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  REPRESENTAÇÃO DE PRÁTICA DE LEITURA NOS CONTOS MACHADIANOS

Roseni Ronchezelli Mariano

Este pequeno texto pretende mostrar representações de atos de leitura realizados pelas mulheres dos contos de Machado de Assis como uma forma de lazer, mas também de exclusão, visto que, a minoria da população neste tempo (final do século XIX) não freqüentava a escola, portanto, não sabia ler.

O lazer aqui pode ser caracterizado como um espaço de tempo em que a pessoa pode se dispor, ocupando-o com atividade não produtiva, ou seja, o ócio.

Uma das formas de lazer caracterizada pelas mulheres dos contos machadianos, além de bordar, tocar piano, é a leitura, leitura esta realizada pelas mulheres de classe social mais favorecida, pois esta atividade demanda tempo para aprender e isto significa que o indivíduo precisa dispor de um período que não seja com atividade produtiva para adquiri-la.

As atividades voltadas à educação das mulheres neste período, podem ser caracterizadas como lazer por justamente precisar dispor de um tempo para aprender.

Faz parte da educação do sexo feminino do final do século XIX tocar piano, ler, escrever, fazer renda, crivo, bordar e dominar todos os outros afazeres relacionados ao funcionamento da casa.

Assim, tocar piano para distração ou para os outros, ler para distrair-se, fazer rendas, serão hábitos constantes na vida das mulheres em todos os períodos aqui analisados.

As mulheres que não possuíam condições econômicas boa, como é caso de agregadas, dependiam exclusivamente de alguém para ensinar-lhes a ler, escrever, como é o caso da personagem Lalau, uma agregada de D. Antonia, dona da Casa Velha (uma espécie de fazenda em que incorporava uma igreja e serviçais).

Lalau vivia junto com uma tia, em uma casa próxima à fazenda de D. Antônia, porém estava sempre na fazenda.

Quase se podia dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e onde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, exercia um ofício mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, Benedita Soares, era filha de um escrivão da roça [...]

D. Antônia cuidou de completar a educação; sabia ler, escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda (ASSIS, 1997b: 19). – Casa velha

A educação feminina era um diferencial quando a pessoa possuía dinheiro para sustentar-se no ócio. Quando era dada informalmente por alguém do convívio, era sinal de que a pessoa que a estava recebendo não possuía capital suficiente para viver na ociosidade.

Observemos agora a seguinte citação:

D. Antonia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a ir comigo – (ASSIS, 1997b: 13). – Casa Velha

Nota-se que o indivíduo possuidor de capital, também possui o objeto: livro, ou seja, ele é capaz e pode gastar o seu dinheiro com outras coisas, como este objeto, que não seja próprio de sua alimentação.

Os dois próximos fragmentos relatam atos de leitura realizados pelas personagens femininas.

São onze horas da manhã.

D. Augusta Vasconcelos está reclinada sobre um sofá, com um livro na mão. Adelaide, sua filha, passa os dedos pelo teclado do piano (ASSIS, 1997b: 93). – Segredo de Augusta

A personagem D. Augusta possui uma situação econômica muito boa e favorável para o lazer. Seu marido não trabalha, vivem de uma fortuna e, tanto Augusta quanto o marido só gastam. O tempo que ela possui é gasto com a atividade de lazer: leitura.

É bom lembrar que Machado ao retratar mulheres lendo, de certa forma também faz a crítica ao romantismo ao descrever as mulheres como sonhadora, romântica, frágil, “bobas”, que sempre esperam por um príncipe encantado.

– Vá, vá, acudiu a baronesa, levantando os olhos do livro. O coronel está ansioso por jogar, e é uma fortuna, porque veio da roça insuportável, e não me deixa ler... (ASSIS, 1997b:49). – Casa Velha

O fragmento acima revela que mesmo um indivíduo possuidor de títulos como baronesa, a atividade de leitura é uma das poucas práticas de lazer que podem ser realizadas pelas mulheres.

A prática de leitura como atividade de lazer não só é realizada pelo sexo feminino de classe favorável como é pode ser uma atividade excludente visto que a minoria da população não vai à escola, portanto, não realiza esta atividade. O próprio personagem Macedo do conto Mariana, após de passado 15 anos na Europa volta ao Rio de Janeiro e comenta que “a casa de modas faz mais negócio que o jornal. Não me admira; poucos lêem, mas todos se vestem” (ASSIS, 1997b: 65).

Além de a maioria da população não estar indo à escola para obter uma educação formalizada, o seu tempo de lazer pode não existir uma vez que precisam trabalhar para obter o sustento da casa. Sendo assim, este é mais um fator colaborador da exclusão deste lazer.

Desta forma, a leitura como lazer pode ser vista como exclusão além do ato de ler cartas e bilhetes.

Observemos o seguinte fragmento.

Mas no dia seguinte uma nova carta de Fernando chegou às mãos de Carolina. Outro portador a entregara.

Nessa carta Fernando pintava com cores negras a situação em que se achava e pedia dois minutos de entrevista com Carolina (ASSIS, 2003a: 220). – Cinco Mulheres

O trecho acima revela que as cartas eram usadas como uma forma de comunicação entre os sexos e um meio para marcar encontros, além de ser o principal meio de os namorados poderem se falar como é o caso de Miloca e Adolfo que permaneceu por um tempo distante um do outro.

Não tardou que começasse o período epistolar. Seria cousa fastidiosa reproduzir aqui as cartas que os dois namorados trocaram durante um mês (ASSIS, 1997a:125). – referindo-se as trocas das cartas de Adolfo e Miloca quando estavam juntos – Miloca

A carta também servia para contar algo ou descrever algo como uma viagem por exemplo.

Dias depois Mendonça e Carolina saíram para uma viagem de um ano. Carolina escrevia o seguinte a Lúcia (ASSIS, 2003a: 221). – contando sobre a viagem – Cinco Mulheres

A escrita também era usada para pedir desculpas, quando eventualmente não era possível ir a algum encontro marcado.

Contava que Alberta viesse naquele mesmo dia visitá-la e narrar-lhe tudo; mas esperou-a em vão. Pelas três horas recebeu um bilhete da amiga, pedindo-lhe perdão de não ir vê-la. Constipara-se e chovia; estava rouca, não queria demorar-se em dar-lhe notícias da festa (ASSIS, 1959: 394).– Pobre Finoca!

Podemos observar que de certa forma, a escrita fazia o papel, em alguns casos, do telefone que hoje o utilizamos.

Os bilhetes e as cartas ou o poder de realizar a leitura e de escrever os mesmos representavam para as mulheres daquele período mais que um meio de comunicação, era um veículo que possibilitava a inserção delas a um meio social, pois os espaços freqüentados pelo sexo feminino neste tempo eram muitos restritos porque a ela somente era reservado, por direito, o espaço do lar, da casa. Desta forma, a leitura de livros, como prática de lazer, realizada pelas mulheres tanto de classe bem alta como, baronesa quanto as classe um pouco mais abaixo, mas com possibilidade de aquisição da leitura e escrita em escolas, é justificável porque quase não há outras formas de lazer ou de espaços sociais mais diversificados onde a mulher possa freqüentar ou passar seu tempo.

Assim, as mulheres que não possuíam estas habilidades estavam automaticamente excluídas destes relacionamentos ou deste meio social letrado que permitiam e possibilitavam a elas estarem inseridas neste outro mundo: da leitura.

BIBLIOGRAFIA

ASSIS, Joaquim Maria Machado de. Escritos Avulsos I, São Paulo: Globo, 1997a.

______________________________ Escritos Avulsos III, São Paulo: Globo, 1997b.

_____________________________________ Contos Fluminenses II, São Paulo: Editora Brasileira Ltda, 1959.

 
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