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  CURSO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA EM EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: DISCUTINDO A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES

Sonia De Vargas - (UCP) - Curso de Mestrado em Educação
Maria Cecilia de Castello Branco Fantinato, - (UFF) - Faculdade de Educação
Eugenia del Carmen Quilodrán Monteiro - Universidade Federal Fluminense (UFF) - Mestranda em Educação – Grupo Aleph


INTRODUÇÃO

Na busca constante pela melhoria da qualidade da Educação de Jovens e Adultos (EJA) a formação continuada de professores tem se constituído uma das importantes frentes de atuação de entidades públicas e privadas que vêm trabalhando com essa modalidade de ensino, visando oferecer oportunidades educacionais comprometidas com a efetiva construção da cidadania.

Nesta perspectiva, o Projeto de Educação de Jovens e Adultos da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (PEJA/SME), vem implementando um conjunto de ações que apontam para a fortificação de uma política de formação de educadores de jovens e adultos, oferecendo, desde 2002, formação continuada aos professores que atuam na educação de jovens e adultos como uma prioridade.

A primeira dentre várias outras iniciativas constitui-se no 1º Curso de Extensão em Educação de Jovens e Adultos, realizado em 2002, em parceria com a PUC-RJ, visando a construção de uma identidade própria para a área e para os profissionais da educação de jovens e adultos. Destacaram-se também nesse período o Ciclo de Centro de Estudos, em 2003 que priorizou o estudo das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos (Parecer 11/2000 CNE/CEB).

Nesta perspectiva, em 2004, o PEJA, em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Fundação Euclides da Cunha estiveram empenhados na realização do 2º Curso de Extensão Universitária para os Professores da Educação de Jovens e Adultos: A educação de jovens e adultos no século XXI - do compromisso com a educação permanente à emergência da educação reparadora que visou a formação continuada de 500 professores e gestores do ensino fundamental. As atividades pedagógicas totalizaram 100 horas e englobaram encontros pedagógicos, atividades não-presenciais e minicursos.

A escolha da Universidade Federal Fluminense como instituição parceira baseou-se no fato desta ter uma sólida experiência acumulada em EJA que pode ser exemplificada no curso de especialização Formação do Educador de Jovens e Adultos Trabalhadores e nas inúmeras pesquisas que vêm sendo produzidas em áreas relacionadas à EJA, como Trabalho e Educação, Movimentos Sociais e Políticas Públicas, Juventude, Formação de Professores, entre outros.

Entendemos a Extensão como uma das funções básicas da Universidade que proporciona, por meio de ações sistematizadas, a interação com a comunidade, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento desta comunidade e dela buscar conhecimentos, saberes e experiências que possam fornecer elementos para a avaliação do ensino e da pesquisa.

Nesse sentido, a proposta do 2º Curso de Extensão Universitária foi construída em conjunto com os professores dinamizadores, professores da UFF e representantes do PEJA, procurando-se viabilizar um maior aprofundamento teórico-metodológico, por meio da seleção de temáticas e estratégias que contemplassem as principais inquietações que perpassam atualmente a EJA, tais como as abordagens críticas sobre diversidade cultural, culturas juvenis, trabalho e suas implicações para a formulação de propostas curriculares. Objetivou-se ainda contribuir para uma melhor compreensão dos espaços de atuação político-pedagógica dos profissionais da EJA no processo de inclusão social desses jovens e adultos, garantindo o acesso ao conhecimento historicamente acumulado e possibilitando ainda a construção de novos saberes.

Acreditamos que do diálogo Universidade-Escola Pública e dos desafios experienciados no processo de concretização do Curso podem surgir novas formas de cooperação, na pesquisa e no ensino, que concretamente venham a beneficiar os atores engajados nesse processo educacional - professores - pesquisadores – alunos - gestores.

O presente texto visa apresentar uma síntese das propostas efetivadas, das reflexões realizadas e dos ganhos obtidos com a realização do Curso. Para tal, inicialmente apresentaremos como foi construída a estrutura do 2º Curso de Extensão Universitária para os Professores da Educação de Jovens e Adultos, analisando em que medida tal organização contribuiu para o seu êxito. Em seguida, desenvolveremos os três eixos de discussão teórico-prática do curso (Diversidade Cultural e EJA, Juventude e EJA, Trabalho e EJA), justificando sua pertinência num processo de formação continuada de profissionais da educação de jovens e adultos. Por último, anunciaremos pistas para a continuidade do trabalho de Formação continuada no PEJA, algumas delas já sendo concretizadas em ações atuais.

1. A ESTRUTURA DO CURSO

O 2º Curso de Extensão Universitária para os Professores da Educação de Jovens e Adultos do PEJA, representou uma experiência educacional arquitetada sobre ações coletivas que se abrem à inclusão, à partilha, à reflexão e que integrou 500 professores, buscando construir novos sentidos para a prática pedagógica na EJA. O curso foi oferecido em diferentes bairros do município de Rio de Janeiro, onde se localizaram os 20 pólos de formação (Anexo 1), possibilitando a realização dos encontros pedagógicos próximo aos locais de trabalho. Procurou-se ainda contemplar as especificidades dos grupos de diretores, orientadores pedagógicos e professores, planejando os encontros em diferentes horários e dias da semana.

Nesta experiência, o exercício da reflexão conjunta foi fundamental para a construção metodológica que se desdobrou na estrutura do curso. Partindo de levantamentos de indicativos para a elaboração da proposta político-pedagógica, foram analisados relatórios, avaliações e produções de atividades não presenciais, feitos pelos professores do PEJA, em cursos de formação ministrados em anos anteriores.Tal metodologia de ação permitiu às equipes do PEJA, UFF e professores dinamizadores, observar as demandas do corpo docente e desenhar os eixos do trabalho pedagógico.

As reuniões de planejamento e avaliação acompanharam todo o processo de gestão e desenvolvimento do curso. Essas reuniões pedagógicas foram essenciais para a constituição do coletivo dos professores dinamizadores e a reflexão constante mantida no processo, garantindo a continuidade necessária entre as temáticas dos eixos.

Nesse movimento, a formação dos professores começou pela própria formação dos dinamizadores que colocaram em prática o que Antonio Faundez (1985:48) afirmava: “ (...) a primeira coisa que aquele que ensina deveria aprender é saber perguntar. (...). A origem do conhecimento está na pergunta ou nas perguntas, ou no ato mesmo de perguntar”. Os dinamizadores praticaram o hábito de interrogar, de ler e de debater as questões colocadas pelos professores do PEJA em cursos anteriores, como também praticaram a discussão de textos, identificando o que não se conhecia, para optar coletivamente pelos textos que seriam discutidos posteriormente no Curso de Extensão. Dessa forma, foi possível identificar claramente três temas organizadores dos debates: Diversidade Cultural, Juventude e Trabalho, que serão discutidos no item 2.

O Curso buscou também contribuir para o redimensionamento do trabalho pedagógico dos professores do PEJA, que vinham manifestando necessidade de reflexão teórica sobre temas específicos reivindicados, nas avaliações de cursos anteriores. Neste sentido foi aberta outra forma de acessar temas pedagógicos específicos e conhecimentos produzidos nas linhas de pesquisa da UFF. O canal de interlocução foi aberto através dos dezessete minicursos (Anexo 2) que aconteceram na própria Universidade ao longo do processo, visando criar espaços de diálogo entre professores do PEJA, docentes da UFF e o próprio espaço universitário.

O aprofundamento teórico-metodológico dos professores do PEJA sobre os eixos temáticos foi possibilitado também, mediante as atividades não presenciais, que contribuíram para o movimento de análise, reflexão e registro da prática pedagógica, instando os professores cursistas a interagirem com seus pares e também com seus alunos, coordenadores e diretores.

Uma das características do Curso de Extensão foi ter contado com a participação expressiva de diretores de escolas que possuem o segmento PEJA, produzindo-se o que Sonia De Vargas (2004) chama de diálogo entre a gestão e o campo pedagógico. Para estes gestores escolares, acostumados à administração escolar do ensino regular, o PEJA representa uma questão nova em termos de conteúdos, saberes e características dos alunos. Assim, a possibilidade de acessar temáticas e autores que os professores cursistas estavam discutindo, permitiu um mergulho nas questões que estão perpassando o ensino-aprendizagem e a gestão do PEJA, aprofundando a compreensão do campo da EJA.

As elaborações dos cursistas, tanto nos encontros pedagógicos como nos minicursos, foram socializadas numa grande Exposição realizada pelos 20 Pólos, no Seminário de Encerramento, que contou com a participação de todos gestores, dinamizadores, professores e cursistas do curso de extensão.

2. EIXOS DE DISCUSSÃO TEÓRICO-PRÁTICA DO CURSO

Da ação pedagógica reflexiva sobre as demandas apresentadas pelos professores questões como diversidade cultural, juventude e trabalho foram recorrentes nos cursos anteriores, tendo se constituído nos Eixos de Discussão do Curso, que procuraram articular essas temáticas com a discussão sobre currículo em EJA, reivindicada pelos docentes.

Dessa forma no Eixo 1, referente a Diversidade cultural e EJA procuramos discutir as relações entre diversidade cultural e direitos humanos, evidenciando as tensões existentes entre diversidades culturais e desigualdades. Essa perspectiva possibilitou destacar que as questões das diferenças se apresentam não apenas no grupo de estudantes e seus familiares, mas também nos grupos de professores, gestores e funcionários das escolas. Compreender como todos esses atores se representam, como se identificam e como se articulam tornou-se essencial no desenvolvimento do trabalho que procurou repensar as bases teórico-metodológicas do trabalho docente e a elaboração de proposta político-pedagógica em EJA que esteja compromissada com a formação de cidadãos críticos e transformadores.

Vários dinamizadores iniciaram a reflexão sobre este Eixo propondo dinâmicas que permitissem desvelar as representações dos professores sobre as concepções de cultura por eles trazidas. No aprofundamento dessa reflexão recorreu-se ao texto Reflexões sobre multiculturalismo na escola e na formação docente de Canen e Moreira (2001), buscando enriquecer o debate com a análise das concepções de cultura ao longo do tempo e como várias delas aparecem em nossas representações.

Neste contexto, enveredamos pela discussão das diferenças culturais e percebemos as múltiplas identidades que construímos ao longo dos anos com base nas nossas experiências com outros grupos – identidades globais/ nacionais/ regionais/ locais. Analisamos três processos presentes na sociedade contemporânea – a globalização, a fragmentação e a exclusão, com ênfase na realidade do PEJ. Quais são as necessidades e interesses do aluno e do professor do PEJ? Onde moram? Como vivem? Quais são os afetos e objetivos? Quem é esse jovem/ adulto/ idoso que procura o PEJ? Buscando nas diferenças referenciais importantes, para que de posse desses elementos possamos compreender as escolhas, os comportamentos, os sentimentos dos grupos. (Relatório Pólo 5)

No exercício de percebermos a complexidade que envolve as questões sobre diversidade cultural sentimos necessidade de explicitar o que entendemos por cultura. Percebida como prática social, a cultura é compartilhada pelos indivíduos de um grupo determinado e se expressa na capacidade coletiva de dar significados a suas ações e ao mundo que os cerca. Não se refere a um fenômeno individual, devendo ser entendida como processo e produto do modo de vida global de uma sociedade (Williams, 1977 e 2000). Nesse sentido, cultura deveria ser considerada como

...o conjunto específico de características espirituais e materiais, intelectuais e afetivas, que caracterizam uma sociedade ou um grupo social, e que abrange, além das artes e das letras, estilos de vida, formas de vida comunitária, sistemas de valores, tradições e crenças” (Declaração Universal da Unesco sobre a Diversidade Cultural, 2001).

Um dos desafios do trabalho com a EJA, apontado pelos professores, refere-se às múltiplas identidades desses sujeitos, caracterizada pela heterogeneidade quanto à idade, local de origem, religião, formas de inserção no mercado de trabalho, experiência profissional, escolaridade etc, reforçando a importância de que as discussões sobre essas diferenças fossem pensadas levando-se em consideração as situações de exclusão e desigualdades social vivenciadas pelo grupo.

Paulo Freire trouxe elementos importantes, quando se refere ao cultivo da tolerância, que não é conivência, mas a possibilidade da convivência com os diferentes e continua seu testemunho dizendo: “que acredita numa educação que respeita profundamente a unidade, a integridade cultural, a identidade cultural do aluno, e que por isso mesmo é a educação que respeita os conhecimentos com que o aluno chega à escola..(Relatório Pólo 10)

Sabe-se que estudantes dos cursos de EJA “construíram seus conhecimentos no movimento das suas relações familiares, do mundo do trabalho, da vida social, dos grupos religiosos e políticos, entre outros, constituindo um amplo expectro de tipos de interação, onde os saberes divididos se estendem a todos os aspectos de seus modos de vida ”.(De Vargas, 2003:115).

Nesse sentido, merece ser repensada uma metodologia de ensino-aprendizagem que valorize os conhecimentos adquiridos anteriormente, articulando os saberes escolares os não-escolares, numa perspectiva que contemple a pluralidade cultural e articule dialogicamente o singular e o universal como possibilidade de realização de uma maior coesão social.

Dessa forma, a compreensão desta realidade plural é fundamental também para a atuação pedagógica do professor e a intervenção que ele fará no sentido de facilitar a relação entre os alunos e deles com o conhecimento, visando a aprendizagem de qualidade, na tentativa de superação de preconceitos e discriminações que têm marcado a experiência desses jovens e adultos com a escola.(Unesco, 2001).

Nesta ordem de raciocínio reafirmamos nossas reflexões anteriores afirmando afirmar que o que os assemelha é a negação ao direito à escolaridade na idade própria.. Essa discussão pode ser resumida na seguinte afirmação: “Temos o direito de ser iguais sempre que a diferença nos inferioriza assim como temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza.” (Santos,1999:45)

No Eixo 2 do processo de formação, pocuramos abordar o tema Juventude e EJA que representou diversos aspectos ao mesmo tempo: atender a uma demanda, responder a um desafio e levantar novas questões.

A juvenilização das salas de aula da educação de jovens e adultos não é fenômeno recente. De Vargas (1984) já apontava indícios de uma tendência, desde os finais da década de setenta, dos cursos supletivos noturnos passarem a receber não apenas os adultos que se encontravam afastados da escola há muitos anos, ou aqueles que nunca a haviam frequentado, mas também jovens, cada vez mais jovens, oriundos do sistema regular de ensino. Desde então, esse processo só veio a crescer, fruto de evasão e/ou repetência de jovens do sistema regular, ou devido à necessidade de entrada precoce no mercado de trabalho. “No Brasil de hoje, qualquer educador da EJA – professores, pesquisadores, profissionais da educação etc. – há de se deparar com a juventude, presença marcante nas salas de aula, particularmente das escolas noturnas dos grandes centros urbanos.” (Andrade, 2004: 45).

A presença dessa juventude na EJA muda o perfil das salas de aula, e traz novos desafios teórico-metodológicos aos educadores desta modalidade de ensino. Na mesma sala de aula, encontram-se: educandos de quinze a setenta anos; pessoas com vasta experiência no mercado de trabalho e aqueles que nunca exerceram qualquer atividade profissional; pessoas de diferentes origens geográficas brasileiras.

A questão da juventude na EJA está intimamente associada ao eixo anterior, da diversidade cultural, posto que a presença dos jovens, também diversos, na educação de jovens e adultos tende a acentuar o quadro de diversidade cultural nesses contextos.

Consequentemente, não seria de se estranhar que a demanda por uma reflexão aprofundada sobre o tema da juventude na EJA viesse sendo explicitada pelos professores do PEJA em processos de formação anteriores. Abordar temáticas como as Culturas juvenis e os direitos humanos, a Juventude e novos processos de trabalho e Juventude, construção de saberes e currículo tornava-se imperativo naquele momento.

O trabalho realizado nos 20 pólos, durante este eixo temático teve uma característica em comum: o interesse pelas discussões e a curiosidade pelo novo. Com efeito, o tema da juventude havia sido pouco explorado em cursos anteriores. Cabia à toda equipe a responsabilidade de abordar questões que levassem a uma efetivo avanço, e não à mera constatação da realidade juvenil na EJA. Os textos de discussão, assim como as atividades desenvolvidas, estimularam um processo de reconhecimento das múltiplas identidades juvenis (Carrano, 2000), para além dos estereótipos.

No cenário atual, a sociedade costuma ver a juventude de forma preconceituosa, como sinônimo de problema. Os meios de comunicação têm sido responsáveis pela disseminação das imagens de juventude que hoje se apresentam. Novelas, propagandas e noticiários veiculam representações controversas e contraditórias de juventude. Ora os jovens se apresentam como consumidores ideais, bonitos e alegres, ora são associados a comportamentos de risco e situações de violência. Mas esses são estereótipos que não dão conta da diversidade de experiências da juventude brasileira.

Ao pensar o tema a partir da juventude de cada um e assim aproximar-se das múltiplas juventudes presentes em nossa sociedade, alguns dinamizadores desenvolveram atividades com o objetivo de levar a um mergulho no universo jovem, a partir de uma reflexão sobre os momentos de continuidade e ruptura nas experiências de juventude dos próprios cursistas. Um dinamizador assim relata o processo vivido em seu pólo:

Ao final, ficou a sensação de que não podemos falar de juventude hoje sem levar em conta que ela é fruto de um processo pelo qual nós também passamos e aí encontramos vários pontos em comum: quem disse que não havia o ficar há 20 anos atrás? Fulano ficava com Ciclana, só não se chamava esse breve relacionamento de ficar. Talvez as perspectivas de futuro fossem diferentes, em função do contexto político-econômico daquele momento, mas para a juventude da classe trabalhadora a luta pela sobrevivência sempre se iniciou muito cedo. Constatamos, inclusive, que aqueles jovens [do passado], que abandonaram a escola para trabalhar, constituem muitos dos nossos alunos da EJA hoje. (Relatório Pólo 8)

Procurando aprofundar e discutir diferentes representações de culturas juvenis, os dinamizadores do curso estimularam professores cursistas a realizar pesquisas junto a seus alunos, buscando caracterizar os grupos com os quais trabalhavam. Esse movimento permitiu a identificação de diversidade cultural entre os próprios jovens, assim como mobilizou a expressão de divergências entre os cursistas quanto às suas representações de juventude. Uma dinamizadora explica em seu relatório final:

Acho que o conteúdo do eixo 2 possibilitou a manifestação destas divergências, até esse momento não tão evidentes. Também permitiu a expressão de outras questões, vinculadas às condições de trabalho dos professores, que não resistiram comparar as situações de vida dos seus alunos jovens com as suas próprias. Nesse sentido, o texto “Jovens pobres e a cidade”[Cassab, 2001] foi crucial. (Relatório Pólo 15.)

Como no processo de descobrir, é preciso relacionar-se, o sentimento e a emoção sempre estão presentes em qualquer situação de pesquisa. “O pesquisador também se transforma: usando o outro como um espelho, passa também a se enxergar diferente” (Fantinato, 2003:53). Assim, na medida em que a discussão do tema juventude aconteceu com muita referência na prática e na realidade dos professores, esses passaram a se identificar com seus educandos jovens, enxergando-se mais próximos dos mesmos do que haviam suposto anteriormente.

As reflexões desenvolvidas no trabalho com este eixo, motivaram os professores do PEJA a organizar e estimular, em suas turmas, diversas expressões culturais de seus alunos jovens, com a exploração de múltiplas linguagens, como a dança, teatro, música e desenho. O trabalho com textos que abordam a temática do funk (Souto, 2003) a partir de diferentes pontos de vista, ou a análise da dura realidade de sobrevivência dos jovens na cidade (Cassab, 2001) auxiliaram no reconhecimento de que apenas os aspectos negativos são enfatizados nas representações sobre a juventude pobre, e que é necessário dar espaço para as manifestações juvenis nas escolas, resgatando seus aspectos positivos.

No Eixo 3 foram priorizadas as relações entre Trabalho e EJA a partir da percepção de que a problemática do trabalho sempre esteve presente na EJA, trazida pela experiências e vivências dos alunos trabalhadores.

Neste sentido procurou-se analisar criticamente as relações entre Trabalho, globalização e exclusão identificando os saberes não escolares construídos pelos alunos nas experiências sociais do trabalho e a importância destes na elaboração de propostas curriculares significativas e de qualidade para a EJA, numa perspectiva de inclusão.

Procurou-se analisar o conceito de trabalho numa perspectiva ontológica, necessário à existência humana, referente à ação do homem com a natureza e com os outros homens – que transforma ao mesmo tempo a natureza e a si próprio – que produz cultura, no seu sentido amplo. Portanto, não pode ser considerado de forma restrita às expressões atuais de emprego e subemprego, ao trabalho alienado, nem referir-se apenas às precárias atividades de subsistência:

A discussão do texto de Frigotto (2002) Trabalho, conhecimento, consciência e a educação do trabalhador: impasses teóricos e práticos, possibilitou aprofundar a reflexão sobre as relações existentes entre trabalho e emprego.

Ao enfatizar o mundo do trabalho, na sua historicidade, como relação social fundamental que não se reduz à ocupação, tarefa, emprego, mas que não os exclui, e que abarca o conjunto de relações produtivas, culturais, lúdicas etc, estou querendo sinalizar que aí se situa o locus da unidade teoria e prática, (...) ponto de partida e de chegada das ações educativas que, (...) interessam à luta hegemônica das classes populares. (pág.24)

Parece que ainda está muito presente nas discussões a complexidade que envolve o tema trabalho em EJA, uma vez que a perspectiva da Teoria do Capital Humano imprimiu marcas significativas no imaginário daqueles que trabalham com a área levando-os à defesa veemente da existência de vínculação direta entre elevação de escolaridade e obtenção de emprego ou aumento de renda.

Enquanto a maioria discutiu o texto de forma a perceber que a educação, por si só, não pode propiciar aquilo que o capitalismo não gera em sua atual fase de acumulação, por isso o desemprego é estrutural. Também discutimos que o conceito de trabalho e de educação defendido pelo autor [Gaudêncio, 2002] ainda é pouco conhecido pelos alunos e professores e que, na maioria das vezes, a escola não trata da relação trabalho e educação, a partir desses conceitos, mas ao contrário, o faz de forma estreita, ao associar escolarização e mercado de trabalho, numa visão economicista da educação. (Relatório Polo 2)

A complexidade dessas relações conduz demanda pelo ensino profissionalizante que muitas vezes precisamos confrontar nos cursos de formação de professores de EJA. São inevitáveis e recorrentes interrogações sobre como contribuir para que esses alunos tenham uma melhor inserção no mundo do trabalho?

Outro aspecto levantado refere-se à situação dos professores como profissionais: dificuldades, desvalorização, condições de trabalho; e à relação com os alunos trabalhadores: qual o papel da escola de ensino fundamental;

A idéia que perpassou e marcou todo o curso foi a visão da educação como um direito e dos alunos como sujeitos de direitos. Direito dos diferentes à expressão e à convivência. Direito dos jovens ao respeito, à construção da identidade e a um espaço de participação e criação. Direito dos trabalhadores a uma formação geral que lhes permita construir sua identidade (Relatório Pólo 6).

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Visando satisfazer as necessidades de formação continuada de professores do PEJA, o 2o Curso de Extensão Universitária para os professores da Educação de Jovens e Adultos UFF-FEC/SMERJ-PEJ/FNDE foi pautado em três eixos temáticos, identificados a partir de demandas e reinvidicações dos próprios professores em processos formativos anteriores, evidenciando-se assim o protagonismo dos mesmos na elaboração de uma proposta de trabalho voltada para a realidade e especificidade da EJA. Com tal propósito, foram levantados coletivamente pela equipe de coordenadores e dinamizadores os temas Diversidade Cultural e EJA, Juventude e EJA, Trabalho e EJA, atravessados tangencialmente, ao longo do curso, pela discussão sobre construção de saberes e currículo na EJA.

Os encontros semanais nos pólos permitiram espaços de reflexão contínua e troca entre pessoas de diferentes formações e práticas profissionais dentro do PEJA. Na intencionalidade de ampliar os ganhos e atender às necessidades específicas de formação, os dezessete minicursos, realizados no campus da UFF, aproximaram os professores por área de atuação. Tais minicursos representaram significativos momentos de diálogo e troca entre os professores da EJA do município do Rio, os professores da universidade e as pesquisas que estão sendo produzidas, experimentando-se assim uma outra lógica de educação continuada, que privilegia o professor com sujeito ativo de sua formação. O Seminário de Encerramento do curso refletiu o tom que perpassou todo o processo - o compartilhar – materializado nos ganhos oriundos de aprendizagens recíprocas entre equipe coordenadora, professores dinamizadores, professores de minicurso e professores cursistas, socializados na exposição realizada durante o seminário.

Vale ressaltar ainda o processo de continuidade na reflexão das questões trazidas pelo curso. O desejo dos professores em continuar refletindo sobre a relação teoria-prática na docência de EJA se materializou, em alguns Pólos, pela continuidade das discussões em reuniões de estudo, em que se engajaram os professores dinamizadores e professores do PEJA para discutir, analisar e socializar as suas elaborações. Ocorreu também o crescimento na busca de cursos de especialização e mestrado pelos professores do PEJA.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDRADE, Eliane.Os jovens da EJA e a EJA dos jovens. In Oliveira, I. & Paiva, J. (orgs.) Educação de jovens e adultos. Rio de Janeiro. DP&A Editora, 2004, p. 43-54.

BRANDÃO, Marisa. Educação básica de jovens e adultos e trabalho. In: Alfabetização e Cidadania. São Paulo:RAAB, n.8, fev.1999, p.11-19.

CANEN, Ana; MOREIRA, Antônio Flávio. Reflexões sobre o Multiculturalismo na escola e na formação docente. In: CANEN, Ana. MOREIRA, Antônio Flávio (orgs.). Ênfases e Omissões no Currículo. Campinas/São Paulo: Papirus, 2001, p. 15-43.

CARRANO, Paulo C.R. Juventudes: as identidades são múltiplas. Revista Movimento. Niterói, n.1, maio 2000, p.11-27.

CASSAB, Maria A. T. Jovens pobres e a cidade: a construção da subjetividade na desigualdade. In: CASTRO, Lucia R. (org.) Crianças e jovens na construção da cultura. Rio de Janeiro: Editora FAPERJ, 2001, p. 209-226.

COIMBRA, Cecília M.B. Jovens pobres: o mito da periculosidade. In: FRAGA, Paulo C.P. IULIANELLI, Jorge A.S. (orgs). Jovens em tempo real. Rio de Janeiro: DP&A, 2003, p.19-37

CURY, Carlos Roberto Jamil. Parecer CEB 11/2000: Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. Conselho Nacional de Educação.

DAYRELL, Juarez Tarcísio. Educação do aluno-trabalhador: uma abordagem alternativa. In: Educação em Revista. Belo Horizonte, n.15, jun. 1992, p.21-29.

DE VARGAS, Sonia Maria. Migração, diversidade cultural e educação de jovens e adultos no Brasil. Educação e Realidade, v.28, n.1,113-131, 2003.

DE VARGAS, Sonia Maria; FÁVERO, Osmar; RUMMERT, Sonia. Formação de profissionais para a educação de jovens e adultos trabalhadores. Educação em Revista, (30): 39-49, 1999.

DE VARGAS, Sonia Maria. A Atuação do Departamento de Ensino Supletivo do MEC no período 1973-79. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro: PUC, 1984.

FANTINATO, M. C. C. B. Identidade e sobrevivência no morro de São Carlos: representações quantitativas e espaciais entre jovens e adultos. São Paulo: Faculdade de Educação da USP, Tese de Doutorado, 2003.

FREIRE, Paulo; FAUNDEZ, Antonio. Por uma Pedagogia da Pergunta. RJ: Paz e Terra, 1985, p. 48.

FRIGOTTO, Gaudêncio. Trabalho, conhecimento, consciência e a educação do trabalhador: impasses teóricos e práticos. In: GOMEZ, C. M., FRIGOTTO, G, ARRUDA, M., ARROYO,M., NOSELLA, P. Trabalho e conhecimento: dilemas na educação do trabalhador. São Paulo: Cortez, 2002, p. 13-26-

SACRISTÁN, José Gimeno. Currículo e diversidade cultural. In: SILVA, Tomaz Tadeu; MOREIRA, Antônio Flávio (orgs.). Territórios contestados: o currículo e os novos mapas políticos e culturais. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 82-113.

SOUTO, Jane. Os outros lados do funk carioca. In: VIANNA, Hermano (org.) Galeras cariocas: territórios de conflitos e encontros culturais. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003, p.58-92.

RUMMERT, Sonia. Princípios e especificidades a serem considerados numa proposta para a EJA. Versão ampliada da palestra proferida na abertura do Primeiro Encontro Municipal da Educação de Jovens e Adultos do Município de Niterói.

UNESCO. Declaração Universal sobre a Diversidade Cultural. Paris, 2001. www.unesco.org.br/programas/cultura/DiversidCultural.doc/ baixado em 07/04/04

 

 

ANEXO 1

 

Relação dos Pólos - CURSO DE EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA

 SME-RJ/PEJA/UFF

 2004

 

 

 

 

Locais Endereços Dinamizadores
CIAD Avenida Presidente Vargas nº 1997 Ana Maria Severiano
CIAD Avenida Presidente Vargas nº 1997 Sonia De Vargas/ Eugênia Monteiro/Jaqueline Ventura
5 ª CRE- EM Barcelona Rua Gustavo Martins 67 – Irajá Rosilene Almeida
8ª CRE – EM Henrique de Magalhães Rua da Fábrica 235- Bangu Silvina Fernandez
 8ª CRE – CIEP Thomas Jefferson Est. Do Engenho Novo s/nº - Realengo Vânia Morgado
1ª e 2ª CREs- CIEP Tancredo Neves Rua do Catete, 77 - Catete Marisa Sampaio
3ª CRE- EM Alagoas Av. Suburbana, 6742 – Pilares Ana Paula de Moura
4ª CRE – EM Brasil Rua André Azevedo s/nº - Olaria Ênio Serra
5ª CRE – EM Barcelona Rua Gustavo Martins 67 – Irajá Antonio Verissimo
6ª CRE – EM Narbal Fontes Rua Aripuá s/nº - Ricardo de Albuquerque Tereza Renou
6ª CRE – EM Rose Klabin Rua Reginópolis 135 - Guadalupe Iurutaí Puertas
7ª CRE – EM Vitor Meireles Rua Joaquim Inácio Filho 29 - Taquara Alessandra Nicodemos
7ª CRE – CIEP Lindolfo Collor Estrada de Jacarepaguá 5011 – Rio das Pedras Sérgio Turcatto
8ª CRE – CIEP Frei Velozo Rua Franklin Távora s/nº - Realengo Luíza  Lemos
8ª CRE- EM Rosa da Fonseca Praça Mal. Hermes 30 – Vila Militar Silvina Fernandez
 8ª CRE – EM Tasso Fragoso Rua Mal. Marciano s/nº - Padre Miguel Lucília Aguiar
 9ª CRE – CIEP Nelson Mandela Praça Daniel Lames s/nº Centro – Campo Grande Domingos  Nobre
 9ª CRE- CIEP Clementina de Jesus Av. Alhambra s/nº Monteiro – Campo Grande Vânia Morgado
10a CRE – EM Ulisses Guimarães Av. José Fernandes s/nº Alagados - Sepetiba Gerson Tavares
10ª CRE- EM Marechal Pedro Cavalcanti Rua Porto Firme s/nº Parque Estoril - Paciência Cecília Castilho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANEXO 2

RELAÇÃO DE MINICURSOS

1. Alfabetização, letramento, identidade e cultura na EJA
Professoras: Cecilia Goulart, Andréa Berenblum, Inez Garcia, Marta Lima de Souza.

2. Proposta pedagógica para a EJA formulada por trabalhadores
Professoras: Léa Calvão, Sonia Rummert

3. Educação à distância: uma estratégia de proximidade
Professor: Francisco Lobo Neto.

4. Jogos teatrais na Educação
Professora: Raquel Vaserstein Gorayeb

5. Escola e meios de comunicação: silêncios, monólogos e diálogos
Professor: Artur Motta.

6. Por que tem de ser uma “MaTemática”?
Professor: Ilydio Pereira de Sá

7. A importância da memória e das histórias de vida na Educação de Jovens e Adultos
Professor: Ramofly Bicalho dos Santos

8. Formação do trabalhador com deficiência e o mundo do trabalho contemporâneo
Professora: Valdelúcia Alves da Costa.

9. Ensino de Ciências para EJA: repensando conteúdos e finalidades
Professora: Sandra Escovedo Selles.

10. Um olhar etnomatemático sobre a EJA
Professoras: Maria Cecilia Fantinato, Alcilene Santos

11. Jovens na Escola: desafios de compreensão e ação na EJA
Professores: Paulo Carrano, Denise Terra.

12. História e memória da EJA no Brasil, através dos materiais didáticos
Professor: Osmar Fávero

13. A geografia na EJA: espaços e tempos do aluno trabalhador
Professor: Ênio Serra

14. A compreensão histórica na EJA
Professores: Cláudia Alves

15. Da educação como direito à educação como certificação: o trabalho e as políticas públicas de educação básica e profissional para jovens e adultos trabalhadores
Professora: Jaqueline Ventura

16. “Da correção de ‘erros’ à análise das hipóteses ortográficas: alternativas de intervenção pedagógica”
Professor: Domingos Barros Nobre

17. A ciência como meio de leitura da natureza: uma “conversão do olhar”
Professora: Mônica Peregrino

 
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