Voltar    
 

A TELEVISÃO, A ESCOLA E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

Maria Cecilia Leite Massari - Universidade de Sorocaba – UNISO - Programa de Pós-Graduação –Mestrado em Educação - São Paulo/SP
Eliete Jussara nogueira - Orientadora

INTRODUÇÃO

A televisão foi trazida para o Brasil na década de 50 , como observamos em entrevista de Esther Hamburger, antropóloga crítica de TV e professora de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, professora do departamento de cinema, televisão e rádio da Universidade de São Paulo (USP), antropóloga e editora da revista Trópico. De lá para cá, sua tecnologia e abrangência fizeram dela um dos principais meios de comunicação do Brasil (sem falar no resto do mundo), que é o quarto país do planeta onde mais se vende o aparelho. Os sinais das emissoras atingem 99% de nosso território. Mas, sempre que se fala em TV, as pessoas se vêem às voltas com uma discussão tão velha quanto esse meio de comunicação: a qualidade do conteúdo transmitido.
A Televisão é a instituição mediadora mais importante do nosso continente e do mundo. Sempre foi marcada e condicionada não pelo seu papel social e instrumental, para ativar o espaço público, mas sim pelos interesses privados e do mercado que sempre defendeu. Isso traz seguramente conseqüências, se observarmos sua história ligada aos interesses do mercado e interesses políticos.Na realidade a televisão no Brasil veio do “modelo americano” de propriedade privada sendo sempre ligada a negócios e empresas que buscavam lucro ganhos econômicos como meta principal. Assim no mundo atual, a televisão é reconhecida como a principal mídia de comunicação social, por ser abrangente, globalizada, consumida generalizadamente em todas as sociedades e culturas quanto sua capacidade abranger, com seus produtos e empresas no mundo, principalmente por suas estratégias para relacionar a esfera pública do social e a esfera privada dos telespectadores. Isso confere a esse poderoso recurso de comunicação um poder extraordinário de manipulação. Tem uma força estupenda no imaginário das pessoas, sendo capaz de ditar atitudes, costumes sociais e pode superar funções de importantes instituições, tais como: a família, a Igreja, a Escola, os partidos e até o próprio Estado. Seus modos de diálogo como observaremos nunca tiveram exatamente a busca de pluralidade ou consensos, apesar de observarmos que “a televisão é no Brasil um espaço onde os brasileiros se reconhecem brasileiros”, como nos diz Eugenio Bucci (2000).
Chama a atenção o número de horas que pessoas gastam vendo TV. Observamos os seguintes resultados através de pesquisas:

• Pesquisa Kiddo’s Latin América Kids Study 2003

RESULTADOS:
Em 1503 entrevistados – meninos e meninas de 6 a 11 anos de idade (classes A, B e C), observa-se que nos grandes centros urbanos: 99% têm a TV como principal entretenimento e 81% assistem TV duas horas e meia ou mais por dia.
Fonte:(<http://www.andi.org.br/noticias/templates/boletins/template_direto.asp?articleid=3698&zoneid=21>) acesso em, 08/03/2005.

• Pesquisa Multifocus de Mercado (Ibope) RESULTADOS
Revela que em 12 milhões de telespectadores entre 2 a 14 anos no Brasil
? 80% dos programas assistidos são para adultos
? Em 10 campeões de audiência entre crianças de 4 a 17 anos, 8 programas são para adultos
? OBS – As crianças assistem para acompanhar os pais (e.g. trabalham fora e à noite querem ver TV). As crianças vêem por falta de opção e para ficarem perto dos pais.

Também chama atenção uma contradição observada na TV brasileira, que é bastante interessante do ponto de vista cultural e de intenção de formação de uma consciência crítica nos indivíduos que vêem TV. É o que ocorre na MTV brasileira (canal de TV a cabo com programação dirigida quase que exclusivamente à música) e que veicula uma campanha que tem como bordão o seguinte título: “Desligue a TV – e vá ler um livro”.

 

 

 

Fig.1.Fonte:<http://www.sitedovestibular.com.br/noticiaVisualizar.php?not_id=3827> Acesso em 08/03/2005.

Esse material fica exposto em forma de uma tarja na tela da TV, por 15 minutos e segundo a direção da emissora não há prejuízo comercial. Os anúncios de propaganda que seriam veiculados são redistribuídos na grade de programação, provando que quando há interesse, a TV pode veicular conteúdo de interesse cultural, sem prejuízo financeiro.
"Se foram ler um livro, não sei dizer, mas pegaram o espírito da coisa", disse o diretor-geral da emissora, André Mantovani.
1. UM MUNDO ONDE TODOS QUEREM SER CACIQUES
Estamos vivendo numa sociedade que valoriza o individualismo e o narcisismo alienante do espetáculo, do consumismo, da banalização do sexo e da exposição da privacidade.
“Sempre soubemos que quem é vivo aparece, mas atualmente a coisa se inverteu: quem aparece está vivo, e quem não aparece desaparece, vítima de um mal gravíssimo, o anonimato. E mais: quem aparece está vivo, porém não para sempre. Assim os holofotes passam a iluminar outra pessoa, esta se transforma em cacique e o primeiro retorna ao pó. Há muito tempo deixamos de nos contentar com 15 minutos de fama. E não foi nossa vaidade que aumentou. É que sabemos que a luz dos holofotes se tornou uma questão de vida ou morte”, conforme Minerbo (2001: pg.8-13).
Isso vale para o mundo das Artes, Teatro, TV, meio científico, meio dos que são educadores, com conseqüências que podem ser desastrosas. Isso significa que nem sempre quem aparece é quem tem verdadeiramente valor ou o que dizer, ou expressar. E quem tem o que dizer ou expressar nem sempre consegue aparecer ou divulgar o que tem a mostrar.
Desse modo, na sociedade do espetáculo os valores estão no falso e na ilusão e a mercadoria passa a ser o espetáculo. E neste caso o que vale é a quantidade e não necessariamente a qualidade. Vide a busca por mais audiência (pode-se aumentar uma entrevista ou não de acordo com o que ela estiver rendendo).
O espetáculo é o dinheiro em sua outra face. O espetáculo é o dinheiro que olha a totalidade de seu uso, mas a serviço da pseudo – vida. E ele espetáculo só tem uma finalidade, um meio e um objetivo: “Ser espetáculo”, conforme Debord (1997).
Segundo Regis Debray (1992) a marca da nossa era é a FORÇA DA IMAGEM E DA APARÊNCIA . E segundo Guy Debord (1997), TUDO SE AFASTA NUMA REPRESENTAÇÃO . TUDO VIRA ESPETÁCULO. E segundo ambos o que está por trás dessa imagem, aparência e espetáculo fica diluído na força do poder econômico.
O sujeito não mede esforços para ser querido ou aceito, mesmo que isso implique prejudicar pessoas e ao próprio sujeito, sem se dar conta disso (Narcisismo destrutivo), conforme Rosenfeld (1997). É um sentimento de que tem que ser o melhor a qualquer preço, nem que seja sendo o pior dos piores, o que significará numa linguagem do desejo, a busca de triunfo: ser o melhor. É essa a cilada. Para isso o sujeito se lança, mesmo que isso lhe custe a alma, o que nos faz pensar que nunca o Fausto de Goethe esteve tão atual como nos dias de hoje. Berman (1986: pg.39-84) escreveu sobre a modernidade em seu livro: “Tudo que é sólido se desmancha no ar”. Usou este pensamento inspirado nos pensamentos de Marx que tomou esta frase de Shakespeare. E em seu texto exalta como nos tempos modernos o Fausto de Goethe podia ser pensado como um modelo. O que me parece é que o Fausto de Goethe continua atual. Apenas devemos fazer as transposições adequadas ao tempo em que se está tomando e comparando. Nos tempos modernos o Fausto é mostrado como alguém impotente e que precisa da busca do conhecimento científico, crendo que este lhe trará a felicidade. É toda uma promessa do positivismo que não foi alcançada. Nos tempos atuais o que se busca é a fama, o sucesso e o poder ilusório que estas coisas conferem. E neste caso a fama e o sucesso são buscados mesmo que o sujeito não tenha talento, conhecimento ou mesmo coisas de valor a expressar. O que importa é mostrar o espetáculo. Essa é a mercadoria; E se em Marx (in “Os Pensadores”: 1978) travamos lutas com a mercadoria e suas seduções, podemos pensar o quanto não somos donos das nossas vontades e destinos. Somos traídos por nossos desejos mais escondidos e ocultos, como observamos em “O Inconsciente” (Freud: 1915).
No mundo atual do espetáculo, a finalidade última é tornar-se celebridade, mesmo que o sujeito não tenha especificamente talento artístico ou para algo. Neste caso a maior parte das vezes vale a imagem, o corpo, algo de caricato. Mas sem dúvida algo que apareça.
Essa tendência do mundo atual é observada e influenciada através do que hoje chamamos de era pós – moderna, um conceito controverso que envolve uma série de tendências e comportamentos do mundo atual. Há quem atribua que o início da era pós – moderna teve início na segunda metade do século passado. Isso é uma reputação atribuída a Toynbee em 1947 (Lisondo, A.B.D.: 2004, pg.335-358). Ela nasce com a arquitetura e a computação e na filosofia um pensador importante é Jean François Lyotard, conforme Siqueira (2000), Doutor em Educação pela UFSM , no seu artigo “A Performance sob uma Lógica tecnicista” . Lyotard tem como pensamento marcante a maneira como a performance vem sendo considerada. O sistema atual, na busca de uma maior performance (desempenho), exige que as pessoas sejam "operacionais (isto é, comensuráveis) ou desapareçam” (Lyotard, in apud Siqueira:2000). Aqueles que por algum motivo (idade, renda, saúde, etc.) não estiverem atendendo às exigências de performance impostas, são desprezados pelo sistema, e neles nada se investe.
Não é tão distante de nossa memória lembrarmos de um exemplo claro disto, os aposentados. Seu desempenho já não impulsiona mais a performance do sistema. No nosso país isso é visivelmente observado nos modos de evolução da previdência social e de como lidou recentemente com velhos de 90 anos, que deveriam comparecer aos postos para recadastramento. O repúdio da população fez com que o Ministério da Previdência recuasse nesse desatino.
As práticas educacionais desse modo tem um importante papel, que é o de "fornecer ao sistema jogadores capazes de preencher de forma aceitável seus papéis nos postos pragmáticos exigidos por suas instituições" (Lyotard, in apud Siqueira: 2000). Entendemos que jogadores capazes são aqueles que possam de fato colaborar no sistema e pensar no que está acontecendo dentro dele de forma crítica. Não envolve somente jogar, sem saber que jogo está sendo desenvolvido.
A ciência passa a ser uma força de produção, estando associada mais ao desejo de enriquecimento do que o de "saber". Os alunos, inclusive das Ciências Humanas, preocupam-se apenas com a questão "onde vou aplicar isto?". E tudo isso é bastante influenciado pela condição de globalização atual em que vivemos, com o capitalismo atingindo uma fase multinacional, aliado as novas formas de organização do mercado mundial e novas formas de industrialização da mídia eletrônica, principalmente a televisão. Além de vivermos a terceira revolução industrial, através da informática.
Graças a esse período e aos modos de vida por ele proporcionados observamos o esvaziamento dos campos, o questionamento de Valores e o Consumo e informação vividos numa condição de hiper-realidade. Nunca em tempo algum as notícias foram tão veiculadas e numa condição em que se questiona se perdemos a ética ou os padrões de ética. Na realidade estamos vivendo uma nova forma de ética, a desse tempo. Assim já não nos causa tanto espanto quando entramos numa loja, numa agência bancária, numa repartição pública e nos deparamos com uma câmera de TV e um cartaz que diz: “Sorria, você está sendo filmado.” Certamente em 1950, as pessoas que trouxeram a TV ao Brasil, jamais suspeitariam que ela fosse ter a dimensão que tem nos nossos dias e nem tão pouco o alcance e poder que tem hoje. Através dela tudo pode ser transformado num show para a mídia, e consequentemente em consumo.
Adorno (1969) é entrevistado pela Radio de Frankfurt, junto de Horkheimer e enfatiza como é importante não se deixar que cidadãos se enquadrem cegamente no coletivo, para não serem meros objetos materiais e não se deixarem anular, nem perderem a vontade própria. Quando isso ocorre: constata-se segundo ele a formação de uma MASSA AMORFA. Ele questionou que efeitos a televisão provoca nas pessoas. E estava preocupado pelo esvaziamento das salas de aula de cursos noturnos para adultos, na Alemanha, por conta de preferirem ficar em casa assistindo televisão. (Adorno, T.: 1995, pg. 75-95).
Disse-nos ainda Adorno;

“A televisão tem diante do conceito de formação dois significados: por um lado se coloca diretamente a serviço da formação cultural, quando por seu intermédio tem fins pedagógicos, mas por outro lado tem uma função formativa ou deformativa operada pela televisão como tal em relação à consciência das pessoas, conforme somos levados a supor a partir da enorme quantidade de espectadores e da enorme quantidade de tempo gasto vendo e ouvindo televisão. Contudo as pesquisas ainda não encontraram resposta específica à pergunta tão popular nos Estados Unidos : “What television does to people?

“Que efeitos a televisão provoca nas pessoas?”

“As pessoas que “fazem” tevê precisa refletir profundamente acerca de sua atividade”.

2. A TV E SEUS MODOS DE LINGUAGEM

A TV em suas formas de linguagem e usos tem uma força imensa no imaginário das pessoas; dita atitudes; costumes sociais; e pode ter força tão grande quanto instituições: família, Igreja, Escola, Partidos políticos e até o próprio Estado. Pode criar ou derrubar governos ou sistemas de governo.
Opera com imagens, sons e palavras. Mas com que olhos vêem TV?
A linguagem televisiva usa zoom como na fotografia. Portanto vemos o que é focalizado. O que estiver em volta fica opaco, ou com pouco brilho. PORTANTO TEMOS VISÃO PARCIAL. De modo tal que podemos ver as imagens de diversas maneiras. Temos exemplos a seguir sob formas de figuras que ilustram essa questão. Esta visão é da área da Gestalt (um tipo de enfoque da Psicologia, atribuído a F. Perls em 1960), que considera que só se conhece o todo, conhecendo as partes. Apresento agora dois exemplos em que verificamos tais fatos.


 

 

 

Fig. 2 - Vês uma senhora ou uma moça? Obtida da Internet no site: <http://www.eb23-guifoes. rcts.pt/NetMate/sitio/curiosidades/imagens-interessantes-1.htm#mais>

Fig. 3. Consegues ver uma mulher deitada nesta gravura? Obtida da Internet no site: <http://www.eb23-guifoes. rcts.pt/NetMate/sitio/curiosidades/imagens-interessantes-1.htm#mais >

A palavra Televisão vem das partículas: TELE que quer dizer distante e VISÃO que vem de ver. Ou seja, trata-se de ver algo à distância. Segundo Marshall Macluhan (1971) as imagens da TV são verdadeiros mosaicos bizantinos, resultados da justaposição de vários pontinhos. Inicialmente resultava em poucas linhas de definição da imagem e que hoje é traduzido pela imagem digital que tenta tornar o mais fidedigno possível o objeto focalizado. Mas um bom exemplo disso são as partidas de jogos de futebol. Quem vê ao vivo nos estádios tem uma visão de jogo totalmente diferente de quem acompanha pela TV. Porque dependerá do que foi focalizado. E mesmo o que é focalizado dependerá de como podemos interpretar, ou como podemos interpretar o mundo. Nesse sentido conforme Hanna Segal (1955) e seu estudo da formação de símbolos e sua importância, podemos interpretar o que nos é comunicado ou o mundo, diferente das mensagens que tentam nos comunicarem. Leva em conta que a interpretação da realidade externa dependerá de como o indivíduo recebe, capta e decodifica em seu mundo interno.
Frente a todo esse exposto seria importante pensar na linha de orientação para o que deveria ser o rumo da televisão, para que ela representasse um avanço e não um retrocesso do conceito de formação cultural.
A Educação é um caminho para cidadania e emancipação, um importante meio de contribuição para que as pessoas possam ter estímulo a uma consciência crítica e ao desenvolvimento. Desse modo, a televisão deve ser estudada através da educação e da escola, como um recurso que precisasse ser visto de modo tal a se perceber algo além do que produtores de TV procuram transmitir. (Fisher: 2003).

Gostaria de enfatizar que a inspiração para esse artigo veio especificamente através de um conteúdo particular da TV brasileira, chamado Big Brother Brasil, da Rede Globo de Televisão, que é veiculado por autorização da Endemol, empresa holandesa que detém os direitos autorais do programa no mundo. Por perceber uma audiência enorme, crescente ao longo das últimas edições do programa é que me senti inclinada a tentar escrever algo sobre a televisão. Não vou me deter nas características do programa ou em fazer no momento uma análise crítica do mesmo, que é tema de uma dissertação de mestrado que escrevi e que está disponível na Biblioteca da UNISO (Universidade de Sorocaba), que estou aqui representando.

3. A TV E A ESCOLA
Ao apresentar esses aspectos sobre a televisão, a escola e a sociedade do espetáculo a principal intenção é observar ação do papel da escola frente a isso e principalmente a figura do professor, em qualquer que seja o nível educacional que ele esteja envolvido. Para isso vejamos algumas idéias de Holgonsi Soares em seu artigo: “A AÇÃO DA ESCOLA FRENTE À INFLUÊNCIA DA TELEVISÃO, NA PÓSMODERNIDADE” .
“Estetização; espetáculo; simulacro; informação e comunicação numa proliferação desenfreada (“excrescência”); perda de interioridade; esquizofrenia; e inúmeros outros temas, colocam a televisão como peça fundamental na formação da condição psicocultural pós-moderna. Numa situação sui generis, por ela transitam e legitimam-se todos os "aparelhos ideológicos", acontecendo uma "re-produção" não só do econômico, como das demais instâncias, as quais perspassadas pelos temas citados, impõem-nos uma multiplicidade de abordagens no que tange aos processos de recepção. Com base nisto, coloco a seguinte questão: "a TV, como aparelho ideológico, pode colaborar na formação de indivíduos críticos?”.
Para responder, é essencial o que diz Castoriadis (2002) sobre "esta era":
"Sem sombra de dúvida, a conformidade, a esterilidade e a banalidade são os traços característicos deste período".
Segundo esse autor para cada “celebridade” há milhões de indivíduos invisíveis, muitos com o sentimento de não existirem. Estes podem identificar-se com sua personagem para ter uma “identidade”, que pode ser assimilada tanto com valores bons, quando se apresenta o exemplo de superação como o do cantor José Carreras, que venceu uma doença grave e voltou aos palcos para cantar. Difícil é quando a identificação se faz com figuras como Fernandinho Beira-Mar, quando consegue desafiar sistemas de vigilância comandando o sistema do tráfico de drogas, conforme Reinaldo Lobo (2003) . Conforme Minerbo (2001) há todo um questionamento de que as pessoas hoje em dia estão interessadas muito mais na fama e no aparecer. Porque se não se é visto, não se existe na sociedade do espetáculo. Mas não podemos nos esquecer de que nem todos irão ter luzes de holofote na nossa sociedade, o que não quer dizer necessariamente que as pessoas não tenham valor. Ao mesmo tempo em que na busca de aparecer socialmente, muitas vezes possamos ter em cena pessoas cujo talento não corresponda à imagem que querem transmitir. São questionadas quantas publicações são feitas em nome do lucro, quantas teses e dissertações possam ter sido escritas pelo valor cartorial ou de mercado, ao lado de quantas delas que possam estar engavetadas e não deveriam estar.
Assim é importante e atual pensar a TV na escola. Questionar seu papel socializador e ao mesmo tempo de afastamento dos indivíduos do social. A escola pode ofertar oportunidades de estímulo à formação de uma consciência crítica nos indivíduos, principalmente se levarmos em conta que a consciência crítica começa nas pessoas desde os mais primitivos tempos de vida, quando deixam de morder o seio que alimenta, porque ele danificado não poderá alimentá-las, até mais tarde nas figuras de impacto e importância como os professores.

Conforme Baudrillard (1991):

“Com a imagem da televisão - sendo a televisão o objeto definitivo e perfeito desta era -, nosso próprio corpo e todo o universo circundante transformam-se numa tela de controle".

Daí o quanto é importante que a TV seja assunto de reflexão na escola, porque ao mostrar o espetáculo na sua tela pode pela sua força e alcance apenas excluir indivíduos da possibilidade de pensarem seus espaços, direitos e deveres. Um sujeito pode olhar para a tela da TV de forma extasiada e hipnotizada deixando-o numa consciência sem autonomia, que nos favorece ao conformismo e falta de atitude.
A escola pode ser o último reduto de resistência contra esse hipnotismo das imagens e da simplificação que a tela nos oferece. Cabe a ela ser enquanto sala de aula, espaço cultural e de pensamento. Cabe a ela ser um recurso pedagógico para munir indivíduos nas suas capacidades de refletirem e conseguirem discriminar as ideologias mostradas na TV. Esse pode ser o grande recurso e um grande antídoto desta era de banalidade e como nos diz Castoriadis (2002) de “ascensão da insignificância”. Uma escola que não reflita o conteúdo da TV estará incompleta. E uma TV não refletida e pensada é uma TV que não acrescenta, não educa e deforma Faz pensar algo bem lembrado ainda pelo Prof. Soares ao citar a radical SUSAN SONTAG, uma "lobotomia frontal".

REFERÊNCIAS

1. ADORNO T. W. E HORKHEIMER M. Dialética do Esclarecimento São Paulo: Zahar Editor. 1985.

2. ADORNO, THEODOR W. (1971) – Educação e Emancipação, Editora Paz e Terra S. A., 1995. Pg. 75-95.

3. BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D’água,1991 Pg. 104 a 112

4. BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo, Companhia das Letras,1986.

5. BION, W. R. (1961). Uma teoria do pensar. In Melanie Klein Hoje: Desenvolvimentos da teoria e da técnica, ed. Elizabeth Bott Spillius, Vol. I .Rio
de Janeiro: Imago Ed., 1991.

6. BUCCI, E. (1997) Brasil em tempo de TV, Boitempo Editorial, 3.a Ed., 2000.

7. BUCCI, E. & KEHL , M. R. Videologias: ensaios sobre a televisão. São Paulo: Boitempo Editorial, 1.a Ed., 2004.

8. CASTORIADIS, C. As encruzilhadas do labirinto. A ascensão da insignificância. São Paulo. Ed. Paz e Terra. 2002.

9. DEBORD, G. (1997) A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

10. DEBRAY, R. (1992) Vida e morte da imagem – Uma história do olhar no Ocidente,São Paulo: Ed. Vozes, 1993.

11. DEBRAY, R. Manifestos midiológicos. Petrópolis: Ed. Vozes, 1995.

12. DOLL, JR., W. E. Currículo: uma perspectiva pós – moderna. Porto Alegra: Artes Médicas, 1997.


13. DUARTE, N. Sociedade do Conhecimento ou Sociedade das Ilusões?: quatro ensaios crítico – dialéticos em filosofia da educação. Campi
nas, SP:Autores Associados. 2003.
14. FISCHER, ROSA MARIA BUENO. (2003).Televisão & Educação: fruir e pensar a TV – 2.a ed. – Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

15. FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis:Vozes, 1977.

16. FREUD, S. (1915). O Inconsciente. Obras Completas de Sigmnd Freud. Edição Standard. Vol. XIX. Rio de Janeiro : Imago Ed., 1980.

17. FREUD, S. (1930). O mal estar na civilização. Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Vol. XXI.Rio
de Janeiro : Imago Editora. 1980, pg..81-177. KLEIN, M (1930). A importância da formação de símbolos no desenvolvimento do ego. In Amor, culpa e reparação. Obras completas de Melanie Klein. Vol. I – Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

18. KLEIN, M. (1945). O complexo de Ëdipo à luz das ansiedades arcaicas. In Amor, culpa e reparação. Obras completas de Melanie Klein. Vol. I – Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

19. KLEIN, M. (1952). Algumas conclusões teóricas relativas à vida emocional do bebê. In Inveja e Gratidão. Obras completas de Melanie K
lein. Vol. III – Rio de Janeiro: Imago Editora, 1996.

20. LISONDO, A. B. D. Na cultura do vazio, patologias do vazio. IN Revista Brasileira de Psicanálise. Vol. 38, n.2.2004, pg.335-358.

21. LOBO , R. “A Ética de Fernandinho Beira-Mar”, publicado na Revista IDE, n.38, dezembro de 2003, pg. 30-37.

22. MACHADO, A. A arte do vídeo. São Paulo: Brasiliense, 1988.

23. MARX, K. in “Os Pensadores” .São Paulo. Ed. Abril. 1978.

24. MCLUHAN, MARSHALL. “Os meios de comunicação como extensões do homem”. São Paulo: Cultrix, 1971.

25. MINERBO, M. (2001) Caciques e índios na sociedade do espetáculo, Revista Ide n.o 33 Junho de 2001, pg. 8-13.

26. OLÓRTEGUI, M.. F. G. – “Televisão entre o vazio e a sedução”, Processos de Socialização e Individualização no Espaço Televisivo. Tese de
Doutorado da Escola de Comunicação e Artes da USP – Universidade de S. Paulo. São Paulo. 2000.

27. Orwell, G. 1984. 29.a ed., São Paulo: Companhia das Letras.2004 ROSENFELD, H. (1971) Uma abordagem clínica para a teoria psicanalítica das pulsões de vida e morte: uma investigação dos aspectos agressivos do narcisismo. In Melanie Klein Hoje: Desenvolvimentos da teoria e da técnica, ed. Elizabeth Bott Spillius; Vol.I, Rio de Janeiro: Imago Ed., 1991, pg. 243-259.

28. ROSSI,C. Psicanálise e Mídia. In Revista Brasileira de Psicanálise. XIX. Congresso Brasileiro de Psicanálise. Vol. 37, n.o 2 / 3 . 2003, pg. 815-840.

29. SEGAL, H. (1955). Notas sobre a formação dos símbolos. In Melanie Klein Hoje: Desenvolvimento da Teoria e da Técnica, Org. Elizabeth Bott Spillius. Vol.1, Imago Ed. 1991.pgs. 167-184.

30. TAILLE, YVES DE (2002) – Limites: três dimensões educacionais, São Paulo, Ed.Ática, 3.a Edição, 2002.

31. TISHMAN, S., PERKINS,D.N., JAY,E. A cultura do pensamento na sala de aula. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 1999

 
Voltar