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  REPRESENTAÇÕES DA MULHER: UMA MOSTRA CULTURAL NA ESCOLA DO SÍTIO

Davina Marques - UNICAMP/ Faculdade de Educação – Escola do Sítio

Introdução

O exercício da leitura é uma prática da multiplicidade. Jorge Larrosa, quando apresenta o pensamento de Nietzsche em Nietzsche e a Educação, mostra-nos que o filósofo defendia que não houvesse um cânone fechado para a leitura. “A tarefa de formar um leitor é multiplicar suas perspectivas, abrir seus ouvidos, apurar seu olfato, educar seu gosto, sensibilizar seu tato, dar-lhe tempo, formar um caráter livre e intrépido... e fazer da leitura uma aventura”. (LARROSA, 2002, p.27)

Parece uma afirmação óbvia quando dirigida a educadores, principalmente se anunciada em um Congresso de Leitura. Entretanto, cada um de nós sabe as dificuldades que nos são impostas na rotina da escola e da sala de aula. Não é tarefa simples “formar” um leitor, respeitando-lhe o ritmo e as escolhas pessoais. O exercício da leitura de um único livro na aula de português tem seu valor e permite que o grupo como um todo possa fazer discussões interessantes e pertinentes sobre os mais distintos aspectos, desde características formais de um autor, até questões que dizem respeito à tipologia de textos, por exemplo. Quando todos lêem um mesmo livro, aumenta-se a possibilidade de leituras sobre a mesma obra, abrem-se novas perspectivas sobre um mesmo tema.

A escolha de um texto serve também para transformar a sala de aula em um espaço privilegiado para discussão e debate de temas variados a partir de um projeto pedagógico mais ou menos conservador.

O objetivo desta comunicação é relatar uma prática bastante comum na escola em que trabalho, a Escola do Sítio. Primeiramente vou apresentar o que entendemos como Mostra Cultural, seus objetivos e sua organização. Em um segundo momento, vou oferecer como exemplo a Mostra do último semestre e defendê-la como um momento importante para a discussão de variados assuntos, neste caso, a questão dos papéis na nossa sociedade, o lugar reservado à mulher.

Um espaço diferenciado

A Escola do Sítio foi fundada em 1976 e tem como proposta político-pedagógica um trabalho que a diferencia das outras escolas campineiras: optou por um currículo aberto que prioriza a participação efetiva de seus alunos e alunas nas situações de aprendizagem. O que significa isso? Significa que seu currículo tem espaço para a vivência coletiva, a recriação e a expressão; significa que tem um programa que favorece e instiga flexibilidade no uso do tempo e do espaço e possibilita um cotidiano escolar diferente.

Desde 1998, época em que os estudos dos professores da Universidade de Barcelona chegaram até nós, o Sítio trabalha por projetos. A escola entende o trabalho por projetos como uma resistência aos conteúdos já organizados. Nele cada indivíduo aprende a oferecer e a escolher. Ele ajuda a criança e o adolescente a construir critérios e não apenas a adquirir conteúdos. Também envolve sempre a resolução de um problema que possibilita a análise, a interpretação e a crítica. O projeto favorece o espírito de interrogação e permite que se elaborem novas formas de compreensão e atuação.

Os alunos e alunas trabalham por projetos de duas maneiras: na série em que se encontram, nas distintas disciplinas; e nas atividades de Ciclo. O ciclo é a organização dos alunos e alunas por interesses, idades, afinidades e necessidades cognitivas e afetivas. As séries que compõem cada ciclo são: Educação Infantil (crianças de 3, 4 e 5 anos); Ciclo I (pré, 1ª e 2ª séries); Ciclo II (3ª, 4ª e 5ª séries); e Ciclo III (6ª, 7ª e 8ª séries). Além do período da manhã, a escola oferece uma tarde por ciclo, para que as turmas se encontrem e desenvolvam projetos em comum.

A Mostra Cultural é exatamente o momento em que as atividades em Ciclos, rotineiramente vespertinas, invadem o período da manhã também. Isso acontece atualmente duas vezes por ano, uma vez por semestre. Seu objetivo principal é exercitar a pedagogia por projetos no seu sentido mais simples, mais elementar. Alunos e alunas recebem ou propõem um tema ou um assunto, fazem perguntas ou estabelecem áreas em que desejam se aprofundar. Em seguida planejam a pesquisa, elaboram informações obtidas, fazem a síntese, e preparam a apresentação do que aprenderam.

Aprendizagem significativa é um dos objetivos da organização do currículo por projetos de trabalho, segundo Fernando Hernandes (1998). Em linhas gerais, o processo se dá a partir de questões, perguntas, que levam a uma tomada de decisões (roteiro) e a um planejamento inicial da atividade. Em seguida, desenvolve-se a atividade e, em função das informações encontradas, reflete-se, e organizam-se os reajustes e as prováveis mudanças. Avalia-se o produto construído e o envolvimento na atividade. Reinterpreta-se o que se encontrou, elaboram-se conclusões, e novos caminhos são propostos. Os professores, os alunos e as alunas nunca têm certeza de até onde se vai a partir de uma proposta. Sabemos apenas que sentimos orgulho do resultado produzido.

O currículo da Escola do Sítio, principalmente até a 4ª série do Ensino Fundamental, organiza-se a partir de um objeto disparador. Os professores, no primeiro dia de aula, trazem para suas turmas um objeto (uma escada, uma máscara, uma janela, uma bandeja...). Eles têm algumas idéias que podem surgir a partir deste provocador, mas quem faz as perguntas é o aluno. E é em torno desse eixo que as atividades pedagógicas são preparadas e organizadas. O nexo condutor vem das perguntas. Os professores atendem aos objetivos das séries criando com suas turmas o seu programa de estudos.

As últimas séries do Ensino Fundamental (5ª a 8ª) têm seu currículo organizado em torno de eixos temáticos ou questões maiores. Por exemplo, no ano passado, organizamos nossos conteúdos com o grande tema Sustentabilidade em mente. Cada professor escolhe com seus grupos palavras norteadoras (em Língua Portuguesa escolhemos Culturas na 5ª série; Relações de Poder na 6ª; Mudanças na 7ª; e Atualidades na 8ª). As palavras nos ajudam a elaborar projetos e escolher textos para cada turma.

Neste ano o tema é Sustentabilidade e Consumo. As palavras norteadoras das séries são Grandes Nomes na 5ª; Atualidades e Evolução na 6ª; Os Diferentes Brasis na 7ª; e Tradição, Renovação e Minorias na 8ª série. Para a Semana Cultural, que levará à Mostra, podem surgir outras palavras ainda. Observe-se que essas palavras podem remeter a questões de gênero. Na Mostra de maio, escolhemos o tema mãe-mulher, houve levantamento de mulheres importantes na história do Brasil e do Mundo, um estudo de eventos marcantes na luta pela emancipação da mulher, destaque de diferenças nas distintas regiões e lugares do país...

Entretanto, antes de discutir a Mostra Cultural de maio deste ano, é necessário explicar como funciona.

A Mostra Cultural

É um projeto assinalado em calendário. Durante uma semana, as aulas são interrompidas e elabora-se um horário especial para que os alunos e alunas possam trabalhar com grupos distintos em oficinas ou temas variados. Normalmente os professores se agrupam em duplas ou trios e oferecem um tema ou prática (por exemplo: música/teatro; ou propaganda; ou A Mulher na Literatura). Cada um se inscreve em um grupo multiseriado e, durante a semana, trabalha em um projeto com alunos e alunas de outras classes, dentro de seu ciclo.

No horário destinado às atividades da Mostra, os alunos e as alunas se reúnem com os professores e estabelecem perguntas, objetivos e trabalham para atingi-los. Dedicam-se também à tarefa de preparar-se para um evento público. No sábado, a comunidade é convidada a participar da Mostra. Enfatizamos a palavra participar, porque não se trata apenas de “ver” o que foi feito. Pais e convidados participam de jogos, brincadeiras e projetos encaminhados pelos próprios alunos e alunas. É uma festa que celebra a execução de um plano, de uma idéia coletiva. É um espaço para comunicação e troca com pais e convidados .

O exercício de professores, alunos e alunas tem levado à elaboração cada vez maior dessa proposta de trabalho. A última experiência foi na semana de 02 a 06 de maio, com a mostra no dia 07, cujo tema foi “Mãe - Mulher”. A mostra também foi uma homenagem às mães pelo seu dia.

As oficinas originaram-se de grandes perguntas. Cada uma delas levou a um projeto com o objetivo de respondê-las:

Quem são nossas mães e o que queremos saber sobre elas?

Como podemos representá-las?

E nossas avós, o que querem nos dizer?

Quem foi a primeira mãe ou mulher homenageada na nossa história?

Como as mães são representadas na literatura infantil?

As propagandas para o dia das mães: que mãe nos querem vender?

Como a mulher é representada na literatura?

Os participantes dos diferentes ciclos escolhem livremente a oficina em que desejam trabalhar durante a semana. Trabalham apropriando-se de outros espaços e tempo, relacionando-se com colegas de diferentes séries e diferentes professores. É uma oportunidade excelente para exercitarem sua autonomia e responsabilidade com um projeto coletivo. E prepararam-se para o grande evento do sábado.

Depois que escolhem o grupo, tudo pode mudar. Foram dez grandes temas com subdivisões na última mostra: Eu e minha mãe - Maternal; Do que minha mãe gosta e não gosta - Jardim; As nossas avós - Ciclo I; Mães na Literatura Infantil - Ciclo II; Árvore de Bonecas - Ciclo II; História do Dia das Mães e as Mães da Praça de Maio - Ciclo II; Estatísticas sobre as Mães - Ciclo II; Caminho das Cores - Ciclo III; As mulheres na literatura e na história - Ciclo III; Mães na Propaganda - Ciclo III.

Observem que o projeto permite uma integração enorme de disciplinas – os projetos incorporam música, teatro, arte, informática, até gráficos e estatísticas! As instalações são pensadas pelos grupos e arranjadas pelos próprios estudantes.

É um espaço privilegiado de leitura porque provoca nos alunos e alunas a busca de referências, de novos textos, de outras leituras. Trazem de casa informações e materiais que são socializados no grupo. Também utilizam-se de recursos da escola como a biblioteca e o laboratório de informática.

Vejamos alguns exemplos:

1. Mães na Literatura Infantil - Ciclo II

Histórias de super mães, mães carinhosas, mães geniosas, mães exigentes, mães, mães... Por que tanta mãe? Nesta oficina, as diferentes mães, reais e imaginárias, apareceram nos livros lidos na roda . Assim o dia era começado. Uma leitura, discussão, identificações ou não com a mãe de cada um. O grande objetivo a ser cumprido ao longo da semana era o de criar um livro da turma com histórias em que mães eram personagens principais. Formaram-se grupos, cada um criou sua história, as correções foram realizadas, os textos passados a limpo e as ilustrações preparadas. Uma capa, muito capricho e um objetivo conquistado. No dia da Mostra, um tapete e almofadas convidavam para a leitura.

As mães deusas também tiveram seus espaços, não em histórias, mas em grande painel que contava um pouco sobre suas características, desejos e símbolos.

2. História do Dia das Mães e as Mães da Praça de Maio - Ciclo II

Nesta oficina os alunos e alunas pesquisaram sobre a história do dia das mães desde a Antigüidade até os dias de hoje. Também descobriram a história de outras mães: as Mães da Praça de Maio.

Os alunos e alunas se dividiram em três grupos e participaram de webquests . O resultado foram pesquisas feitas sobre a História do Dia das Mães e sobre as Mães da Praça de Maio.

No dia da Mostra, alunos e alunas conversavam com os convidados sobre o que haviam aprendido, além de apresentar-lhes apresentações em PowerPoint .

3. Caminho das Cores - Ciclo III

Os estudantes foram convidados a fazer um retrato de uma mãe na aula de Artes. A técnica usada foi pintura a guache com acabamento em cola para uniformizar o efeito final. Formou-se então um painel que é caracterizado por um aglomerado de mulheres que carregam as mais diversas características e cores para traçar um panorama de representação que fazem da figura da "mulher mãe".

Para chegar até esse painel foi preparado um tapete de serragem com figuras e desenhos que os alunos e as alunas gostariam de oferecer às mulheres. Entre as imagens aparecem presentes, flores, corações, desenhos... Uma canção serve de moldura ao tapete. Rosa foi selecionada pelo grupo que trabalhou com a representação da mulher na literatura e na música. É composição de Pixinguinha e de Otávio de Souza, e data de 1917.

4. Mães na Propaganda - Ciclo III

Nesta oficina os professores, alunos e alunas do Ciclo III fizeram uma pesquisa sobre as propagandas e o estímulo ao consumo do Dia das Mães – o segundo melhor dia para as vendas do comércio. A proposta era pensar: “que tipo de presentes?", "para que tipo de mães?”. Mini-grupos prepararam uma pequena apresentação (skets) como se fosse uma propaganda de TV sobre um produto a ser oferecido. A análise do conteúdo apresentado nas skets levou a várias hipóteses de fatores que os teriam influenciado a decidir pelos conteúdos que apresentaram. Alguns aspectos identificados pelo grupo neste processo foram:

Nossas idéias são altamente influenciadas pela mídia (visual, auditiva e escrita);

A TV tem uma forte penetração na sociedade, atingindo de maneira intensa diferentes tipos de pessoas (idade, sexo, localização geográfica, religião...);

Muito do que é apresentado, especialmente pela TV, acaba envolvendo todos os nossos sentidos. Aquilo que se vê ou ouve na TV faz com que fiquemos com vontade de experimentar um determinado alimento, de adquirir um determinado produto ou ainda provoca o desejo de nos tornarmos uma pessoa parecida com as personagens da propaganda;

Isso também é percebido nos programas, nos filmes e principalmente nas novelas. Aparecem como propagandas diretas (merchandising) ou até como propagandas indiretas (subliminares).

Encerrada a análise e a discussão, o grupo partiu para pensar em “como mostrar no sábado” um pouco desse trabalho. Decidiu-se por brincar um pouco com tudo o que havia sido observado e houve três frentes de trabalho estabelecidas: os clássicos “chavões” (como o coração e o uso das cores vermelho e rosa); a utilização dos jingles (como um recurso para o público ficar se lembrando do produto); e finalmente o presente, diga-se, consumo, extremamente incentivado pela mídia.

O desafio de um grupo era o de utilizar de alguma maneira as imagens recolhidas das revistas e jornais. Montaram uma “BIG CAIXA DE PRESENTE”, e as propagandas fariam as vezes do papel de presente. Escolheram um presente que seria guardado na caixa. Precisava ser algo muito especial: o que, de fato, seria um presente que tivesse um real significado para suas mães? A resposta dos alunos e alunas foi quase unânime: “O que nós mais gostaríamos de dar de presente para as nossas mães seria TEMPO”. Construiu-se um relógio que tinha o dobro do tempo – 48 horas, para que as mães pudessem vir a saber que os seus filhos percebem o quanto a vida das mulheres é corrida, o quanto eles percebem que elas trabalham (não apenas fora de casa, como também em casa). Alunos e alunas pararam para refletir um pouco mais sobre o quanto as suas mães dispõem do tempo delas para cuidar da família também.

A fim de brincar um pouco mais com os chavões, montou-se um grande coração vermelho e muitos coraçõezinhos rosa e pequenos, onde as mães pudessem realizar as suas interferências e deixar o seu registro .

Esta turma também foi buscar informações na Internet para trabalhar com alguns JINGLES. Perceberam que eles produzem um grande efeito em algumas propagandas, fazendo com que você se lembre do produto por um tempo maior, já que “A música não sai de sua cabeça”. Trabalharam com o trecho de uma música que recentemente foi usada na propaganda da PEPSI e uma outra mais antiga: a do CAFÉ SELETO. A idéia era, ter uma música conhecida por eles (de seu tempo) e outra que tocasse a memória dos adultos, já que era do tempo em que eles eram jovens.

Um outro grupo, que também fazia parte do teatro, decidiu compor um RAP para a apresentação na Mostra.

Outros optaram por utilizar as informações colhidas na escola sobre as Mães da Escola. Partindo da pesquisa, estabeleceram dois perfis para mães que iriam ser o foco na preparação das skets: um representava uma grande porcentagem e outro uma pequena porcentagem das mães. Fizeram uma brincadeira com os modelos de mães mais comuns na escola.

5. As mulheres na Literatura e na História - Ciclo III

Este projeto surgiu através de uma parceria entre os professores de História, Inglês e Português. No início, os participantes deveriam pesquisar sobre personagens femininos e escritoras famosas da História da Literatura. O trabalho foi ampliado para a mulher retratada também na música e a história do movimento feminista e do Dia Internacional da Mulher. Discutiu-se o difícil caminho histórico percorrido pela mulher na luta pela igualdade de direitos e organizaram-se quadros com informações julgadas mais relevantes.

Os estudantes montaram duas coletâneas de textos, uma de canções e outras de trechos de romances – todos levando em consideração a personagem principal: a mulher. E o que fazer com os textos? Como a idéia era envolver as pessoas no sábado, houve a produção de um show, no estilo de programa de auditório, com Videokê, Qual é a Música, Complete a Música e um Jogo de Caça-Palavras. Houve participação empolgada das mães e mulheres da nossa comunidade escolar. A cada acerto havia um prêmio: fazia-se a leitura de um fato relacionado à história do movimento feminista, montados em quadros, e construía-se com eles uma linha do tempo com as informações lidas.

A seleção de trechos da literatura feita durante as pesquisas foi utilizada nas aulas de português e serviu de tema de debate e produção de textos.

O dia 07 transformou os espaços abertos da Escola do Sítio em uma seqüência de instalações que tocava e provocava os visitantes, já que chamavam para a participação. As mulheres percebiam-se nas produções dos filhos e surpreendiam-se com o olhar que lhes era lançado. Mães e avós homenageadas eram convidadas a construir livros e fazer leituras de textos com seus familiares. As brincadeiras que remetiam ao programa de auditório tornavam-se sérias quando o prêmio era a leitura de um marco na história da luta da mulher por igualdade de direitos. Aquelas que fizeram as leituras comentavam como eram recentes as datas e como muito ainda havia a ser feito pela emancipação plena da mulher.

Os dias seguintes

A Mostra Cultural tem o objetivo de desestabilizar, de colocar em movimento os nossos alunos e alunas (e nós educadores também). Ela nunca termina com o dia da “festa”.

Em Língua Portuguesa, por exemplo, o debate continuou em todas as turmas. Examinamos o papel do homem e da mulher na construção simbólica do gênero. Discutiu-se o quanto as mães e os pais influenciam nossa percepção do masculino e do feminino. Questionou-se o papel da mídia nessa construção. A 8ª série, que havia assistido ao filme “Osama”, destacou a força da cultura de um país na produção e na aceitação dos papéis reservados aos homens e às mulheres.

Interessante é observar que as discussões foram além da mera constatação de que a mulher tem possibilidades, capacidade e direitos semelhantes aos do homem, e que deve lutar para conquistá-los. Chegaram à conclusão de que, se o olhar masculino também não mudar, o caminho da igualdade vai demorar muito para ser construído.

Também pontuou-se que as comportamentos considerados masculinos e femininos não são naturais e espontâneos. Todos nós, educadores, já percebemos que quando os alunos chegam às nossas salas de aula, já têm muitas dessas condutas interiorizadas. Montserrat Moreno, em seu livro Como se ensina a ser menina: o sexismo na escola, destaca que nas brincadeiras escolares já podemos observar essa aceitação dos papéis . Segundo a autora, não basta aos educadores acreditar que “tratamos alunos e alunas de maneira igual, sem diferença”. O espaço da escola é um lugar em que se pode e se deve questionar estereótipos e códigos de conduta. Se não podemos mudar a sociedade, podemos apresentar a nossos alunos e alunas outras alternativas.

Se o nosso programa é pré-determinado por apostilas e livros didáticos, faz-se necessário criar espaços e brechas em nossos programas para que estudantes possam escapar e criar, produzir, crescer como homens e mulheres mais abertos, autônomos, críticos, atuantes e que saibam conviver com a diversidade. Recuperar aquela multiplicidade de leituras e perspectivas defendida no início desta comunicação. A idéia da Mostra Cultural pode mexer com algumas estruturas. Permite discutir as os mais variados temas: raça, gênero e classe, a nossa relação com o ambiente, o consumismo, a vivência da afetividade, tudo feito de maneira coletiva.

Encerro esta comunicação com a fala de um aluno:

“Eu acho que é um absurdo a sociedade chegar ao ponto de ter que criar leis para tentar igualar sexos e raças. Se a sociedade teve e ainda tem preconceito contra várias pessoas, por que no futuro não pode ter contra nós?

O preconceito é injusto e fere as pessoas.”

P.H., aluno da 5ª série

Bibliografia:

BARMAK, Siddiq. “Osama”. Filme de 2004.

HERNANDES, Fernando e VENTURA, Montserrat. A Organização do Currículo por Projetos de Trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

LARROSA, Jorge. Nietzsche e a Educação. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2002.

MORENO, Montserrat. Como se ensina a ser menina: o sexismo na escola. São Paulo: Moderna; Campinas: Editora da Unicamp, 1999.

MOSTRA CULTURAL – CD produzido pelos alunos e professores da Escola do Sítio

Site da Escola do Sítio: www.escoladositio.com.br

VIANNA, L.H. e GUIDIN, M.L. (org.). Contos de Escritoras Brasileiras, São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 
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