Voltar    
 

REFLEXÕES A RESPEITO DA LEITURA COMPETENTE DOS BLOGS*

Amarildo Pinheiro Magalhães - Universidade Estadual de Maringá (UEM)

1 Considerações Iniciais

Vivemos em uma sociedade que tem se especializado em aperfeiçoar as tecnologias de informação e comunicação (TIC´s). Essa nova realidade, cujos benefícios são indiscutíveis, é assinalada também pelo forte predomínio da linguagem escrita e tem instaurado novas posturas entre aqueles que têm feito uso desses novos recursos.
Interessa-nos, particularmente, nesta reflexão, delinear alguns dos aspectos que tornam peculiar esse novas forma de interação entre as pessoas. Embasados em uma concepção interacionista do processo de leitura, pretendemos, neste trabalho, discutir a postura do leitor competente frente a essas novas modalidades de leitura cujo principal veículo de circulação tem sido a internet.
De modo particular, procuraremos aqui delinear algumas características específicas desse leitor, indispensáveis à produção de sentido em relação aos textos eletrônicos, principalmente no que se refere aos blogs.
Entendemos ser relevante essa reflexão pelo fato de que a leitura competente deve fazer-se presente em todos os tipos de textos, pois consideramos não haver unidade textual que se encontre desprovida de intencionalidade do seu produtor. Desvendar essa intencionalidade e a rede argumentativa que a compõem, conforme procuraremos desenvolver, parece ser a primeira das habilidades para a leitura competente dos blogs.
Esse trabalho tem, portanto, natureza particularmente teórica e pretende adentrar, não tão exaustivamente quanto a complexidade do tema mereceria, a essa nova realidade que desafia os leitores dos nossos tempos. Enquanto muitos falam na morte do leitor, procuremos evidenciar, por meio do recurso a trabalhos de estudiosos no assunto, que em termos de leitura em meio eletrônico, o leitor deve estar mais “vivo” do que nunca.

2 O leitor e o processo de leitura: características essenciais

Considerando a perspectiva interacionista dos estudos da linguagem, entendemos ser a leitura um processo ativo de interação entre o leitor e o texto. Sendo um processo ativo, exige diante do texto leitores com características bastante próprias que, principalmente, não se submetam à ditadura do texto e do autor, mas que, diante destes, posicione-se como alguém que vai além da mera decodificação e, a partir de seu conhecimento de mundo, estabeleça relações concretas entre o texto e a sua realidade.
No dizer de KLEIMAN (1997b, p. 20):

“na leitura que considera o texto como depósito ou repositório de significados, a única leitura possível é essa atividade de extração de significado, para a partir daí extrair, desta vez, da soma desses significados, a ‘mensagem’. O resultado final da recorrência dessa leitura é, como apontamos anteriormente, a formação de um pseudo-leitor, passivo e disposto a aceitar a contradição e a incoerência”.c

Como se pode perceber, a sociedade contemporânea, que assiste, de forma acelerada, ao desenvolvimento de tecnologias cada vez mais complexas na área da informação e da comunicação carece de leitores que em nada se parecem com o “sujeito” resultante do processo descrito por Kleiman.
Em termos da organização da vida social, fator, acreditamos, determinante das relações desenvolvidas em todos os setores da atividade humana, o objetivo da leitura deve ser a de que, conforme MENEGASSI & MORAIS (2002, p.134):

o leitor, através da interação com os textos, venha a desenvolver um visão crítica da realidade, saber os motivos de as coisas serem como são [...] é preciso que o leitor, ao interagir com o texto, penetre nos referenciais construídos pelo autor, os quais são aspectos de uma realidade por ele trabalhada, e desvende-os, sem perder de vista os problemas e as necessidades de seu contexto.

Essa perspectiva de leitor anteriormente descrita é indispensável à superação do conformismo que muitas vezes impera em uma sociedade dominada pelo sistema capitalista. Isso não se dá apenas na escola, mas tendo a instituição escolar como um de seus representantes mais fortes, essa relação se repete, de maneiras distintas, em várias situações da vida social cuja principal marca tem sido o apelo ao consumo e ao acúmulo do capital. O texto eletrônico, como mencionaremos mais adiante, é bastante impregnado dessa ideologia.
Em termos dos estudos a respeito da leitura, muitos autores têm se dedicado a elencar algumas características do leitor competente, isto é, aquele que não vê o texto como algo hermético, cujos sentidos estão todos explícitos, contentando-se em apenas decodificar os signos lingüísticos que o constituem. No que se refere ao sentido, Goulemot (1996, p. 108), afirma: “o sentido, aquele que se constitui por uma leitura historicamente datada, empregado por um indivíduo que tem um destino singular, nasce portanto, do trabalho que esse fora do texto assim definido opera, para além dos sentidos das palavras, do agrupamento de frases, sobre o texto.”
Entre as características necessárias ao leitor para a construção, com competência, dos sentidos do texto destacamos:
- a construção da intertextualidade (GOULEMOT, 1996);
- aplicação de estratégias de antecipação e previsão (BRASIL, 1998)
- recorrência aos textos que circulam socialmente (SOLÉ, 1998)
- acionamento de esquemas de seu conhecimento prévio (MEURER, 1988);
- tem consciência de que a leitura é historicamente datada (GOULEMOT, 1996);
- mescla idéias do texto às suas (DEL’ISSOLA, 1996);
- considerar marcas de sua individualidade (DEL’ISSOLA, 1996);
- não encontrar somente o sentido desejado pelo autor (GOULEMOT, 1996);
- toma decisões diante do que lê (BRASIL, 1998);

Elemento importante para o acionamento dessas habilidades na atribuição de sentido do texto são os conhecimentos prévios do leitor, pois como assevera Kleiman (1997, p. 13): “A compreensão de um texto é um processo que se caracteriza pela utilização do conhecimento prévio: o leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, o conhecimento adquirido ao longo de sua vida. [...] Pode-se dizer com segurança que sem o engajamento do conhecimento prévio do leitor não haverá compreensão”.
Após essa apresentação dos elementos essenciais que envolvem o processo de leitura e o leitor competente, passaremos a falar do leitor competente e de suas relações com o texto eletrônico, particularmente em relação aos blogs.

3 Blogueando

3.1 O blog: uma forma particular de gênero digital

Com relação aos blogs, repete-se um fato que ocorre com a maioria dos gêneros digitais: é difícil precisar o momento exato de seu surgimento, a primeira vez em que, na rede, determinado de texto foi produzido. A esse respeito, Blood (2004) afirma que o termo weblog cunhado por John Barger em dezembro de 1997, com a finalidade de nominar um tipo específico de página da internet que reuniam as características comuns ao que hoje chamamos de blogs. Estas características, segundo Sartori Filho apud Marcuschi (2004, p. 60), diriam respeito a sites pessoais que fossem atualizados freqüentemente e que contivessem comentários e links”.
O vocábulo weblog, todavia, não foi uma invenção de Barger. Esse termo já era comum entre os usuários dos sistemas de informática e é composto pela justaposição de web (rede) + log (registro). É comum a esses sistemas desenvolver registros das ações de seus usuários. Isso ocorre tanto em sistemas que envolvem sigilo e confidencialidade (caso dos sistemas bancários, em que o log revela em qual chave e, conseqüentemente, por qual usuário do sistema determinada ação foi realizada), quando em programas menos comprometedores como aqueles relacionados ao sistema IRC (Internet Relay Chat), como mIRC, Sccop, entre outros, nos quais a função do log era registrar as conversas mantidas entre os usuários em seus chats. Além disso, MARCUSCHI (2004, p. 61) destaca que, inicialmente, os blogs serviram para registrar as leituras que as pessoas faziam na internet, um espécie de diário de bordo.
Atualmente, o termo weblog, resumidamente, blog, designa um gênero digital próprio que tem por correlato o gênero do discurso denominado diário pessoal. Para MARCUSCHI(2004, p. 29), os blogs “são diários pessoais na rede, uma escrita autobiográfica com observações diárias ou não, agendadas, anotações, em geral muito praticados pelos adolescentes na forma de diários participativos”. Esses textos apresentam algumas similaridades com seus equivalentes, aqueles que eram sigilosamente guardados, marcando-se, porém, por algumas características bastante peculiares, principalmente em sua relação com o contexto da comunicação mediada por computador, conforme procuraremos apontar, a seguir.
Seguindo as categorias propostas pelo autor citado, devemos considerar os blogs como uma forma de interação multilateral e assíncrona, isto é, permitem a participação de um grande número de interlocutores, sem que isso aconteça de forma simultânea. Os relatos e os comentários podem ser postados por participantes ilimitados e em momentos diferentes.
Marcuschi (2004, p. 34) aponta ainda características mais detalhadas para os blogs, a saber:
- Relação temporal: assíncrona;
- Duração: indefinida;
- Extensão do texto: indefinida;
- Formato textual: texto corrido;
- Participantes: múltiplos
- Relação dos participantes: o autor do blog é sempre conhecido, porém aqueles que escrevem os comentários não o são obrigatoriamente.
- Funções: interpessoal; lúdica;
- Tema: livre;
- Estilo: informal;
- Canal/ semioses: texto e imagem, com paralinguagem;
- Recuperação de mensagem: por gravação.

Komesu (2004), por sua vez, destaca a temporalidade como a grande marca dos blogs. Nesse ambiente comunicativo, o tempo é de suma importância, pois os relatados referem-se a datas específicas e a grande preocupação de seus autores é a atualização de suas páginas. Desse modo, todo relato deve ser, indispensavelmente, datado.
No caso do blog “November Rain” (http://www.november_rain.blogger.com.br), por exemplo, a data é apresentada na seqüência dia da semana, dia do mês, mês e ano, na primeira linha do relato. Ao final do post a autora termina “Direto do túnel do tempo às [horas:minutos:segundos]. O blog “Serial Kissers” (http://toxicandys.weblogger.terra.com.br), segue a mesma forma no início dos relatos. Por se tratar porém de um blog coletivo, isto é, composto por relatos de membros de um grupo, os “posts” são assim finalizados: por [nome do membro do grupo que escreveu, às horas:minutos:segundos.
Comparando os blogs aos diários tradicionais, que não precisavam de uma marcação temporal tão exata, Komesu (2004, p. 115) conclui: “a velocidade da comunicação deve ser justificada e apresentada nos caso em que a produção textual é vinculada à eficiência desse traço para o consumo do produto em sua visibilidade mercadológica”. Podemos, portanto, afirmar que os blogs são gêneros intensamente afetados pelas realidades da economia globalizada em que a velocidade da informação, muitas vezes, determina o interesse do leitor por determinado texto. No dizer da autora, “o importante é que as histórias circulem e ocupem o espaço da rede”(2004, p. 118).
É válido também destacar que, ao contrário do tempo, o espaço não é fator relevante na escrita dos blogs. Um blog, em princípio, pode ser atualizado de qualquer computador, o que, de início, descarta a exigência da permanência física do autor em um ponto geográfico específico ou a sua menção nos textos, a menos quando o fato relatado o exige. Komesu (2004, p.117) apresenta a seguinte explicação: “a ausência dessa referência explícita indica o momento em que o escrevente “sai” do lugar físico para constituir-se num outro espaço, na virtualidade do trabalho da (sua) escrita e na integração com os recursos semiológicos”.
Outro fator bastante relevante no caso dos blogs é a questão da interatividade. Para o autor do textos é importante que seu relato seja comentado, isto é, que o leitor, ao acessar a sua página, não apenas leia suas confidências, mas registre as suas impressões a respeito do que leu. No dizer de Komesu (2004, p.117), esse tipo de texto “coloca em evidência as mais diversas questões humanas para que sejam lidas e discutidas pelo Outro”.
Vê-se, portanto, que o blog é uma modalidade de texto eletrônico, carregado de características relacionadas ao hipertexto e aos gêneros textuais vinculados à Internet, mas também dotado de aspectos bastante particulares, que exige algumas especialidades por parte do leitor. É a respeito dessa relação do leitor com o texto eletrônico, especificamente, com os blogs, que passaremos a tratar.

4 Os blogs e a interação leitor-texto eletrônico no contexto da Internet

Com o advento das formas de comunicação mediada pelo computador, principalmente após a ampliação do acesso à internet pelos usuários de microcomputadores, muitas questões têm surgido a respeito do comportamento do leitor diante de textos que têm por suporte os ambientes eletrônicos e do futuro dos atuais meios de publicação de textos. Para alguns, a internet parecia ameaçar a formação dos leitores e acenar para o fim dos livros.
O que procuraremos abordar são as mudanças de comportamento frente a essa nova maneira de ler textos e alguns pressupostos para a prática da leitura competente na web, principalmente no caso dos blogs, a partir da situação instaurada pela existência de leitor navegador que “tem o mundo ao alcance do clique do mouse” (ALMEIDA, 2003, p.34)
Pensando a questão da leitura em sua perspectiva histórica, Roger Chartier (2002) nos recorda do papel que o texto escrito tem desempenhando em nossa sociedade. A atual geração é fruto de uma cultura que tinha muito clara a imagem do livro enquanto objeto visível: conjunto de páginas encadernadas, com nome do autor e características afins. As alterações do comportamento do leitor ocasionadas pelo texto eletrônico são apontadas pelo autor como sendo referentes à ordem dos discursos, ordem das razões e à ordem das propriedades.
Quanto à ordem dos discursos, essas alterações referem-se, em primeiro lugar, ao suporte dos textos. Se na mídia impressa tradicional os suportes variavam de acordo com o texto. No âmbito da mídia impressa, por exemplo, um caderno de receitas, quanto ao seu aspecto físico, inclusive, diferenciava-se de uma enciclopédia. Também a revista, o jornal, o panfleto de propaganda podem ser facilmente diferenciados por sua aparência quando em meio impresso. Com relação a essas realidades, é tmabém bastante pertinente o dizer de Kato:
Já em ambiente eletrônico não há como fazer a diferenciação do tipo de texto por meio do seu suporte. Como destaca Chartier (2002, p. 22), é “um único aparelho, o computador, que faz surgir diante do leitor os diversos tipos de textos tradicionalmente distribuídos em objetos diferentes”.
No caso dos blogs, há uma total ruptura com o objeto físico que constituía-se o portador dos diários pessoais escritos, muitas vezes dotados de fecho e chave. Os diários da internet, por sua vez, encontram-se expostos aos olhos do público, sem chave ou cadeado. Por outro lado, embora a tela do computador seja a mesma, as novas tecnologias de construção de páginas na internet tem permitido ao leitor diferenciar as variedades de textos que circulam pela internet a partir de suas características visuais.
Uma outra questão relativa à ordem dos discursos diz respeito à percepção da unidade semântica e temática da obra. A tela do computador, permite a leitura de forma fragmentada, a partir do mapeamento das unidades temáticas e das palavras chaves, de acordo com o interesse do leitor. Isso faz com que o mundo digital, por vezes, funcione como “um banco de dados que procuram fragmentos cuja leitura absolutamente não supõe a compreensão ou percepção das obras em sua identidade singular” (Chartier, 2002, p. 22). Entretanto, é preciso que se destaque que essa seletividade em procurar no interior da unidade textual o fragmento que atenda aos objetivos daquele momento de leitura, pode acontecer também com o texto impresso, dependendo, principalmente, da maturidade do leitor. Isto é, um leitor competente, conforme os objetivos que estejam motivando a sua leitura, não está obrigado a ler a obra em sua totalidade, podendo percorrer as páginas com os olhos, em busca da seção em que se encontre o fragmento que lhe atenda as necessidades imediatas.
Chartier (2002) sintetiza os aspectos pertinentes à ordem dos discursos, afirmando que essa nova realidade de leitura constitui-se como parte de uma tríplice revolução que envolve a modalidade técnica de produção do escrito, a percepção das unidades textuais e as estruturas e formas dos suportes da cultura escrita. Tais revoluções, como não poderia deixar de ser, inquietam e angustiam alguns leitores, pois lhes impõem também certas exigências derivadas de uma mudança da forma de manejar e descrever as categorias que, ao longo da história, consagraram-se como referências da cultura escrita.
No que concerne à ordem das razões, o mesmo autor as concebe como sendo “as modalidades da argumentação e os critérios ou recursos que o leitor pode mobilizar para aceita-las ou rechaça-las” (2002, p. 24). Entre os aspectos envolvidos nessa questão está o rompimento com lógica linear e dedutiva. O hipertexto em sua multiplicidade de links permite criar outras lógicas igualmente claras, porém abertas e não-lineares como ocorria com o texto escrito. Outra consideração relevante refere-se às provas que atestam as condições de verdade de uma determinada argumentação. Na Internet, qualquer demonstração pode ser verificada a partir do recurso aos diversos conteúdos digitalizados que circulam na rede. Para Chartier (2002, p. 25) ocorre, portanto, “uma mutação epistemológica que transforma as modalidades de construção e créditos dos discursos do saber”. Tal fato exige, por conseguinte, um leitor que não se constitua como mero receptáculo das informações veiculadas pelo texto eletrônico, mas que questione o texto, a si próprio e realidade que o cerca e, de forma seletiva, angarie elementos que lhe permitam julgar a validade e adequação dos conteúdos que irá consumir.
Já quanto à ordem das propriedades, Chartier refere-se a um sentindo jurídico, que remete a questões ligadas à propriedade intelectual e a um sentido textual, referente à manutenção das características originais do texto, já que o texto da internet é uma produção aberta, sujeito a mecanismos que permitem mover, recortar, colar e alterar um texto que circule nessa grande teia mundial. Como solução a esse embate que envolve não só questões financeiras referentes aos direitos proprietários de autores e editores, mas também a manutenção da identidade dos textos e os direitos morais de quem o escreveu, o autor menciona a possibilidade da definição de dois aparelhos como suporte de textos. Ao computador para os textos abertos, maleáveis, gratuitos e o e-book para aquelas obras resultantes de um trabalho editorial e, por isso, fechados.
Centrando um pouco mais nosso foco nos procedimentos do leitor, devemos considerar que o texto eletrônico não apenas encontra-se em um suporte particular, mas também, constitui-se pela conjugação de formas de linguagem interferem no sentido a ser atribuído pelo leitor ao objeto lido. A esse respeito afirma Xavier (2004, p. 117) “vemos emergir uma nova tecnologia de linguagem cujo espaço de apreensão de sentido não é apenas composto por palavras, mas junto com elas, encontramos sons gráficos e diagramas, todos lançados sob uma mesma superfície perceptual, amalgamados uns sobre os outros formando um todo significativo e onde os sentidos são complexamente disponibilizados aos navegantes do oceano digital”.
Desse modo, conforme temos ressaltado, o navegante depara-se, nesse oceano, com textos de naturezas diversas cujos sentidos devem ser atribuídos. Da mesma forma que na leitura impressa, ler na tela implica em mobilizar habilidades diferentes para os vários tipos de discurso da qual ela é suporte, situação que não é diferente com os blogs.
Por sua modalidade supostamente subjetiva, os blogs podem, muitas vezes, passar por textos fúteis e ingênuos aos quais não se dá muita importância. Entretanto, enquanto modalidade textual do mundo digital e produto da interação entre os seres humanos, também a leitura dos blogs carece do olhar atento de um leitor competente. O que passamos a fazer, a partir deste ponto, é procurar relacionar algumas características do leitor competente à construção de sentidos nos blogs. Como se poderá perceber, não se trata de habilidades novas, visto que as mesmas fazem-se necessárias à leitura de outras modalidades de texto eletrônico, bem como à quase totalidade dos textos impressos.
Principiando pelos conhecimentos prévios, esses são essenciais à leitura de blog. O leitor da internet, ao deparar-se com blog, deve conhecer o uso específico da linguagem que é praticado no ambiente virtual, uso ao qual adere a maioria dos adolescentes. Nessa forma de linguagem, há um rompimento com os preceitos da gramática normativa, tanto no que se refere à sintaxe quanto à grafia das palavras. Esse fato precisa ser entendido pelo leitor não como um desvio por ignorância da norma padrão, mas como uma forma de manter a identidade com um determinado grupo que na internet escreve dessa forma. Vejamos alguns exemplos:

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

FaLa feRas! aNos seM posTar néaM? xD normaLx!
entOOn! eo viM boTa umas fOta pra aLegra iSso! HOISUhoISUhsoiuh!
aLtas foTos ki nÓis tiRo por eSsis dias aeh okaY?
aS pRemeras saOm do xuRRas di niVer du Don, du Felipe i desPediDa do gabRiel!
foi beM lekaOoo! xDDDDDD
eO + viH

(http://toxicandys.weblogger.terra.com.br/)

sexta-feira, 30 de julho de 2004

Ahhhh...foi uma das ferias mais paradas q eu jah tive...
d boa...num foi boa nem um poko....
tenho q me acostumah ...
loanda eh uma bosta msm...
oIUXSHoIUHXS....
hj eu fui no rotary...vixi...moh comehdia....
imagina soh neh...eu a aline o bruno e a juliana....foi soh pra dah risada....
ah mais entaum eh isso galera...
um abraçaum...

(http://hellmessenger.weblogger.terra.com.br/index.htm)

Os exemplos anteriores atestam a ruptura que mencionamos com a sintaxe a ortografia em favor de um sistema próprio que caracteriza, principalmente, a produção dos adolescentes e que exige do leitor uma competência diferenciada quanto ao funcionamento da linguagem. Sem essa familiaridade com a peculiaridade da escrita, torna-se impossível a primeira das etapas do processo de leitura, a decodificação, sem a qual não se pode chegar à interpretação.
Quanto ao conhecimento textual, o leitor competente precisa ter noções do funcionamento de um diário tradicional enquanto registro das atividades desenvolvidas em um dado período de tempo, em uma estrtutura tipicamente narrativa, sem, contudo, esperar que a modalidade eletrônica contenha relatos de foro um tanto mais íntimo do autor. Esse tipo de confidência aparece com pouco freqüência nos blogs, que se resumem basicamente ao relato de fatos corriqueiros e, raramente, algumas situações um pouco mais complexas, referentes aos sentimentos de seu autor. Além disso, da mesmo forma que o autor dos blogs não se mantém fiel às regras do sistema lingüístico, o leitor não deve esperar o respeito aos detalhes mais complexos à estrutura da narrativa, principalmente no que se refere ao uso mais especializado dos conectivos que assinalam a progressão do texto.
Também faz parte dessa modalidade de conhecimento prévio a noção das possibilidades de leitura propiciadas pelo hipertexto. O leitor competente deve saber que não é obrigado a ler linearmente o texto do blog. Ao contrário, por meios dos links que vão aparecendo ao longo do texto, o sujeito em questão tem a possibilidade de ir e vir dentro do texto escrito, construindo sua própria seqüência de leitura e, a partir da organização lógica dessas interrelações, construir os sentidos do texto mencionado.
O conhecimento lingüístico necessário à compreensão do blog extrapola os limites do verbal. O leitor deve também conhecer elementos não-verbais que se fazem presentes nesses textos e que interferem em sua compreensão, como por exemplo os emoticons . A presença de um emoticom após o relato de um determinado fato, por exemplo, pode determinar o significado que tal acontecimento assumiu para o autor do relato. A esse respeito, é válida a posição de ARAÚJO (2004, p. 106): “o uso da imagem, complementando ou não a mensagem escrita, está sempre associado à negociação do sentido”.
No que concerne ao conhecimento de mundo, o leitor deve servir de um repertório dos gostos e preferências dos adolescentes e das relações identitárias constituídas entre os diversos grupos. Isso implica, entre outras coisas, no conhecimento de alguns termos, marcas e personalidades vinculados à mídia, principalmente às produções vinculadas a esse público e que, muitas vezes, são mencionados em seu texto. Decorre desse fato a necessidade de o leitor estar sempre atualizado quanto aos textos que circulam socialmente.
Esse mesmo leitor precisa também do domínio do conhecimento de mundo do tipo enciclopédico a respeito do funcionamento dos aplicativos que dão a acesso à internet (Internet Explorer, Netscape Navigator, Mozzila, Firefox,entre outros) e das possibilidades de navegação que cada um permite, a fim de facilitar a sua navegação pelo texto, permitindo explora-lo melhor.
Há, portanto, uma complexa variedade de formas particulares do conhecimento prévio que acionadas conjuntamente levam à compreensão mais ampla dos sentidos do texto. Entretanto, em se tratando do leitor competente, é preciso deixar claro que, mesmo sem dominar tais conteúdos, o mesmo pode, através de inferências, antecipações e previsões, dar continuidade ao processamento do texto, desde que procure, conforme o lê, verificar a adequação de suas antecipações e deduções aos sentidos possíveis do texto.
O leitor competente deve também saber reconhecer a argumentatividade que permeia tais relatos. Um dos desejos de quem constrói um blog é de que ele seja bastante visitado e que os usuários postem seus comentários. Sendo assim, há necessidade por parte dos autores de parecerem convincentes aos olhos do leitor e, assim, induzi-lo a continuar lendo, cotidianamente, os relatos que escreve em seu blog. O leitor competente precisa reconhecer nesses textos a marca da sociedade de consumo e, assim, distinguir até que ponto os fatos relatados estão funcionando como chamariz de futuros acessos. Da mesma forma, as chamadas para inserção de comentários, devem ser vistas por esse leitor como uma forma de seduzi-lo a escrever. A competência leitora, manifesta-se quando o leitor pára e analisa esses aspectos, antes de ir, aleatoriamente, deixando-se seduzir por tal argumentatividade, pois a leitura crítica pressupõe a liberdade de aderir ou não à vontade daqueles que tentam, por meio da linguagem, agir sobre o seu comportamento.
Essa avidez em cativar o leitor é também fruto do caráter capitalista que permeia as condições de escrita dos blogs. No contexto específico da internet brasileira, tais diários são armazenados de forma gratuita por provedores de internet que adicionam ao redor desses textos barras verticais, horizontais e pop-ups com propagandas de seus patrocinadores. Seguindo a lógica imposta pelo mercado de que é necessário dar visualidade máxima a uma marca a fim de que o produto seja consumido, os blogs com poucos acessos estão, indubitavelmente, fadados a perderem seu espaço na rede, já que não estão cumprindo a sua parte no negócio que é justamente e de atrair os olhos do leitor para os reclames do patrocinador.
Antes de passarmos à suposta conclusão deste trabalho, cabe-nos ainda destacar uma questão muito discutida quando se trata do hipertexto e dos gêneros textuais que dele derivam. Trata-se da questão da liberdade do leitor.
Sendo o hipertexto essencialmente não-linear e tendendo a possibilidade da existência dos links a quantidades infinitas, pode-se correr o risco de pensar na existência de um leitor onipotente que, valendo-se dos links do hipertexto, produza sua leitura sem limitar-se a limites impostos pelo autor na escrita do texto.
Mais do que isso, essa liberdade infinita do leitor, faria dele um novo autor, visto que ele construiria para si, a medida em que fosso navegando, um novo texto. A esse respeito somos favoráveis ao que afirma Possenti (2002, p.220): “supor que o hipertexto é o reino do leitor, é supor que no livro o autor decide tudo”. Sendo assim, o leitor competente, deve perceber que não é totalmente livre ao construir as trilhas de sua leitura do hipertexto, mas encontra-se limitado aos links estabelecidos pelo autor, cabendo ao leitor, inclusive, questionar-se a respeito das intenções do autor ao selecionar os links que criou.

5 Considerações Finais

Ao longo destre trabalho procuramos evidenciar a importância da leitura e dos leitores competentes para a interpretação e organização da vida social, principalmente para uma sociedade que tem assistido à proliferação de inúmeras tecnologias que ampliam e facilitam os mecanismos de informação e comunicação.
Essa realidade das novas tecnologias que tem o computador e a internet como ícones máximos, conforme apresentamos, não subverte totalmente os conceitos de leitura, texto e leitor competente, mas confere características peculiares derivadas das especificidades do ambiente eletrônico,
A leitura continua sendo prática social de atribuição de sentidos pelo um leitor a partir das marcas lingüísticas do texto e do seu conhecimento prévio. O texto a ser lido porém não é mais linear e nele não se encontram apenas elementos verbais, mas uma multiplicidade de semioses tais como sons e imagens. Por sua vez, o leitor precisa ampliar as suas competências e adapta-las à realidade do texto eletrônico em suas especificidades.
Sendo assim, sem ousar afirmar que nada há de inédito na leitura do texto eletrônico, mas sem também vislumbrar a total reformulação dos conceitos, somos levados a falar em uma ampliação das competências do leitor. Isto é, o leitor do texto eletrônico deve adaptar e, em alguns casos, especializar as competências que já dispunha para leitura do texto impresso às exigências que demandam a leitura da tela, mantendo, para isso, o princípio básico da leitura competente que é a criticidade.
Portanto, mesmo em se tratando dos blogs, modalidade textual por muitos tida como ingênua, a presença de um leitor competente, munido das especializações que o texto exige, ressignifica esse horizonte de sentidos a serem atribuídos, desvendando, entre outras coisas, a presença de um ideologia capitalista, que leva os indivíduos a, muitas vezes, fazer do consumo imediato, contabilizado a partir do número de acessos, a única razão para a publicação de seus textos na internet.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALMEIDA, R. Q. O leitor navegador (I). In: SILVA, E. T et al. A Leitura nos Oceanos da Internet. São Paulo: Cortez, 2003. p. 32-38.

ARAÚJO, J. C. A conversa na web: o estudo da transmutação em gênero textual. In: MARCUSCHI, L.A. XAVIER, A. C (orgs). Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 91-109.

C AVALCANTE, M. C. B . Mapeamento e produção de sentido: os links no hipertexto. MARCUSCHI, L.A. XAVIER, A. C (orgs). Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 163-169.

CHARTIER, R. Os Desafios da Escrita. (Tradução de Fulvia L. Moreto). São Paulo: Editora da UNESP, 2002.

DEL’ISSOLA, R. L. P. A interação sujeito-linguagem em leitura. In: MAGALHÃES, I. As Múltiplas Faces da Linguagem. Brasília, UNB, 1986. p. 67-85
KLEIMAN, A. Texto e Leitor: aspectos cognitivos da leitura. 5ed. Campinas: Pontes, 1987.

_____. Oficina de Leitura: teoria e prática. 5 ed. Campinas: Pontes, 1997b.

KOMESU, F. C. Blogs e a prática da escrita sobre si na internet. In: MARCUSCHI, L.A. XAVIER, A. C (orgs). Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 110-119.

GALLI, F. C. S. Linguagem da Internet: um meio de comunicação global. MARCUSCHI, L.A. XAVIER, A. C (orgs). Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 120-134.

GIVE YOUR BODY TO ME. Disponível on-line em <http://hellmessenger. weblogger.terra.com.br/ index. htm>. Acessado em 08-08-2004.

GOULEMOT, J. M. Da leitura como processo de produção de sentidos. In: CHARTIER, R. (org).Práticas de Leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. p. 107-116.

MARCUSCHI, L. A. O hipertexto como um novo espaço da escrita em sala de aula. In: AZEREDO, J. C. (org.) Língua Portuguesa em debate: conhecimento e ensino. 3ed. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 87-111.

_____.Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, L.A. XAVIER, A. C (orgs). Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 13-67.

2002

MENEGASSI, R. J. MORAIS, M. J. L. Leitura Crítica: aspectos da formação e do desenvolvimento do leitor. Uniletras. n.24 Ponta Grossa: UEPG, 2002.

MEURER, J. L. Compreensão da linguagem escrita: aspectos do papel do leitor. In: BOHN, I. VANDRESSEN. (orgs) Tópicos de Lingüística Aplicada. Florianópolis: UFSC, 1988.

PIK STOP. Disponível on-line em < http://www.vevianos60.blogger.com.br>. Acessado em 24-10-2004.

POSSENTI, S. Os limites do discurso. Curitiba: Criar, 2002.

SOLÉ, I. Estratégias de Leitura. 6ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

TOXY CANDYS. Disponível on-line em < http://toxicandys.weblogger.terra. com.br/>. Acessado em 07-09-2004.

XAVIER, A. C. Leitura, Texto e Hipertexto. MARCUSCHI, L.A. XAVIER, A. C. Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 170-180.

 
Voltar