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REPRESENTAÇÃO DO FEMININO NA MÍDIA IMPRESSA: PROCESSOS DE REFERENCIAÇÃO

Fernanda Beatriz C Morais (PUC-CAMPINAS, Faculdade de Letras, Bolsista de Iniciação Científica PIBIC/CNPQ).

Este trabalho tem como objetivo analisar, na mídia impressa, alguns processos de referenciação e metáforas que permitiram agrupar, em cinco categorias, mulheres que se destacam na área política. Os resultados permitem dizer que o discurso da mídia reproduz valores do passado da cultura brasileira, contribuindo assim para a continuidade do preconceito face à mulher brasileira.

Neste artigo, apresento, primeiramente, um quadro teórico da Análise Crítica do Discurso, e o papel do discurso na mídia, em especial, a mídia impressa, para em seguida tratar a referenciação e as metáforas no processo de referenciação e representação do feminino na mídia em revistas de circulação nacional, dando ênfase na representação da mulher na política.

O discurso como prática social

Primeiramente devemos entender o discurso como uma prática de significação do mundo, constituindo e construindo o mundo em significado. Segundo Fairclough (2001) o discurso possui três aspectos de efeitos construtivos: contribui para a construção do que é referido como “identidades sociais” e “posição de sujeito” para os “sujeitos sociais” e os tipos de “eu”. O discurso contribui, também, para construir as relações sociais entre as pessoas e para a construção de sistemas de conhecimentos e crenças.
A prática discursiva, segundo o autor, é constitutiva tanto de maneira convencional como criativa, pois contribui para reproduzir e transformar a sociedade em aspectos como: identidades sociais, relações sociais, sistemas de conhecimentos e crenças, bem como, transformar essa mesma sociedade. A constituição discursiva da sociedade não provém de idéias das pessoas, mas sim de uma prática social que está fortemente presente nas estruturas sociais materiais e concretas.
O discurso está implicado em todas as práticas sociais, sejam elas de orientação econômica, política, cultural e ideológica. Fairclough (2001) diz que o discurso como prática política estabelece, mantém e transforma as relações de poder e as identidades coletivas entre as quais existem relações de poder.
Como prática ideológica, o discurso contribui, naturaliza, mantém e transforma os significados do mundo de posições diferentes nas relações de poder. Por isso, a prática política e a ideológica são dependentes uma da outra, pois a ideologia são os significados gerados em relações de poder, como dimensão do exercício do poder e da luta pelo mesmo, sendo que o discurso como prática política é um marco delimitador na luta de poder e a prática discursiva recorre a convenções que neutralizam relações de poder e ideologias particulares.
A Análise Crítica do discurso, fundamentalmente, permite analisar um texto através do contexto sócio-histórico-político e ideológico da sociedade em que foi produzido, pois a prática discursiva, o texto, a interação entre as pessoas e a ação social são instâncias discursivas inseparáveis. Assim, como dito anteriormente a ideologia e os valores de uma sociedade são mostrados pela prática discursiva que é determinada por um grupo social, e esses fatores são apontados por Fairclough (1992).

O discurso e a mídia

A mídia, de um modo geral, exerce grande influência em nossa sociedade, e esse poder desempenhado por ela não restringe à influência dessa sobre o público, mas envolve também o seu papel no domínio mais amplo das estruturas de poder social, cultural, político ou econômico da sociedade.
O poder social é definido por Van Dijk (1997) como uma relação social entre grupos ou instituições, envolvendo o controle por um grupo ou instituição com poder sobre as ações e opiniões de grupos de menor poder. Muitas vezes, esse poder pressupõe um acesso privilegiado a recursos socialmente valorizados, como riqueza, influência, conhecimento ou posição social.
A mídia tem, até certo ponto, potencial para controlar as opiniões de leitores, mas não diretamente ações. O controle de opinião exercido pela mídia é eficaz quando os usuários não percebem a natureza ou as implicações desse controle, ou então, quando os usuários mudam de opinião por conta própria.
O controle de opinião envolve também representações mentais, cognição social, como opiniões e ideologias partilhadas por grupos de leitores.
O abuso de poder e a manipulação, como forma de estabelecer o mesmo, geralmente se dão por meio de informações intermediadas, que quando camufladas desviam a atenção do leitor.
O controle dos meios de comunicação pela elite favorecem ainda mais a manutenção do poder. O grupo social com acesso ao discurso público controla os padrões de acesso à mídia. Segundo o mesmo autor “o poder social é proporcional á quantidade de gêneros e perfis discursivos por ele controlado”.
O mesmo autor diz ainda, que a cognição social deve ser entendida como um sistema de estratégias e estruturas mentais partilhadas pelos membros de um grupo, podendo ser modelos (representações pessoais) e outros tipos de representações sociais mais abstratas (scripts) que envolvem o conhecimento, as atitudes e as ideologias.
Os modelos, representações mentais de experiências pessoais, monitoram o discurso e determinam qual informação relevante a ser expressa no discurso e como adequá-lo a situação de comunicação. Assim, a compreensão de uma notícia ou artigo, significa que os leitores foram capazes de construir mentalmente um modelo dos acontecimentos abordados pela notícia ou pelo artigo. Dessa forma, o conhecimento e as atitudes do grupo social ao qual o leitor pertence determinará os modelos que ativará ao ler uma notícia.
Esses modelos podem ser manipulados pelas estruturas e conteúdos dos artigos e também pelas influências na estrutura de um modelo, como a manipulação da informação mais importante, que é representada com menor ou maior destaque, fazendo com que o leitor dê maior ou menor importância a determinados fatos.
É o conhecimento geral socialmente partilhado que permite o entendimento e a compreensão de uma notícia, e o controle desse conhecimento pode direcionar a compreensão do leitor, para isso elementos como o controle estratégico do conhecimento e das atitudes que influenciam a avaliação, assim como a ideologia, mecanismo básico das cognições sociais de um grupo são importantíssimos para a compreensão do discurso.

Processos de referenciação e metáforas

A referenciação é entendida, segundo Koch (2004) como uma atividade discursiva. E os processo de referenciação são escolhas do sujeito em função de um querer-dizer. Por isso, o discurso constrói aquilo a que faz remissão, ou seja, todo discurso constrói uma representação que opera como uma memória compartilhada (memória discursiva, modelo textual) publicamente alimentada pelo próprio discurso, sendo que os estágios dessa representação são responsáveis, ao menos em parte, pelas relações feitas pelos autores, especialmente se tratando de metáforas e processos de referenciação.
Os conteúdos implícitos são integrados a memora discursiva juntamente com os conteúdos lingüisticamente validados (Koch, 2004), como as metáforas. E na construção da memória discursiva, muitas operações estão envolvidas, como as seguintes estratégias de referenciação:

1) Construção/ativação

Um “objeto” textual não mencionado é introduzido ficando saliente;

2) Reconstrução/reativação

Um “objeto” já presente na memória discursiva é reintroduzido na memória operacional por meio de uma forma referencial, fazendo com que o objeto do discurso permaneça saliente;

3) Desfocalização/desativação

Ocorre quando um novo “objeto” de discurso é introduzido, e passa a ocupar a posição focal. Um objeto pode ser retirado de foco, permanecendo assim em estado de ativação parcial.

E pela repetição constante dessas estratégias estabiliza-se o modelo textual que é continuamente reelaborado e modificado por meio de novas referenciações.
Ainda segundo Koch (2003) a prática fabrica os referentes, que são objetos de discurso construídos durante a atividade cognitivo-discursiva. E a referência deixa de ser uma simples “etiquetação”, e passa a ser vista pela maneira como sócio-cognitivamente interagimos para representar algo, através da criação e uso de termos em uma situação discursiva.

Metáforas no processo de referenciação

A palavra metáfora vem do grego metaphorá que significa transporte, e uma comparação. E o estudo da metáfora vem sendo feito há mais de dois mil anos, Aristóteles em sua arte poética dizia: “a metáfora é a transposição do nome de uma coisa para outra, transposição do gênero ou de uma espécie para outra, por via de analogias...” (in Abreu, 2000).
Em 1980 Lakoff & Johnson revolucionaram o estudo da metáfora, e a caracterizam como um processo de natureza cognitiva que estrutura o nosso pensamento, linguagem e ação. As metáforas deixam de ser somente uma figura retórica e passam a ter o status de uma operação cognitiva fundamental.
A metáfora une a razão e a imaginação, que existem em nossa mente e permite que percebamos e experienciamos o mundo por meio delas, sendo que o nosso pensamento metafórico está intimamente associado à cultura em que vivemos. Segundo os autores “os valores fundamentais de uma cultura são coerentes com a estrutura metafórica dos conceitos fundamentais dessa cultura (p. 71) e “os seres humanos acessam e processam informações similares ou idênticas de maneira diferente em contextos diversos (p. 2).
Tomando por base a fundamentação acima descrita tratarei, em seguida, dos exemplos de referenciação do feminino na mídia impressa. Vale lembrar que a ênfase dada nesse trabalho é a mulher na política. A análise dos dados permitiu agrupar os exemplos em categorias, de acordo com a função e o momento em que essas mulheres foram retratadas:

1) Quando a mulher é retratada como “perua”:

a) “Perua na lama – Elegantíssima como sempre, a prefeita Marta Suplicy é hostilizada por vítimas das enchentes – A prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, do PT, é reconhecida pela exuberância de seu guarda-roupa.... Elegantíssima, pisou com desenvoltura no lamaçal que tomou conta da região de Aricanduva, Zona Leste... Dois dias antes, dessa vez com uma roupinha básica – blusa preta e camiseta branca – ela já enfrentava contratempos...”. – Veja 11/02/2004.

b) “Desfilou por bairros pobres com um guarda-roupa tão caro e exibido que era difícil acredita que nada visse de incongruente no fato de uma prefeita vestir-se assim diante de gente sacrificada no curral do salário mínimo” – Veja 23/03/2005.

Observa-se nesses exemplos que a ênfase dada à Marta é pela forma como ela se veste, e se comporta citado de maneira irônica, como mostra os grifos. A metáfora “perua” rotula Marta e deixa o seu lado profissional em segundo plano.

2) Quando a mulher é retratada como “autoritária e linha dura”:

a) “Boa de briga – Heloisa Helena não tem medo de enfrentar os poderosos. A senadora Heloisa Helena, de 39 anos, do PT de Alagoas, é uma mulher de coragem. No Senado, ficou famosa pelo jeito destemido com que defende suas idéias.” – Época 25/11/2002.

b) “Ela tem personalidade forte, um lado macho na forma de imprimir gestão”-fala do ministro da cultura Gilberto Gil sobre Dilma Roussff, nova ministra-chefe da casa civil”. – Época 27/06/05.

Através desses exemplos podemos observar que para a mulher conseguir o que quer e ser respeitada, muitas vezes, a mulher tem que adotar uma postura linha-dura, deixando de ser feminina, para tomar uma postura masculinizada, ganhando assim mais respeito.

3) Quando a mulher é retratada como “sombra do homem”:

a) “Fiel escudeira do presidente Lula, Dona Marisa da Silva quase teve seu dia de protagonista – mas acabou ofuscada pelo próprio marido. Na cerimônia em que a patroa foi apresentada como presidente da ONG Fome Zero, o presidente falou um tempão – de seca, de fome, de tudo...menos da primeira-dama, estrela do dia” – Época 14/07/2003.

b) “Bolinha é quem manda – Eleita pela popularidade do marido, Rosinha retribui com poder em áreas estratégicas. Em crise financeira, política e de segurança, Rosinha entrega a parte mais importante de seu governo ao marido, Anthony Garotinho” – Época 17/03/2003.

Nesses exemplos, podemos observar as metáforas “Fiel escudeira e “Bolinha é quem manda” que dão ênfase à importância dos maridos para as mulheres, que são consideradas sombras deles, ou seja, em segundo plano. A vida da mulher está focada no marido, e elas estão sempre atrás deles e não ao lado.

4) Quando a mulher é categorizada como “frágil e temperamental”:

a) “E no cenário político religioso....A radical neste ano a senadora Heloisa Helena foi a que mais fez e aconteceu. Chorou muito, esperneou mais, mas acabou ficando de fora: foi expulsa do PT. Justamente ela que tem – ou tinha a cara do partido! Vai entender...” - Época 29/12/2003.

b) “Mulher de voz fraca e personalidade forte, ela enfrentou o assassino da moto-serra, o ex-deputado Hildebrando Paschoal” – Época 14/07/2003.

Observa-se nos exemplos que a mídia faz referência à mulher frágil e temperamental, quando estas lutam pelo que quererem e conseguem. No último exemplo há uma contraposição entre mulher de voz fraca X personalidade forte.

5) Quando a mulher é categorizada como “musa”:

a) “A Bela, a Fera...e o Fantasma” título do artigo sobre os candidatos Rita Camata e José Serra as eleições presidenciais - Época 27/05/2002.

b) “Além de ser mulher e bonita - fatores que podem ser decisivos numa etapa em que 23% do eleitorado feminino ainda não têm candidato...” - Época 27/05/2002.

Nesses exemplos, observa-se que a ênfase dada é na beleza da candidata, no primeiro exemplo a metáfora “bela” contrapõe com “fera”, que pode ser entendida como o bom profissional, ou o bom político X a candidata bonita. Pode-se observar no segundo exemplo o jogo entre a beleza física de Rita e o seu conhecimento como política.

Conclusão

Os dados permitem dizer que a mídia jornalística de um modo geral contribui para a perpetuação do preconceito face á mulher brasileira. Nota-se que uma mesma mulher pode pertencer a mais de uma categoria, de acordo com suas representações na mídia, que são dadas através de seus comportamentos, atitudes, formas de se vestir, beleza física e até mesmo através do nome de seus maridos.


Referências bibliográficas

ABREU, Antônio Suárez. Metáfora- uma visão funcionalista. Letras PUC-Campinas 19:5-108, 2000.

FAIRCLOUGH, N. Languague and Power. London, Longman, 1992.

FAIRCLOUGH, N. Discurso e mudança social. Brasília, UNB editora, 2001.

KOCH, Ingedore. A inter-ação pela linguagem. São Paulo, Contexto, 2003.

KOCH, Ingedore. Desvendando os segredos do texto. São Paulo,Cortez, 2003.

KOCH, Ingedore . A língua(gem) no contexto social. Letras PUC-Campinas 12:61-71, 1993.

KOCH, Ingedore . Introdução à lingüística textual. São Paulo, Martins Fontes, 2004.

LAKOFF, G e Mark Johnson. As Metáforas da Vida Cotidiana. São Paulo, Mercado de Letras, 2002.

VAN DIJK, T.A. O poder da mídia jornalística. Palavra 4:167-187, 1997.

 
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