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  LEITURAS CRÍTICAS DA LINGUAGEM DO CINEMA - PROJETO SALVE O CINEMA

Taiza Mara Rauen Moraes - Universidade Da Região de Joinville -UNIVILLE

O projeto Salve o Cinema , ramificação do Núcleo do Programa Institucional de Incentivo à Leitura PROLER, ligado à Pró Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários PROEX/UNIVILLE, parte do pressuposto de que as informações massificadas privilegiam o cinema de aventura, linear e tecnicamente avançado e a Universidade deve quebrar modelos impostos pelo paradigma da mídia, promovendo espaço para discussões que propiciem a criação de parâmetros avaliativos da linguagem cinematográfica. Segundo, Metz (1972:16) o cinema pode ser compreendido como um fato antropológico e como tal apresenta uma certa quantidade de contornos que devem ser investigados, porque o filme desencadeia no espectador um processo perceptivo e afetivo A imagem fotografada pelo cinema e sua relação com o real são aspectos atualizados e discutidos ao longo do projeto. Considerando essas peculiaridades do cinema, o projeto Salve o Cinema promove encontros em sessões realizadas no Anfiteatro da Biblioteca Universitária, estimulando o debate técnico e empírico através de vivências da leitura crítica e analítica. Os filmes selecionados estão fora do eixo comercial e no final de cada projeção, um mediador convidado e um especialista instiga reflexões críticas sobre o filme buscando evidenciar as diferenças entre as propostas massificadas e as propostas artísticas.

INTRODUÇÃO E OBJETIVOS

O projeto Salve o Cinema está vinculado ao Programa Institucional de Incentivo à Leitura, núcleo do Programa Nacional de Leitura – PROLER e à Pró Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários – PROEX/UNIVILLE e teve início em março de 2004, a partir da concepção de socializar a leitura e dinamizar a Biblioteca Universitária como espaço cultural.
O PROLER, organizado em oitenta e quatro núcleos distribuídos de norte ao sul do país, promove a disseminação de linguagens no sentido de ampliar o acesso à cultura através de parcerias que exercitam interlocuções capazes de promover experiências que nascem na sociedade, procurando privilegiar os procedimentos que estimulam o exercício da leitura como condição de cidadania.
O pressuposto teórico básico que orienta as ações do PROLER é o de que a leitura é uma atividade permanente na condição humana, quer se tenha ou não consciência dela. Lemos o mundo desde que nascemos e nossas ações decorrem desta leitura, a leitura tem, portanto, uma dimensão semiótica.
A aprendizagem da leitura lato sensu percorre as diversas áreas de conhecimento e como tal não pode estar restrita ao início da escolaridade ou ao processo de alfabetização. A leitura é uma atividade que vai da leitura do mundo – na ilusão das coisas tais como se apresentam aos indivíduos – à leitura de mundo – filtrada pela interpretação. Ela é mediada pelas linguagens em que se materializam os sentido para os interlocutores, com reflexo sobre as práticas sociais. Seu exercício pleno pode contribuir para a análise crítica do cotidiano, levando à participação social mais corrente com consciência dos direitos e deveres da cidadania.
O PROLER coloca-se explicitamente a favor da leitura concebida como exercício permanente do homem em sociedade, que interage com as situações, amplia seus horizontes e posiciona-se face ao real. Este percurso pode ocorrer à análise dos discursos, análise de textos literários ou lançar mão da teoria da comunicação e de outras, na perspectiva da interdisciplinaridade e da multiculturalidade.
Em tempo de tantas informações massificadas, o cinema assume forma linear e paradigmática, cabe a nós, universitários que refletimos sobre a arte, quebrar com os modelos impostos pela mídia e promover a projeção de filmes que estão fora do circuito comercial para evidenciar as diferenças entre as propostas massificadas e as propostas artísticas, articulando através de especialistas discussões estéticas e temáticas sobre aspectos próprios da linguagem cinematográfica e o entrelaçamento dessa linguagem com recursos de diferentes sistemas semióticos, processo caracterizado por AVELLAR (1994:94) quando diz: (...)o cinema ao mostrar o dia-a-dia em movimento, nos ensina novamente pensar em imagens e dar novos nomes às coisas. Um certo modo de pensar em movimento como uma imagem de cinema, de mostrar informações simultâneas e abertas para todos os lados, de pegar o instante em que passa, gerou textos, músicas, desenhos, pinturas -e em alguns momentos a idéia do cinema até se expressou melhor aí, nestas outras formas, que nos filmes.
O projeto Salve o cinema busca abrir os muros da Universidade para a comunidade promovendo a recepção e a discussão sobre o cinema, desfazendo a imagem de que a Universidade é um espaço fechado em si mesmo, local de produção de um saber esotérico (acessível somente aos especialistas) e anônimo (qualitativo e formalizado)...Em tais condições, o cidadão perde o direito ao conhecimento, face ao enfraquecimento da responsabilidade e da solidariedade dos espaços de produção do saber. (MORIN, 2000 :18-19)
Segundo METZ (1972:16), o filme deve ser compreendido como um fato antropológico por possuir certa quantidade de contornos que devem ser investigados, porque desencadeia no espectador um processo perceptivo e afetivo.
O cinema é um multiplicador do sentido humano ao projetar na linguagem das imagens a junção de luz e som. Numa linguagem figurada determinada pela história e pela narratividade, o cinema, constitui uma estética que organiza, constrói e comunica pensamentos e desenvolve idéias que se modificam. A imagem torna-se um meio de expressão cuja seqüência se constitui numa linguagem que desenvolve e narra acontecimentos organizados simbolicamente e viabilizadores reflexões e de discussões sobre a realidade.
Sustentado por essas concepções, o projeto Salve o Cinema, busca na indissociabilidade entre extensão/pesquisa/ensino, fazer um movimento dialético entre o saber produzido artisticamente, o saber teórico/crítico e o senso comum para rediscutir valores e concepções estéticas a partir da recepção de filmes selecionados pela variação da linguagem cinematográfica , das técnicas e de gêneros. As discussões são conduzidas no sentido de estabelecer os elementos que caracterizam os roteiros cinematográficos, apontando para a sua estruturação, ou seja, como a seqüencia de imagens propõem analogias com o real, diferentemente da linguagem literária, onde a palavra constrói realidades, estabelecendo uma diferença efetiva entre o significante e o significado, distância que possibilita à palavra gerar conceitos. Enquanto, que no filme, a presença do objeto decalcada pela fotografia , mostrará o que mostra, assim o “espetáculo” e o “argumento” são priorizados sobre o discurso crítico. O escritor diferentemente do roteirista de cinema, opera com o significado do objeto e a descrição literária se constitui como uma estrutura lingüística que utiliza combinações fonéticas, semânticas e rítimicas na busca de novas relações entre as palavras e os objetos. A descrição literária “sugere” e a descrição cinematográfica “mostra”, pois ao invés de reelaborar o material, utiliza a montagem do material- alternâncias, superposições, elipses – e prioriza o argumento. Portanto, o cinema, arte da evidência, fixa o tempo presente ao sustentar-se no acontecimento e marca como “ilusão da verdade”. Na avaliação de François Truffaut, a pureza do cinema ocorre quando a lógica das imagens e sons dizem sobre a verdade dos comportamentos ( não excluindo o da platéia) e não pelo enredo. Pautados na acepção de que a lógica da linguagem cinematográfica está organizada nas imagens/sons são articuladas as reflexões críticas e as discussões sobre os filmes projetados.

METODOLOGIA

O projeto Salve o Cinema foi articulado no ano de 2004 em dois ciclos com programação fechada de oito sessões, quatro filmes projetados no primeiro semestre e quatro para o segundo semestre e em 2005, o primeiro ciclo com seis e o segundo com sete sessões.
A curadoria está sendo feita pelo aluno de Letras, Fábio Henrique Nunes, extensionista, Taiza Mara Rauen Moraes, coordenadora do Programa Institucional de Incentivo à Leitura / PROLER; Nielson Modro, especialista em cinema e professores dos Departamentos de Design e de Artes Visuais que contribuem com sugestões técnicas/teóricas.
Os critérios utilizados na seleção foram demarcados segundo as seguintes prioridades:
• Filmes elaborados esteticamente e pouco explorados nos circuitos comerciais;
• Tempo de duração;
• Propostas de direção;
• Variedade de gêneros e de linguagens.
A adoção dos critérios acima mencionados foram adequados ao modelo do projeto dirigido para a dinamizar culturalmente a Biblioteca Universitária e criar um público que discuta e construa olhares críticos sobre a arte cinematográfica, além de disseminar conhecimentos produzidos pela universidade através de parcerias interdepartamentais ( Letras, Design, Artes Visuais).
As sessões, no ano de 2004 ocorreram sistematicamente na última quarta-feira do mês, no horário das 17:00h às 19:00h. Após a projeção do filme em vídeo/DVD é efetuada uma mediação crítica por um professor convidado.
A seleção de 2004 foi organizada pelos filmes: Durval Discos – 2002 – gênero – comédia, direção – Anna Muylaert; duração- 95min; origem – Brasil; mediadora – Professora Fabrícia Piva; abordagem – musicalidade; Abril Despedaçado – 2001- gênero – drama, direção - Walter Salles; duração 95min; origem- Brasil; mediador – professor João E. Chagas Sobral; abordagem – fotografia cinematográfica;Um copo de cólera – 1999- gênero – romance/drama; duração 70min; origem – Brasil; mediadora – professora Taiza Mara Rauen Moraes; abordagem – literária; Mostra de Filmes de Animação – gêneros e diretores variados; duração 60 min; mediadores – professor Silnei Scharten, professor Chico Lam, professor Eugênio Siqueira; abordagem – linguagens do cinema de animação; Farinelli, II Castrato – gênero – drama, direção Gerard Corbiou; duração 110 min; origem ; França/Bélgica/Itália; mediadora – professora Nadja Carvalho Lamas; abordagem – cinema um olhar plástico;Minha vida em cor de rosa – gênero – drama, direção Alain Berliner; duração 88 min; mediadora – professora Sueli de Souza Cagnetti – coordenadora do PROLIJ – abordagem – imaginário/preconceito; Mostra de Vídeo – gêneros e diretores variados; duração – 60 min; mediadores – professor Nilton Tirotti e convidados; abordagem: linguagem do vídeo; Salve o cinema – 1995 – gênero – documentário; direção - Mohsen Makhmalbaf; duração 75 min ; origem – Irã; mediadores – professor –Sizenando Moraes - abordagem – o cinema?.
Em 2005 , o projeto foi ampliado, para seis filmes semestrais e alterado o horário de projeção, das 19:30 às 22:30 em função do público e de maiores possibilidades de seleção, inserindo longas metragens.Os professores mediadores, momentos antes da projeção indicam caminhos de leitura e posteriormente expõem uma leitura crítica seguida pelo debate.
A proposta que está sendo desenvolvida é a seguinte: Moça com brinco de pérola – gênero- drama, direção Peter Webber, duração 95 min, origem:ING- mediadores professora Nadja de Carvalho Lamas e professora Sônia Lourenço – abordagem – intervenção das artes em várioes contextos; Dogville – gênero- drama, direção Lars Von Trier, duração 177min, origem FRA, mediador – professor Silnei Scharten – abordagem – leitura semiótica/simbologia; As bici cletas de Belleville – gênero – animação, direção Sylvam Chomet, duração 82 min, origem- FRA, mediadores- professor Nilton Tirotti e professor Chico Lam – abordagem – O cinema e as novas linguagens; Ou tudo ou nada – gênero – comédia , direção Peter Cattaneo, duração 90 min, origem ING, mediador- jornalista Guilherme Diefenthaeler – abordagem – humor inglês no cinema; Dançando no escuro – gênero – drama/musical, direção Lars Von Trier, duração 140 min, origem DIN/FRA/SUIÇA, mediadoras – professora Fabrícia Piva, professora Letícia Mognol e professora Sílvia Pilloto – abordagem – musicais/leitura da imagem; As três Marias – gênero – drama, direção Aluízio Abranches, duração – 90 min, origem – BRA, mediadora:professora Taiza Mara Rauen Moraes- abordagem – roteiro cinematográfico; O Fabuloso Destino de Amélie Poulain -gênero – comédia,direção: Jean-Pierre Jeunet,duração: 120 min, origem: FRA - mediadores: professora Nadja de Carvalho Lamas, Professora Nilton Tirotti, Professor.Carlos A. Franzoi e Professor João E. Chagas Sobral - abordagem: múltiplos olhares ; Tudo Sobre Minha Mãe - gênero: comédia direção: Pedro Almodóvar, duração: 101 min origem: ESP, mediador: professor Cleber Barat abordagem: peculiaridade Almodoviana; O Crime do Padre Amaro – gênero: drama, direção: Carlos Carrera, duração: 118 min, origem: Mexico - mediadores: professora Taiza Mara Rauen Moraes e Professor Nielson Ribeiro Modro - abordagem: adaptação/romance; A Noite Americana - gênero: drama, direção: Francois Truffaut, duração: 116 min, origem: FRA/ITA, Mediador: Charles Narloc – Fundação Cultural de Joinville, abordagem: Metalinguagem / Críticar; II Mostra de Vídeo – Vários Gêneros e Diretores, duração: 70 min aproximadamente, origem: BRA ,mediadores: Produtores locais e convidados, coordenados pelo professor Nilton Tirotti, abordagem: A linguagem do vídeo; E la Nave Va - gênero: comédia,direção: Frederico Fellini, duração: 126 min, origem: ITA, mediadores:poetas Patrícia Hoffmann e Rubens da Cunha- abordagem: A poética no cinema; Aimée e Jaguar - gênero: drama, direção: Max Färberböck, duração: 126 min, origem: ALE, mediador: jornalista Guilherme Diefenthaeler e Professor Afonso Immoff, abordagem: Reflexões sócio-políticas

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Lançar um projeto para introduzir sistematicamente sessões de cinema na Universidade é um desafio múltiplo: primeiro o de constituir um público que venha para a Universidade num horário alternativo para assistir filmes; segundo o de projetar filmes que estão fora do circuito comercial e terceiro, criar um espaço de discussão sobre o cinema a partir de propostas demarcadas e relacionadas às transformações do cinema como arte. Percebe-se que os desafios estão tendo respostas positivas nos três aspectos demarcados. O público tem comparecido às sessões, o projeto tem garantido a presença de um mesmo grupo, porque os participantes de 75% das sessões terão direito a certificado . Os professores mediadores apresentam leituras teóricas críticas bem articuladas às propostas temáticas estimulando novas construções de olhares sobre os filmes projetados e sobre as variações da linguagem cinematográfica enfatizando que a imagem, o movimento e o som são inerentes ao cinema e que suas fronteiras tem extensão ampla, que vão além dos limites estreitos do filme. As discussões posteriores denotam o interesse sobre a arte cinematográfica e sobre a relação que o cinema opera com outras artes como a literatura, música, dança e artes plásticas na busca da compreensão do entrelaçamento de recursos provenientes de diversos sistemas semióticos. Outro resultado significativo, foi a relação interdepartamental gerada pelo projeto ao integrar professores dos cursos de Design, Artes Visuais e Letras que se envolveram na proposta pensando o cinema a partir de suas especialidades e o resultado destas avaliações críticas será uma publicação em 2005 dos textos teóricos/críticos produzidos para cada sessão.

REFERÊNCIAS

AUMONT,J A estética do filme. Campinas: Papirus,1995.

AVELLAR, J. C. Cinema e Literatura no Brasil. São Paulo: Projeto Frankfurt, 1994.

DELEUZE, G. A imagem -tempo. Cinema 2. São Paulo: Brasiliense, 1990.

ECO, U. Seis passeios no bosque da ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

METZ, C. A significação no cinema. São Paulo: Perspectiva, 1972.

MORIN, E. A cabeça bem feita. Rio de Janeiro: Bertrand, 2000.

 
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