Voltar    
  HISTÓRIAS DE LEITURA: A CONSTITUIÇÃO DE SUJEITOS SURDOS COMO LEITORES

Heloísa A.V. Matos - Universidade Estadual de Campinas - Faculdade de Educação
Sérgio A. S. Leite – Orientador - Unicamp - FE

O problema deste estudo

• O problema central desta pesquisa fundamenta-se na reflexão sobre a constituição do Surdo como leitor, suas implicações e fundamentações historicamente situadas, onde a própria identidade desse sujeito-leitor se (des)constrói.

• Implica no questionamento em relação à auto-imagem (identidade) do Surdo como leitor. O que ele nos diz? A que fatores ele nos remete, através de sua narrativa acerca do seu processo de formação como leitor?

• O problema deste estudo está vinculado a questões de entrelaçamento entre a constituição do pensamento individual da imagem que o próprio leitor surdo tem de si e de suas histórias de leitura – e a do social (coletivo) acerca de suas práticas e produções como leitores.

• Surdos adultos, de diferentes classes sociais, não oralizados, possuem semelhanças em suas narrativas frente ao processo de letramento? Em que e como se distanciam dos êxitos? Quais as implicações que os próprios surdos apontam, no que se refere à presença da língua de sinais (LIBRAS) nesse processo que vivenciaram?

• De modo geral, os surdos consideram os textos de difícil compreensão, justificando isso pelo vocabulário. Contudo, mesmo quando conhecem as palavras, não sabem considerar o contexto (BOTELHO, 2002).

• De acordo com Schimmel, Edwards e Prickett (1999), as crianças surdas de seu país têm dificuldade em ler o inglês escrito. Apesar de encontrarem em sua pesquisa muitas crianças surdas que apresentaram níveis altos de proficiência em leitura, muitas delas apresentaram níveis baixos e alarmantes (estudantes com perda auditiva profunda, minorias e com histórico de desvantagens educacionais, em relação a outros surdos e ouvintes).

• Segundo a pesquisa de Luchesi (2003), os sujeitos atribuíam ao fato de serem surdos as dificuldades que encontravam em seu processo de alfabetização: “ Ler e escrever é difícil porque não falo e não escuto” (p.12).
• Apesar de terem tido mais de dez anos de escolarização, esses alunos surdos ainda apresentavam baixos níveis de desempenho na utilização da linguagem oral e escrita (LUCHESI, 2003).

• Para Luchesi (2003), muitos surdos não aprenderam a ler e a escrever, mesmo tendo freqüentado o ensino especial, Alguns se oralizaram, outros não, e mesmo aqueles que desenvolveram a linguagem oral não aprenderam a linguagem escrita.

• Smolka (2000) ressalta que “tornar próprio não significa exatamente, e nem sempre coincide com tornar adequado às expectativas sociais. Existem modos de tornar próprio, de tornar seu, que não são adequados ou pertinentes para o outro” (p.32).

• Pensando a esse respeito, como nós ouvintes estaríamos avaliando e categorizando as práticas de leitura dos surdos, suas ações e conhecimentos nesta área? E de que posição temos feito isso?

Objetivo

• Trazer as vozes dos surdos que tecem sua própria história de leitura, que carregam nesta narrativa o entrecruzamento com outras histórias; portanto, configurar os processos de segregação/ inclusão dos mesmos na cultura letrada e refletir sobre a cristalização de estigmas que influenciam no processo de formação da identidade surda e no convívio com a diferença.

As Justificativas da pesquisa

• De acordo com Sobrinho e Naujorks (2001, p.12), há um certo descaso na seleção de temas socialmente válidos como objeto de pesquisa na área, predominando a pesquisa descritiva, com ênfase na área de deficiência mental, em detrimento de estudos envolvendo, por exemplo, a surdez. Os estudos de interface pouco aparecem na literatura especializada, além de se pesquisar pouco sobre a formação de Recursos Humanos para tal;

• Várias pesquisas têm sido delineadas mais em função de aspectos lingüísticos, clínico-terapêuticos, cognitivos ou de métodos de ensino (COSTA, 1992; SLOMSKI, 2000; MARTINEZ, 1997, por exemplo) , do que em relação às questões de constituição histórica da imagem do leitor surdo e de suas apropriações e práticas cotidianas da leitura da língua majoritária;

• Conforme aponta Rottemberg (2001), um número significante de estudos de caso têm documentado o desenvolvimento inicial da leitura de crianças ouvintes e, relativamente, poucos estudos têm sido feitos sobre a emergência da leitura por crianças surdas;

• Histórias pessoais referentes à memória de leitura configuram lacunas na área (LAJOLO, 1999);

• Pretende-se com esta pesquisa trazer as vozes dos surdos que tecem sua própria história de leitura, que carregam nesta narrativa o entrecruzamento com outras histórias; portanto, configurar os processos de segregação/ inclusão dos mesmos na cultura letrada e refletir sobre a cristalização de estigmas que influenciam no processo de formação da identidade surda e no convívio com a diferença;

• Enveredar por este jogo de relações e criações culturais sobre o leitor surdo, então, pode nos trazer importantes contribuições para a educação dos mesmos e nos dar subsídios para uma reflexão mais ampla sobre as práticas, produções e apropriações da leitura, diante da historiografia traçada pelos próprios surdos.

Corpo Teórico: concepção sócio-histórica, Bilingüismo e processo multimodal do letramento na Surdez

• Concepção de Leitura e constituição do sujeito leitor
• Da leitura e suas implicações
• O desenvolvimento da atividade de leitura: apropriação e a constituição do leitor
• Linguagem, Leitura e Surdez
• Da linguagem: aquisição e desenvolvimento na surdez
• Linguagem e identidade surda
• Letramento e Surdez

Caminhos da Pesquisa

• Escolha Metodológica
• História Oral de Vida (trata-se da narrativa do conjunto da experiência de vida de uma pessoa, o depoente, que tem maior flexibilidade para dissertar sobre sua experiência pessoal)

Sujeitos
• Adultos surdos não oralizados (surdez pré-lingüística), leitores do Português (04 depoentes)

Procedimentos de Coleta e Análise de Dados

• Depoimentos: entrevistas individuais semi-dirigidas, com a participação do intérprete de LIBRAS.
• Videografia: as entrevistas serão videogravadas, depois transcritas e (re)apresentadas ao depoente (necessariamente) e ao seu intérprete, se este assim desejar.
• E-mail, ICQ, MSN Messenger (para entrevistas posteriores, onde o relato da sessão anterior - sistematizado e resumido numa matriz escrita - será apresentado, continuamente, para que o sujeito possa realizar as mudanças que julgar pertinentes, ajudando na construção dos sentidos de sua experiência de vida).

 
Voltar