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  MÉTODOS DE LEITURA E ESCRITA COM OS ALUNOS XAVANTE DO ENSINO FUNDAMENTAL DA ALDEIA DE SANGRADOURO EM MATO GROSSO.

Marcelo do Nascimento Melchior
Mestrando do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Educação da UCDB, Campo Grande - MS

1 – Escola Xavante: “Desafios, Horizontes e Metas.”

A realidade e o período no qual estamos vivendo, percebemos o quanto se torna difícil compreender e ao mesmo tempo conceituar uma determinada cultura, bem como uma “etnia”. Não distante de nós, sabemos da existência de povos que realmente buscam dar uma resposta para o mundo que estão inseridos, mesmo assim percebe-se que ainda estamos longe de especificar as verdadeiras necessidades do educando indígena e, de um modo mais peculiar, o jovem Xavante.

As formas e manifestações culturais do indígena são menosprezadas e reprimidas constantemente por alguns não índios, caberá à escola indígena conceituar e, principalmente, ter a audácia de modificar esse contexto?

Com os índios Xavante da aldeia de Sangradouro no estado de Mato Grosso, observamos ainda inúmeros desafios a serem superados, temos como exemplo aquele educador que frente a seus alunos é um organizador autoritário que impõe sempre e se apresenta como o centro da aula. Os educandos não têm possibilidade de opinar quase nunca durante as aulas.

Não existindo de forma alguma tarefas que se realizem em grupos, indo totalmente contra aos valores culturais da etnia, pois na educação tradicional Xavante, obrigatoriamente, os indivíduos são formados a realizar trabalhos em comum entre si.

A terceira etapa na vida Xavante é um inserimento na comunidade definitivamente. O Xavante é educado desde que nasce a viver em grupo. Não há espaço para o individualismo, para o isolamento. Isso evidencia-se nas danças, nos cantos, nos jogos...tudo é feito em conjunto. A vida na comunidade não chega a tirar (violentar) a espontaneidade e a liberdade individual. (GIACCARIA,1990, p.18)

Observamos a contradição existente nas perspectivas educacionais dos Xavante, se em um momento acontece determinadas ações que são indubitavelmente inerentes à cultura, por que em outro espaço isso não acontece? Tomamos como questionamento as maneiras e os métodos de trabalho no ambiente escolar, meio esse que deveria dar continuidade às ações pedagógicas já adquiridas.

Na escola Xavante, o que era comum entre os integrantes, o agente dominador é sempre o professor, pois ele é quem sempre fala e os meninos por sua vez se limitam a escutar. A tarefa de estudar aparece como um trabalho isolado, individual, nunca compartilhado, nunca comunitário e sobretudo sem levar em conta que os Xavante provém de uma realidade social historicamente antagônica.

O processo educativo nas sociedades indígenas apresenta diferenças tais, com respeito ao que se dá na chamada educação “nacional”, que às vezes se tem concluído que não existe educação indígena. Em outros termos, pressupõe-se que os índios não tem educação, porque não tem a “nossa educação”.(...) A conseqüência desse tipo de preconceitos é que julgamos necessário fazer a educação do índio, preconceito aliás, que vem dos primeiros tempos coloniais. ( MELIÀ, 1979, p.9)

Essas diferenças que se dão no processo educacional, e principalmente a mentalidade que a maioria dos não índios possuem a respeito da educação escolar indígena traz sérias conseqüências para o grupo.

O Jovem indígena quando recebe esse tipo de formação ele encontra mais tarde muitos inconvenientes em sua vida, principalmente no que se refere na comunicação e expressão em público. Quando adulto o Xavante deve contribuir para a organização de sua comunidade e assumir a defesa de seus direitos, mas devido a sua formação ele automaticamente se sentirá muito inseguro, pois não tem hábitos de expor e ser escutado, de expressar-se livremente e ser aceito pelos outros, porque quando era menino a “escola” lhe ensinou que só quem tem autoridade, tem direito de ser escutado.

A Constituição Federal de 1998 estabelece alguns critérios de normatização para os diversos grupos indígenas provenientes em nosso país, garantias e principalmente qualidade de vida adequada são leis expressas na constituição, mas na prática isso acontece?

Mas na prática tudo parece continuar como antes: a grande maioria dos programas de educação indígena em curso ou em fase de implantação em nosso país parecem dar as costas aos artigos constitucionais vigentes. Para que este panorama possa sofrer uma mudança substancial será preciso antes de mais nada, a promoção de campanhas educativas que tenham por objetivo combater a ignorância e o preconceito em relação aos povos indígenas. Campanhas que tenham como alvo não apenas a sociedade civil mas principalmente o setor público (federal, estadual e municipal), infelizmente ainda sem uma compreensão adequada da questão.

( LOPES, 1995, p.158)

Os problemas estão a nossa frente, quais são as medidas que poderiam causar uma relevância na mudança desse contexto? Muitas vezes somos instigados a apenas questionar, esquecendo daqueles princípios que se encontram na própria cultura que em muitos casos sem sombra de dúvidas, poderiam nortear e abrir caminhos para uma nova visão educacional nas diferenças postas entre grupos.

Em outras palavras, assessores e técnicos em educação escolar indígena não podem prescindir de lições fundamentais de teoria antropológica e de etnologia sul-americana. Caso contrário, os programas de educação escolar indígena poderão ser pautados por uma ideologia de indianidade genérica, onde noções como organizações sociais costumes, crenças e tradições dos povos indígenas são desprovidos de um sentido mais profundo e tomadas como detalhes pitorescos. ( LOPES, 1995, p.158)

Buscando soluções que sejam pertinentes à questão, temos que interagir com os variados grupos que estão envolvidos nesse ideal, os programas de estudo não podem estar separados da realidade sócio econômica e étno-cultural do indígena.

O ensino deve potencializar o desenvolvimento das comunidades sem perder suas características culturais, fazendo assim uma “negociação” entre grupos.

2 – O Índio e a Alfabetização Xavante.

Relatos de muitos indígenas nos mostram, que existem inúmeros preconceitos e discriminações com as sociedades indígenas, muitas pessoas ignoram o fato de que o índio é um cidadão com seus direitos e deveres.

Preconceito e discriminação são atitudes que acabam, muitas vezes, engendrando hostilidades, de uma parte da população dominante sobre outros grupos étnicos ou minorias, gerando muitas vezes situações de conflito e de violência. (...) O fato dos preconceitos estarem de tal forma disseminados pelo mundo, pode levar algumas pessoas a pensarem que estes são universais, naturais, e mesmo, que faz parte da natureza humana uma certa “antipatia frente ao que é diferente” ( LOPES, 1995, p.484)

Quando o individuo sofre “retaliações”, preconceitos, no meio em que está inserido, sabemos que o mesmo pode até negar a sua própria identidade, buscando assim camuflar-se para identificar-se obrigatoriamente nessa sociedade mais ampla, na qual está participando.

Mas afinal quem realmente é esse índio? A que categoria ele pertence?

A categoria índio é uma criação da nossa sociedade e da nossa cultura. No imaginário popular, o índio é duplamente livre: Não tem governo e perambula pelo território, isto é, não esta preso nem ao Estado nem à propriedade. Há toda uma mitologia da nobreza selvagem, mescla de autonomia, altivez e coragem que é incorporada, inclusive, na história pátria com a afirmação de sua incompatibilidade constitucional à escravidão. Há também conotações menos positivas na imagem: o índio é selvagem. Isto é, cruel, ignorante das leis (não civilizado), preguiçoso e atrasado (sem benefícios da tecnologia). (D’ANGELIS, 1996, p.5)

Essa visão sobre o índio impera em nossa sociedade, muitas vezes quando analisamos a fundo essas argumentações percebemos a tamanha mediocridade de certos indivíduos, em pensar que os índios não podem ser considerados seres humanos, quando afirma-se que o índio é um ser “preguiçoso”, “bicho”...etc, caí por terra todos os pressupostos de valores que possuímos, bem como a dignidade da pessoa humana, estamos nos auto-afirmando nessas mesmas condições, pois de onde trazemos nossas origens? Os índios e os não-índios deveriam estabelecer critérios para que ambos exercessem juntos e de forma igualitária a cidadania, dessa forma as relações éticas estariam sendo perpetuadas.

2.1 – O Processo Significativo em uma Educação Indígena – Xavante

O Sistema Educacional, no qual se faz presente, apesar de reduzir em algumas vezes a potencialidade enraizada no interior de cada indígena, não poderá de forma alguma impedir que o índio tenha um senso crítico do meio no qual está inserido.

Quando um jovem Xavante enfrenta os obstáculos e encara os desafios que o mundo dos não-índio o impôs, ele se sente vitorioso nessa luta, principalmente por alcançar a meta que fora traçada. Exemplo disso, é quando conseguem concluir um curso superior em uma universidade que possuí os moldes tradicionais, voltadas para os não-índios. Eles sentem orgulho pela conquista, principalmente pelos esforços empreendidos. Nessa visão, conjuga-se os valores culturais que são determinantes dentro da Etnia, bem como a integração entre a sociedade.

A educação, como processo, deve ser pensada como a maneira pela qual os membros de uma sociedade socializam as novas gerações, objetivando a continuidade dos valores e instituições consideradas fundamentais...As sociedades tribais possuem maneiras específicas para socializar seus membros jovens, dentro dos padrões da cultura tradicional. A diferenciação básica entre os procedimentos utilizados pelas sociedades tribais e uma sociedade nacional qualquer, em tempos do presente, está na não formalização dos sistemas de socialização tribais. Não há assim, escolarização formal entre os indígenas, em termos das culturas tradicionais. ( SANTOS, 1975, p.53-54)

O jovem Xavante, vem tomando uma nova postura em relação as mudanças no contexto de inserção nas perspectivas educacionais que compõem o mundo dos não-índios, é um grande desafio que está posto para a etnia, pois o contato pode trazer benefícios ou malefícios, devido as formas de aceitação de ambas as partes, o que se percebe entre os Xavante é que suas particularidades são mantidas o que reforça ainda mais o sentido de pertença a etnia.

(...) “inovação” e “tradição”, interpenetram-se de tal modo, que uma conduz a outra, podendo-se afirmar que: toda a inovação, por mais radical que seja, lança raízes no passado e se alimenta de potencialidades dinâmicas contidas nas tradições; que a inovação, já nasce culturalmente, como tradição, como “experiência sagrada” de um saber que transcende ao individuo e ao imediatismo do momento. ( FERNANDES, 1975, p.36)

Essa inovação que determinados membros da etnia estão vivendo nesses últimos anos, não é algo assustador e incompreensível, pois Fernandes já afirmava isso no ano de 1975, em seu livro Investigação Etnológica no Brasil. Quando o Xavante assume algum tipo de inovações, as mesmas irão permitir a sua auto-realização e às vezes o exercício de funções específicas e únicas que irão indubitavelmente contribuir de forma singularizada dentro de sua própria etnia.

Os Xavante tentam atingir os fatores mais concretos do seu grupo, buscando direcionar os conhecimentos adquiridos para a realidade existencial de cada indivíduo que compõe o grupo.

3 – Os Processos Teóricos – Metodológicos da Alfabetização e Desenvolvimento da Leitura nas Crianças Xavante de Sangradouro MT.

A escola indígena deve ser diferenciada e especifica, que busca atender de um modo particular o seu público que é específico e singular, as mesmas deveriam fornecer um tratamento significativo por estar em contato direto com os elementos essenciais e primordiais da cultura das diferentes etnias.

A escola indígena encontrou a possibilidade de se estabelecer em um espaço intercultural, bilíngüe, específico e diferenciado nos textos legais, intentando assim romper com um modelo secular de escola homogeneizadora e alienante. No entanto, em um primeiro momento, caracterizar a escola indígena como diferenciada e específica parece ter contribuído mais para confundir do que para facultar a busca de alternativas para uma escola de qualidade para os povos indígenas. (NASCIMENTO, 2004, p.99)

Essa dúvidas são geradas devido a significação e adequações referentes a algumas nomenclaturas, tais como: interculturalidade, bilingüismo e diferença, que infelizmente ainda não estão bem “enquadradas” e principalmente especificadas nesse contexto educacional indígena, pode-se afirmar que essas categorias são vazias de significado, e só conseguem se preencher a partir de situações particulares e pré-determinadas.

3.1 – Pressupostos para Uma Alfabetização Indígena Xavante.

A pretensão de dar uma educação para o indígena se centra logo desde o início sobre a alfabetização. A educação para o indígena se abre com esse quase rito de ensinar a ler e escrever ao indígena. (...) aliás, o fato de uma cultura não ter escrita, às vezes é considerado como sinônimo de não ter educação, nem poder ter progresso. A vontade e o interesse por alfabetizar o índio, tarefa que não está livre ou isenta de penosas dificuldades, é tão forte e tão apressada em muitos casos, que a gente se pergunta o por quê de tal exigência. (MELIÀ, 1979, p.58)

Nesse processo de escolarização formal, podemos notar que a escrita passa a ser difundida entre as sociedades indígenas, temos portanto um choque intercultural, pois essas formas se contrapõem à educação propriamente indígena, aquela que inclui os diferentes processos tradicionais de socialização que é peculiar e específico de cada povo.

Em Sangradouro tive a oportunidade de observar como também contribuir para a mudança de mentalidade de alguns professores (indígenas), que estavam passando por inúmeros obstáculos no que se refere a alfabetização de suas crianças.

Eles não estavam conseguindo valorizar, como também identificar o conhecimento tradicional de sua própria cultura, havia inúmeros desafios, mas o principal era em fazer uma ligação entre educação tradicional e educação escolar.

Existia entre os professores um certo desânimo, em trabalhar materiais didáticos do próprio grupo Xavante, a resistência estava posta. Minha tarefa como auxiliar pedagógico no ano de 2002, foi a de “ressuscitar” e re-ensinar aos professores alguns tópicos referentes a educação escolar indígena.

Esses professores que possuíam uma maior resistência tiveram uma alfabetização com os padres Salesianos, formação essa que tinha o seu caráter de cunho “evangelizador”, esses traços estavam inseridos e condicionados na mente de cada um deles, tornando dessa forma ainda mais difícil o trabalho.

Comecei a relatar uma outra perspectiva de educação, tracei um paralelo comparando o processo de alfabetização que os não-índios traçaram como fonte solucionadora de problemas para o grupo, baseando-me em Melià:

- Elevar o nível do índio. Com a alfabetização, o índio vai se igualar ao “civilizado” e até superar a muitos deles, que são analfabetos.

- Possibilitar a leitura da Bíblia e de outros livros religiosos.

- Possibilitar a leitura de livros onde está contido o caráter “nacional” e também os livros onde está contida instrução técnica de várias ordens.

- Fixar pela escrita, dentro do sistema nacional, as reclamações e direitos dos índios.

- Perpetuar no texto escrito a memória, até das tradições orais, e armazenar no arquivo um saber, que hoje se pensa estar em perigo desaparecer.

Como se vê, até nas suas intenções, a alfabetização não pode dissimular o seu caráter assimilacionista e tipicamente etnocêntrico, baseado numa série de pressupostos apriorísticos: que a cultura com escrita é superior às culturas ágrafas; que o livro fixa o caráter nacional; enfim, que o direito só pode ser assegurado pelo documento escrito. Até que ponto as razões apontadas pela sociedade nacional são, apesar de sua ideologia em partes aceitáveis? (MELIÀ, 1979, p.58-59)

E vi que muitos desses fatores acima expostos fizeram parte da formação deles e que inconscientemente aquela rigidez e posturas severas que os padres tinham para com eles na infância, estavam agora retransmitindo a suas crianças despercebidamente.

Mostrei ao grupo as percepções e captações de idéias que eram diferenciadas, e de um certo ponto provocadas pela alienação de alguns que fizeram parte do contato e deixaram influências, ocasionando um impacto cultural no grupo.

O índio que ainda não foi alfabetizado, como também aquele que obteve esse contato de iniciações a escrita e a leitura, ambos possuem perspectivas a respeito dessa educação, tendo argumentos que retratam a perspectiva da sociedade indígena a respeito dos meios educacionais.

Não somente índios já alfabetizados, mas também comunidades que não sofreram ainda a alfabetização, desejam veementemente alfabetizarem-se. As razões aduzidas para essa exigência são às vezes bastante complexas, entrando nelas interesses que nada tem a ver com a alfabetização mesma: desejo de ter uma professora de fora, uma construção escolar, aproveitamento das vantagens políticas regionais, dar satisfação a sociedade envolvente. Os índios perceberam que permitindo a alfabetização, podem-se camuflar e ficar mais tranqüilos no próprio modo de ser. (MELIÀ, 1979, p.59)

Temos aqui uma visão explicita dos fatores que são imbuídos e exteriorizados por boa parte dos grupos indígenas, e principalmente a visão e as perspectivas que o mesmo possuem sobre a alfabetização.

As razões propriamente referidas à alfabetização mesma costumam ser desse teor:

a) Dominar uma técnica mais do “civilizado”, que parece ter também um valor quase mágico.
b)
c) Defender-se contra a exploração salarial e nos tratos comerciais.
d)
e) Defender a própria terra com os instrumentos jurídicos documentados próprios da sociedade nacional.
f)
g) Progredir, depois da alfabetização inicial, nos estudos e na informação de técnicas “civilizadas”.
h)
i) Transmitir para apropria comunidade a técnica da alfabetização e processos seguintes.
j)
k) Prestigiar-se frente ao mundo dos “civilizados” e eventualmente conseguir melhores oportunidades de trabalho e um trato mais de igual para igual com os “civilizados”.
l)
m) Poder escrever as próprias tradições e aproveitar da leitura de textos, onde essas mesmas tradições foram já recolhidas pelos pesquisadores.
n)
Como se vê, implicitamente o índio interiorizou algumas idéias incutidas nele pela sociedade nacional. Mas também mostra uma profunda capacitação das inovações trazidas pela situação de contato, procurando dominá-las. (MELIÀ, 1979, p.59-60)

Essa é a realidade pela qual boa parte dos grupos vivem bem como almejam de uma alfabetização para o seu grupo. Até que ponto podemos nos questionar e perceber se os métodos que estamos trabalhando estão conseguindo alcançar os objetivos, obviamente esperados pelos indígenas, ficamos na expectativa de superar as limitações e encontrar um melhor caminho que una os valores culturais, como também educação escolar nas reservas indígenas.

4 – Alfabetizar: Os Métodos de Leitura e Escrita

Nas peculiaridades da alfabetização indígena, encontramos determinadas formas que se tornam essenciais para a vida do próprio índio que se encontra nesse processo de “descoberta”, pois inúmeras peculiaridades o fascinam e o tornam ainda mais motivado, ou poderá ocorrer inversamente, a desmotivação poderá ser acentuada em alguns casos.

As primeiras caracterizações alfabetizadoras, se assim posso dizer, se deu entre professor(não-índio) com aluno(indígena), esse processo era muito doloroso, porque na grande verdade, tínhamos culturas completamente diferentes, ocasionando barreiras e bloqueios.

Essas influências estereotipadas nas atitudes educacionais dos professores indígenas, que hoje atuam na escola de Sangradouro. No ano de 2002, tive a oportunidade de exercer um trabalho na escola, sendo assessor pedagógico, experiência essa, que tornou-me engrandecido. Todos os dias eram vividos com muitas descobertas e novidades enriquecedoras.

No primeiro momento, tive a paciência de apenas observar as formas pedagógicas exercidas pelos professores titulares da escola. Com o passar do tempo fui detectando as falhas, que a principio pareciam ser muito simples, mas na verdade traziam inúmeras conseqüências para as crianças, que ali adquiriam um conhecimento de uma realidade totalmente diferente, do que até então elas tinham experiênciado.

O Xavante vive como ato de integração e união do grupo, inúmeros momentos, que fundamentam e possibilitam uma perpetuação da cultura. Um exemplo disso são os rituais praticados dentro da sociedade.

A partir do momento que o Xavante é iniciado, ele assume o compromisso de viver intensamente todos os valores apreendidos, por toda a sua vida frente a sua cultura e de forma alguma negá-la. Os ritos são uma forma de demonstrar as diversas etapas da vida que o Xavante irá experienciar.

Os momentos de iniciação ritual assumem momentos correspondentes aos da vida humana em geral, tais como o nascimento, a puberdade, o casamento, a enfermidade, a morte etc. Como tais momentos pertencem a própria constituição da vida humana, celebrar tais momentos não deixa de ser um fato quase poderíamos dizer “natural”. A realização dos fatos e sua celebração estabelecem uma unidade inseparável. (LACHNITT, 2002, p.14)

O que quero demonstrar com essa explanação é a forma e a atenção que o grupo expressa nos valores de sua cultura, porém a criança que era inserida no ambiente escolar tinha uma ruptura muito grande de tudo o que fora aprendido no contexto familiar. Os professores tomavam atitudes taxativas e impositoras sobre os alunos, não havendo assim liberdade de expressão entre as crianças e jovens, em alguns momentos notei que vários professores faziam isso inconscientemente.

Minha principal tarefa foi em incentivar e tentar mudar a mentalidade desses professores em relações as posturas exercidas na educação escolar indígena, mais particularmente a realidade Xavante. Procurei motivar os professores a fazer ligações das disciplinas como: português, história, geografia...etc; com a realidade dos meninos na aldeia, provocando nos alunos uma maior dedicação a leitura como também a escrita.

Isso começou a despertar interesse nos professores e principalmente nos alunos. Inúmeros projetos começaram a surgir , todos voltados ao resgate dos valores que estavam sendo esquecidos.

Com uma nova postura educacional, os professores puderam fazer um “resgate” dos valores daquele primeiro saber que todas as crianças traziam de sua própria cultura.

4.1 – As Influências dos Missionários Salesianos na Educação.

As primeiras tentativas de alfabetização com os Xavante em Sangradouro, se deram com os missionários salesianos, que tinham como lema “Educar e Evangelizar os Índios”, lema esse que perdurou e causou inúmeras conseqüências no ponto de vista antropológico cultural da etnia.

Em 1957, ano que os Xavante chegaram na fazenda de Sangradouro , os padres prontamente acolheram o grupo, e a partir de então iniciou-se um processo de ajuda e restabelecimento dos mesmos, pois estavam muito doentes e debilitados.

Tomada as devidas providências, iniciou-se um trabalho para “catequizar” e “evangelizar” os Xavante, não esquecendo que dentre essa “evangelização” a alfabetização estava imbuída, e até mesmo prescrita nas metas missionárias.

Porém, algumas medidas impostas no processo de alfabetização, foram indevidamente utilizadas, não podemos estabelecer culpados nesse processo, porque nessa época tudo era muito “novo”, e as descobertas eram feitas conjuntamente.

Todos os missionários que se encontravam em Sangradouro eram de origem européia, imaginamos então o confronto de culturas existentes e a dificuldade de assimilação de idéias nesse contexto. Contudo aos poucos foram sendo construídas entre erros e acertos uma perspectiva educacional entre os Xavante de Sangradouro.

Nesse contexto algumas formas de alfabetização se tornaram inerentes no aprendizado daquelas crianças, e hoje boa parte desse grupo são professores que atuam na escola, tornando decisivamente implícitos aquela primeira educação que eles obtiveram.

A mudança e o entendimento, bem como a quebra de paradigmas devem ser retratadas para esses professores, isso foi um dos principais pontos em que trabalhei, desenvolvendo habilidades e competências numa perspectiva da escola indígena no século XXI.

Eis a perspectiva missionária da atualidade:

O missionário, para tal, precisa estar presente junto às comunidades, mas numa posição de quem participa, escuta e dialoga respeitosamente, convencido de que há muitos valores evangélicos já presentes na cultura da comunidade, mesmo que ainda em germe, que devem desabrochar secundados pela ação e promoção do missionário(...). (LACHNITT, 2002, p.9)

Colocamos em pauta a função do agente missionário, nesse momento, que os Xavante estão experienciando, em meio a inúmeros problemas existenciais, será que realmente podemos corroborar, com a perspectiva missionária salesiana hoje? Fica aí uma indagação.

4.2 – “Re-construindo” os Processos Motivacionais de Leitura e Escrita.

Devido a esse contato primeiro nos inícios da alfabetização Xavante em Sangradouro, não muitos anos distantes de mim, estava em minha frente um desafio imposto. Tentar contribuir no processo educativo, mostrando alguns pontos que não estavam sendo trabalhados devidamente na escola.

Como discuti anteriormente, meu primeiro contato fora somente de observação, passado essa fase que ocorreu aproximadamente durante uns 6 meses, fui colhendo e anotando todos os acontecimentos que se davam nesse ambiente escolar, sejam eles “bons”, “normais” ou “ruins”.

Passado esse período dediquei-me exclusivamente em trabalhar e principalmente motivar os professores a tornarem suas aulas, mais participativas e principalmente deixar o aluno “entusiasmado” com todas as descobertas desse novo processo.

Começamos a trabalhar projetos que estimulassem e principalmente tivesse com isso uma ligação com os valores culturais da etnia, dessa forma o resultado foi claramente notado sem muitas dificuldades o que é muito valoroso perceber a motivação do aluno quanto a do professor em sala de aula como na aldeia. As crianças procurando ler e escrever e em alguns casos ensinando também isso aos anciãos.

Tudo isso era uma forma muito gratificante, pois vimos resultados muito rápidos, o que tornava valoroso, poder partilhar esses resultados com toda a aldeia Xavante.

5- Conclusão

Discutir a questão indígena hoje, é um fato que gera muitas polêmicas e principalmente críticas, seja no mundo acadêmico, bem como na sociedade num todo. O preconceito ainda é muito forte entre as pessoas, aumentando ainda mais quando colocamos em jogo a educação escolar indígena.

A Educação escolar indígena, sem dúvida alguma deve estar intrinsecamente ligada com educação tradicional do grupo, aquela específica que é transmitida pelos anciãos e demais membros da etnia.

O processo educativo no meio indígena possui inúmeras diferenças em relação ao sistema dos não índios, isso é óbvio, não havendo hoje argumentações que sejam contrárias a essa afirmação. O que muitas pessoas discutem, é a verdadeira fundamentação de se dar e fazer com que o índio adquira conceitos educacionais de um outro grupo, no caso, os não índios.

Dessa maneira a pergunta transcende na mente de muitos: O índio precisa de uma educação escolar? Qual a viabilidade dessa educação para a etnia? Muitas perguntas a serem constantemente revistas e trabalhadas, incansavelmente por nós pesquisadores, pude explicitar resumidamente nesse artigo algumas reflexões de algumas questões inerentes a sociedade Xavante, ao leste do estado de Mato Grosso.

Relatei alguns dados referentes ao período no qual vivi com o grupo, sendo de máxima importância o contato permanente realizado com todos os membros da aldeia, de um modo mas particular, os professores e alunos.

Nesse contato, refletimos questões que eram pertinentes ao cotidiano das crianças, e a relação que se estava tendo com os professores em nível de educação escolar. Detectamos juntos inúmeras falhas, e procuramos responde-las e principalmente solucioná-las.

Com isso, a realização de projetos envolvendo toda a comunidade indígena foi de extrema importância, superando até mesmo, nossas expectativas em relação ao progresso dos alunos. As crianças aumentaram o hábito de leitura e compuseram uma cartilha , imaginem a revolução que se deu, o que era antes uma educação autoritária, com resquícios da formação dada pelos missionários, passou-se a ser uma educação em conjunto, libertadora de paradigmas adquiridos.

Foi extremamente válida, a atividade realizada em Sangradouro, é claro que toda ajuda é bem vinda, e de forma alguma podemos afirmar que todos os problemas da escola foram solucionados, muito pelo contrário, existem várias outras questões para ainda serem retratadas e discutidas.

Referências Bibliográficas

D’ ANGELIS, W. O Índio na Literatura dita infanto-juvenil.Revista Leitura: Teoria & Prática. Campinas: ALB, ano 15, n.28, dez. 1996.

FERNANDES, Florestan. Investigação Etnológica no Brasil e outros ensaios. Petrópolis, 1975.

GIACCARIA, Bartolomeu. ENSAIOS: Pedagogia Xavante, Aprofundamento Antropológico. Campo Grande: MSMT, 1990.

LACHNITT, Georg. Ritos de Passagem do Povo Xavante: Um Estudo Sistemático. 1.ed. Campo Grande:UCDB,2002.

LOPES, da Silva Aracy, org. II. Grupioni, Luís Donizete Benzi, org. A Temática Indígena na Escola: Novos Subsídios para Professores de 1º e 2º Graus. Brasília, MEC/MARI/UNESCO, 1995.

MELIÀ, B. Educação Indígena e Alfabetização. São Paulo: Loyola, 1979.

NASCIMENTO, Adir Casaro. Escola Indígena: Palco das Diferenças. Campo Grande: UCDB, 2004.

SANTOS, Sílvio Coelho dos. Educação e Sociedades Tribais. Porto Alegre: Loyola, 1975.


 
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