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  A FORMAÇÃO DO LEITOR LITERÁRIO EM MATO GROSSO

Franceli Aparecida da Silva Mello - Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT

Este trabalho é parte de uma pesquisa mais ampla que tem por objetivo traçar um percurso histórico das práticas de leitura em Mato Grosso no século XX. Além da pesquisa bibliográfica, foram realizadas entrevistas com sujeitos reconhecidamente leitores pela comunidade local (inicialmente foram entrevistados membros da Academia Mato-grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso). Para o presente trabalho foram examinados os depoimentos de sujeitos que nasceram nas três primeiras décadas do século XX, com exceção de um deles, que nasceu no final do século XIX. São, portanto, sujeitos que tiveram a sua formação de leitores num ambiente tacanho, isolado dos grandes centros de produção de cultura letrada. Não obstante, a bibliografia referente ao período registra um esforço em se criar no Estado um ambiente cultural propício ao desenvolvimento de atividades relacionadas à leitura. Assim, nas primeiras décadas do século XX surgem em Mato Grosso vários grêmios e periódicos literários, além de uma tentativa, na década de 1920, de revitalizar o teatro em Cuiabá. Da parte do governo estadual, fundaram-se importantes estabelecimentos de ensino como o Palácio da Instrução, a Escola Normal, a Escola Modelo e, a partir de 1910, implantaram-se os primeiros grupos escolares, bem como a reforma que modernizou o ensino primário. Entretanto, essas ações beneficiaram apenas uma pequena parte da população concentrada na capital e em algumas poucas cidades do interior. À maioria dos mato-grossenses era vetado o acesso às instituições culturais e a material de leitura, este, adquirido através de viagens, encomendas ou na única biblioteca pública, inaugurada em 1912 com mil volumes doados pela população cuiabana.
Sem desprezar as informações colhidas na parca bibliografia sobre o tema, neste trabalho optou-se por privilegiar os relatos dos entrevistados, pois, com Alberto Manguel (1997), acreditamos que a história da leitura é, principalmente, a história de cada um dos leitores, não sendo possível sua elaboração sem o exame das intuições privadas e das circunstâncias particulares que condicionam tal atividade.
Sabe-se que com este tipo de abordagem o pesquisador corre o risco de se deparar com falhas e imprecisões nos relatos, o que pode levar a equívocos no momento da análise e interpretação dos dados, mas são riscos que a pesquisa documental também oferece, e que vale a pena correr.
Para uma melhor compreensão da trajetória de leitura dos entrevistados fez-se inicialmente uma pergunta que versava sobre seu primeiro contato com o texto escrito. Nas várias respostas obtidas observou-se uma certa resistência da parte de alguns em narrar o momento da alfabetização, talvez por uma questão de esquecimento, natural ou induzido, o sujeito ignorava a pergunta e ia logo relatando o primeiro contato prazeroso que teve com o texto escrito, este, na maioria dos casos, deu-se fora do ambiente escolar. Comentando sobre a ausência de referências à escola nos relatos de aprendizado de leitura de 5 escritores famosos , Jean-Claude Pompougnac (1997) sugere que a amnésia infantil relativa à alfabetização seria um processo psicológico acionado pela criança a fim de elidir o que houve de doloroso e decepcionante em sua iniciação ao universo letrado. Para corroborar tal afirmação, o autor refere a experiência de aprendizado de uma menina francesa, no verão de 1913, que vai do encanto ao desencanto, isto é, a substituição do livro sedutor _ que estimulava, através das ilustrações, a leitora analfabeta a imaginar as maravilhas contidas em suas páginas _ pelo livro didático, fornecido pela sua preceptora. A alfabetização foi, para esta menina, uma grande decepção. O prazer de imaginar fora substituído pelo esforço de decifrar, ordenar, compreender.
Assim como a menina francesa, nem todos os entrevistados desta pesquisa foram alfabetizados na escola. No começo do século passado, dadas as deficiências da rede de ensino em Mato Grosso, era comum a criança ser iniciada nas letras pelos pais, por parentes próximos ou por professores particulares, leigos em sua maioria, de forma que a alfabetização não era vista como tarefa exclusivamente escolar. Contudo, quando se procurou associar o aprendizado da leitura com o ambiente escolar, entre as lembranças remotas apareceu, mais de uma vez, a referência à palmatória:

Eu acho esse negócio de gostar de leitura... é uma coisa que a gente traz do berço, sabe? ... Eu tirei curso primário em Santo Antônio, compreendeu? Então, era interessante que ainda era 1920 e poucos e ainda era na base da régua. Se ensinava matemática, leitura, na base da régua... ( entrevistado nascido em 1915)

Ele [o professor de Português] fazia uma pergunta para dois, um aluno não sabia, fazia para o outro, o outro respondia, ele dava a palmatória, pá. Cansei de levar bolo e dar bolo, era na base da palmatória. (entrevistado nascido em 1919)

Os testemunhos acima nos levam a concluir que, além do trauma psicológico acima referido, o processo de aprendizado da leitura provocou também certa dor física a alguns de nossos entrevistados. Razões estas mais do que suficientes para provocar uma “amnésia”.
Desse modo, quando questionados sobre o momento de sua iniciação como leitores, vários entrevistados referem episódios marcantes de suas vidas em que muitas vezes a leitura é apenas um pretexto para satisfazer necessidades às quais o livro, em princípio, não se propõe atender.
Em duas das entrevistas foi possível verificar claramente que a leitura foi utilizada como pretexto para suprir eventuais carências afetivas. São relatos de filhos de pais muito ocupados, cujo contato mais íntimo se dava através do texto escrito. Vejamos os relatos:

Meu pai era um homem muito ocupado. Saía de casa quando eu ainda estava dormindo e chegava quando eu já tinha ido me deitar. Mas todo dia ele deixava uma carta debaixo da porta do meu quarto, que eu tinha que responder no dia seguinte. (entrevistada nascida em 1898)

Então... meu pai... principalmente quando eu estava doente, a noite que eu tinha febre, não sei o quê, então ele botava uma esteira no chão e apanhava o Álbum Gráfico e eu ia folheando aquilo e olhando tudo e lendo os títulos maiores e tal. (entrevistado nascido em 1921)

À semelhança de Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir _ que ao narrarem sua iniciação como leitores relacionam-na ao prazer de pertencerem a uma família unida (a relação de Sartre com a mãe e com o avô era intensamente mediada pela leitura; a família de Simone de Beauvoir reunia-se no escritório para leituras compartilhadas em voz alta ou silenciosas) _ também para nossos entrevistados a leitura passa de uma atividade introspectiva a uma ocasião para estreitar os vínculos familiares. E, em alguns casos, ultrapassando a intimidade do lar, ela surge como uma ocasião para oportunizar o convívio social:

[Cuiabá] ficou uma sociedade culta, uma sociedade que lia muito, uma sociedade que fazia festas maravilhosas, tertúlias magníficas, eu estou falando da década de 30, 40 [...] aonde eu assistia na casa Barão de Melgaço um programa mensal que se chamava Violeta Falada, Violeta era o nome de uma revista da qual minha mãe era diretora e, mês a mês, ou todos os meses se reuniam, e lá havia dedilhar de pianos, declamações de poesias e palestras de homens ilustres, como José Barnabé de Mesquita, Gervásio Leite, Otávio Cunha, Filogônio Corrêa e tantos outros beletristas, homens que cultivavam bem a língua e que demonstravam que eram homens de leitura. (entrevistado nascido em 1930)

No depoimento acima pode-se verificar, além da prática da leitura como pretexto para estabelecer ou fortalecer vínculos sociais, o apreço do público literário cuiabano pela modalidade oral de aquisição de leitura. Um grande índice de analfabetismo explica este gosto entre a população em geral, mas não entre os chamados “homens de letras”, o que nos leva a pensar na prática da leitura até a primeira metade do século passado em Mato Grosso como um acontecimento social, uma festa, em que se apresentavam não apenas os textos, mas as habilidades oratórias de alguns leitores.
Num outro sentido, porém, esta “habilidade” não era privilégio dos poetas e escritores, membros das sociedades literárias da época. Havia entre a população iletrada os narradores especiais que também tiveram papel importante para a formação do leitor literário em Mato Grosso. À semelhança de José Lins do Rego , Viriato Correa e tantos outros brasileiros, alguns entrevistados atribuem a esses narradores, encontrados entre a gente do povo, o despertar de seu interesse literário. Como pode-se ver no depoimento a seguir:

Primeiro eu saía, eu gostei sempre de escutar histórias, né? E tinha umas fazedoras de renda, de renda não, de rede, naquele tear elas ficavam sentadas. Eu preparava meu dever de escola, isso quando eu já estava na escola, nos primeiros anos. Aí, 3 horas, eu me mandava para a vizinhança Tinha 3 vendedoras, 3 fazedoras de rede, de tear. Elas sentavam, aí eu ia cutucar prá contar uma história, mais outra, mais outra. Eu sempre gostei.

Dentre elas havia uma preferência por uma narradora chamada Samarilzé, cuja presença era requisitada por ocasião das doenças, às vezes fingidas, da entrevistada:

.... fazia uma fita danada, qualquer resfriadinho era pretexto para chamar Samarilzé, chamá-la pra contar história.
[...]
Eu gostava de todas, porque ela fantasiava, tudo ela punha a pessoa dela, sabe? Então ela contava que ela viu, e o filho, viram pessoalmente o Pé de Garrafa, que o Pé de Garrafa andou perto dela, ela andou por esses sertões ai, então diz que ouviram barulho assim de vidro, eu não sei se vidro na pedrinha faz barulho sem quebrar, né? aí, quando assusta, passa o Pé de Garrafa perto dela e do filho, ela rezou, rezou Creio Deus Pai.... (entrevistada nascida em 1908)

Observe-se que é fora do ambiente escolar, depois de fazer a tarefa, que se dá o encontro prazeroso com o texto. Prazer este que às vezes implicava numa pequena burla, o que talvez o intensificasse.
Mas, por uma questão de justiça, é preciso registrar que a escola não é totalmente excluída das recordações de leituras feitas na infância dos entrevistados; ela aparece indiretamente nas menções às cartilhas, às antologias, aos romances recomendados pelos professores:

Então eu comecei pelo primeiro livro com o Felisberto de Carvalho, né? A primeira lição era um camarada com um fio assim, uma pena amarrada na ponta, brincando com um gato, todo ilustrado, né? (entrevistado nascido em 1920)

Entre os poetas que marcaram a infância desta geração de leitores, Olavo Bilac é o mais citado, muito provavelmente por figurar obrigatoriamente nas antologias escolares da época e por seu livro Poesias infantis ter sido comprado pelo governo e distribuído às escolas de Mato Grosso em 1925.
Há, ainda, um depoimento em que o despertar do gosto literário se dá na sala de aula , porém, por mero acaso, ou melhor, contrariando os objetivos a que se propunha sua utilização didático-pedagógica.
“Lá em Cuiabá, um índio matou, a pau, uma feia e terrível jibóia.” Esta frase, lida no quadro-negro, por alguma razão, ficou na memória de um entrevistado como o marco na sua iniciação literária. A intenção da professora talvez fosse ensinar acentuação, geografia, pontuação, ou coisa que o valha, porém, o tiro saiu pela culatra e o menino de 7 anos descobriu o prazer provocado pelo aspecto sonoro das palavras. Alguns anos mais tarde (aos 12 anos), quando foi trabalhar como tipógrafo num jornal, encantou-se com a palavra ‘consternação’:

No jornal funcionavam os melhores cérebros de Guiratinga, tinha uma advogada que escrevia periodicamente, tinha um senhor que também escrevia bem, não é? Nesse tempo eu aprendi uma coisa muito bonita: morreu um camarada num desastre de carro de boi, o carro de boi passou por cima e o matou, e o cronista dizia: “Causou profunda consternação nessa cidade”, mas isso é lindo demais, quando li aquele negócio “consternação”, guardei até hoje aquela história.
[...]
“Causou profunda consternação nessa cidade o passamento trágico!”, menino, uma peleja! Esse camarada era de poucas letras, que escreveu isso, mas eu achei aquilo lindo demais! (entrevistado nascido em 1920)

É natural que este pequeno tipógrafo tenha se tornado grande poeta e escritor quando adulto. Teria sido o encanto pela materialidade da palavra o que despertou em outros tipógrafos, como Manuel Antonio de Almeida e Machado de Assis, o gosto pela literatura?
Ainda que as recordações de iniciação à leitura sejam muito marcadas pela relação de afeto familiar, o gosto literário, geralmente, resulta de um afastamento desta situação inicial. Ou seja, para a maioria dos entrevistados ele surge, quando passam a freqüentar outros espaços, adquirindo novos saberes, construindo para si novas referências. É o caso deste sujeito que acabamos de mencionar, que, alfabetizado pela mãe, descobriu o prazer pelas palavras primeiramente na escola, depois no trabalho. Mesmo quem descobriu este prazer mais cedo, na primeira infância, como é o caso da entrevistada que menciona as redeiras contadoras de histórias, a transformação do gostar pela paixão por literatura deu-se na adolescência, quando descobriu a obra de Machado de Assis:

... quando eu li aquilo [ Memórias póstumas de Brás Cubas] foi um impacto, amor à primeira vista, não sei, eu me senti bem, eu acho que parecia que era aquilo que eu estava procurando. (...)
... quando eu li Machado de Assis (...) desvalorizou para mim aquele gongorismo, aquele chuveiro de palavras sem conteúdos, porque aqui se dava conteúdos com poucas palavras, palavras certas, e foi uma coisa que me tocou... (entrevistada nascida em 1908)

Outros, ainda, descobriram a leitura literária bem mais tarde:

... morando no Rio, na época de estudante, como eu não tinha carro, era bonde e trabalhava muito distante, eu lia dois ou três de manhã e dois jornais à tarde, cinco jornais para ler, essa é minha formação, agora, só quem eu lia: Barbosa de Lima Sobrinho, Carlos Drummond de Andrade, Adalgisa nery, Afrânio Peixoto... (entrevistado nascido em 1936)

Quando eu estudei, quando eu li demais mesmo, que eu gostei da leitura, foi já no Direito, curso superior, aí sim, eu peguei... compreendeu? mania de ler. Devorei a literatura nossa, porque a gente aprendendo a literatura você sabe escolher os livros bons, não é? Os clássicos, tanto da literatura nacional quanto a universal, você escolhe os bons livros e aí vai tomando gosto da leitura. É isso que me parece que me valeu muito, porque sabe que vindo de Santo Antonio, não é? Se eu não tivesse essa leitura que eu... esse prazer de devorar livros que eu tive, aí a minha mentalidade estava assim, né? [faz gesto com a mão indicando pequena] (entrevistado nascido em 1915)

Aqui é importante esclarecer que o meio social de origem deste último entrevistado é diferente dos anteriores. Ele vem de uma família com baixo nível de instrução e de uma comunidade (Santo Antonio) onde as práticas culturais eram muito limitadas em relação à cultura letrada; portanto, para que se tornasse um leitor literário, teve que romper com seu meio de origem, não só mudando-se para uma cidade grande, como assimilando outro sistema de referências culturais. Neste caso, como afirma Pompugnac (1997:41) “O ato de ler deixa de ser um simples fenômeno de reconhecimento, de confirmação cultural e se torna um esforço de separação do universo cultural da comunidade de origem.”
De maneiras diversas, é mais ou menos o que ocorre com todos os entrevistados nesta pesquisa. O aprendizado da leitura é uma experiência complexa e multifacetada, assim como a forma de contato com o texto literário. Contudo, onde quer que ele se dê _ no aconchego do lar, na sala de aula, nos saraus, através de contadoras de histórias, dos jornais, dos livros _ para que ocorra um aprendizado profundo da leitura literária, o leitor precisa emancipar-se de seu contexto original a fim de atingir a autonomia que lhe permita o abandono à uma atividade prazerosa e lhe oportunize, simultaneamente, a descoberta de si mesmo e do outro, e, no caso da maioria dos entrevistados desta pesquisa, induza à própria criação literária. Nisto, a formação do leitor em Mato Grosso não é diferente da de qualquer outro no mundo.

Bibliografia:

BOSI, E. Memória e sociedade. São Paulo: T. A. Queirós, 1981.

BOURDIEU, P. As regras da arte: gênese e estrutura do campo literário. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

CORREA, V. Cazuza. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1960.

LAJOLO, M. & ZILBERMAN, R. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.

LINS DO REGO, J. Histórias da velha Totônia. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1981.

MAGALHÃES, H.G.D. História da literatura de Mato Grosso: século XX. Cuiabá: Unicen Publicações, 2001.

MANGUEL, A. uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

MELLO, F. A. S. Elementos para uma história da literatura em Mato Grosso. In: Polifonia. Revista de Linguagens da Universidade Federal de Mato Grosso. Cuiabá, nº. 6, 2003.

POMPOUGNAC, JC. Relatos de aprendizado. In: Representações e imagens da leitura. São Paulo: Ática, 1997.

 
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