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A ATIVIDADE CULTURAL NA BIBLIOTECA DO IESF: A BIBLIOTECA COMO CENTRO IRRADIADOR DO SABER E DA CULTURA BRASILEIRA.

Cléa Fátima de Camargo Pereira
Instituto de Ensino Superior da FUNLEC - IESF/ UNIGRAN

Solange Cristine Barbosa
Instituto de Ensino Superior da FUNLEC - IESF/ UNIGRAN

Valéria Camargo Mota
Instituto de Ensino Superior da FUNLEC - IESF/ UNIGRAN

Virgínia Ávila Ornellas
Instituto de Ensino Superior da FUNLEC - IESF/ UNIGRAN

Introdução

Este relatório faz parte das atividades curriculares da disciplina Gestão de Informação em Atividades Culturais. Trata-se do relado de uma pesquisa sobre os serviços de ação cultural que são promovidos por bibliotecas.

Considerando a importância da biblioteca em uma sociedade, pode-se afirmar que não só a disseminação da informação é um dos seus objetivos, mas também a socialização e a integração da comunidade. O incentivo à cultura e à leitura é um dos dispositivos para motivar os usuários a pesquisar e a freqüentar a biblioteca. Uma estratégia que pode ser utilizada com sucesso pelo bibliotecário é a realização periódica de atividades culturais.

Nossa pesquisa foi realizada na biblioteca do Instituto de Ensino Superior da FUNLEC – IESF que, apesar de seu acervo estar voltado para os cursos de graduação, atende a comunidade escolar da Escola Oswaldo Tognini - FUNLEC, ensinos fundamental e médio. Entrevistamos uma pequena parcela dessa comunidade escolar durante os meses de março e abril de 2005.

O principal objetivo deste trabalho foi analisar a importância dos serviços de ação cultural na socialização e na integração da comunidade interna e externa da biblioteca com vistas a coletar dados sobre a biblioteca; determinar o perfil dos usuários; escolher o tema adequado para o momento e determinar a atividade cultural a ser realizada.

Em relação a este tema, recorremos a Milanesi (1991) porque esse pensador argumenta que a ação cultural é fundamental para criar a inquietação e o desejo de conhecimento. Além de atender a primeira função, ela pode suscitar outros e isso atesta que é fundamental que haja um abastecimento contínuo dessas ações. Assim, ao proporcionar uma atividade cultural, a biblioteca não só leva e dissemina a informação de uma forma divertida e alegre, como alicia a curiosidade e a criatividade, pois existe a possibilidade da comunidade ser levada a pesquisar e se aprofundar sobre o tema abordado.

A oportunidade de despertar o interesse para o assunto abordado ou a um novo assunto, mediante a conclamação de seus usuários, é o ápice de realização do bibliotecário: uma biblioteca ativa, em ebulição, levando o conhecimento e a cultura além de suas fronteiras.

Acreditamos que apesar da falta de espaço adequado e de recursos financeiros da maioria das bibliotecas, públicas ou privadas, sempre haverá formas de realizar atividades culturais, de fazer a biblioteca tornar-se uma instituição viva dentro da sociedade, permanecendo junto à sua comunidade interna e externa. Assim, ela pode se estabelecer como um centro irradiador de saber e de cultura, transcendendo a idéia comum de que sua atividade restringe-se apenas a ser um depósito de informação.

Metodologia:

A justificativa para a escolha da biblioteca do IESF como foco dessa pesquisa deve-se ao fato de que ela exerce o papel de laboratório para os acadêmicos de Biblioteconomia. Além disso, na concepção espacial desta há uma parte específica, voltada para a comunidade escolar, onde é permitido o livre acesso de usuários. Apesar de ser um acervo pequeno, existem vários títulos de histórias infantis classificados pelo sistema de cores, o que facilita a sua utilização por parte de quem ainda está em fase de alfabetização.

Para nós, essa forma de sistematização corresponde ao que Milanesi (2002) pensa sobre a importância de se facilitar o acesso ao público infantil. Segundo esse pensador, o espaço físico para as crianças deve ser mutante, tendo áreas específicas no acervo para esse público que não devem, necessariamente, conter nenhuma técnica sofisticada de organização que o possa impedir ou dificultar o manuseio.

Após a escolha da biblioteca, elaboramos os questionários para a coleta de dados: um para a responsável da biblioteca e outro para entrevistar os usuários. Ambos compostos por oito questões mistas – gerais e específicas.

Ao aplicar o questionário com os usuários, oferecemos a opção de serem entrevistados ou de preencherem o questionário. Todos optaram pela entrevista. Não foi solicitado nenhum tipo de identificação pessoal. As entrevistas proporcionaram além das respostas às questões, a realização de comentários, o que tornou o desenvolvimento da pesquisa ainda mais enriquecedor.

No questionário direcionado somente aos usuários, as cinco primeiras questões foram elaboradas para definir o perfil do usuário. As outras três perguntas buscaram definir a atividade cultural mais interessante para o público enfocado.

A população entrevistada constitui-se de 13 (treze) usuários, o que podemos considerar muito pequena para a importância do tema. Porém, ressaltamos que esse número de entrevistados mostrou-se pertinente e contribuiu adequadamente aos nossos propósitos.

Após a coleta de dados, foi realizada a tabulação e a análise dos dados, o que possibilitou formalizar uma base sólida para a pesquisa e nos proporcionou visualizar melhor a situação analisada.

Para a escolha da atividade cultural, seguimos os critérios estabelecidos pelo professor da disciplina. Um dos elementos obrigatórios foi a apresentação da atividade cultural proposta à nossa turma de graduação e convidados. Isso ocorreu, devido às dificuldades de horário, pois o nosso curso é noturno, o que dificultou a presença do público pesquisado.

Análise e interpretação dos resultados:

Os dados resultantes da pesquisa foram compilados, analisados e comparados, segundo os objetivos deste trabalho.

Ressaltamos que um dos nossos principais enfoques, são os resultados oriundos do questionário aplicado aos alunos.

Como primeiro passo para se realizar alguma atividade cultural na biblioteca, é necessário conhecer quem é o usuário, quais as suas reais necessidades. Conforme Milanesi (1991), a organização do acervo, geralmente, o bibliotecário não tem maiores problemas, mas tornar o produto informação apetitoso e atraente, é um grande desafio. Para que isso se realize, é necessário conhecer o público e criar atividades aglutinadoras. Dessa maneira, no momento de definir a atividade cultural que realizamos, buscamos nos adequar, o mais próximo possível, ao perfil do usuário entrevistado.

Definição do perfil do usuário

Para definir o perfil do usuário foram aplicadas cinco questões simples e diretas, cujos resultados serão descritos a seguir.

1 - “Qual a sua idade?”

Com relação à idade dos alunos entrevistados, verificou-se que a maioria, 31%, tinha 13 anos. Cerca de 30% tinha 12 anos e 23% 10 anos.

2 - “Se for estudante, qual a série que freqüenta?”

O que vem a confirmar a série que freqüentavam: 69% dos entrevistados freqüentavam a 7a. série. Cerca de 15% freqüentavam a 5a. série e 8% freqüentavam a 4a. ou a 6a. série.

3 - “Com que freqüência você vai à biblioteca?”

Notou-se que o nível de freqüência à biblioteca é bem variado. Para nós, foi significativa a constatação de que cerca de 39% dos entrevistados freqüentavam a biblioteca diariamente. Os demais usuários afirmaram ir à biblioteca no tempo disponível, ou seja, no intervalo ou após o término das aulas. Alguns entrevistados disseram que iam à biblioteca para aguardar o horário das aulas de Educação Física. Este resultado se confirma na resposta da pergunta seguinte.

4 - “Que tipo de atividade leva você à biblioteca?”

Pôde-se verificar que, em primeiro lugar com 47%, é o lazer que leva o usuário à biblioteca. Os usuários disseram ter prazer em ir à biblioteca para realizar atividades que não exigidas pelo professor em sala de aula, como escolher um livro do acervo ou levar o seu próprio volume para ler, ou se reunir com os colegas só para conversar, trocar idéias. Alguns até preferem o espaço para desenhar e pintar. Em segundo lugar, 32%, os entrevistados vão à biblioteca para estudar para prova ou para fazer tarefas, ou seja, atividades relacionadas com o conteúdo aplicado em sala de aula. Em terceiro lugar, 21%, ficou a pesquisa segmentada às atividades das aulas. Poucos disseram ir à biblioteca para pesquisar temas extra-curriculares.

5 - “O que você gosta de fazer no seu tempo livre?”

Pôde-se observar que dos oito itens de atividades sugeridas para o tempo livre, cinco se destacaram: em primeiro lugar, 17%, estiveram os Eventos culturais e o Acesso à internet. Em segundo lugar, 16%, Ouvir música e, em terceiro lugar, 13%, Sair com amigos e Praticar esportes. Assistir TV ficou em quarto lugar, com 10%. Ficar com a família e Outros (ler, dormir, tocar bateria, jogar videogame) ficaram em último lugar, com 7%.

Definição da atividade cultural

As questões de 6 a 8 estiveram diretamente relacionadas à definição da atividade cultural mais adequada para o momento e para o público entrevistado.

Milanesi defende a idéia de que a biblioteca poderia ser um lugar semelhante a um centro cultural, onde houvesse lugares específicos não somente para armazenar a informação, mas também, para se discutir temas sociais, filosóficos ou artísticos, buscando proporcionar, acima de tudo, o desenvolvimento da criatividade (...), um trabalho cultural começa pelo estímulo à expressão. Isso inicia-se pelo diálogo à porta de uma biblioteca e se acentua em uma oficina de criação (MILANESI, 1991, p.152).

6 – “Que tipo de atividade cultural você gostaria que a biblioteca desenvolvesse?”

Em relação ao tipo de atividade que os entrevistados gostariam que a biblioteca realizasse, verificou-se que em primeiro lugar escolheram as Exposições, 20%, o que achamos de grande valor, tendo em vista a riqueza de informações que uma exposição proporcionaria ao usuário, pois é uma forma de aguçar a curiosidade, seja qual tema for escolhido. As Seções de vídeo/filmes/teatros ficaram em segundo lugar, 19%. As apresentações circense e folclórica (Capoeira) ocuparam terceiro lugar, 13%.

7 – “Você gosta de ler?”

A grande maioria dos entrevistados, 67%, responderam que gostam de ler. No momento em que fizemos essa pergunta, alguns declararam que o gosto pela leitura era “mais ou menos”, que nem todo dia tinham vontade de ler. Acreditamos que esse tipo de posicionamento foi decorrente da necessidade de resposta ao questionário. Talvez, com receio de assumir que não gostavam de ler, alguns assim se manifestaram por medo de sentirem discriminados. Afinal, em nossa sociedade, quem afirma não gostar de ler, muitas vezes, é considerado ignorante e ninguém quer se ver definido assim.

8 – “Quando a biblioteca promove alguma atividade cultural, você participa?”

Esta questão foi desconsiderada, pois a biblioteca, infelizmente, não promove atividades culturais. Não realizamos o piloto, porque nosso trabalho era uma atividade curricular que objetivava o treinamento, a experiência em passar pelas etapas básicas para a realização da apresentação de uma atividade cultural. Contudo, ficou-nos clara a necessidade de iniciarmos a organização de atividades culturais periódicas para colaborarmos para o bom desenvolvimento da biblioteca do IESF. Assim, além de contribuirmos para um melhor desempenho da biblioteca de nossa instituição de ensino, poderemos vivenciar, por meio de experiências práticas, situações que certamente experimentaremos na dinâmica de nossa profissão.

Considerações finais

A experiência de se fazer o estudo do usuário é muito rica, ainda mais utilizando a entrevista como instrumento de coleta de dados. O contato com o usuário, face a face, levou-nos a verificar a importância de se conhecer realmente quem é o nosso usuário. Somente a partir desse contato e das informações obtidas é que se pode elaborar projetos que atendam às reais necessidades do público. Dessa maneira, torna-se mais eficaz a definição de formas de incentivo ao uso da biblioteca, delimitando estratégias adequadas de estímulo à leitura, à pesquisa e ao desenvolvimento da criatividade.

Constatamos que não seria possível a realização das duas primeiras atividades culturais mais votadas, (Exposições e Seções vídeos/filmes/teatro), por falta de espaço adequado para realizá-las. Escolhemos, então, a Apresentação folclórica-Capoeira. A importância dessa atividade cultural está no fato de que esse tema resgata um pouco da História do Brasil e, portanto, colabora para a valorização das raízes da cultura brasileira.

A partir disso, realizamos um levantamento de dados sobre a história da capoeira no Brasil. Um membro de nossa equipe, Cléa, faz parte do Grupo de Capoeira São Benedito, ocupando o cargo de coordenadora. Ela já possuía um rico material em arquivo e nós usamos esse material para delimitar o conteúdo a ser utilizado na apresentação e narração da história.

Em nossa apresentação, proferimos um resumo sobre a história da capoeira no Brasil. Alguns componentes do Grupo de capoeira São Benedito se apresentaram ao nosso público: o presidente do grupo e responsável técnico, Mestre Meia-Noite, o professor Jabá, a estagiária Nila, três adolescentes e três crianças. Ao final da apresentação, distribuímos um gibizinho com a breve história da capoeira. O gibizinho faz parte de um projeto do Grupo de Capoeira São Benedito e foi cedido especialmente para a apresentação de nosso trabalho. É composto com desenhos coloridos e alegres, apresentando o texto em forma corrida e em forma de balões, expressando as falas ou pensamentos dos personagens.

Como o objetivo deste trabalho era aumentar o interesse pela pesquisa e pelo uso da biblioteca, utilizamos uma estratégia de chamar a atenção e despertar o interesse da assistência que acreditamos ser eficaz. Ao final da narração da história, proferimos a seguinte frase: “Mas isso vai ser outra história ... e se você quer saber mais sobre a capoeira, a biblioteca possui livros que abordam o assunto detalhadamente. Vá a biblioteca, peça um desses livros, e fique conhecendo ainda mais sobre essa parte de nossa cultura!”.

Acreditamos que a realização dessa atividade a uma turma da comunidade escolar seria eficiente porque ela atrai o interesse dos alunos e, com certeza, estes podem constatar que a biblioteca pode ser, além de um centro de informações, um local para se apreender elementos sobre a nossa cultura. Desse modo, eles teriam a percepção de que o uso da biblioteca pode ser divertido e ajudar a conhecer melhor a si mesmos. Ao tomar conhecimento sobre aspectos das origens da cultura de seu país eles entenderão melhor as suas raízes, o que refletirá positivamente na sua formação escolar e social.

Nesse sentido, ressaltamos que na cidade de Campo Grande – MS, há diversos grupos de capoeira formado por jovens de diferentes classes sociais, o que sedimenta ainda mais a importância da escolha dessa apresentação para o nosso trabalho. Acreditamos que é imprescindível considerar o contexto social para elaborar projetos que integrem da melhor maneira possível o tema à realidade cotidiana do público-alvo. A aproximação com o universo de experiência do usuário permite que ele se identifique com a atividade proposta. Isso assegura ainda mais que a proposição desse diálogo entre as duas partes envolvidas será profícua, gerando respostas positivas ao empenho do bibliotecário.

Assim, entendemos, de acordo com Milanesi, que a biblioteca pode transformar-se em um pólo cultural que oferece aos usuários além da informação, atividades culturais que integrem a pesquisa ao desenvolvimento da criatividade. É necessário modificarmos a visão estanque, da maioria dos estudantes, de que a utilização da biblioteca deve ser rápida, somente para fazer trabalhos de escola e que, portanto, a sua diversão só poderá ser alcançada fora dos limites desse espaço de trabalho. Vimos que esse pensamento pode ser modificado e cabe a nós, bibliotecários, colaborar para essa transformação, demonstrando que a leitura é um dos melhores e mais ricos meios de entretenimento e socialização para o homem.

Alguns bibliotecários com formação continuada na área de Educação alegam que a maioria dos bibliotecários não têm uma visão voltada para a educação, mas para nós, tal afirmação não procede. Isso porque, temos consciência de nossa responsabilidade com a educação em todos os níveis, pois essa é a base de nossas prerrogativas de atuação profissional. Esse trabalho demonstrou, claramente, que os bibliotecários podem contribuir para a divulgação de conhecimento sobre a cultura, portanto, para a formação de cidadãos conscientes da história da sociedade em que vivem.

Referências

MILANESI, Luís. Biblioteca. São Paulo : Ateliê Editorial, 2002. 116p.

______ A casa da invenção. São Paulo : Siciliano, 1991. 189p.

Bibliografia

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BIBLIOTECA pública: princípios e diretrizes. Rio de Janeiro: FBN, 2000. 160p. FIGUEIREDO, Nice Menezes de. Estudos de uso e usuários da informação. Brasília: IBICT, 1994.

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SILVA, Waldeck Carneiro da. Miséria da biblioteca escolar. São Paulo: Cortez, 1995.

 
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