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  RODAS DE LEITURA – FORMANDO FUNCIONÁRIOS LEITORES

Célia Regina Pereira do Nascimento - Escola da Vila – São Paulo

A Escola da Vila é uma escola da cidade de São Paulo extremamente preocupada com a formação de alunos leitores. As atividades leitoras começam desde o primeiro ano de entrada na escola, aos dois anos de idade, quando as crianças ouvem histórias todos os dias e são convidadas a reconta-las, recriá-las, conhecer seus autores, ilustradores e até editoras. Freqüentam a biblioteca central da escola todas as semanas quando participam da atividade chamada Roda de Leitura. As Rodas são momentos privilegiados de inserção no mundo da leitura. Nelas pode-se ouvir, contar coletivamente, assistir uma narrativa com objetos, situações dramatizadas, ver e ouvir através do cinema, da música. As rodas podem ser temáticas, podem homenagear escritores, poetas, datas especiais. Podem ser intermediadas com utilização de outras mídias, música, dança, contação livre e tantas outras possibilidades. Para finalizar a atividade, é feita a escolha de livros para levar para casa no Mar de Histórias. Denominamos Mar de Histórias, um tapete colorido sobre o qual são colocados os livros escolhidos da semana. Cada livro é comentado para que os alunos conheçam minimamente do que se trata a narrativa. Mar de Histórias é uma expressão usada em sânscrito que se refere ao universo das narrativas. Essas e tantas outras atividades de leitura continuam até o último ano de escolaridade, 3o ano do Ensino Médio, e o resultado mostra que o investimento no processo de leitura é um caminho seguro para a formação de um aluno crítico, atuante e apaixonado pelos livros. Pais também participam dessa formação dividindo a tarefa e o deleite de ler para seus filhos e manter a paixão pelos livros.

Preocupada em atender e fazer valer a idéia de que quem trabalha na escola é educador, a Escola da Vila promove diversas atividades nas quais os funcionários administrativos interagem com situações de sala de aula e eventos culturais dos mais diversos. Com essa preocupação em mente e aproveitando a comemoração do Ano IberoAmericano da Leitura que comemora os 400 anos de publicação de Dom Quixote e que no Brasil recebeu o nome de VivaLeitura e Fome de Livro, a escola começou um projeto de leitura que trabalha para a formação de toda uma comunidade leitora, abarcando além dos alunos, professores e pais, também os funcionários. O corpo administrativo da escola – portaria, limpeza, tesouraria, informática, serviços gerais, manutenção, telefonia – passou também a participar das Rodas de Leitura (nos mesmos moldes que acontecem com os alunos) como uma primeira atividade para formação de leitores.

Algumas Rodas acontecem somente com funcionários e em outras eles se juntam às rodas de alunos. Já na primeira roda conjunta, as crianças ficaram muito felizes com a novidade e se apressaram em dar dicas, falar de suas leituras e preferências e também fazer inúmeras perguntas aos funcionários. O resultado não poderia ser melhor! Foram muitos ganhos e avanços numa única atividade:

? Alunos vivenciaram um momento diferente de aprendizado, sentiram-se muito capazes de indicar livros e leituras, falar de suas próprias leituras com outro público que não somente os colegas e professora de sala; experimentaram situação de solidariedade com pessoas que vivenciavam uma atividade igual, porém com muito mais idade. Inconformado em ouvir dos funcionários que ninguém lia para eles em casa, um aluno sugeriu que um lesse para o outro!


? Na segunda Roda, quando os funcionários também tinham seus livros para comentar, a diversão foi ainda melhor: não costumados a essa prática, os funcionários criavam métodos próprios de narrar, de comentar, de salientar este ou aquele outro aspecto da leitura. As crianças queriam ler justamente os livros comentados por eles.


? Os funcionários venceram a timidez, vivenciaram uma situação absolutamente diferente de seu cotidiano, participaram de uma verdadeira atividade de inclusão social e cultural. Nenhum deles jamais haviam participado de uma atividade semelhante; muitos nunca tinham ouvido uma história contada especialmente para ele e escolhido livros numa biblioteca.


? Os funcionários criaram estratégias e rotinas para que todos pudessem participar das rodas sem alterar a rotina de suas atividades, ou melhor, sem atrasar o andamento das tarefas. O inegável valor dado a essa atividade, para a qual se sentiram presenteados, fez com que valorizassem ao máximo esse momento e se mostrassem ainda mais solidários com os colegas, revezando-se em alguns setores nevrálgicos como portaria e telefonia, nos quais o afastamento do funcionário, mesmo para curtos espaços de tempo, é mais dificultada.


? Os depoimentos falam de alegrias novas, de encontros ou reencontros com a palavra escrita. Um funcionário do CPD Centro de Processamento de Dados afirmou que não iria ler de maneira alguma. Essa negativa durou apenas durante a primeira roda: semana seguinte lá estava ele, escolhendo um novo livro e elogiando muito a atividade. Dona Maria Lúcia, funcionária da limpeza, fala com orgulho que agora as filhas também fazem uso dos livros que ela retira para ler para os filhos, seus netos. Dona Madalena adorou tanto o livro O Sapo e a Jibóia que, depois de anos a fio sem ler absolutamente nada, retira novos livros toda semana! Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo que se interessou pela atividade, o jardineiro afirmou que está lendo muito e desligando a TV mais vezes. Funcionárias que são mães aproveitam e retiram livros para ler para seus filhos, cumprindo a função de leitoras solitárias e familiares ao mesmo tempo. Escolhem livros que agradam si mesmas e aos gostos de suas crianças. Dona Lourdes, outra funcionária da limpeza, chora muito ao falar da alegria de sentar-se no chão junto com os alunos e ouvir uma história. É uma coisa muito boa, mesmo, né? Diz ela. Eu até choro, choro com qualquer história. Não é a história. É a alegria de ouvir esta história. Completa Dona Lourdes, ouvinte assídua.


? Por enquanto, os títulos retirados e lidos são infanto juvenis, mas alguns já se aventuram a ler livros maiores, mais complexos. E já se preparam para mais uma tarefa: preparar uma boa história para uma leitura coletiva para as crianças de Educação Infantil no final do ano. Querem mostrar o que aprenderam neste ano tão especial de leitura.


? No ano que o COLE dedica às crianças rotas alteradas, a Escola da Vila traz uma experiência com funcionários apartados do mundo literário que pretende romper com a lógica de fronteiras entre alunos e funcionários, entre mundo letrado e mundo iletrado. Todos podem e devem ter acesso ao mundo encantador e urgente da literatura.

 
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