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  CRIANÇAS INDÍGENAS DA ALDEIA ÁGUA BONITA: EDUCAÇÃO TRADICIONAL E CULTURA URBANA.

José Manfroi - Universidade Católica Dom Bosco/UCDB

Um número significativo de índios das diversas etnias que compõem o MS (Guarani/Kaiowá, Terena, Kadiwéu e Guató), por necessidades múltiplas, tem vindo para Campo Grande, em busca de alternativas de sobrevivência para si e para as suas famílias. A pesquisa analisa o impacto da cultura urbana e da escolarização sobre as crianças da aldeia Água Bonita, que freqüentam uma escola pública municipal de periferia. Através de observações, questionários, entrevistas e atividades pedagógicas (grupos focais) a pesquisa busca identificar o nível de impacto da diversidade cultural urbana sobre a educação indígena. Objetiva também avaliar o projeto pedagógico e a percepção da comunidade escolar sobre essa nova realidade.

Esta comunicação é resultado parcial de uma pesquisa em andamento que se propõe analisar o impacto que a cultura urbana e a escolarizaçaõ provocam na educação de crianças indígenas. Debruça-se sobre a realidade de crianças indígenas que vivem na aldeia urbana Água Bonita e freqüentam a Escola João Cândido de Souza, da rede municipal na periferia norte de Campo Grande, capital do MS. A pesquisa analisa do ponto de vista da diversidade cultural escolar, como é tratada a diferença e o impacto causado na cultura e na educação indígena. Como estão sendo tratadas na sua singularidade cultural? O currículo, os conteúdos, o material didático, o projeto pedagógico, contemplam as diferenças? São questões que aos poucos vão sendo desvendadas no trabalho.

A pesquisa se insere na linha três do Programa de Mestrado em Educação, denominada “Diversidade Cultural e Educação Indígena” que se propõe estudar o fenômeno cultural contemplando questões que permeiam as relações entre educação, cultura, multiculturalismo e interculturalidade, como dimensão epistemológica, tendo como referência, entre outras, a realidade das comunidades indígenas”(Programa da Linha 03, 2004).

Por necessidades múltiplas, um número significativo de índios das diversas etnias que compõem o MS (em especial Guarani/Kaiowá, Terena, Kadiwéu,) tem vindo para Campo Grande nestes últimos anos, buscar alternativas de sobrevivência para si e para a sua família. Por um tempo ficaram espalhados na periferia da cidade. Os poderes público municipal e estadual, por sugestão de Ongs e Universidades que apóiam a causa indígena, construiu conjuntos habitacionais urbanos, específicos para descendentes destas etnias. Entre eles encontra-se a “aldeia urbana” Água Bonita, situada na região do Anache e Nova Lima, com 60 casas, abrigando 70 famílias, somando aproximadamente 300 pessoas, das quais, mais de 100 são crianças. Formou-se assim um grupo humano multi-étnico, pois abriga membros de várias etnias: Terena, Guarani/Kaiowá, Kadiwéu provenientes de várias aldeias do MS. Nesta região, existem três escolas, de ensino fundamental, freqüentadas pelas crianças de Água Bonita, no período matutino e vespertino. Duas são municipais: Escola Nazira Anache e a Escola João Cândido de Souza , ambas no bairro Jardim Anache, e uma Estadual: Escola Lino Villachá, no bairro Nova Lima. A pesquisa em andamento pontuada nesta comunicação, analisa a realidade das crianças que freqüentam o ensino fundamental na Escola Municipal João Cândido de Souza, no bairro Jardim Anache, que, devido a proximidade e viabilidade física, absorve 80% das crianças indígenas em idade escolar.

Além de analisar o impacto cultural sofrido pelas crianças indígenas de Água Bonita na Escola Municipal João Cãndido de Souza, a pesquisa procura observar e identificar as diferenças culturais presentes nas salas de aula, nas relações sociais, de modo especial quanto à aproximação e rejeição das crianças indígenas com os demais colegas nas diversas atividades pedagógicas, analisa o currículo e a prática escolar, no que se refere à preocupação com a diversidade cultural e a interculturalidade, identifica as mudanças mais substanciais que a cultura urbana e a escola não-diferenciada provocam nos valores, crenças, costumes tradicionais das crianças, registra junto com os pais das crianças, o que elas desaprendem ou deixam de aprender da cultura indígena específica (Terena, Guarani ou Kadiweu) por estar numa realidade urbana e numa escola multicultural; Tem preocupação em Identificar os elementos da cultura tradicional, que apesar da realidade cultural urbana e do encontro de culturas através da sala de aula, permanece forte nas crianças indígenas de Água Bonita.

A interculturalidade na educação escolar, tem hoje, uma atenção e produção acentuada de pedagogos, historiadores, antropólogos, sociólogos atentos aos impactos e mudanças que acontecem ou não acontecem nos encontros de culturas diferenciadas. Entre muitos outros podemos destacar os que tem sido de maior referência: Stuart Hall, com um trabalho sobre “Identidade cultural na pós-modernidade” (2003); Boaventura de Souza Santos que juntamente com Inês Barbosa de Oliveira e outros, procuraram entender as “Redes culturais, diversidades e educação” (2002); Henry Giroux, preocupado com as novas políticas em educação, escreve um texto que é básico para nosso trabalho de observação neste projeto “Redefinindo as fronteiras da raça e da etnicidade: além da política do pluralismo” (1999); Tassinari, A.M.I. com o texto “Escola indígena: novos horizontes teóricos, novas fronteiras da educação” (2001) chama atenção com este texto, para novas categorias para dar conta da análise desta realidade cada vez mais complexa e intrincada; Jurjo Torres Santomé, no texto “as culturas negadas e silenciadas no currículo” (1995) e Jean-Claude Forquin em “Escola e cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar” (2002) nos fornecem algumas chaves de leitura da grade curricular num embate de culturas dominantes e culturas subservientes. Temos ainda Aracy Lopes da Silva e Mariana K. L. Ferreira com uma obra de antropologia dedicada à educação indígena“Antropologia, história e educação: a questão indígena e a escola” onde, além da análise teórica, apresentam e discutem projetos alternativos de autonomia e educação indígena. Pelos acima citados podemos perceber, que a fundamentação teórica é extensa e muito rica.

Perseguindo a resposta às perguntas levantadas por esta pesquisa, concordamos com Minayo (1994) que a metodologia é o caminho do pensamento e a prática exercida no estudo de uma realidade e este caminho “inclui as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a construção da realidade, e a criatividade do pesquisador” que se necessário, deve fugir da regra ou da técnica projetada para buscar outros caminhos advindos da intuição. Isto porque “ [...] a realidade social é o próprio dinamismo da vida individual e coletiva com toda a riqueza de significados dela transbordante. Essa mesma realidade é mais rica que qualquer teoria, qualquer pensamento e qualquer discurso que possamos elaborar sobre ela [...]. Esta fala se aplica diretamente à nossa pesquisa. Na análise do impacto cultural que a escola e a cultura urbana tem sobre as crianças indígenas procuramos teorias e instrumentos de “aproximação” para este entendimento, na certeza, que é sempre uma análise “incompleta, imperfeita e insatisfatória”.

Após o estudo da realidade sócio-cultural do bairro, da análise dos grupos étnicos presentes na Escola João Cândido de Souza, da análise da grade curricular e dos procedimentos didáticos dos professores, da aplicação de questionário com os alunos indígenas, da observação das crianças indígenas em aulas em diversas séries, na relação com outras crianças nos horários de “recreio”, nos jogos, nas atividades de grupo, na sala de informática, no caminho para casa, na convivência com os familiares e crianças no própria aldeia urbana de Água Bonita, chegamos a algumas conclusões provisórias:

A Proposta Pedagógica da Escola João Cândido de Souza em nenhum momento específico, fala a respeito da cultura indígena, não contempla as suas necessidades básicas culturais, e quando o tema é trabalhado é por iniciativa de algum professor, na qual podemos citar a professora de artes, que trabalhou em uma de suas aulas, falando um pouco dos desenhos e pinturas Kadiweu.

Algumas crianças Guarani/Kaiowá falam a sua língua em casa com seus pais e com outras crianças Guarani. Mas as crianças da etnia Terena, não falam e entendem muito pouco a sua língua. As crianças Kadiweu e Guató ainda entendem mas não falam a língua materna. Há um deslocamento sociolingüístico. Isso acontece quando, em situações de bilingüísmos, a língua dominante vai, pouco a pouco, ocupando o território comunicativo da língua dominada.[...] (RCNEI, p. 118).

As crianças que moram na Aldeia Urbana Água Bonita estão brincando com outras crianças não índias, esquecendo com isso as brincadeiras de sua cultura. Mesmos gostando das brincadeira que sua etnia vem passando de geração para geração, de pais para filhos, não estão tendo mais com quem brincar.

Perguntado às crianças se traziam alguma coisa de sua cultura para escola, todos responderam que não trazem nada pois a escola não estimula e nem oferece espaços para trazerem alguma coisa de sua cultura. O currículo da escola não abre oportunidades para serem inseridos novos conhecimentos. É um processo fechado, pré-construido e é aplicado em toda a rede municipal de educação a mesma proposta pedagógica .

Sendo perguntadas se já foram ofendidas, magoadas ou xingadas por serem crianças indígenas, 63% responderam que sim e 37% responderam que não. Nas conversas individuais comentam que o índio ainda é ofendido, xingado por ter uma identidade cultural diferenciada. Nas brincadeiras, nos jogos de quadra, no ônibus são os lugares onde mais acontece. A escola até o momento não tem um projeto de ação pedagógica interna que venha diminuir esta discriminação. As crianças indígenas, quando podem, evitam dizer ou se apresentar como criança Guarani, Terena, Guató ou Kadiwéu.

Analisando os questionários aplicados pode-se verificar que os alunos indígenas inseridos na 7ª série “B” da Escola João Cândido de Souza, percebem que é importante para eles estarem na escola, gostam da escola, de estudar, brincar, estão em busca de novos conhecimentos para a sua vida, mas estão passando por um processo de aculturação, não estão sendo contemplados com um currículo apropriado à sua cultura indígena.

Silva R. (2004, p. 60) em pesquisa realizada na mesma escola observou “em sala de aula que os alunos indígenas não tem nenhum tratamento diferenciado, sua cultura raramente é citada, e quando é não corresponde com suas expectativas e necessidades básicas de cultura indígena, a multiculturalidade não é trabalhada de forma adequada com projetos ou ações pedagógicas que englobe de forma sistemática a cultura dos povos indígenas brasileiros”.

O impacto cultural nas crianças indígenas da Aldeia Urbana Água Bonita, tem outros desdobramentos no campo das relações familiares, das relações entre as crianças das diferentes etnias, no campo das relações com as crianças dos bairros próximos, nas perspectivas profissionais e de trabalho futuro. Se em suas aldeias de origem, está sendo difícil cultivar suas raízes, na periferia de uma cidade grande, é um desafio quase intransponível.

Na fase em que está a pesquisa encontramos mais perguntas que respostas. Há um longo caminho a percorrer.

REFERÊNCIAS:

CANDAU, Vera Maria. (org.) Sociedade, educação e cultura: questões e propostas. Petrópolis: Vozes, 2002.

CARVALHO, Marília Pinto de. No coração da sala de aula: gênero e trabalho docente nas séries iniciais. São Paulo: FAPESP/XAMÃ, 1999.

FORQUIN, Jean-Claude. Escola e Cultura: As bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artmed, 2000.

GIROUX, H. Cruzando as fronteiras do discurso educacional – novas políticas em educação. Porto Alegre: Artmed, 1999.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
MINAYO, Maria Cecília de Souza (org.) Pesquisa Social: Teoria, método e criatividade. Petrópolis: Vozes, 1994.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez/Unesco, 2000.
NELSON, Cary et al. Alienígenas na sala de aula: uma introdução aos estudos culturais. Petrópolis: Vozes, 1995.

PERRENOUD, Philippe. A pedagogia na escola das diferenças: fragmentos de uma sociologia do fracasso. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2001.

SÁNCHEZ, Aurélio Villa; ESCRIBANO, Elena Auzmendi. Medição do autoconceito. Bauru: EDUSC/INEP/COOMPED, 1999.

SANTOS, Boaventura de Souza. O fim das descobertas imperiais. In: OLIVEIRA, Inês Barbosa de; SGARB, Paulo (Orgs). Redes culturais, diversidades e educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

SILVA, Aracy Lopes da; FERREIRA, Mariana Kawall Leal (Orgs.) Antropologia, história e educação: a questão indígena e a escola. São Paulo: FAPESP/MARI, 2001.

SILVA, José Renato de Souza e. Diversidade Cultural e Proposta Curricular: uma análise à partir das crianças indígenas da 7ª série B, da Escola João Cândido de Souza.

(monografia ) Curso de Pedagogia, Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande/MS, 2004.
SOUZA, Yvone Costa de. Crianças Negra - deixei meu coração embaixo da carteira!. Porto Alegre: Editora Mediação, 2002.

 
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