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PROALFA- DEZ ANOS DE UM TRABALHO VOLTADO À ALFABETIZAÇÃO


Anna Helena Moussatché – Coord. do Proalfa e Docente do Instituto de Psicologia /Uerj


INTRODUÇÃO

Inicialmene, gostaria de revisar o tempo que assinalei no título do trabalho.
Oficialmente este trabalho completa dez anos na Universidade. No entanto, para que fosse reconhecido como extensão, sete anos se passaram em busca de parceiros nas idéias e ideais que nos motivavam. Somamos, então, dezessete.
Mas a conta não terminou. A este total, acrescentaríamos, ainda, os anos de experiência na Educação Especial, na década de setenta . Naquele período, trabalhando a nível de Secretaria de Estado de Educação, éramos responsáveis, enquanto psicólogos, pela avaliação de centenas de alunos repetentes nas classes de alfabetização, para um provável encaminhamento às classes especiais. Tendo sido normalista dos anos dourados, este fenômeno passou a inquietar-me e muitas indagações surgiram:

- o que estaria ocorrendo no ensino ?

- por que as crianças não se alfabetizavam?

- seria justo encaminhá-las para as classes especiais ?

- os instrumentos utilizados na avaliação, garantiriam o diagnóstico de deficiência mental ?

- deficientes mentais se alfabetizam ?

Dei prosseguimento à minha carreira universitária sempre buscando estas respostas.

Nos anos 80, ao tomar conhecimento das pesquisas em psicolinguística e psicogenética de Ferreiro e Teberosky, algumas dúvidas se dissiparam em relação ao meu diálogo entre Psicologia e Educação.

A alfabetização tornou-se, então, meu objeto de estudo, de desafios, de buscas sem limites. Tratava-se de fazer justiça social com as crianças patologizadas, excluídas silenciosamente, estigmatizadas por serem de escolas públicas e de classes populares.

O conhecimento teórico permitiu-me acompanhar a evolução de muitas escritas estranhas e aceitá-las em sua natureza , em seu desenvolvimento , até em pessoas com Síndrome de Down.

Então, resolvi investir em minhas convicções , buscando parcerias de trabalho e tentando criar um espaço na universidade onde se pudesse ampliar o conhecimento sobre alfabetização, leitura e escrita, independente das aulas de graduação.


A CRIAÇÃO DE UM PROGRAMA DE EXTENSÃO
De início, não havia clareza por onde começar. Tentou-se, sob a orientação da Dra. Emília Ferreiro,a implantação de um Centro Latino-Americano de Documentação em Alfabetização que teve o apoio do Centro de Educação e Humanidades e da Psicologia, mas foi firmemente recusado pela coordenação das Bibliotecas. De 1988 a 1995, fizemos algumas parcerias, mas sempre esbarrando em questões institucionais.

Finalmente, em 1995, com a credibilidade e o apoio de alguns professores , o reitor Ésio Cordeiro reconheceu o PROALFA, como um programa de Extensão.

Enquanto docente do Instituto de Psicologia , foi permitido que uma parte de minha carga horária fosse destinada a esta nova atividade.

Literalmente, passo a passo, foi sendo construído e constituído o PROALFA- Programa de Alfabetização, Documentação e Informação- confirmando, assim, a necessidade de um espaço universitário para o estudo de novas práticas docentes em alfabetização, como a de atendimento de idosos, excluídos deste direito em seu tempo regular; a socialização de um saber universitário, não só como docentes em salas de aulas, mas engajados em falas para todos profissionais interessados nesta temática; a abertura de outros espaços especializados para consultas de livros, monografias, revistas, vídeos, etc...além do que a biblioteca pode oferecer; a possibilidade de aproximar o espaço hospitalar a uma rotina de trabalhos escolares, e muito mais.

Historicamente, ocorreram fatos que vale a pena lembrar:

-Por confiança de uma docente da Faculdade de Educação que iria aposentar-se, recebemos a primeira demanda : dar continuidade à alfabetização de um grupo de idosos.

-Uma colega da Psicologia que fazia atendimento à mulheres num posto de saúde da comunidade da Mangueira, percebendo suas queixas e desejos de serem alfabetizadas, encaminhou-as para o programa.

-Duas profissionais, uma fonoaudióloga e uma enfermeira que atuavam na enfermaria pediátrica do HUPE, solicitou-nos cooperação para atendimento escolar às crianças internadas.

-E o saber dos professores da UERJ, a prata da casa, em relação à leitura e escrita, não seriam reconhecidos ?

- A chegada, por convênio entre a Secretaria Municipal de Educação e a Faculdade de Educação da UERJ ( o já extinto CPM ), de cento e vinte professores do Ensino Fundamental que fariam sua graduação, deixou em evidência dois empecilhos: número irrisório de livros sobre alfabetização na Biblioteca da FED e pouca disponibilidade financeira dos professores para compra destes materiais.

Assim, os diversos projetos do PROALFA foram sendo organizados:

Classes de Alfabetização e Letramento – atualmente com cerca de 100 alunos

Atendimento escolar à Enfermaria Pediátrica do HUPE

Acervo Especializado em Alfabetização “ Emilia Ferreiro”

Ciclo de Estudos em Alfabetização

Alfabetização em Classes Populares

Apoio Escolar à crianças de Abrigo

E ainda,

Capacitação de professores leigos em comunidades carentes

Parceria com a Universidade da Terceira Idade ( UNATI)

Parceria com a Abrinq , no projeto Mudando a Históra

Palestras em eventos das escolas de formação de magistério

Apresentação em Seminários, Congressos, Eventos de Extensão, etc...

Produção de conhecimento elaborado através de Monografias apresentadas pelos bolsistas ao final do curso


A EQUIPE DE MULTIPLICADORES
Enquanto Extensão Universitária, o PROALFA tem o direito de receber bolsistas. Formamos, então, uma equipe multi e interdisciplinar com graduandos de Pedagogia, Letras, Matemática, Comunicação Social e Biblioteconomia.

Durante o período que os bolsistas atuam nas classes e permanecem neste trabalho, estabelece-se um rico diálogo entre a Língua Portuguesa, os métodos da Pedagogia e o ensino da Matemática.

Os futuros professores do Curso de Letras que atuarão de quinta a oitava série, aprendendo a origem dos problemas que irão enfrentar, descobrem que alfabetizar é ensinar Língua Portuguesa. Os mais radicais, ao se depararem com os chamados “erros ortográficos” e entenderem tais escritas, futuramente saberão como intervir, prevenindo os fracassos e desistências escolares.

Eles próprios, terão a oportunidade de rever e aprofundar a escrita de seus textos, pois ensinar os obriga a planejar, selecionar conteúdos, entender a origem da escrita e da leitura , seus aspectos cognitivos e metodológicos.

Os futuros pedagogos, desta mesma forma, ensinarão a Língua Portuguesa e não se contentarão em aplicar métodos que oferecem textos com intenções estranhas, impedindo os pequeninos de se aproximarem e se apaixonarem por nossa língua.

Aqui também se incluem os graduandos da alquimia matemática. O convívio com os colegas das graduações citadas, torna-os grandes estudiosos de sua língua e questionadores do como ensinar, diferente de “ armar continhas”. O maior ganho é possibilitar a perda do medo da maioria dos alunos em relação à Matemática, a valorização do raciocínio e a busca de metodologias e pesquisas atuais, diferentemente do ensino que por vezes recebem.

Comentaremos, ainda, a atuação de nossos bolsistas de Comunicação Social e Biblioteconomia.

O Acervo Especializado em Alfabetizaçao conta com mais de mil livros. A bolsista de Biblioteconomia não cuida apenas de empréstimos, pois torna-se uma conhecedora dos problemas de leitura que o país; ressignifica seu conceito de alfabetização; atende aos alunos das Classes de Alfabetização, orientando sobre a escolha de livros; mantém o PROALFA atualizado nos diferentes sítios da grande rede para busca de conteúdos pedagógicos oferecidos nas classes, etc...

A comunicação do PROALFA é essencial dentro e fora da UERJ. Não dispensamos a atuação do bolsista de Comunicação Social, pois ele é o nosso elo de divulgação nos eventos, na feitura do site, na elaboração de cartazes, folders, memória, nos murais, nos registros cotidianos, etc...tomando consciência dos conteúdos em alfabetização.

Não pretendendo me estender mais neste relato, finalizo fazendo um pequeno depoimento:

Meu trabalho é produto do esforço de muitas pessoas que chegam e partem : alunos idosos, jovens analfabetos, mulheres portuguesas ávidas em aprender, migrantes nordestinos, crianças com dificuldades familiares, bolsistas esforçados, curiosos, perplexos, pouco alimentados, estudiosos, cansados, funcionários fiéis, funcionários somente burocratas, colegas participativas, colegas indiferentes, chefias , etc...etc..

Cada um que chega é um vir a ser, cada um que se vai é uma aperto no corpo, não seria isto um pulsar ?

Em 2005 o PROALFA completa 10 anos. Comemoremos.

 
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