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  ARTE NA ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS DO PROJETO SESC LER

Lígia Maria Paes Macacchero - SESC DN

A arte é uma forma de expressão simbólica humana, da realidade vivida no espaço e no tempo. Como tal, reflete as crenças, o constructo social e estético de indivíduos ou de um grupo social em determinado contexto histórico, político e social.

Segundo Giulio Argan , é necessário considerar-se como obras de arte não apenas parte ou fragmentos dela preservados nos museus e galerias, mas perceber que os marcos e monumentos das cidades, a arquitetura e urbanismo, constituem-se testemunhos da memória, dos valores e do imaginário coletivo, agregando à arte o caráter típico dos fatos urbanos e artísticos.

Conforme esse autor, “não é verdade que a arte é uma linguagem universal que todos podem entender. Cada um a entende, na medida das suas experiências dos fatos artísticos ou de seus conhecimentos sobre a história da arte.”

As experiências artísticas abrangendo as dimensões racionais e emocionais dentre as quais a estética, tornam-se indispensáveis sob a perspectiva de uma educação integral, potencializadora de novas atitudes e valores dos indivíduos. Se nós, educadores, desejamos respeitar e preservar nosso patrimônio histórico, devemos atuar na formação educativa desses valores e atitudes para a cidadania, durante todo o processo de escolarização.

A educação do “olhar” sobre o mundo e sobre as diferentes representações simbólicas, humaniza, como dizia Paulo Freire, ampliando a compreensão da realidade e da aceitação das diferenças existentes entre os seres humanos. Sensibilizando-se por meio da apreciação das obras de arte, os indivíduos passam a adquirir variadas referências estéticas para que possam (re)criar e expressarem-se em diversas linguagens.

Entendendo que “as várias manifestações artísticas constituem um conteúdo essencial da educação básica, tanto pelo que encerram de valor em si mesmas, como pelo seu potencial como veículo para outras aprendizagens”, conforme referendado na Proposta do SESC LER -1999, a Arte é considerada relevante área de conhecimento.

“Além disso, o conhecimento da produção artística de diferentes grupos humanos nas distintas épocas da história oferece uma boa oportunidade para reflexão acerca do que há de comum e o que há de diferenciado nos seres humanos pertencentes a culturas distintas.

As diversas expressões artísticas merecem ser abordadas como conteúdo educativo, tanto as formas eruditas como as populares, tanto as mais antigas e consagradas como as mais contemporâneas. Devem-se considerar ainda os interesses e gostos específicos das faixas etárias, incentivando o respeito mútuo e a ampliação do próprio repertório .”

Nesse sentido, a ação educativa do SESC LER está direcionada para o conhecimento sobre os elementos e a História da Arte, para apreciação e contextualização das produções de arte e de seus autores, bem como para a estimulação da expressão criadora.

Educa-se a sensibilidade dos educadores, pois sendo agentes no processo educacional necessitam conhecer, compartilhar e valorizar esses conteúdos com os alunos e comunidades às quais pertencem.

A formação continuada de professores contempla atividades de caráter cultural envolvendo visitas a Museus e Exposições de obras de Artes, a fruição de peças teatrais, musicais e de outras tantas linguagens cujos conteúdos permitem a sensibilização por meio da apreciação das estéticas e desenvolvimento da criticidade.

As atividades pedagógicas desenvolvidas tanto com educadores, tanto com os alunos, são permeadas por estudos sobre os artistas e suas obras, “releituras” ou propostas de expressão artística a partir de uma obra analisada; pela contextualização dos fatos na História da Arte e na arte local, com vistas à preservação e valorização da identidade e da memória cultural.

O investimento cotidiano no reforço positivo da identidade, no respeito à diversidade dos saberes adquiridos e na valorização das produções artesanais típicas da cultura local são alguns princípios fundamentais à operacionalização da Proposta Pedagógica do SESC LER em diferentes instâncias de atuação. Com essa perspectiva, discute-se o conceito de arte popular remetendo-nos às origens e formação transcultural, por índios, negros e brancos ocorrida ao longo de quatro séculos, destacando o preconceito que embora diluído nos dias atuais, torna- se ainda visível pela gradação de conceito entre artesanato e arte.

Citando Lélia C. Frota , “um dos objetivos fundamentais do movimento modernista era estruturar os meios que pudessem atender à coletivização – à democratização do saber, num país onde este era discriminado entre o “culto” e o “popular”.

De acordo com essa autora,...”Muitos artistas, como Portinar, que retratava a vida cotidiana de trabalhadores; Tarsila do Amaral, que abordava a paisagem brasileira, a religiosidade popular e o operariado paulistano; ou Alfredo Volpi, autodidata que funde elementos visuais do popular à linguagem erudita, seja através da figura, da abstração ou da síntese simbólica de ambas, são uns poucos exemplos retirados do quadro das artes visuais dos anos 20, 30 e 40, que mostram o interesse dos artistas eruditos pelo universo das classes populares e pelas culturas tribais”.

Inclusive os próprios artistas, oriundos das camadas pobres da população, tiveram participação bastante ativa em prol de reconhecimento de suas obras pelas elites.

As Mostras itinerantes de Artes realizadas nos Centros Educacionais do SESC LER, têm contribuído por meio da divulgação e apreciação de produções de autores universais e regionais, para aproximar a arte das comunidades que vivem distantes dos grandes centros urbanos, com pouco ou nenhum acesso a essas produções.

As exposições são geralmente precedidas por ações de formação com professores do projeto e da rede pública visando estudos sobre os artistas e suas obras, complementadas por orientações sobre os procedimentos de montagem e exibição de exposições, além de suporte à elaboração do planejamento pedagógico e dos conteúdos a serem operacionalizados com os alunos durante e após a Mostra.

Na Mostra de Margaret Mee, uma artista inglesa cuja pintura e ilustrações retratavam as espécies de bromélias encontradas na Amazônia, percebemos a perplexidade dos alunos ao saberem que a flora local havia provocado tamanha paixão e interesse por parte de uma ilustradora botânica internacional. Com novos olhares sobre a flora da região, a partir da valorização e reconhecimento de sua(s) identidade(s), planejaram trazer de suas casas as espécies retratadas nas pinturas, selecionando aquelas retratadas por Mee e nomeando-as cientificamente para exibi-las. Criaram assim, uma grande “mostra”, complementando a original, de Mee. A iniciativa constituiu-se em efetivo projeto pedagógico de todas as turmas e foi extremamente apreciado pela comunidade.

Avaliando o trabalho educativo com os jovens e adultos do SESC LER e respectivas comunidades por meio da arte, têm-nos sido revelados alguns desdobramentos bastante gratificantes que recomendam a continuidade das intervenções pedagógicas dessa natureza. Soubemos que alguns grupos de artistas locais passaram a organizar exposições de pinturas, por exemplo, a partir de conhecimentos adquiridos durante a realização de encontros de formação de educadores.

Outros, descobriram-se criando com recursos reaproveitados e de baixo custo, ou mesmo explorando possibilidades de expressar-se com materiais naturais, levando-nos a concordar com o poeta Antonio Machado , “camiñante no hay camiño, se hace camiño al camiñar...”

Lìgia Maria Paes Macacchero é pedagoga, e uma das coordenadoras do projeto nacional SESC LER do Departamento Nacional do SESC.

 
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