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  RESSIGNIFICANDO A CULTURA A CONSTRUÇÃO DA AUTORIA NA TERCEIRA IDADE

Michele Marcondes de Abreu – UERJ - bolsista do curso de Pedagogia
Simone da Silva Lopes – UERJ - bolsista do curso de Letras

O presente texto pretende relatar o processo de confecção de um livro por alunos idosos inseridos no contexto da EJA. O trabalho foi realizado no PROALFA – Programa de Alfabetização Documentação e Informação da UERJ – cujo objetivo norteador é a formação de sujeitos autônomos na escrita e proficientes na leitura. Suas ações extensionistas-educativas na área de alfabetização e letramento são desenvolvidas em cinco projetos: Classes de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos, Apoio Educacional à Enfermaria do Hospital Universitário Pedro Ernesto, Ciclos de Estudos em Alfabetização, Acervo Especializado em Alfabetização Emília Ferrero e Apoio Pedagógico à Formação dos Estagiários.

Nosso trabalho faz parte do Projeto - Classes de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos, que se compõe de quatro turmas cujos alunos pertencentes são, em sua maioria, mulheres da terceira idade . Tratando-se de uma educação não-formal, não há obrigatoriedade em obedecer à padronização dos conteúdos escolares, o que permite uma maior flexibilidade e liberdade de planejamento. Dessa forma suas ações educativas são focadas em leitura, matemática e escrita e tais especificidades são desenvolvidas através de módulos temáticos, tendo em vista a elaboração de um produto final. Os temas anuais, subdivididos em módulos, são escolhidos pela Coordenação Pedagógica em conjunto com os professores com a preocupação de os mesmos serem de interesse dos alunos. No ano de 2004 o tema escolhido foi “Educação e Qualidade de Vida”, que foi subdividido em três módulos - Educação e Meio Ambiente, Educação e Saúde, e Educação, Cultura e Lazer – a cada um correspondendo, aproximadamente, um trimestre.

O livro foi o resultado do trabalho desenvolvido no último trimestre de 2004 pela turma UNATI II. Trata-se de uma turma de 17 idosos, apenas 1 homem, sendo que a média de alunos freqüentes por dia é de 10 a 12. Quanto aos conhecimentos, dominam a base alfabética e apresentam um bom desempenho na escrita de textos, embora existam dificuldades inerentes a questão ortográfica, de pontuação e leitura, sobretudo em voz alta. Ortografia e pontuação não foram trabalhadas nesse módulo de maneira sistemática, apenas eram apontadas aos alunos, individualmente, quando da correção de seus textos. Acreditamos que o desenvolvimento de tais habilidades é um processo contínuo e complexo, que se dá através de atividade motivadoras e desafiadoras, enfim, atividades que coloquem o educando frente a uma escrita real, ou seja, aquela que ele irá encontrar fora da escola. Desse modo, além de promover leitura e escrita, o professor também propicia a ampliação da própria estrutura do pensamento (Tolchinsky apud Ednir e Cardoso, 2002, p.45).

Escrever é muito mais do que juntar letras e formar sílabas e palavras é, antes, expressar seus pensamentos e exteriorizar conhecimentos de forma crítica. Enquanto objeto da cultura letrada, o livro exerce verdadeiro fascínio sobre os alunos, e os autores são vistos como “seres superiores”. Eles também possuíam um entendimento equivocado sobre a cultura, que era relacionada ao saber escolarizado, erudito; como a maioria nunca havia freqüentado a escola, se consideravam pessoas incultas. Ao confeccionar o Livro da Sabedoria – nome escolhido pelos alunos –, além de conferir aos textos uma função social, colocando-os como autores de textos vivos, estaríamos proporcionando aos educandos um auto-reconhecimento enquanto sujeitos ativos e participantes da cultura através da desmistificação do livro e do conceito de cultura.

Assim, o nosso planejamento de atividades foi dividido em duas partes: feitura dos textos e estudo sobre a organização do livro. Na primeira parte foram abordados temas inerentes a cultura e ao lazer tendo em vista o estudo da diversidade cultural: música, língua, literatura e cinema . Ao longo do período, foram desenvolvidas sete atividades relacionadas aos tópicos já citados, sobre as quais discorreremos a seguir:

CULTURA E LAZER

Atividades desenvolvidas: O que é cultura? / O que aprendi sobre cultura? / O que é lazer?

Motivador: Conhecimentos prévios / conhecimentos adquiridos após as aulas.

Objetivo: Indagar a cerca dos conceitos dos educandos sobre cultura e verificar se após as aulas algo havia mudado.

A primeira aula foi reservada para que pudéssemos saber o que cada aluno pensava sobre cultura, sua transformação ao longo dos anos e o conseqüente impacto em nossas vidas. Nessa atividade pudemos constatar que de uma forma geral, cultura era relacionada a erudição e a partir daí direcionamos nossa ações pedagógicas para a desmistificação desse pré-conceito. Ao final do módulo, quando questionados sobre o que haviam aprendido sobre cultura percebemos que o nosso objetivo foi alcançado.

Sobre lazer, as concepções dos alunos não se prenderam ao ato de passear, conseguindo associar em seus escritos a cultura ao lazer.

MÚSICA

Atividades desenvolvidas: A nossa música. / Contando uma história.

Motivador: Rap do Silva, MC Bob Rum

Objetivos: Analisar músicas de diferentes contextos sociais e tempos, montando um quadro comparativo a fim de que os alunos compreendam as diferenças sociais a partir da representação musical.

Outras músicas foram trabalhadas, tais como Garota de Ipanema , de Tom Jobim, Do Leme ao Pontal, de Tim Maia e letras de funk, que mostravam as diferentes representações da mulher. Após as discussões e identificadas as diferenças, a atividade consistia em trabalhara a memória e escrever sobre a música que tinha marcado as suas vidas (A nossa música). A cultura é feita de história, mas também de estórias; baseados na leitura do Rap do Silva, que narra uma estória trágica, os alunos tinham que contar uma, verídica ou não (Contando uma história).

LÍNGUA/ LITERATURA

Atividades desenvolvidas: A importância da nossa língua.

Motivador: Marcelo Marmelo Martelo, de Ruth Rocha

Objetivos: Trabalhar a importância da língua enquanto fator cultural e de comunicação.

Como a questão das variações lingüísticas já havia sido estudas no módulo anterior, julgamos imprescindível abordar aquele que é o objetivo principal da língua: a comunicação. Será que Marcelo priorizou esse fator? Essa foi a temática da nossa discussão, que culminou com a produção de um texto onde os alunos comentaram sobre a atitude do menino Marcelo e de seus pais, sobre a arbitrariedade do signo lingüístico. Embora esse conceito não tenha sido trabalhado diretamente, eles perceberam a sua existência e fizeram associações com as suas realidades.

CINEMA

Atividades desenvolvidas: Sobre um filme

Motivador: Narradores de Javé.

Objetivo: Demonstrar que a escrita e a leitura são formas de poder e repressão social.

Sabendo que os filmes fazem parte do acervo cultural de uma sociedade, além de ser uma forma de lazer, o Proalfa proporcionou a todos os seus alunos a oportunidade de assistir a esse filme, com o intuito de que os mesmos iniciassem uma reflexão a cerca do poder da língua, em sua modalidade escrita, e da leitura como forma de controle sobre os que não as dominam. E como atividade os alunos, em dupla, acabaram por produzir um pequeno resumo sobre o filme.

Quanto à confecção do livro, o primeiro passo foi levá-los ao acervo do PROALFA, a fim de que se familiarizassem com esse tipo de ambiente e que pudessem lançar sobre o livro um olhar investigativo, observando a capa, o sumário e a divisão em capítulos. Depreendidos esses elementos que constituem a sua estrutura básica, os alunos já estariam aptos para construir o livro a partir dos temas estudados.Vale ressaltar que esse foi um estudo intenso e sistemático, pois durante todo o módulo os alunos mantiveram contato com os livros, que eram levados para a sala de aula a fim de discutirmos sobre a importância do título, apresentação, dedicatória e outros pontos levantados por eles. Também procuramos desenvolver o gosto pela leitura através do incentivo ao empréstimo de livros no acervo.

Cada parte – capa, dedicatória, apresentação e índice –foi construída em conjunto com a turma quando a escrita era solicitada, a estratégia utilizada foi o texto coletivo. Vale a pena destacar a construção da apresentação, onde procuramos demonstrar aos alunos suas especificidades: resume o conteúdo do livro apresentando-o aos leitores e, geralmente, é escrito pelos próprios autores. Após lermos apresentações de diversos livros de assuntos variados, passamos a segunda etapa, que consistiu na escrita coletiva.Vale a pena transcrever o resultado:

Caro leitor,

Esse livro foi escrito pelos alunos da melhor idade, buscando valorizar a escrita e a leitura na sociedade. O nosso objetivo é reconhecer a diversidade cultural do Brasil e respeitar os diferentes valores culturais. O Livro da Sabedoria trata de alguns assuntos referentes à cultura, como: música, língua, pintura, cinema, literatura e a nossa vida. A leitura e a escrita devem ser, além de um prazer, um lazer.

Os autores

A feitura desse texto nos deixa muito felizes, pois percebemos que os alunos compreenderam a estrutura de um texto que se propõe a uma apresentação e foram capazes de reproduzi-lo. O mesmo ocorreu com as dedicatória e o índice, que seguiram o padrão dos modelos recorrentes nos livros estudados. O nome foi escolhido democraticamente pela turma, todos deram opiniões e os nomes eram anotados no quadro e discutidos tendo em vista sua pertinência ou não; ao final, foi feita uma votação onde todos optaram por associar faixa etária à experiência e sabedoria, donde surgiu o Livro da Sabedoria. Na escolha da capa empreendemos o mesmo processo: através de tintas, pincéis e giz de cera, cada um pôde sugerir um modelo de capa que estivesse de acordo com o conteúdo do livro. A vencedora, Jurema Góes, nos fornece a melhor explicação para seu desenho: “as flores simbolizam o livro e as pedras somos nós.”, diz.

Foi gratificante realizar esse trabalho e perceber que conseguimos, além de escritas significativas, fazer com que os alunos percebessem o seu potencial. Esse trabalho demonstra a necessidade de se propor escritas que propiciem aos educandos a possibilidade de exporem suas experiências e, desse modo, se sentirem autores sujeitos de cultura.

Referência bibliográfica

CARDOSO, Beatriz & EDNIR, Mazda. Ler e escrever, muito prazer! São Paulo: Ática, 2002.

 
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