Voltar    
  A IMPORTANCIA DE UM ESPÇO LÚDICO NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Marelenquelem Miguel - UNIVILLE

RESUMO: O lúdico proporciona de maneira significativa o desenvolvimento da imaginação, da socialização em grupo, da percepção de mundo, bem como contribui na construção da identidade e na autonomia da criança. Percebemos, na observação de como ocorre o jogo lúdico, que o brincar, o imaginar e o criar estão sempre presentes em sua vida, já que não há apenas um momento e um espaço determinado para brincar. Também observamos que imaginar e brincar são fundamentais para o desenvolvimento da sua identidade, pois o jogo lúdico proporciona “liberdade de criação” e seu “pleno desenvolvimento”, sendo que, buscando compreender o comportamento humano, ela entra no “mundo do faz-de-conta” e reproduz situações já vivenciadas em seu cotidiano

INTRODUÇÃO

Este projeto surgiu da observação de que hoje, em muitas escolas, ha uma preocupação do corpo docente em buscar um sentido didático para o brincar na Educação Infantil (brincar para aprender), não levando em consideração sua importância para a construção do imaginário infantil e para o seu pleno desenvolvimento, e teve como a meta verificar a importância do Lúdico no imaginário infantil e a sua contribuição para o desenvolvimento sadio da criança.
Durante o desenvolvimento das atividades com as crianças, percebeu-se a importância do espaço para a realização de suas brincadeiras lúdicas. No parque as árvores transformaram-se em esconderijos do lobo mau, a areia em bolo, os gravetos em varinhas mágicas, na sala as mesas e panos logo abrigavam mamães e papais, outras crianças traziam bonecas (bebês), e logo construíram ali uma casinha.
Essa percepção modificou o primeiro foco do projeto, ampliando para a importância de um espaço lúdico no desenvolvimento infantil.

O BRINCAR NA VISÃO DOS PAIS E DAS CRIANÇAS

A fim de conhecer o tempo e o espaço onde as crianças brincam, e o valor das famílias sobre o brincar, enviamos um questionário aos pais, investigando sobre seu acompanhamento no brincar infantil.
Com relação ao tempo que as crianças têm para brincar em casa, a maioria dos pais respondeu que elas têm o período contrário à escola para brincarem. Porém, ao mesmo tempo, alguns pais afirmam que as matricularam em aulas especializadas, diminuindo esse tempo. Cito depoimento de uma mãe “Brinca pela manhã, nos intervalos da aulinha de ballet e nos dias livres, desde quando acorda até o almoço. A noite também após o colégio, depois de jantar e tomar banho, até as 21:00”.
Observamos que os pais têm uma rotina diária bastante atribulada, e têm pouco tempo para as crianças. Como afirma um pai “Tenho pouco tempo e realmente tenho muita dificuldade. Falta paciência”. As crianças têm uma grande variedade de brinquedos para brincar em casa, mas têm dificuldades de brincar sozinhas e poucos possuem companhia de outras crianças. Cito o depoimento de uma mãe: “De tarde ele vai à escola. De manhã fica comigo e com a empregada. Incentivo ele a brincar sozinho, mas ele dificilmente consegue. Fica sempre me procurando e pedindo para brincar com ele”. Outro “Geralmente brinca sozinho. Aos finais de semana, brinca com os dois primos de 6 e 8 anos”. Como a maioria das crianças brinca, em casa, durante a semana, sozinha ou com seus pais, é na Instituição Educativa que ocorre a possibilidade de uma integração das crianças com a mesma faixa estaria. Todos os pais acham fundamental que a criança brinque na Instituição, cito depoimento de um pai: “As brincadeiras na escola são importantes para a integração da criança com seus amiguinhos (meio social) e também para viver uma época importante da vida, uma etapa que serve de base para seus comportamentos futuros”. Outro “Foi por isso que optei em coloca-lo na escola, a partir dos 4 meses. (eu trabalho) Para que brincasse e convivesse com crianças da idade dele.
Objetivando conhecer o modo de brincar das crianças de seu ponto de vista, fiz uma roda de conversa com as mesmas. Observei que há influência da mídia no brincar, contudo muitas gostam de brincadeiras tradicionais como de cabana e de mamãe e filhinha; a maioria das vezes as crianças brincam sozinhas, ou com a babá e com jogos como lego. Cito o depoimento de uma criança “Agente gosta de brincar, porque agente fica feliz e porque agente gosta”.
O Gráfico deixa claro, a preferência das crianças:

Caixa de texto: 3.	Brincadeiras com influência da mídia. Ex: Homem aranha.
2.	Brincadeiras tradicionais como cabana, mamãe e filhinha... sem necessidade de objetos concretos. 
1.	Brincadeiras com jogos educativos como lego.

 

 

 

 

 

 

Para a criança, a brincadeira tem uma importância fundamental na construção de seu intelecto e de seu equilíbrio emocional, contribuindo para sua afirmação pessoal e integração social, por isso o brincar deve ser o eixo de trabalho na Educação Infantil, favorecendo a construção da reflexão, da autonomia e da criatividade. Para Almeida (1994), a ação de brincar é algo natural na criança e por não ser uma atividade sistematizada e estruturada acaba sendo a própria expressão de vida da criança.
As brincadeiras em conjunto vêm a ser a melhor experiência de socialização uma vez que, para fazer parte do grupo, é preciso aprender gradativamente a tomar conta dos próprios impulsos. Além disso, a visão de mundo deixa de partir de um único foco, voltado para si mesmo, para se expandir para outras formas. É através do brincar que o ser humano torna-se capaz de viver numa ordem social e num mundo culturalmente simbólico. O brincar é o processo educativo mais amplo, influencia o intelecto, o emocional e físico, desenvolvendo a iniciativa, a imaginação e interesse. A Instituição Educativa precisa pensar no brincar como sendo parte da criança, ela precisa ter tempo para brincar, um espaço adequado para suas criações e crianças para sua socialização, já que em casa muitas vezes as crianças brincam sozinhas ou com adultos. (BARBUTTI, 2004)

O LÚDICO NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Brincando a criança experimenta o mundo e internaliza sua compreensão particular sobre ele. No brinquedo a criança vive a interação com seus pares na troca, no conflito, no surgimento de novas idéias, na construção de novos significados, na interação e na conquista das relações sociais, o que possibilita à criança a construção de representações. Com isso as crianças, sujeitos de um cenário concreto, social, histórico e cultural, vão se constituindo como tais.
Kishimoto (2002:150) complementa, afirmando que:
As brincadeiras de faz-de-conta são mais duradouras, com efeitos positivos no desenvolvimento, quando há imagens mentais para subsidiar a trama. Crianças que brincam aprendem a decodificar o pensamento dos parceiros por meio da metacognição, o processo de substituição de significados, típicos de processos simbólicos. É essa perspectiva que permite o desenvolvimento cognitivo.

No desenvolvimento das atividades práticas, realizamos algumas brincadeiras com regras. Na primeira brincadeira, a do ovo choco, as crianças não mantiveram o interesse por muito tempo Ficou claro nesta brincadeira a dificuldade de seguir regras, principalmente quando elas são novas, e tem dificuldades de esperar a vez de participar ativamente da brincadeira. Na segunda brincadeira, a do passa anel, as crianças ainda tiveram muita dificuldade de compreender e seguir a regra. No final do projeto, fizemos outra brincadeira com regras, onde as crianças deveriam executar os comandos da história, no momento certo, percebi que a maioria das crianças conseguiram realizar todos os comandos.
Essas brincadeiras evidenciaram um desenvolvimento das crianças. A brincadeira e o faz de conta desenvolvem a zona de desenvolvimento proximal, que, através da mediação de colegas, família, e educadores passa para o desenvolvimento potencial (VYGOTSKY, 1991). No faz de conta, a criança passa a dirigir seu comportamento pelo mundo imaginário, podendo o jogo lúdico ser considerado um meio para desenvolver o pensamento abstrato, no qual a imaginação é uma ação, sendo ela concreta ou não, mas acima de tudo é algo em permanente amadurecimento, e não uma coisa estática.
Em outro momento, coloquei diversos brinquedos a disposição das crianças, e observei como elas interagiam com eles. Uma menina logo escolheu alguns mini animais e colocou-os em fila, por ordem de tamanho, do maior para o menor. Convidou uma amiga para brincar ao seu lado. Esta entregou-me seu gatinho de pelúcia para cuidar dele, enquanto ela brincaria. Então pegou dois peixes pequenos de plástico e disse-me baixinho, como um segredo: “Ele acha que é de mentira, mas é de verdade”.
O brincar é essencial no desenvolvimento infantil. A brincadeira é uma linguagem pela qual a criança expressa como olha o mundo que a cerca. Ela é complexa, pois para brincar é preciso apropriar-se de elementos da realidade imediata, e atribuir-lhes novos significados. Essa peculiaridade da brincadeira ocorre por meio da articulação entre a imaginação e a imitação da realidade. “toda brincadeira é uma imitação da realidade no plano das emoções e das idéias de uma realidade anteriormente vivenciada” (PCNS).
Por meio do jogo simbólico, da fantasia, da imaginação, a criança compreende o mundo e a si mesma, acumulando em sua memória, um repertório próprio de conhecimento e experiências pessoais cada vez maiores.

O ESPAÇO NA EDUCAÇÃO INFANTIL

A instituição educativa precisa ter um espaço que proporcione a vivência do lúdico e a expressão do imaginário infantil. É preciso criar um espaço onde a criança entre em contato com o seu próprio processo criador. Este espaço deve proporcionar a expressão de suas diferentes linguagens, verbal e não verbal aprimorando assim o seu ser sensível. “Este espaço deve desvelar, ampliar seus referenciais pessoais e culturais, para exercitar também a organização, a sistematização e apropriação de seu pensamento” (FREIRE, Madalena, 1995, p.105).
O espaço para brincar precisa ser: sagrado, adequado, alegre, tumultuado, flexível, grande ou pequeno, criativo, caloroso, moderno, antigo, cheio de lembranças, saudades, presenças, descobertas, que proporcionem a integração e a aprendizagem.
Em todos os encontros organizei os espaços de uma maneira especial para as crianças, adaptando-os de acordo com a atividade do dia, e com suas necessidades. Alguns encontros foram realizados na sala das crianças, outros em espaços amplos perto do parque, corredores cobertos, varandas... Em todos os encontros coloquei uma fantasia relacionada com a atividade, também proporcionei que as crianças experimentassem diferentes papeis. Desafiei o grupo a brincar somente com panos em alguns encontros, em outros somente com madeirinhas em diferentes formatos, em outros com fantasias, em outro coloquei estes materiais diferentes com os brinquedos industrializados, e deixei livre, muitas crianças escolheram os panos para brincarem. Eles gostaram muito sempre comentavam as mudanças, e perguntavam curiosas o que faria no próximo encontro.
Notei como o parque é importante para o brincar. Nele a criança consegue vivenciar sua imaginação. A areia transforma-se em bolo e depois em pó de café, os galhos de árvore ora são espadas usadas por super heróis, ora são remos de um barco. As árvores são esconderijos do lobo mau e casinhas para brincar.
Segundo HORN “O espaço não é neutro, pois carrega em sua configuração, como território e lugar, signos e símbolos que o habitam. Na sua realidade, o espaço é rico em significado, podendo ser lido em suas representações, mostrando a cultura em que está inserido através de ritos sociais, de colocação e de uso dos objetos, de relações dos espaços das salas de aula de instituições de educação infantil, é possível deprender que concepção de criança e de educação o educador tem” (2004, p.37).

A existência de espaços para manifestações expressivas é importante para a socialização, o desenvolvimento cognitivo, emocional e moral das crianças, o estímulo da sua criatividade, a imaginação, como também a fantasia, para tornar os indivíduos mais humanos e para resgatar a essência e os valores mais significativos de cada um.

METODOLOGIA: Este artigo apresenta as principais considerações de uma pesquisa de caráter bibliográfico e prático. O projeto iniciou com um resgate bibliográfico sobre a infância, o brincar, os brinquedos e o imaginário. Teve como fundamentação teórica autores como Carolyn Edwards; Leilia Gandini; Tizuko Morchida Kishimoto, Maria Malta Campos e Flavia Rosemberg que pesquisam sobre a importância do lúdico para o desenvolvimento infantil e completando com Marcel Postic, Gianni Rodari e D. W . Winnicott, que tratam do imaginário infantil. A pesquisa prática ocorreu em duas instituições: uma com uma turma com crianças de 3 anos e meio, de uma instituição privada, e outra com uma turma com crianças entre 9 e 10 anos, que fazem parte de um projeto extra-classe. Trabalhamos com aproximadamente 40 crianças. Em cada encontro foi modificado o espaço onde seria proposta a atividade, que também mudava a cada encontro, proporcionado o brincar em grupos maiores, menores ou individualmente, com ou sem regras previamente estabelecidas, em espaços internos e externos à sala de aula, e com diversos recursos materiais. Além disso, enviamos um questionário para as familias, e realizamos uma roda de conversa com as crianças, com o objetivo de conhecer melhor sobre o brincar infantil, onde, com quem, e quanto tempo a criança brinca. Neste relato discutiremos apenas os resultados da pesquisa da escola privada com as crianças da Educação Infantil.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tendo como base os objetivos desse projeto: proporcionar o desenvolvimento sadio e integral da criança, observar as relações e interações grupais no momento do brincar e perceber a importância do lúdico e do espaço para o desenvolvimento da criança, é possível inferir que o brincar, o imaginar e o criar estão sempre presentes em sua vida, já que não há apenas um momento para brincar; que imaginar e brincar são fundamentais para o desenvolvimento da sua identidade, pois o jogo lúdico proporciona “liberdade de criação” e seu “pleno desenvolvimento”; que é imprescindível proporcionar espaços adequados para as crianças brincarem, pois as crianças vivenciam sua imaginação mais intensamente se o local estimula. Enfim, nós, enquanto educadores, precisamos repensar nossa prática, olhar para as crianças como seres capazes, possibilitando-lhes vivências significativas.

BIBLIOGRÁFIA

ALMEIDA, Paulo Nunes de. Educação Lúdica: Técnicas e jogos pedagógicos. 5 ed. São Paulo: Loyola, 1994.

BARTUTTI, Amanda [et al]. O brincar na teoria histórico cultural. Disponível em: <http://www.lite.fae.unicamp.br/papet/2003/ep127/brincar.htm>. Acesso em: 23 jan.2004.

CRAIDY, Carmem; KAERCHER Gladis E. Educação Infantil – Pra que te quero? São Paulo: Artmed, 2001.

EDWARDS, Carolyn; GANDINI, Lelia. Bambini: A abordagem Italiana à Educação Infantil. 1.ed. Porto Alegre: Artmed, 2002.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org). O Brincar e Suas Teorias. 1.ed. São Paulo: Pioneira, 2002.

LAMPOS, Maria Malta; ROSEMBERG, Flávia. Creches e Pré-Escolas no Hemisfério Norte. São Paulo: Cortez, 1998.

POSTIC, Marcel. O imaginário na Relação Pedagógica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1993.

Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Ministério da Educação e do Desporto, Secretaria de Educação Fundamental, v.2 - Brasília: MEC/SEF, 1998

RODARI, Gianni. Gramática da Fantasia. 8 ed. São Paulo: Summus, 1982.

WINNICOTT, D.W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

FREIRE, Madalena. A aventura de ensinar, criar e educar. In CUNHA, Susana Vieira da (org). Arte Educação e a construção do cotidiano. Porto Alegre: Oficina de Arte Sapato Florido/ Universidade da Região da Campanha/ FAPERGS, 1995:105.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991

 
Voltar