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AS QUESTÕES SOCIAIS NO GOVERNO LULA: UMA ANÁLISE CONTRASTIVA DOS DISCURSOS DO JORNAL NACIONAL E DO JORNAL DA RECORD

Cristiane Maria Megid - IEL/Unicamp

Esta pesquisa foi realizada a partir dos resultados obtidos em um estudo que fizemos entre agosto de 2003 e julho de 2004 intitulado “As questões sociais no governo Lula: uma análise dos discursos da Folha de S. Paulo e do O Estado de S. Paulo” (Megid, 2004). Nela averiguamos como estes dois diários se posicionaram ideologicamente nas reportagens de primeira página que se referiam ao governo federal e aos interesses sociais, publicadas no período de agosto a novembro de 2003. Para tanto, utilizamos como subsídios teóricos a Análise do Discurso e a Semântica Histórica da Enunciação, bem como estudos jornalísticos sobre os mecanismos de controle da imprensa e da mídia, mesmo que feitos em outros campos teóricos.
Tendo os resultados desta pesquisa com os jornais impressos como ponto de partida, ampliamos nosso material de pesquisa, analisando o jornalismo na televisão. Este veículo possui um público maior do que os jornais impressos e, portanto, é formador de opinião de uma quantidade maior de sujeitos, além de contar com um processo de produção de sentido envolvendo linguagens verbal e não-verbal em movimento.
Analisamos, então, como dois dos principais telejornais nacionais existentes hoje no Brasil, o Jornal Nacional (JN) e o Jornal da Record (JR), se posicionam nas mesmas questões analisadas anteriormente, ou seja, as relações entre o governo federal e a sociedade.
Partimos, primeiramente, dos estudos jornalísticos feito nas primeiras décadas do século XX, em especial nos Estados Unidos, que difundiram os conceitos de objetividade e imparcialidade. Foram criados padrões para a apuração das informações e construção dos textos. Segundo Zanchetta Júnior (2004), nesta época e, sobretudo, neste mesmo país, ocorreu uma reforma jornalística que muito influenciou a televisão com os padrões da notícia objetiva e sintética, distanciando a notícia da crítica explícita.
Porém, recentes estudos jornalísticos e lingüísticos têm observado que estas técnicas propostas pelas escolas norte-americanas não garantem a neutralidade das publicações. Na verdade, o que se criou foi um mito, o mito da imparcialidade. Neste caso, o mito nos impede de lermos uma notícia com a crítica necessária para compreender que

entre o fato e a versão que dele publica qualquer veículo de comunicação de massa há a mediação de um jornalista (não raro, de vários jornalistas), que carrega consigo toda uma formação cultural, todo um background pessoal, eventualmente opiniões muito firmes a respeito do próprio fato que está testemunhando, o que o leva a ver o fato de maneira distinta de outro companheiro com formação, background e opiniões diversas (Rossi, 1985: 10).

Paralelamente, podemos citar um trecho do artigo de Eduardo Guimarães (2001, pp. 14-15): “o acontecimento para o jornal, aquilo que é enunciável como notícia, não se dá por si, como evidência, mas é constituído pela própria prática do discurso jornalístico.
Para Lustosa (1996), a imparcialidade é um mito criado para preservar o discurso e os interesses do próprio veículo. Valorizando este mito, a mídia jornalística é capaz de seguir suas tendências próprias, seja por motivos econômicos, políticos ou ideológicos, fazendo com que esta parcialidade transpareça a seu público como se fosse a única verdade existente.
Além disso, como afirma L. Guimarães (2003), existe uma receptividade característica da televisão: "De todos os meios predominantemente visuais do jornalismo, a televisão é o mais passivo. Para ter acesso a seu conteúdo, basta o movimento de um dedo; até mesmo os olhos podem ficar imóveis" (p. 65).
Do ponto de vista lingüístico, existe ainda um outro fator que torna importante o estudo do discurso político nos telejornais. Por diversos interesses, o que utopicamente deveria ser uma matéria imparcial, torna-se praticamente uma propaganda na mídia jornalística. Eni Orlandi (1996) faz menção a este assunto no trecho a seguir:

Há, atualmente, um silenciamento do discurso político, que desliza para o discurso empresarial, neoliberal, em que tudo é igual (o político, o empresarial, o jurídico, etc). Nesse sentido, se se pode dizer que a mídia é lugar de interpretação, ela rege a interpretação para imobilizá-la (p. 16).

Tendo em vista estas exposições, pode-se assentar a problemática desta pesquisa sob dois aspectos. De um lado, a importância do telejornal nos processos de comunicação e formação da opinião pública. Por outro, a relevância do processo de importantes mudanças pelo qual está passando o Brasil neste momento, provocando significativas alterações nos rumos sociais, políticos e econômicos do país.
A partir das análises de notícias veiculadas nesses telejornais sobre o tema, começamos a identificar as opiniões de cada um deles em suas mais diferentes expressões sobre as quais iniciamos, então, uma reflexão sobre como as construções opinativas fazem parte da constituição dos telespectadores.

Materiais e Método

Nosso material de pesquisa consiste nas edições das primeiras semanas dos meses de agosto a novembro de 2004. Feitas as gravações, realizamos uma espécie de fichamento de cada edição gravada, anotando as reportagens apresentadas e seus temas principais para que, em seguida, pudéssemos selecionar para análise as notícias que envolvessem como tema central a sociedade brasileira e o governo Lula. A escolha do tema é a mesma do projeto anterior e nos permite a análise discursiva de questões polêmicas que têm sido levantadas desde o início do governo petista em 2003. A seleção das notícias foi feita pela referência das reportagens ao tema explicitamente ou através do interdiscurso .
Assim como na primeira pesquisa, fizemos primeiramente uma observação quantitativa dos dados obtidos, com a finalidade de observarmos a repetição e relevância dos temas das reportagens para cada emissora.
Passamos, então, às análises qualitativas. Selecionamos os trechos observados que têm problemas discursivos relevantes e fizemos suas transcrições. A análise foi feita, então, com base na transcrição dos trechos e na observação minuciosa das imagens que os acompanham. Apresentaremos, a seguir, algumas das análises realizadas e alguns dos resultados obtidos. Quando necessário, faremos também referência a alguns dos conceitos teóricos que utilizamos para nossos estudos.

Análises quantitativas

A análise quantitativa, por si só, não apresenta resultados significativos para a nossa proposta de análise discursiva. Por isso, ela faz parte de uma primeira observação dos telejornais que auxiliou-nos em outros momentos de nossa pesquisa.
Para exemplificar, veja os quadros a seguir referentes às análises quantitativas dos dois primeiros meses do material de pesquisa :


Uma das observações que fizemos nestes quadros foi a diferença no número de reportagens sobre as CPIs que acontecem neste momento (em especial a CPI do Banestado, a CPI da Loterj e a CPI da Pirataria). No JR o tema tem um destaque maior, com 11 matérias, enquanto o número no JN é 5.
Quando relacionamos este dado às análises qualitativas, vemos que muitas reportagens deste período no JR têm relação interdiscursiva com o tema da CPI. Isto quer dizer que não necessariamente os temas centrais da reportagem são dados, decisões ou discussões sobre a CPI, mas sim que, em reportagens que aparentemente não tratam sobre o assunto, Boris faz uma relação com elas explícita ou implicitamente em seu comentário. Este é um dos principais motivos para a diferença nestes números.

Análises Qualitativas

Nas análises qualitativas do material estudado, observamos diversas questões discursivas, concentrando-nos nas características gerais dos telejornais e em algumas reportagens selecionadas para esta etapa. Citaremos, a seguir, dois exemplos de análises qualitativas, sendo um sobre a linguagem não-verbal na constituição dos estúdios dos telejornais, e outro sobre a linguagem verbal de uma das reportagens analisadas.

A linguagem não-verbal

Analisaremos, neste item, a composição dos estúdios dos telejornais. Para L. Guimarães (2003), a mensagem visual é produzida pela composição de diversos elementos que não são lidos sincronicamente pelo telespectador, no nosso caso. São criados diversos planos e o que determina a seqüência de leitura deles é a ordem de apresentação dos planos (idem, pp. 68-69) o que, geralmente, é feito pela utilização das cores em cada um, pela sobreposição das camadas, pelo contraste entre os elementos, pelo impacto de cada imagem, pela configuração de cada elemento, de uma forma geral.
Citando Freud e Ivan Bystrina, L. Guimarães fala sobre a existência de uma segunda realidade, "imaginativa, mágica, criativa, cultural, que garante a sobrevivência do homem em aguras inevitáveis e implacáveis do mundo da realidade biofísica (a primeira realidade)" (L. Guimarães, 2003, p. 76). Sobre a construção cromática desta segunda realidade, ele afirma:

nota-se que as cores também funcionam para a superação e escape da primeira realidade (...). Quando o meio ambiente [entendido como o conjunto de condições sociais e naturais que estão ao redor do homem] em que se está inserido, ou a sua representação mental (Umwelt), tende ao monocromático, os códigos culturais da segunda realidade são coloridos (...). E se o cromatismo do Umwelt for totalmente saturado, os códigos culturais votar-se-ão para a monocromia. (idem, pp. 81-82)

Seguindo esta idéia, vemos ao fundo do estúdio do JN, no último plano da imagem, uma estilização do globo terrestre, construída com tons de azul que se clareiam nas faixas continentais. Esta forma de representação pode ser entendida como os estudos de L. Guimarães apontam, ou seja, como a representação do mundo como segunda realidade, em oposição à primeira realidade a qual o JN procura relatar.
Em um plano mais próximo, vemos os logotipos do telejornal ao lado dos apresentadores. O logotipo que também abre o JN é composto também por tons de azul e alguns detalhes em vermelho. Esta última cor é comumente usada, além da referência à violência ou à saúde, às lutas da esquerda política, no Brasil, em especial, referentes ao movimento "Diretas Já". O vermelho, portanto, pode nos remeter a este passado, como uma tentativa de apagamento da história de relações entre a emissora e o governo militar, fazendo com que sobressaia ao telespectador, de forma bastante discreta, a cor utilizada na defesa da democracia, hoje tão valorizada.
Observando o JR, vemos a predominância de cores mais escuras, o que, seguindo as observações de L. Guimarães, poderia estar relacionado ao horário em que o telejornal é transmitido. Há também a estilização do globo terrestre, tal qual feita no JN, mas utilizando as cores vermelho, laranja e cinza. A representação do mundo neste telejornal, mais longe do monocromático, pode, então, ser entendida como menos próxima da segunda realidade, ou seja, menos imaginativa. Um efeito de sentido possível, neste sentido, seria um telejornal mais próximo do que se entende por real e menos distante do "mundo azul" idealizado. O vermelho e o laranja, quando utilizados para a representação do mundo e não apenas de um telejornal brasileiro, podem lembrar-nos das guerras, da violência, dos problemas vividos pela humanidade que ali serão noticiados.
O logotipo do JR, contendo as iniciais do telejornal, assim como o JN, é apresentado em tons de laranja e dourado, parecendo brilhar no fundo escuro predominante no telejornal.
A mesa em que Bonner e Fátima Bernardes apresentam o JN, mostrada em primeiro plano, tem cores branca e prata, remetendo a um aspecto mais clean, como hoje se diz, isto é, com efeitos de sentido de sofisticação. Já a mesa de Boris Casoy tem o tampo bastante destacado pela cor vermelha que pode ter diferentes efeitos de sentido, especialmente os dois que apresentamos acima para este tom.

A linguagem verbal

Vamos, agora, apresentar uma das análises realizadas das reportagens que selecionamos para nossa pesquisa.
Retomando os estudos de Authier-Revuz (1998) sobre as heterogeneidades discursivas, uma nota transmitida pelos telejornais sobre o Grito dos Excluídos, no dia 6 de setembro no JR, e no dia 7 de setembro no JN, revela um posicionamento bastante importante para o nosso trabalho. Veja a transcrição das notas:

- JN (Nota Coberta): “Doze mil pessoas, representantes da Igreja, dos Sem-Terra e de outros movimentos sociais se reuniram hoje na Aparecida, em São Paulo. (início das imagens) Foi o fim da chamada “Marcha dos Excluídos” que durou 8 dias. Em São Paulo, 4 marchas se encontraram no local onde foi proclamada a Independência e onde hoje está o Museu do Ipiranga”.

- JR (Nota Simples): “Organizações sindicais, pastorais da Igreja Católica e movimentos de trabalhadores rurais participam amanhã em todo o país do Grito dos Excluídos. O MST faz, desde a semana passada, novas invasões de terra para comemorar os 10 anos do grito. Já o UDR faz também manifestação batizada de Ordem e Progresso em presidente Prudente no interior de São Paulo. A UDR diz que vai demonstrar seu descontentamento com Incra e o Ministério da Reforma Agrária que considera instituições inimigas. Segundo os fazendeiros, estes órgãos do governo estão provocando a insegurança no campo”.

O Grito dos Excluídos , protesto realizado por milhares de pessoas que enfrentam algum problema social, é referido pelos telejornais de forma diferente, a começar pelo sujeito das primeiras frases dos dois noticiários. O JN refere-se a "doze mil pessoas, representantes da Igreja, dos sem-terra e de outros movimentos sociais", e o JR a "organizações sindicais, pastorais da Igreja Católica e movimentos de trabalhadores rurais". Observe que o JN se refere mais amplamente aos participantes da manifestação, enquanto o JR especifica melhor as entidades às quais eles pertencem.
Por um lado, o JN veicula efeitos de sentido nos quais está enfatizado o grande número de pessoas que participaram do ato, o que também é feito pelas imagens mostradas, sempre com muitas pessoas carregando bandeiras, em sua maioria com a cor vermelha, caracterizando, assim, o protesto. Por outro lado, o JR produz efeitos de maior legitimidade para os movimentos que participam do ato. Isso pode ser visto nas oposições entre "representantes da Igreja" e "pastorais da Igreja Católica", e entre "sem-terra" e "movimento dos trabalhadores rurais".
Complementando estes efeitos de sentido, o JN refere-se ao ato apresentando uma heterogeneidade mostrada, ou uma não-coincidência do discurso com ele mesmo, utilizando os estudos de Authier-Revuz (1998). Dizer, portanto, que o ato é “chamado” de Marcha dos Excluídos, pressupõe-se que ele poderia não ser chamado desta forma, assim como o jornal não assume a autoria deste nome.
Já o JR chama o ato de “Grito dos Excluídos”, mas não mostra qualquer heterogeneidade neste relato. Por outro lado, o telejornal distancia-se do movimento organizado pelos ruralistas quando mostra a heterogeneidade em “manifestação batizada de Ordem e Progresso”. Esta última segue o mesmo processo da heterogeneidade vista no JN, mas coloca-se a não-coincidência sobre o movimento dos ruralistas, e não sobre o movimento dos excluídos.
A escolha lexical destes trechos também nos é muito importante. A palavra "grito" traz a imagem daquele que fala, mas não é ouvido. E grita por querer falar ou precisar ser ouvido. A palavra "marcha" traz efeitos de sentido bastante diferentes. Remete-nos interdiscursivamente a um discurso militar, se lembrarmos da conhecida "Marcha da família com Deus pela liberdade", ocorrida durante e a favor do Regime Militar no Brasil, assim como a canção infantil que diz "Marcha soldado, cabeça de papel. Quem não marchar direito vai preso pro quartel". Estes são acontecimentos muito presentes no discurso do brasileiro.
Ao mesmo tempo, realizamos uma busca no site Google (www.google.com.br). Para a expressão "Marcha dos Excluídos" encontramos aproximadamente 77 páginas, enquanto, para "Grito dos Excluídos", o site apresentou aproximadamente 8570 páginas, sendo que os dois termos são utilizados para designar o mesmo acontecimento. Existe, inclusive, um site para o "Grito do Excluídos", o gritodosexcluídos.com.br. Isso nos faz concluir que o JN escolheu uma expressão pouco utilizada para se referir a um movimento muito importante de oposição ao governo. O JR traz outros efeitos de sentido quando opta por utilizar o termo mais comum, fazendo com que o movimento também seja tido como mais conhecido pelos telespectadores.
Não queremos, com isso, dizer que as palavras têm significados, nelas mesmas, diferentes. Antes, temos, como diz Orlandi (1999, p. 43) que “as palavras (...) derivam seus sentidos das formações discursivas em que se inscrevem. As formações discursivas, por sua vez, representam no discurso as formações ideológicas. Desse modo, os sentidos sempre são determinados ideologicamente”.
No caso específico que relatamos, podemos dizer que as escolhas lexicais feitas pelos dois jornais nos remetem a formações discursivas diferentes, uma condizente com um discurso enraizado na ideologia militar, e outro que tem como base o protesto.
Outra escolha lexical do JR nos chama a atenção. Além de se referir ao movimento da UDR através de um discurso indireto, utiliza a palavra "batizada" para realizar a modalização. A modalização autonímica é um termo utilizado por Authier-Revuz (1998) e definido pela autora como uma “modalidade de representação reflexiva, opacificante, do dizer – em relação a fenômenos diversamente ‘vizinhos’” (p. 18). Temos aqui uma heterogeneidade constitutiva do dizer, cuja modalização é feita de forma pouco explícita, através da entonação do locutor e de um discurso indireto livre, utilizando classificações da própria autora. Mas Authier-Revuz afirma que a modalização também faz parte da determinação do dizer relatado.
Assim, e atrelando estes conceitos aos nossos estudos sobre as escolhas lexicais, a referência ao batismo traz como efeito de sentido o discurso religioso, caracteristicamente do discurso católico, já que é nesta religião que as crianças recebem um "nome de batismo". A utilização deste léxico, porém, está modalizando um discurso que não coincide com o discurso do JR. Lembramos aqui do histórico da Rede Record, da relação da emissora com a Igreja Universal que, por sua vez, tem uma longa história de oposição à Igreja Católica. Seguindo estes mesmos efeitos de sentido, voltamos à referência aos membros participantes do ato no início do discurso dos telejornais, no qual observamos um certo distanciamento da Igreja Católica feito pelo JR. Já o JN não especifica a "igreja" à qual se refere, pressupondo que o telespectador faça automaticamente a associação entre "igreja" e Igreja Católica.
Paralelamente a estas observações, mas seguindo as mesmas impressões vistas, no dia 7 de setembro, nos relatos das comemorações do dia da Independência do Brasil, o JR apresentou a cobertura da festa em Brasília e do Grito dos Excluídos um seguido do outro. O JN fez a cobertura dos dois eventos, mas os apresentou separadamente.
A primeira reportagem do JN é referente às comemorações em Brasília. Depois dela, são apresentadas 5 reportagens, entre elas 2 momentos de propagandas, para então ser transmitida uma nota sobre o Grito dos Excluídos.
A aproximação dos assuntos no JR ressalta a intertextualidade entre eles, tendo como possível efeito de sentido o aumento da crítica ao governo pronunciada pelo Grito dos Excluídos e, conseqüentemente, ofuscando o brilho da comemoração em Brasília. Este efeito de sentido é retomado por Boris Casoy no comentário final.
Já no JN, o distanciamento das duas reportagens distancia também a relação intertextual entre elas. Ao contrário do JR, então, o a comemoração do presidente tem mais força e o Grito dos Excluídos tem menos fundamento, ou seja, o motivo pelo qual ele acontece no dia 7 de setembro não é evidenciado nem explicitamente nem intertextualmente.

Conclusão

A partir das análises realizadas ao longo desta pesquisa, traçamos algumas conclusões que apresentaremos aqui resumidamente.
O material de pesquisa que escolhemos foi bastante extenso, mas permitiu-nos a observação de questões muito importantes que não observaríamos em um período mais curto de gravação dos telejornais, a exemplo da mudança de cenário do JR.
Começando, então, pelas características da linguagem não-verbal, levantamos alguns mitos presentes no imaginário social que produzem efeitos de sentido de imparcialidade, um efeito de real sobre a imagem da linguagem não-verbal. Com nossas análises, observamos que, desde a abertura e o cenário dos telejornais, o não-verbal é parte fundamental da construção dos seus discursos, sendo que o JN mobiliza efeitos de sentido procurando produzir um efeito de real, de imparcialidade do seu discurso, enquanto o JR procura mobilizar efeitos de sentido que construam sua pessoalidade e perfil analítico e crítico.
Além disso, o JN constrói uma imagem mais otimista do mundo não só nas reportagens, mas também na sua estrutura. A característica dos apresentadores traz para o telejornal a imagem da família que eles constituem, criando este interdiscurso com fronteiras muito opacas: quais os limites entre o lugar social do “bom pai” e da “boa mãe” – segundo as imagens constituídas pela mídia que divulga a vida das celebridades – e o lugar social do jornalista no JN? Da mesma forma, as cores do cenário, preponderantemente tonalidades de azul, que delineiam a estilização da representação do mundo, produzindo, como vimos, efeitos de uma idealização de um mundo melhor, um “mundo azul”.
Ao contrário, o Boris Casoy constitui a busca de uma pessoalidade dentro do JR, trazendo sua história no telejornalismo brasileiro caracterizada pela criticidade e discursos explicitamente opinativo para o JR. As cores escolhidas para o cenário são mais escuras e participam com freqüência da constituição de discursos de mobilização e protesto em todo o mundo.
Entretanto, observamos, além das características do cenário apresentadas neste texto, que o JR realizou algumas mudanças no seu estúdio, aproximando os elementos utilizados daqueles que compõem o estúdio do JN. A observação das mudanças no cenário do JR são bastante interessantes no sentido de mostrarem a busca pelo chamado Padrão Globo de Qualidade e, ao mesmo tempo, legitimando este padrão. Assim, visto que grande parte dos telespectadores está habituada à construção do cenário do JN, o JR evita o estranhamento na linguagem não-verbal – apesar de ainda existirem diferenças significativas entre os dois cenários – para focar a atenção do telespectador no diferente, ou seja¸ nas críticas e análises que o telejornal divulga.
Assim como na construção não-verbal, o JN busca o otimismo na construção verbal de suas notícias. Vimos isto em praticamente todas as reportagens analisadas, mais especificamente nos discursos relatados, escolhas lexicais, silenciamentos, interdiscursos e formações imaginárias.
Esta mesma característica foi observada na estrutura de apresentação das reportagens. O JN freqüentemente termina suas edições com notícias de esporte, variedades e cultura, e raramente com notícias que envolvam política, economia ou outras questões que envolvam perspectivas ruins para o país ou para o mundo.
Por outro lado, o JR constrói reportagens bastante críticas, utilizando diversos interdiscursos e intertextualidades que levam à crítica dos temas analisados. Estas relações são mais evidentes nos comentários de Boris Casoy, mas também estão presentes em outras partes do telejornal.
Estas características nos levam a importantes conclusões. O JN aproxima seu discurso da vida cotidiana do telespectador, através, por exemplo, dos interdiscursos com a família, as conquistas e desafios diários, apresentando histórias que retratam a vida de muitos de seus telespectadores, entre outros. Da mesma forma, a linguagem do telejornal se aproxima mais da linguagem cotidiana. Assim, a crítica ao governo ou à sociedade – no caso que aqui estudamos – se aproxima da auto-crítica. Por outro lado, o JR distancia seu discurso do discurso cotidiano, explicitando um deslocamento. O próprio Boris Casoy evidencia este deslocamento, o que facilita a visão crítica enfatizada pelo telejornal. No JN, esta crítica é mais difícil de ser feita, visto que o telespectador não é levado a produzir este deslocamento, tendo que fazê-lo por outras formas, através de sua formação.
Tendo em vista estas e outras considerações, vemos claramente que os telejornais não são imparciais. O JR não se propõe como tal e, através das comparações com ele, vimos que o JN procura criar uma imagem de imparcialidade de si próprio para o telespectador através de diversos elementos. Ou seja, há aí um apagamento dos processos de produção do discurso jornalístico, através dos quais agem inúmeros mecanismos de controle. É certo que todo discurso dispõe destes mecanismos, mas o apagamento deles nas empresas jornalísticas faz com que as notícias sejam veiculadas sob o rótulo do real, da verdade única e indiscutível, o que inibe as críticas e reflexões que devem ser feitas pelos telespectadores para a formação de sua opinião.


Bibliografia

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