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Reflexões acerca do trabalho do intérprete de língua de sinais na universidade: limites e conquistas


Vanessa Regina de Oliveira Martins
Pedagoga especialista em Educação Especial- Puccamp; estudante de pós-graduação em psicopedagogia-Facinter; membro do grupo de estudos surdos (GES)- Unicamp; intérprete educacional de Libras- Unip Campinas.


“Se eu tivesse aprendido sinais desde pequena, seria muito mais fácil para me comunicar”

(F. Surda estudante de pedagogia, 2004)

Para entender e discutir a situação educacional atual de surdos incluídos na universidade com auxílio do intérprete é necessário compreender o processo histórico de luta da comunidade surda dentro do contexto educacional. A história da educação de surdos nos aponta três abordagens filosóficas que são elas: oralismo; comunicação total e bilingüismo. Embora encontremos presentes atualmente pensadores para as três linhas, iremos focar neste trabalho, a abordagem educacional com bilingüismo (A abordagem bilíngüe traz a concepção de surdo como usuário de uma língua distinta da majoritária do país. A língua de sinais brasileira L1 para surdos residentes no Brasil e L2 o português podendo ser na modalidade escrita ou oral). que tem embasamento teórico nas contribuições de autores como: (GOES, 1996; SOUZA, 1998; SKLIAR, 1997; LACERDA, 2000).
Pensando neste processo de educação onde o surdo é parte ativa e participante do contexto educacional e do projeto pedagógico, faz-se necessário medidas que incluam verdadeiramente o surdo, lembrando que este advém de uma minoria lingüística com múltiplas culturas que refletirá no ensino. Por isso a busca de implementações coerentes e a observação de salas de ensino superior inclusiva com a presença do intérprete é necessário para melhor diagnosticar os problemas objetivando melhorias no ensino. Espera-se, ainda dentro da concepção bilíngüe, que o surdo apreenda o conhecimento através da sua língua primeira (L1) ou materna (Fernandes, 2003). Neste contexto o intérprete torna-se parte do processo. A proposta bilíngüe:

“é aquela que acima de tudo estabelece que o trabalho escolar deve ser feito em duas línguas, com privilégios diferentes: A Língua de Sinais como primeira língua (L1) e a língua da comunidade ouvinte local como segunda língua (L2)” (Sá, 1999:135)


Na universidade é utopia pensar que os diversos professores vão aprender a Libras e transmitir os conhecimentos pela mesma. Porém é preciso citar que a partir da lei no-10.436 de 24 de abri de 2002, sancionada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que reconheceu oficialmente a Língua de Sinais como língua utilizada pela comunidade surda descrevendo que:


Art. 8º As instituições de ensino da educação básica e superior, públicas e privadas, deverão garantir às pessoas surdas acessibilidade à comunicação nos processos seletivos, nas atividades e nos conteúdos curriculares desenvolvidos em todos os níveis, etapas e modalidades de educação.


Com a lei percebemos uma crescente aceitação social da língua de sinais como parte fundamental na vida da pessoa surda. Esta conquista legal trouxe benefícios à comunidade surda que têm atualmente o direito do uso da língua de sinais em qualquer local de nossa sociedade. Nesta nova concepção de surdez referenciando o uso da língua de sinais como possibilidade plena por parte das pessoas surdas, ocasionou uma revolução no ambiente educacional, que agora além de receber o surdo deve, portanto, respeitar a condição lingüística deste aluno e oferecer subsídios metodológicos específicos para seu pleno desenvolvimento educacional, pois a lei como vimos acima assim prevê. Há atualmente cerca de 300 estudantes surdos, de acordo com a Profa. Marlene Gotti, assessora da Secretaria de Educação Especial (Seesp/MEC) em reportagem realizada por Suzan Faria para o site sentidos no dia 1/02/2005, matriculados no ensino superior do Brasil. Ela destaca que o “afunilamento” na educação de surdos se dá na medida que o grau de instrução aumenta e com ele as dificuldades. Por isso há uma urgência de medidas que inclua e traga os surdos à academia. O intérprete na sala de aula oferece subsidio ao professor regular. É uma proposta que ameniza o problema na interação comunicativa entre professor e aluno surdo.
Esta lei contempla e assegura a utilização do apoio do intérprete de Libras em casos de surdos sinalizados que solicitem o trabalho do mesmo. Independente da seriação o intérprete pode estar presente dependendo da necessidade. Uma vez que a escola ofereça o ensino ao aluno surdo e este já disponha de matricula, a instituição de ensino deve conceder e se responsabilizar pela contratação do profissional assegurando-lhe o direito ao ensino de qualidade. O intérprete será como uma “ponte” entre: professor, aluno e conhecimento.
Abaixo um esquema representando a função do intérprete educacional:

 

É referente a este novo profissional, o intérprete educacional de língua de sinais que focarei neste artigo, refletindo e fazendo uma análise da minha prática, como tal, dentro de duas universidades distintas, onde atuei como intérprete. A busca pela identificação dos diferentes aspectos referentes ao meu trabalho como intérprete de língua de sinais nestas universidades, atuando diretamente com alunos surdos, tem por objetivo mostrar as diferentes concepções que ambas assumem frente ao meu trabalho exercido em relação à pessoa surda. O estudo contribuiu para uma análise do relacionamento estabelecido entre alunos ouvintes/surdos, intérprete, professor e instituição, abrindo caminho para outras possibilidades de pesquisas aprofundadas, já que é necessário para a perpetuação deste novo profissional.

A partir da analise empírica trago como alguns dados coletados para minha pesquisa de trabalho de conclusão de curso em pedagogia: formação de professores em educação especial comparando com minhas atuações como intérprete em duas instituições de ensino superior. Observando o gráfico abaixo percebemos distinções nas experiências e mudanças importantes na concepção coorporativa do trabalho do intérprete dentro da instituição de ensino.

O fato de não dominar o conteúdo a princípio dificulta a atuação. Vejo isto como um difícil ofício para o intérprete: “Ensinar o que não sabe”, por isso é necessário que o intérprete parta para o campo da ação e busque conhecer apropriando-se do conteúdo para “trocar”, “interpretar”, “ensinar” ao aluno surdo. Neste campo a interpretação não é simultânea pela falta de conhecimento específico da matéria. Por lidar com o conhecimento e o saber sistematizado há uma longa discussão acadêmica sobre a nomenclatura do interprete educacional: “professor-intérprete”; “intérprete educacional”; “tradutor em sala de aula”.

Contudo acredito que as diferentes situações amadureceram as minhas experiências levando-me a compreensão de que o trabalho do intérprete na sala de aula difere dos demais campos de atuação do intérprete generalista (Este interprete atua em diversos campos sociais e na maioria dos atendimentos faz uso da interpretação simultânea. Acompanha em: hospitais, fóruns, audiências entre outras localidades que a comunicação entre surdos e ouvintes é necessária.) pois é um trabalho pedagógico que requer um procedimento sistematizado de ensino e um compartilhar direto com os professores. Deve-se atentar para não confundir os papéis de intérpretes e professores nesta trama. É importante pontuar o avanço qualitativo na profissão do intérprete educacional no ensino superior e o surgimento destes profissionais contratados pela instituição de ensino. Torna necessário ressaltar que este profissional não acabará com os problemas da inclusão, mas amenizará a problemática trazendo o contexto educacional mais próximo à realidade do aluno surdo.
Concluindo, neste pequeno trabalho que em nada tem a pretensão de esgotar o tema, mas intrigar pessoas para o desenvolvimento de novas pesquisas, trago a idéia de que a profissão do intérprete educacional, dentro da sala de aula seja no ensino regular ou superior, vai além do ato meramente tradutório pois, faz-se necessário este profissional envolver-se com as questões didático-pedagógicas dentro deste contexto. Requer, portanto um estudo aprofundado nesta área e uma formação específica para estes novos profissionais da educação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


GOES, M.C.R. Linguagem, surdez e educação. Campinas: Autores Associados, 1996

LACERDA, C. B. F. O intérprete educacional de língua de sinais no ensino fundamental: refletindo sobre limites e possibilidades. IN: LODI, A C. B., at. (org). Letramento e Minorias. Porto Alegre: Mediação, 2002.

MARTINS, V. de O. Intérprete ou professor: o papel do intérprete de língua de sinais na educação inclusiva de alunos surdos. 2004. Trabalho de Conclusão de Curso de Pedagogia em Educação Especial - faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

ROSAS, A. S. Entre a visibilidade da tradução da língua de sinais e a invisibilidade da tarefa do intérprete. Dissertação de Mestrado – Faculdade de Educação na Universidade Estadual de Campinas, SP, 2005.

SKLIAR, C. (org) Educação e exclusão – abordagem socioantropológica em educação especial. Porto Alegre: Mediação, 1997.

SOUZA, R.M. de. Que palavra que te falta? São Paulo, 1998.

----------------------- Por uma escola para todos. Para quais todos? V Colóquio do LEPSI. Faculdade de Educação da USP. São Paulo, 2004. (palestra)

 
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