez, eu escutei minha música literalmente projetada no espaço” . Ela foi também projetada rumo à linha do horizonte do deserto onde subsiste enquanto miragem que nos abre novamente a ele tão logo nos esforcemos por tocá-la. Talvez isso se deva à poesia sonora varèsiana ser um desses vestígios da vida e ter encontrado, nela, a sobriedade de onde Miller arrancou seu deserto: “estamos enfim no Gobi. Só resta o coro. E os elementos: hélio, oxigênio, azoto, enxofre, etc. O tempo rola. O espaço enrola-se. O que resta do homem é puro HOMEM” .

 
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