Voltar    
  UMA REVOLUÇÃO DESPERCEBIDA: A EMERGÊNCIA DO LEITOR EM DESTERRO (FLORIANÓPOLIS, SÉC. XIX).

Felipe Matos - Universidade do Estado de Santa Catarina / UDESC.

Era uma letra de linhas abertas e suaves, de traços grandes e cor forte. Antropomórfica, possuía olhos vivos, nariz redondo e boca alegre, desenhada numa cartolina amarela em cima do quadro negro. Ao seu lado o desenho de uma abelha, mas poderia ser um avião, um abacaxi ou mesmo um pouco d´ água. A memória é traiçoeira, mas o que importa é que sempre que esta letra era apresentada pela professora, junto a ela ouvia-se seu som característico: “a”. Assim como eu, muitos foram aqueles que aprenderam o abecedário, a ler e a escrever desta forma. Contudo, apesar de lembrar perfeitamente qual a primeira letra que li – o terror de errar em frente aos colegas me fez marcar o momento para sempre – o processo de aprendizagem da técnica de leitura me foge à memória. Lembro-me apenas de quando não sabia ler, e os gibis eram um amontoado de figuras coloridas; e de quando já dominava a técnica, ao ler todas as placas publicitárias que encontrava no caminho de casa até a escola. Nesta composição binária, há um vão imerso numa sombra que esconde meu processo de imersão na cultura escrita. Tal processo é algo naturalizado, imperceptível, que só nos damos conta após ter-se realizado. E aí, tornou-se uma revolução despercebida.

Pois este vão também se dá na historiografia catarinense com relação à história da difusão e produção da cultura escrita por estas terras, na falta de um trabalho que jogue um foco de luz, difuso que seja, neste lento processo de mimetismo entre a sociedade e a palavra escrita. Assim como no âmbito do privado, a leitura pode invadir aos poucos o cotidiano de uma cidade iletrada, progredindo silenciosamente como uma inundação: até meados da década de 1830 os moradores da vila de Desterro possuíam acesso restrito aos livros, dependendo o leitor das poucas coleções particulares. A ilha ainda vivia às escuras e ler, ao menos à noite, provavelmente era hábito de poucos entre os raros letrados que se dispusessem a cansar a vista debaixo dos lampiões.

Oswaldo Cabral menciona que, em 1769, o Governador de Santa Catarina informava ao Vice-Rei que não havia em Desterro “letra de formados”, que havia sim “muita gente assinando de cruz os documentos, inclusive, como vereadores, as atas da Câmara ”. A instrução raramente passava das aulas de catecismo, nas quais a leitura era feita principalmente pelos sentidos, seja ao ouvir os sermões, na leitura da bíblia, ou mesmo ao se refazer a via crucis sob o olhar penetrante e móvel da imagem do Senhor dos Passos.

Sobre livros, pouca notícia há nestes tempos. A pena mordaz de Cabral relata o episódio da remessa de uma série de livros enviados pelo Vice-Rei para serem vendidos a fim de instruírem seus habitantes, apesar de nenhum dele ser uma cartilha ou livro de primeiras letras, mas sim obras técnicas, outras literárias, que

de graça, os moradores seriam capazes de aceitar, para calçar algum pé de mesa mais curto, em chão desnivelado, mas, pagas, nem para ver as figuras, se é que as tinham, seriam capazes de adquirir .

Certamente receoso de devolver a remessa, Cabral supõe que o Governador João Alberto Miranda Ribeiro deva ter sacrificado seu soldo a fim de adquirir as obras e proteger algum livreiro amigo do Vice-rei em Lisboa. Tanto pior, pois com este “sucesso de vendas” seguiram-se mais remessas de livros, com títulos tão interessantes quanto: A Cultura do Tabaco nos Estados Unidos, Tratado de Pasigrafia, Mineralogia de Bergmann, Helmintologia Portuguêsa, Cultura do Cânhamo, Pensões Vitalícias, A Memória sobre o Queijo Rochefort, Considerações Cândidas sobre a natureza do Açúcar, Arte de Fazer Cola, entre tantas outras obras desta espécie. O fato é que todos foram vendidos e poucos os realmente lidos.

Um dos primeiros relatos sobre os leitores de Florianópolis deve-se a Georg Heinrich von Langsdorff, médico alemão dedicado ao estudo da história natural, que desembarcou na ilha de Santa Catarina em 1803 com uma expedição russa. Ao passear pelo continente, visitou uma pequena casa próxima à praia, na qual a esposa de seu hospedeiro

era a diretora de uma escola para moças, que funcionava na própria casa. À minha entrada na casa observei jovens moças sentadas sobre uma esteira de palha, estendida ao chão, onde uma delas tecia e a outra costurava, a terceira bordava, outra soletrava e aprendia a ler, outra fazia rendas, enfim, todas se entretinham (...) .

Infelizmente não é possível saber que livro esta moça lia, onde ele foi adquirido, tampouco em que casa editorial fora impresso. Mas esta indicação nos serve para mostrar como, aos poucos, Desterro foi sendo inundada pelas letras: no início de forma lenta, através das escolas, sendo que por volta de 1829 havia na Província apenas trinta delas, sendo onze na Capital, impondo seus livros a adultos e crianças. Soma-se o fato de Desterro ser a sede administrativa da Província e a demanda por livros, manuscritos, papel, tinta, multiplica-se... Tudo isto antes mesmo de abrir sua primeira Biblioteca Pública, em 1832.

À mesma época a imprensa começa a circular. Mesmo aqueles que não lêem, seja ouvindo ou vendo, começaram a serem imersos de alguma forma na escrita, ao aproximar-se dela e a experimentar sua ubiqüidade pela variedade de suas formas e usos. Daniel Fabre nos alerta que “do estandarte ao cartaz, passando pela etiqueta, do manuscrito ao jornal, da folha volante ilustrada ao livro ”, mais do que traçar uma separação entre letrados e iletrados, o importante é perceber a relação da cidade com a escrita, e como esta relação com o impresso revoluciona não apenas o meio imerso como os sentidos daqueles que nela habitavam.

Neste contexto, as máquinas impressoras adquirem o caráter de agente de transformação, alterando, segundo Eisenstein, “as comunicações escritas dentro da Comunidade do Saber ”. Os prelos tornam-se importantes catalisadores desta “revolução despercebida”. Pois, poucos percebem, mas aburguesar-se uma cidade é imergi-la em material impresso, indispensável aos novos hábitos postos.

É o recibo dado pelo comerciante; o contrato assinado entre as duas partes; o relatório enviado ao presidente da província; a alforria que vem na forma de uma carta; é a letra morta registrada em cartório, ou as letras no estandarte carregado em frente à procissão. É o homem de óculos que carrega livros em baixo do braço e, portanto, adquire a sua distinção. São as correspondências escritas na escrivaninha, móvel cada vez mais comum no interior dos sobrados de um homme de lettres. É o jornal que difunde os novos ideais de progresso e civilidade, que dá emprego ao garoto jornaleiro analfabeto e abastece o repertório de conversas, discussões e sociabilidades. Nos cafés, na barbearia, no caminho de casa, gente comum discute as medidas dos governantes, tece suas opiniões próprias ou as toma emprestado dos jornais...

Neste trabalho considera-se a palavra impressa para além do mero registro dos fatos, mas como também ingrediente dos acontecimentos, oriunda do interior de uma oficina tipográfica. Não é a toa que as tipografias eram proibidas e perseguidas no período colonial. Notório é o fato de que apenas em 1808, com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, instalou-se no país a primeira tipografia estável e oficial. Suas funções práticas eram publicar documentos e suprir a escassez de livros didáticos, apesar de publicar, como demonstra interessante estudo de Mendonça de Souza , livros de prosa de ficção, semelhantes aos livros que compunham a famosa Bibliothèque Blue francesa. A seguir foi a vez da Bahia, ao fundar em 1811 a tipografia de Manoel Antônio da Silva Serva.

Nos outros Estados, a imprensa foi fundada tendo como pano de fundo as tensões políticas que precederam e se seguiram à Independência. À época, “fundava-se tipografia para se imprimir jornais políticos, de maneira que, na quase totalidade dos Estados, o primeiro produto saído do prelo foi um jornal” .

Foi o caso de Santa Catarina... Segundo Lucas Boiteux, desde 1826 já havia projetos na Câmara dos Deputados para a instalação, em cada província, de uma tipografia custeada pelos cofres do Império. Tal proposta - feita à época pelo deputado Nicolau Vergueiro - “como todas as boas idéias no nosso caro Brasil ”, ficou no esquecimento. Assim, apenas em 1831 o Estado foi possuir sua primeira tipografia, um modesto prelo de madeira no qual Jerônimo Coelho escreveu, compôs, imprimiu e lançou nosso primeiro jornal (O Catharinense, 28/07/1831).

Apesar de provavelmente possuir alguma experiência no ofício – talvez adquirida no período em que esteve próximo a Evaristo da Veiga quando este fundou o jornal Aurora Fluminense, no Rio de Janeiro, em 1827 – Jerônimo Coelho não se encaixa no perfil tradicional de Impressor-Editor ou Livreiro-Editor. Ministro da Guerra e da Marinha durante o II Reinado, presidente de províncias como o Pará e Rio Grande do Sul, além de Deputado Geral por Santa Catarina, Coelho foi uma das maiores lideranças liberais de seu tempo.

Coube-lhe também fundar a primeira Loja Maçônica em Desterro. Postos na ilegalidade desde 1818, os Maçons, através dos Andrada e das demais lideranças políticas pró-Independência e com o movimento contra Portugal,

não queriam perder a oportunidade de exercerem ascendência nos destinos políticos da nova nação, principalmente no âmbito das províncias, cujo controle lusitano era mais difícil .

Utilizando-se da justificativa de proteção e consolidação da Independência, a liderança maçônica na nova política das províncias conquistou a opinião pública e ascendeu às Assembléias Legislativas, ao Senado e aos ministérios, sucessivamente.

Segundo Corrêa, após arrecadar, entre os maçons cariocas, uma quantia suficiente para a aquisição de um prelo e material para a impressão, Domingos de Souza França passou-lhes à mão de Jerônimo Coelho com vistas à edição e criação de um jornal que propagasse os ideais liberais, que assegurasse um processo de independência genuinamente brasileiro a fim de assegurar a ocupação de cargos públicos e certificar “a população da impossibilidade de retorno do Brasil à Coroa Portuguesa ”. Foi assim que em 31 de Agosto de 1831 apareceu o primeiro jornal catarinense. Antecedendo ao primeiro número d´O Catharinense, temos a notícia de uma publicação, por Jerônimo Coelho, de um folheto, “uma página de exortação a seus companheiros ”, hoje um documento precioso, cujo acervo em que está depositado nos é desconhecido. Ainda em 1831 teria surgido o jornal O Brazil, do qual há pouca informação além de que saiu do prelo de Coelho . No ano seguinte surgiu outro jornal, O Expositor. Fora estas publicações, não há menção a qualquer outro tipo de impresso saído, à época, desta oficina, apesar de ser pouco provável que tenha se atido a apenas estes dois periódicos.

Contudo, tal produção, se houve, não foi muito numerosa, visto que em 1832, a cidade de Desterro, que então contava em torno de 7.000 habitantes – sendo, aproximadamente 4.700 livres e 2.500 escravos – possuía, apenas cerca de 600 alfabetizados .

Além do jornal, um outro tentáculo dos liberais foi a criação, neste mesmo ano de 1832, da Sociedade Patriótica Catarinense, que tinha como finalidade implícita “proteger-se contra os desmandos políticos e jurídicos dos portugueses que não haviam retornado a Portugal com D. Pedro I ”. Com correspondentes na corte e em várias províncias, “a sociedade influía nos assuntos do governo provincial, uma vez que, a maioria dos seus membros estava infiltrada na administração pública”.

Através de seu jornal semanal – o já citado O Expositor – tal sociedade defendia o fim da escravidão e engajava-se em prol de melhorias nas vias de transporte e na educação, tendo inclusive criado o primeiro Gabinete de Leitura da província, cujo acervo de quase mil obras foi angariado junto a coleções de particulares, especialmente amigos e simpatizantes da Corte. Manteve-se em funcionamento até fins de 1835. Com a morte do Imperador e a instalação da Assembléia Provincial, deixou de haver razão para a existência de uma Sociedade que, essencialmente política, foi criada em nome da proteção à Liberdade e à Independência. Em 1836 a Sociedade Patriótica Catarinense – “cuja situação financeira era das mais precárias ” - encerrava suas atividades, e os seus dirigentes mandaram devolver aos proprietários os livros em depósito.

Sem a Sociedade, a imprensa local desaparecera, bem como o seu Gabinete de Leitura. Sem outra Biblioteca, ainda sem nova oficina tipográfica ou livraria, a Desterro que até então curtia sua maior onda de cultura impressa, parecia condenada a voltar ao deserto editorial. Contudo, a Sociedade Patriótica, reunida em assembléia a 21 de janeiro de 1836, resolveu entregar ao Governo os tipos que este lhe emprestara, por hipoteca, à pequena imprensa que a Sociedade possuía. Foi oferecida também a Tipografia. Segundo relato de Lucas Boiteux , apenas os tipos somavam algo em torno de 224 libras.

O mais moço dos irmãos Boiteux – e quiçá o de pena mais talentosa - prossegue seu relato sobre os anos iniciais da imprensa catarinense afirmando que, em 21 de Março de 1836, uma nova reunião nomeou Domingos Dias de Souza Medeiros administrador do estabelecimento tipográfico, montado numa das salas do quartel do Campo do Manejo, nas proximidades do atual Instituto Estadual de Educação.

A tipografia oferecida à Assembléia é considerada propriedade Provincial a partir de 31 de Maio do mesmo ano, e a sua administração fica encarregada ao Governo da Província. Surge assim, apesar do prelo ser o mesmo, o segundo estabelecimento gráfico da cidade, a Tipografia Provincial, destinada à: 1) impressão de qualquer peça oficial, tanto do Governo quanto da Assembléia; 2) a publicação de um Periódico Provincial, que circulava apenas quando o rendimento da tipografia cobrisse as despesas que com ele fizer; e, 3) à impressão de jornais ou peças particulares.

Além das já esperadas falas, exposições e discursos, sobreviveram ao tempo a notícia da publicação de duas interessantes obras por esta oficina gráfica: Apontamentos sobre a cultura do chá, por José Joaquim Machado de Oliveira , impressão feita em 1837, e a qual temos notícia através de um anúncio publicado no jornal Commercial no qual um anunciante procura a obra para a compra; e o Regimento Interno da Assembléia Legislativa da Província de Santa Catarina, pequeno documento de grande interesse para a História Política da Província, editado em 1836, com 37 páginas.

Entretanto, a obra que nos chama mais a atenção é o Tratado dos Sofismas Políticos, de autoria do filósofo e jurista londrino Jeremias Bentham , traduzido para o português por Antônio José Falcão da Frota. Durante décadas ignorada em sua existência, foi trazida a luz pela primeira vez pelo bibliófilo Carlos Ficker em meados da década de 1970, que a adquiriu num antiquário de Lisboa.

A obra, embora rara, já havia sido catalogada por Sacramento Blake em seu Dicionário Bibliográfico Brasileiro, impresso na Tipografia Nacional, no Rio de Janeiro em 1883. Segundo Blake, o livro possui surpreendentes 384 páginas, em formato 7,5 X 13,5 cm . É importante notar que a ausência de uma errata, tão comum em qualquer obra, mesmo nos nossos dias, depõe a favor dos tipógrafos e dos revisores da Tipografia Provincial, pois os erros são - nas palavras do tradutor, ao prefaciá-la - “tão poucos e insignificantes” que seria “ocioso e supérfluo fazer delas menção particular”.

Segundo Oswaldo Cabral, que teve acesso à obra devido a sua amizade com Carlos Ficker, no prólogo do tradutor, este a considerava “um catecismo indispensável para a controvérsia” e “indispensável aos oradores das Assembléias”. Pois, certamente este foi o principal mercado de leitores na cidade, como também o tradutor deve ter se valido dos laços de amizade que mantinha com os demais membros da Assembléia para imprimir e custear a obra. Se para pequenos opúsculos o subsídio já se fazia necessário, imaginem para uma obra com mais de trezentas páginas. Tanto mais Falcão da Frota, que fazia parte do governo – assim como a tipografia... – desde 1835, quando se tornou Deputado à Assembléia Legislativa Provincial, como suplente convocado à 1ª legislatura .

O prelo da Tipografia Provincial só deixou de ser o único quando em 1849 desembarcou na cidade o francês Emílio Grain, fundador da Tipografia Catharinense. À época, as disputas políticas construíram dois blocos distintos: de um lado os “judeus” de tendências liberais a reivindicar projetos modernizadores para a cidade; do outro, os “cristãos”, representantes dos “conservadores”, mais presos aos costumes da terra e aos ganhos que, embora pequenos, poderiam ser mantidos com a inércia social.

Conforme Joana Maria Pedro , o francês teria inicialmente procurado os “judeus” – que controlavam o governo Provincial – para que estes utilizassem o prelo que trouxera consigo para a impressão de um jornal. Com o desinteresse do governo, Grain procurou os “cristãos”, que aproveitaram a oportunidade para acertar a edição de um jornal de oposição chamado O Progresso Catharinense.

Ao saírem os primeiros números do periódico, em abril de 1849, os governistas ofereceram a Emílio Grain gratificação de 400$000 e contrato para a publicação da parte oficial, o que o fez abandonar, imediatamente, o partido conservador, aceitando defender as cores liberais através do jornal O Conciliador Catharinense

Desta atitude de Grain podemos tirar duas conclusões óbvias: a primeira é que, com a emergência do leitor na cidade, os jornais vinham adquirindo importância como veículos difusores de idéias; e a segunda, que em terra de poucos tipógrafos, quem tem um prelo pode se dar muito bem... Grain, que segundo Lucas Boiteux era relojoeiro de profissão, acertou em investir em uma oficina tipográfica numa cidade de apenas um prelo - aquele mesmo, antigo, da Sociedade Patriótica - e dois partidos. Conseguiu inclusive instalar sua tipografia em dependências do governo, no Largo do Palácio, nº 19.

Desconhecemos que fim levou o agora apatacado Grain. Contudo, não deve ter permanecido muito tempo no comando do estabelecimento, pois, já em 1853 o jornal Correio Catharinense , impresso pelas máquinas desta oficina, traziam consigo os dizeres “Tipografia Catharinense de G. A . Maria”.

Trata-se de um dos mais antigos tipógrafos catarinense, Germano Antônio Maria . Nascido na freguesia da Lagoa, em Desterro, no início do século XIX, trabalhou durante anos na Tipografia Provincial e na própria Tipografia Catharinense, sob o comando de Grain. Apesar de desconhecermos os termos de transição da tipografia para Maria, o fato é que Germano assumiu o estabelecimento e passou a editar diversos periódicos, a começar pela revista A Revelação, dirigida pelo Arcipreste Paiva, em agosto de 1852, dando publicidade em seguida ao Correio Catharinense e a O Mensageiro. Em junho de 1855 passou a assinar Germano Antônio Maria Avelim, montando sua pequena oficina tipográfica no Largo do Quartel, nº 41, onde se imprimiram O Cruzeiro do Sul, O Cruzeiro, O Correio Official, O Catharinenese, Quinzena, O Pacajá, entre outros periódicos.

Avelim provavelmente é um dos primeiros, na história da editoração catarinense, do que se convencionou chamar de Impresssores-editores, aquela figura que possui o domínio das técnicas tipográficas, “desde a fundição dos ponções e tipos à composição e impressão do texto ”, tendo também se assegurado do exercício da função do editor. É esta figura de Impressor-editor proprietário da oficina ou atelier que, segundo Bragança,

consegue, quando precisa, o que não é raro, sócios capitalistas ou financiamentos de banqueiros e investidores interessados em participar dos lucros que trazem os produtos que saem de sua oficina .

De fato, a busca por subscritores de obras era prática usual, o que possibilitou a impressão de grande parte das publicações não oficiais, aquelas não diretamente ligadas à administração pública, como falas, relatórios e mensagens. O candidato a ter sua obra editada, caso não dispusesse da quantia necessária para cobrir os custos, abria uma lista pública de subscritores, anunciada geralmente em algum dos jornais editados pela casa tipográfica em questão para conclamar aqueles que fazem parte do seu leque de amizade, ou mesmo algum eventual desconhecido interessado pelo conteúdo da obra, a colaborarem com sua publicação.

Foi através deste sistema que o então Vigário Joaquim Gomes de Oliveira Paiva, o padre Cantigas, pôde ter seus Ensaios Oratórios publicados pelas máquinas de Avelim, com grande sucesso de público, não apenas da capital, como de freguesias próximas . Famoso também foi o caso envolvendo a publicação de Tropos e Fantasias, de Cruz e Souza e Virgílio Várzea, em 1885, encomendada à tipografia do jornal A Regeneração, correndo as subscrições para cobrir os gastos da tiragem de sessenta exemplares. Nos conta o bibliófilo Iaponan Soares que o preço havia sido ajustado em 120$000 réis, sendo a metade da importância paga adiantada e o valor restante à medida que as assinaturas fossem sendo saldadas...

Pronto o volume e distribuído aos interessados, não tardaram os elogios, um deles publicados no jornal O Moleque, edição de 20 de setembro de 1885, ao lado de uma nota dirigida aos leitores no qual os autores respondiam à tipografia de A Regeneração acusação veiculada quatro dias antes pelo mesmo jornal, segundo a qual eles ainda tinham restos a pagar. Segundo Soares, “após fazerem um demonstrativo dos desembolsos que efetuaram da dívida, concluíram que a conta já estava liquidada. (...) O assunto teve forte repercussão e (...) logo se apressou em divulgar (...) que os autores nada deviam à dita tipografia” .

Para compreendermos melhor esta rede de relações que alimenta o sistema de subscrição, torna-se necessário percebemos como se deu a formação desta elite capaz de ler e subsidiar textos numa Desterro, já em meados do século XIX totalmente imersa pela cultura impressa saída de pequenas oficinas tipográficas que começavam a proliferar-se pela cidade – muitas de curta duração – e a publicar jornais que expandiam as aspirações sociais e os modelos idealizados pela camada letrada.

No rótulo da bebida servida nos cafés da cidade, no cartaz a anunciar a chegada de um fotógrafo da corte ou o Circo na Praça, até na bula do óleo de bacalhau vendido na botica, as letras impressas tornaram-se parte do cotidiano, mesmo entre os iletrados que se utilizavam do jornal para embrulhar seu peixe e eram cada vez mais pressionados pelos mecanismos de controle e fiscalização criados por uma sociedade de novas complexidades.

As tipografias Provincial e Catharinense foram apenas duas pioneiras no ramo da impressão. Durante a segunda metade do século XIX e início do XX, surgiram oficinas de igual porte como a Tipografia Desterrense de J. J. Lopes, a Tipografia de Alexandre Margarida, a Tipografia do Cacique, o Gabinete Tipográfico Sul-Americano, a Tipografia Brazil, o Gabinete Tipográfico Natividade e outras menores que serviram, sobretudo a publicações de jornais.

A década de 1850, embora não apresente nenhum grande crescimento urbano, é usualmente apontada pela historiografia como o período de definitiva inclusão da economia de Desterro no circuito agrário-exportador brasileiro, no qual Santa Catarina apresentou um aumento superior a 100% em suas exportações .

Com destaque para o seu porto, que exportava não apenas o que era produzido no interior da ilha, mas, principalmente, reexportava os produtos de várias regiões da província.

Tais atividades deram ensejo ao surgimento de uma classe de comerciantes, armadores, agenciadores e construtores de navios que irão, no decorrer da Segunda metade do século XIX, promover o aparecimento de uma esfera pública formada por pessoas privadas, da qual os jornais serão um dos órgãos privilegiados para a divulgação e o diálogo .

Em seu livro Mulheres honestas e mulheres faladas, uma questão de classe, Joana Maria Pedro analisa a constituição de uma classe que ao enriquecer reelaborou valores externos a partir de sua história e cultura local. Esta elite oriunda principalmente do comércio e do transporte de mercadorias deu início

à formação de uma esfera pública burguesa, estabelecendo uma cisão em relação ao poder público; este era, originalmente, formado por funcionários civis e militares enviados para a administração da Ilha de Santa Catarina .

Com a fermentação desta elite que aos poucos vai ocupando os espaços de poder na cidade há a substituição gradual daqueles que vieram de fora por aqueles gestados no interior desta mesma sociedade. Cresce com ela os sonhos e expectativas sociais de uma crescente ordem burguesa que via na proteção da camada superior o seu sonho de ascensão social. Com a mudança do regime imperial para a república, as novas composições e as tensões sociais aumentaram e a ordem pública “era elevada à condição de preceito fundamental ”.

Assim, as leituras, especialmente de jornais, era uma das formas desta camada urbana estabelecer contato com os protagonistas políticos. Mesmo os livros aqui editados, em sua maioria são de autores associados à burocracia administrativa da cidade, únicos com condições de custearem – ou conseguirem subsídios – para a publicação de suas obras, através dos laços de reciprocidade que unem esta tramóia, onde triunfa a lógica das lealdades relacionais.

Vejamos um exemplo desses subsídios: a publicação da obra de maior repercussão de quem há muito tempo foi considerado o patrono dos historiadores catarinense, a Memória Histórica da Província de Santa Catharina, de Manoel Joaquim D’Almeida Coelho, editada em 1856 pela Tipografia Desterrense de J. J. Lopes.

Participante ativo da política provincial, Almeida Coelho acabou recompensado por estes laços com a nomeação de Secretário da Câmara Municipal, tomando posse em maio de 1850 e lá permanecendo até aposentar-se, em 1864. Foi durante este período que teve acesso irrestrito ao Arquivo da Câmara Municipal, de onde saíram as principais fontes para a elaboração de sua obra, a segunda de sua carreira como memorialista .

O jornal O Conservador de 23 de fevereiro de 1855 traz em suas páginas um pequeno histórico da publicação da obra de Almeida Coelho. Segundo consta, o Major Secretário há tempos se dava ao trabalho de reunir dados com vistas à organização de uma História da Província, que denominaria “Annaes da Província de Santa Catharina”, sendo substituído por fim para Memória Histórica da Província de Santa Catharina.

Para tal, revolveu não apenas o arquivo da Câmara da qual era Secretário como conseguiu com que outras Câmaras da província, e mesmo de algumas repartições em província alheia, fossem revolvidos. Seu trabalho, dividido em doze capítulos, entre as partes Cronológica e Topográfica, é um dos percursores sobre a polêmica questão dos limites do Estado, demonstrando os limites naturais da província, maiores do que alguns escritores davam até então. Trata desde a povoação da Ilha de Santa Catarina até a posição econômica dos principais municípios da Província. Deve-se a Almeida Coelho também o registro da visita de Sua Majestade Imperial, quando em 1845 se dirigiam a Província do Rio Grande do Sul.

Por falta de meios pecuniários o autor projetava oferecer o resultado de seus levantamentos ao Instituto Histórico da Província do Rio Grande do Sul, mas por ação do editor J. J. Lopes, conseguiu-se dissuadi-lo de tal projeto, encarregando-se o Mestre Lopes de fazer publicar em sua tipografia a Memória Histórica, a um preço calculado de 1$000 reis por cada exemplar, em bom papel e tipos.

Esta despesa, “assaz módica ”, esperava o Mestre Lopes contar com o auxílio das pessoas que se dignassem a subscrevê-la, distribuindo pela cidade alguns pontos de recolhimento de assinaturas: além de sua oficina, na rua Áurea nº 17; a botica do Sr. Estanislao Antônio da Conceição, no Largo da Praça; as casas dos senhores Luiz de Souza Fagundes e Antônio Francisco Faria, na rua do Príncipe .

Apesar de Almeida Coelho ser bem relacionado no meio político e militar, parece que os alfinetes que prendiam sua tramóia estavam um pouco frouxos, como podemos perceber pelo reduzido número de subscritores para sua obra. Em um apelo publicado através de seu próprio jornal, o editor Mestre Lopes fazia constar que a publicação da obra tinha parado devido à mudança de endereço de sua oficina tipográfica, mas já havia recomeçado os trabalhos de impressão,

apesar do diminuto número de subscritores que até o presente se tem podido obter. Convém que os bons homens catarinenses, dotados de sentimentos patrióticos, concorram com sua pequena cota (1$réis por cada exemplar) afim de não sobrecarregar o proprietário da Tipografia com as despesas que semelhante trabalho demanda .

A atitude de Mestre Lopes em comprometer-se com uma publicação sem anteriormente precaver-se com as assinaturas não era usual. Mesmo no mercado editorial catarinense de hoje não é habitual encontrarmos um editor disposto a bancar uma obra, a despeito da qualidade do escritor ou da importância do tema. A atitude inovadora de Lopes fica mais fácil de compreendermos quando nos aprofundamos na trajetória pessoal deste que foi um dos principais Impressores-editores da cidade.

Lucas Boiteux o descreve como uma figura originalíssima de severo Mestre-escola e jornalista. Seus antigos discípulos jamais esqueceram da “rigidez e implacabilidade da férula terrível do Mestre Lopes ”. Filho de Jeronymo José Lopes, nasceu na Bahia a 24 de outubro de 1803. Entrou na carreira militar e, com a guerra dos Farrapos, o Batalhão em que servia veio destacado para o sul. Antes de findar a guerra teve baixa, vindo a domiciliar em Desterro, onde se casou com Maria Constância Lopes. Aqui, abriu uma escola de primeiras letras em 01 de março de 1839, na qual atendia os filhos da elite local, tendo inclusive ministrado aula a Esteves Júnior .

Habituado a disciplina militar, trazia “a rapaziada brejeira dos tempos idos (...) sob a constante ameaça de uma palmatória monstruosa e rija. Ai daquele que não trouxesse as unhas limpas, que não soletrasse cantando as letras do ABC!”. Sua palmatória ficou famosa, a despeito do código de posturas da câmara municipal de Desterro limitar em até seis bolos por falta de estudo, e até doze quando seja por falta de respeito. Apesar disto, como escreveu Boiteux, Mestre Lopes “ampliava sempre os milagres da Santa Luzia... ”, não escapando nem o filho do Presidente da província, João José Coutinho.

Tempos depois resolveu montar uma oficina tipográfica, adquirindo em hasta pública a Tipografia Provincial por 505$000, instalando-a a rua da Trindade (atual rua Arcipreste Paiva), nº 01. Trabalhando ele próprio na composição, ajudado por seus filhos, netos e netas, deu publicidade a inúmeros periódicos, iniciando pelo Conservador (1855) e O Argos da Província de Santa Catharina (1856) .

Além de professor, jornalista e editor, ocupou vários cargos de nomeação e eleição. Foi também Deputado a Assembléia Legislativa Provincial entre 1850 a 1855 e 1862 a 1863. Em 1857 assumiu a responsabilidade de certos artigos publicados contra o Dr. Júlio de Mello Alvim, sendo processado por crimes de injúria e condenado a quatro anos de prisão, que não chegou a cumprir pelo fato de ter sido perdoado pelo ofendido.

Foi editor de vários trabalhos preciosos para a história editorial catarinense. Além da Memória Histórica de Santa Catarina (1856) e Memória histórica do exctinto regimento d´infantaria de linha da Província de Santa Catharina (1853), de Almeida Coelho; saíram do prelo da Tipografia Desterrense as Cartas acerca da Província de Santa Catarina (1857), por José Gonçalves do Santos Silva; os versos de José Elisiário da Silva Quintanilha, em Lírios e Rosas (1863); as Notas geographicas e históricas sobre a Laguna: desde sua fundação até 1750 (1884), de Manoel do Nascimento da Fonseca Galvão; Raimundo (1868), drama em cinco atos de Álvaro de Carvalho; Traços Azues (1884), de Virgílio Várzea; dentre tantas outras obras que atraem como néctar os caçadores de livros raros.

Mestre Lopes, assim como Avelim, e tantos outros tipógrafos desta primeira fase da história editorial da cidade fazem parte de uma “ampla gama de atividades humanas” envolvidas nos processos de produção, edição, e, principalmente, circulação do livro, que nos proporciona analisar a “base material da comunicação do pensamento ”, especialmente pelo fato de que o trabalho de suas vidas nos fornece indícios para decompormos os modos em que certas idéias penetraram e incidiram sobre os rumos da sociedade.

Neste caso, tão importante quanto o estudo das casas tipográficas torna-se o estudo dos outros mediadores entre o livro e o leitor: os possuidores dos canais de comercialização, os livreiros. Pois no século XIX não encontraremos em Desterro uma casa comercial que seja uma Livraria nos moldes em que conhecemos hoje, uma casa dedicada exclusivamente ao comércio de livros.

As próprias tipografias encarregavam-se de comercializar livros, tanto aqueles saídos de seus prelos quanto obras de outros, como o caso da tipografia Catharinense, que anunciava a venda de um Guia dos Namorados; um Vocabulário das Flores; e, o Heroísmo das Senhoras; em meio a tinteiros, tintas, lápis, papel, penas de aço e de aves, e “outras miudezas ”. A Typographia do Cacique, de Joaquim Augusto do Livramento, vendia o que produzia, desde o livro de poesias de José Ramos da Silva Jr., Noites de Luar, a cartões de enterro, talões para repartições públicas, Roteiros de signaes do porto desta Província, etc .

Temos notícia da existência, em 1896 e 1897, da Livraria Firmo - situada na rua da República, nº10, atual Felipe Schmidt - o primeiro estabelecimento de que temos notícia a intitular-se uma “livraria”. Se levarmos em conta a lista de livros disponíveis na livraria publicada nos jornais, acervo de obras à disposição parecia ser amplo, mas não sabemos se os livros em questão pertenciam às estantes da livraria ou se faziam parte do catálogo de obras que a mesma poderia solicitar às grandes casas editoriais da Corte.

Um anúncio publicado no jornal O Repórter noticia uma promoção aos assinantes dos jornais O Paiz e A Notícia. Aqueles que assinassem o jornal durante o ano de 1897 receberia como brinde um dos livros listados no anúncio. Entre as obras, destacam-se: Poesias, de Gonçalves Dias; A carteira de meu tio, romance de Joaquim Manoel de Macedo; as Aventuras Prodigiosas de Tartarin de Tarrascon, de A. Daudet; O sonho, de E. Zola; Vogando, romance por Guy de Maupassant; Miragem, de Coelho Netto; Demônios, de Aluízio Azevedo; Crônicas e Novelas, de Olavo Bilac; No paíz dos Yankees, de Adolpho Caminha; Mares e campos, de Virgílio Várzea; Alma Primitiva, de Magalhães de Azevedo; e o romance Encarnação, de José de Alencar .

Embora tal estabelecimento se auto denominava “Livraria”, era uma casa dedicada a tudo o que diz respeito à leitura e a escrita, possuindo um sortimento completo de papéis, músicas, cromos, artigos de escritório e desenho, comédias, dramas, poesias, dicionários, livros colegiais, de direito e religião, romances, cartões de visita e comerciais de diversas cores, máquinas de copiar, Chernoviz [livro de fórmulas farmacêuticas], papel de música, fotografias, livros em italiano, quadros para retratos, objetos para presentes, porta fios para embrulho e penas Soennecken para todos os feitios de letras, além de receber encomendas para livros.

Tal anúncio nos leva a crer que os livros que anunciava eram realmente vendidos sob encomenda, através de catálogo, sendo que suas prateleiras eram ocupadas essencialmente por objetos de escritório e papelaria. Esta configuração se deu mesmo no inicio do século XX, quando as duas principais livrarias da cidade, a Livraria Moderna, de Paschoal Simone, e a Livraria Central, de Alberto Entres, também se dedicavam a possuir um amplo estoque desses materiais, nos quais os livros eram apenas um dos itens, talvez sequer o principal, expostos nas vitrines e a ocupar apenas uma parte das estantes .

Contudo, a circulação dos livros em Desterro não aparenta ser tão crítica como se leva a crer. De 1850 em diante proliferam-se os anúncios de venda de livros nos jornais e sempre que chegava uma nova remessa de livros pelos paquetes que aportavam na cidade, publicava-se nos jornais a lista das obras a serem comercializadas.

Este convívio entre homens, mulheres, crianças e livros já parecia ser tão natural que até mesmo o humor era permitido nesta relação, como demonstra um pequeno anúncio publicado a pedido num dos jornais da cidade:

Obra interessante. Tratado de botar águas à rua sem molhar quem passa, obra muito útil para os que costumam fazê-lo. Vende-se em brochura por pouco mais de nada, na rua Conceição, sobrado .

Percebe-se nesta fina ironia nascida da intimidade naturalizada entre a sociedade e os jornais civilizadores, uma parte da população – a que lia e consumia os periódicos – começando a habituar-se à cultura impressa. Até o nome dado a este fictício tratado segue à tendência editorial da época em dar títulos longos e explicativos as obras.

Outro exemplo desta intimidade é o anúncio, para breve, de um fictício leilão dos seguintes livros:

N° 1. 16 volumes contendo as 16 maravilhas, 16 peças, e 16 mil desparates, obra curiosa e interessante. N° 2. Dois volumes contendo diálogos entre um elephante, e uma suçuarana. N° 3. Oito volumes contendo a nova Babel, onde há discursos em menuscripto adequados a pouca luz em terra nova. N° 4. Vinte volumes contendo os misterios dos inviziveis Juízes, decretando extermínio aos perjuros que tiveram a desgraça de abandonar seus preceitos. N° 5. Quinhentos volumes do art. 301 do código criminal, para os que uzão de insígnias que lhes não pertencem. NB. Da-se gratuito um par d’oculos a quem tocar o ultimo lote .

Certamente tal intimidade não nasceu unicamente pelo contato com os catálogos de livros disponíveis. O contato direto com o livro – e as conseqüências deste contato, como o par de óculos dado de brinde no anúncio do leilão... - é indispensável para a resignificação do objeto, para que lhe seja dado algum sentido. Hoje, quando entro num sebo qualquer, logo meus sentidos são despertados pelo cheiro característico de material impresso, das folhas dos livros, dos diferentes tipos de papel, das revistas, dos gibis, da poeira e mesmo do mofo e dos inevitáveis ácaros, cuja proliferação é tão comum num clima como o brasileiro. Pois o leitor disposto a adquirir um livro nesta antiga Desterro certamente sentiria no ar outros cheiros, atualmente inimagináveis dentro de livrarias.

É o caso de quem estivesse interessado em falar francês – tão moderno e elegante à época – e necessitasse de um Diálogo Francez e Portugues, à venda na loja de ferragens de David do Amaral e Silva, assim como um Diccionário Latino, um Magnum Léxico, o romance Magdalena, e obras jurídicas como a Legislação do Brasil, o Manual de appellaccoes e aggravos, e o Princípio de Direito Divino e Natural .

Já no bilhar da rua da Cadeia (atual Tiradentes), de propriedade de Antônio Jacques da Silveira, o jogador habilidoso, entre um gole e uma tacada, poderia adquirir as Eneidas de Virgílio, traduzidas por João Franco Barielo; ou os folhetos do romance Um Inigma, a 1$000 cada. Neste mesmo literato bilhar, Luiz Nunes Pires cometeu o grave erro de emprestar uma de suas obras, e agora rogava a quem ele havia emprestado seus dois volumes da História da Revolução Francesa, por Cabet, para que lhe restituísse sem demora .

Outro ponto de venda conhecido foi o Hotel Universo, de Jules Méssire de Brier, dono de uma biblioteca particular que, em 1861, possuía “cerca de cinco a seis mil volumes escolhidos ”, com vistas à fundação de um gabinete de leitura. Infelizmente os negócios não andaram muito bem para Mr. de Brier e o Hotel acabou abrindo falência antes que pudesse ter levado sua idéia adiante. Em 1862, pelas dívidas, chegou a ser preso e tentar o suicídio .

Forçosamente tendo que abandonar seus planos, acabou pondo seus livros a venda no próprio Hotel. Junto a salames, biscoitinhos, sardinhas em conserva, ameixas, fígado, charutos cubanos, aspargos e ao salmão de lagosta vendidos no estabelecimento, dificilmente alguém sentiria o aroma dos livros, mesmo que sejam exemplares de Alexandre Dumas, Thiers, Lamartine, Capefique, Eugenio Sue, Montepin, Fondras e outros clássicos ingleses e alemães ...

Um dos comerciantes mais famosos e incentivadores da circulação das obras pela cidade foi Antônio Francisco de Farias, dono de um estabelecimento na rua do Príncipe (atual Conselheiro Mafra), nº 01. O leitor mais atento poderá se lembrar que sua casa foi uma das que se propuseram a receber assinaturas para a publicação da obra aqui analisada de Almeida Coelho.

Pois, entre subscrições, chapéus de palha para crianças e uma latinha fresca do Rapé Princesa, de Lisboa , poderia se comprar Os Lusíadas, de Camões, e outras obras de autores lusitanos, como Os Portugueses perante o Mundo; o Diccionário Geographico de Portugal; O Observador Lusitano; uma biografia do Marquez de Pombal; e a Descripção dos festejos reais por occasião do casamento de D. Pedro V, Rei de Portugal . Se tais assuntos não agradassem, sempre haveria a possibilidade de se recorrer aos Livros de Sorte; ou Ivanhoé, de Walter Scott; Nossa Senhora de Paris, de Vitor Hugo; ou os livros de mistério, romances e aventura que tanto sucesso faziam como Saint-Clair das Ilhas; o Espião do Campo Neutral; o Anão das Pedras Negras; o Cavalheiro da Casa Vermelha; a Porcina Donzella; o Collar da Rainha; a Cortezan de Paris; Gil Beaz Parisiense; a Dama do Lago; o Salteador Saxônico ...

O estabelecimento de Antônio Farias foi um dos primeiros a comercializar autores brasileiros, como as brochuras de Cinco Minutos e O Guarany , de José de Alencar; além do Moço Loiro , de Joaquim Manoel de Macedo, que muito sucesso fez por estas terras. Mesclando elementos de amor e mistério ao documentar o cotidiano do Rio de Janeiro do Segundo Reinado, o livro é um dos grandes expoentes do Romantismo na literatura brasileira. Publicado como folhetim pelo Argos, em 1856, o moço loiro do título teria sido o médico e político desterrense Duarte Paranhos Schutel, companheiro de quarto de Macedo nos tempos de estudante e que o tomou como modelo para a personagem .

Em D. João de Jaqueta, romance de 1877 de Horácio Nunes, uma das tramas principais envolve Rosalina, jovem moradora do interior da ilha, mas educada na cidade e especializada na “ciência do namoro”, e cujos romances que lia eram seus únicos e fiéis companheiros. Sem eles, “levaria a vida a chorar pelos cantos... ” Pois um dos romances preferidos da jovem era justamente O Moço Loiro, causador de ciúmes em um de seus pretendentes:

ROMUALDO – O que é que está lendo?

ROSALINA – (Rindo) É o Moço Loiro. Conhece?

ROMUALDO – Nunca vi esse moço... A menina conhece?

ROSALINA – Conheço. É um rapaz muito bonito, muito bem vestido, que fala muito bem, que nunca dá suspiros, nem finos nem grossos, e de quem eu gosto muito...

ROMUALDO – (Fazendo uma careta e levantando as mãos ao peito, á parte) Ai! Ai! (...) Isto é namorado com certeza! ... “Zesus”!

Terá Rosalina comprado seu exemplar no estabelecimento de Antônio Farias? Isto não saberemos, nem o pobre Romualdo, que parecia estar muito interessado em saber de onde o tal moço loiro havia saído... Entretanto, mais importante que isto é percebemos, através do estudo da literatura e dos livros que circulavam pela cidade –mesmo pelo interior da ilha, como demonstra Horácio Nunes, apesar de certamente em menor medida... - como Desterro modificava-se, e aos poucos remodelava a si própria e a seus costumes. Rosalina pertencia a um imaginário feminino de uma sociedade que passava por uma “clivagem das condutas” e remodelação do seu espaço urbano, com a “introdução de novos agentes sociais no cotidiano da população” .

Agentes estes que poderiam ser um romance como Moço Loiro ou outro tipo de publicação à venda, como um Manual de Civilidade ou Elementos de Civilidade, vendido ao lado das Fábulas de Esopo, as Gramáticas francezas, por Sevine; e os Dicionários francezes, de Constantino, na loja de José Bonifácio Caldeira de Andrade .

Esta crescente ordem burguesa em Desterro, ao que tudo indica, colabora para uma nova leitura da cidade, para além do já batido estereótipo de que a cidade que foi uma ilha isolada dos principais fatos culturais de seu tempo, sejam eles nacionais ou estrangeiros. Obviamente a cidade não possuía a dinâmica interna dos grandes centros brasileiros como o Rio de Janeiro e São Paulo. Mas isto não se deve ao seu isolamento, e sim a toda uma lógica própria, intrínseca à sua identidade e toponímia, a sociabilidade marítima, a seus rituais e a seus laços internos que nestes grandes centros já se distenderam.

Aos artigos científicos, às notícias telegráficas, às crônicas sobre os bons-tons, às expressões religiosas, aos anúncios de bailes, saraus e teatros, juntam-se os manuais de civilidade, os romances “cor-de-rosa” carregados de uma sedução que educa, as revistas dos grandes centros que desembarcavam pelos paquetes...

A ilha não era isolada. Pelos cabos da The Western and Brazilian Telegraph, a ilha comunicava-se ao Rio de Janeiro, Santos, Bahia, Pará . Nesta primeira “Era do Vapor” a cidade estava conectada semanalmente ao Rio de Janeiro, ou a Buenos Aires, por meio de qualquer um dos quatro paquetes que aqui aportavam, “em viagens que raramente excediam 60 horas ”. Através do porto exportava-se produtos à Província do Prata, ao Rio Grande do Sul, Pernambuco .

O porto também era a porta de entrada de passageiros que desembarcavam na ilha trazendo em suas malas jornais e livros da Corte, como o caso do jornalista e teatrólogo Francisco Moreira de Vasconcelos, então diretor da Companhia Teatral de Julieta dos Santos. Foi por suas mãos que jovens intelectuais da Província, como Virgílio Várzea, Cruz e Souza, Santos Lostada, Horácio e Araújo Figueiredo entraram em contato com diversos autores modernos para a época, como “Guerra Junqueiro, Gimes Leal, Charles Nodier, Balzac, Theophile de Gautier, Beaudelaire ...” Estes mesmo jovens, ao lançarem seu soneto-manifesto da “Idéia Nova”, citam autores como Hartman, Spencer, Zola, documentando a penetração da obra desses autores nas tertúlias literárias da província.

Para aqueles que não faziam parte deste círculo de amizade e intercâmbio de livros, bastava o interessado solicitar a alguma das grandes casas comerciais da corte que publicavam nos jornais locais seus anúncios com os lançamentos literários nacionais e estrangeiros editados no país.

É o caso dos livreiros cariocas Paula Brito e Agostinho de Freitas Guimarães e da Livraria Universal, de E. & H. Laemmert. A julgar pelos anúncios publicados, a coleção de romances, contos, relatos de viagens e biografias da Bibliotheca das Famílias fez sucesso também por aqui, e cujas implicações da difusão dos ideais que este tipo de material traz consigo demanda um estudo mais detalhado do que pretende esta breve cartografia de livrarias, livreiros e livros.

Dentre tais estabelecimentos, a livraria da corte que mais comercializou livros na ilha – a julgar pela quantidade de anúncios publicados - foi a Garnier, então sediada na rua do Ouvidor, sob o comando de Baptiste Louis Garnier. Ao lado dos Laemmert, foi uma das maiores casas editoriais de seu tempo, e uma das responsáveis pelo aumento do público leitor de romances, publicando Balzac, Scott, Dumas – perceba o leitor que todos já foram aqui citados, como autores de livros circulantes em Desterro...- enfim, autores já consagrados .

A Garnier introduziu o formato francês ao qual a maioria dos livros brasileiros se ajustou durante décadas, além dos preços de capa fixos, o que certamente facilitava a exportação para outros cantos do país, bastando calcular o preço do envio postal em cima do preço de capa do catálogo da livraria, publicados através de excertos nos jornais de outras províncias, como Desterro Numa breve leitura destes excertos, podemos perceber a penetração de obras como O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, que deve ter feito sucesso entre os espíritas da ilha, como o poeta Araújo Figueiredo; aventuras de Julio Verne, tais como Ao Redor da Lua e Os náufragos do ar ; além de romances vertidos do francês pelo corpo fixo de tradutores da Garnier, como Os Bandeirantes, de G. Ferry; e Memória de Carlos Paulo de Kock, escrita pelo próprio romancista francês, todos tabelados a 2$réis o volume ...

Contudo, a despeito desta inundação de cultura impressa, a Desterro do século XIX continua sendo vista como uma “paisagem de cores mortas ”, onde tudo é anacrônico e lento, no qual “o resto do mundo morria silencioso ” para além do círculo abrangido pelas intrigas domésticas.

Nas entrelinhas deste suposto “marasmo” há aquela revolução despercebida de que falamos. Em toda sociedade letrada, aprender a ler tem algo de iniciação, de “passagem ritualizada ”. A criança, aprendendo a ler, segundo Manguel, “é admitida na memória comunal por meio de livros, familiarizando-se assim com um passado comum que ela renova, em maior ou menor grau, a cada nova leitura ”. Sempre que este estigma de isolamento e lentidão intelectual é repetido, ignora-se esta revolução, intrinsecamente presente nesta nova camada urbana.

A História Editorial apresenta-se como uma possibilidade de rompimento com esta linha de pensamento ao buscar mostrar, oculto em indícios como a anedota sobre o Tratado de botar águas à rua, o rito de passagem de Desterro, o momento sublime em que o signo é decifrado e a revolução se dá de forma simples e definitiva, ainda que imperceptível.

 
Voltar