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  FESTA EM CASA E NA ESCOLA

Uma experiência com formação de jovem leitor
Lívia Abrahão do Nascimento

O mundo parece ser feito apenas de coisas que a gente vê nele. Mas há coisas que não vemos embora existam. São as coisas que lemos. Elas estão escondidas no meio das letras. É preciso ler para que elas apareçam diretamente em nossas cabeças.

Era uma vez uma criança do interior de Minas Gerais, que se encantou com histórias contadas com muita perícia e amor por uma tia leitora.
A trajetória da criança leitora, ávida por livros de bibliotecas escolares e de amigos, levou-a ao curso de Letras e ao magistério.
Cursando o terceiro grau e lecionando para o segundo, tentava seduzir seus alunos para a leitura com pequenos trechos de obras literárias, contos, romances e poemas. E assim, com esses “panfletos”, quiçá precários, convidava-os para viagens a determinados cantos da imaginação ou pensamentos jamais visitados.
E os livros, onde encontrá-los? Na pequena biblioteca da escola, dos amigos e da própria professora.
Estas foram batalhas travadas na década de 1970. A primeira, convencer os alunos de que eles são “agentes”, “mocinhos”, “turistas” bem vindos àquelas leituras. Que era possível sim, assistir aos programas de T.V, jogar futebol e ler. A segunda batalha, a mais espinhosa, era convencer a direção da escola da importância de se conseguir mais e mais livros, e colocá-los à disposição dos estudantes.
Foram anos difíceis. Mas não estava sozinha. Lutávamos, agora, alunos, professores, alguns coordenadores e conquistávamos, palmo a palmo, centímetro a centímetro a capacidade de adquirir obras, ler, aprender a criticar cada texto (obras literárias), maior ou menor, dependendo da etapa e da formação do leitor. Assim, conseguíamos ampliar a pequena biblioteca, com livros novos e usados, que oferecíamos a todos da escola, desde a alfabetização.
Era uma escola grande, no interior de Goiás, formadora de professores também. E esta equipe “Pró-leitura”, que vinha se formando, não se esquecia que crianças, desde pequenas até maiores, adoravam ouvir histórias, encenar histórias, recriar histórias. Foi um tempo produtivo. Era importante não esquecer que esta paixão meio universal pelas histórias populares é um ponto de partida para as grandes inquietações humanas, é a forma de conhecer ou relembrar as explicações sobre elas. Criamos biblioteca improvisada, contadores de histórias, campanhas para arrecadar livros. Muitas apresentações.
Naquela época (1970), apenas sonhávamos com políticas de incentivo à leitura, com formação de bibliotecas (com bibliotecários capacitados) e com livros, muitos livros com os quais pudéssemos nos banquetear. Mal sabíamos que livros na escola não seriam suficientes para o nosso projeto de formar jovens leitores.
Quando surgiu o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) foi um alívio. Para quem, na escola pública não tinha nada, o livro didático representava, às vezes, o único acesso efetivo do educando à palavra escrita; “um livro pra chamar de seu” mesmo que fosse apenas por um ano.
Depois vieram outros programas do MEC e Secretaria Estadual de Educação, possibilitando às escolas a formação ou implementação de suas bibliotecas. Exultávamos. À primeira vista, estavam dados os primeiros passos para iniciarmos, com mais facilidade a formação do leitor.
Mas levou pouco tempo para que percebêssemos um vazio que se instalava na escola depois do primeiro alumbramento com os livros. Os alunos apenas folheavam em busca de gravuras, se encontrassem, o livro merecia um pouco de atenção, senão...Os professores, alguns liam e propagavam a leitura, outros comentavam a grande perda de tempo: “matéria atrasada”, “alunos desinteressados”, “gastar dinheiro à toa”.
Foi quando percebemos, ou melhor, confirmamos que há outros fatores de grande importância para a formação de leitores do que a simples possibilidade de contato com os livros. Não basta oferecê-los. É difícil encontrar um aluno que leia sem um professor leitor, sem que a leitura seja um valor para a família, para aqueles com quem convive.
É necessário trabalhar através do viés de sedução para a leitura, com professores e alunos, abrindo o significado de leitura à dimensão do universo: quem lê constrói uma nova dimensão de significado: quem lê viaja.
Década de 1990. Curso de Letras. Disciplina: Didática de Língua Portuguesa. Com tantas experiências de incentivo à leitura, era a oportunidade de, em um curso de formação de professores, formá-los e informá-los para que tirassem aquele ranço de leitura como obrigação, trabalho, prova.
Era convencê-los de que ler significa pensar, refletir, estar a favor ou contra, comentar, trocar opiniões, posicionar-se. Dizer “gostei” ou “não gostei” e justificar-se.
No afã de preparar esses profissionais da educação muito se tem discutido sobre leitor-leitura e formação de leitor. Afinal, o professor-leitor também precisa ser “formado”. O que é a Universidade senão também uma escola?
A leitura acontece no cotidiano de cada pessoa de forma plural porque um mundo globalizado lê-se, mesmo informalmente sobre vários assuntos, e o mesmo não acontece com a leitura do texto literário em se tratando das camadas mais pobres da população que pouco acesso ou interesse tem por ela.
Ainda que o trabalho escolar nunca possa dissociar-se ou distanciar-se do que acontece no dia a dia, é na escola, enquanto instituição de formação de educação, que atividades ligadas à ampliação do universo cultural do indivíduo e ligadas à aprendizagem sistemáticas dos diferentes campos dos saber, devem ser concebidas e desenvolvidas de maneira competente.
Mas como conseguir que a escola, através da leitura, alargue os limites do próprio processo de produção do conhecimento e de reflexão do que produziu? Professores, alunos, textos e leituras devem interagir todo o tempo de forma organizada e sistemática.
Se, por meio de projetos de leitura nas escolas, pode-se tentar ampliar os limites do conhecimento, tal projeto, em todos os níveis terá que quebrar preconceitos do senso comum com relação à cobrança de obras literárias lidas, e direcionar a leitura para o que ela tem de prazerosa. O prazer que resulta do trabalho intelectual, árduo, de um necessário corpo a corpo que se instaure entre o leitor-aluno, sua experiência prévia do mundo e o texto estético, seu autor e outros leitores virtuais ou reais com quem irá partilhar interpretações e significações recém inauguradas.
Assim, em qualquer faixa etária e de ensino, o contato com os textos artísticos (visuais, verbais, entre outros) precisa ocorrer, de forma plena, e com a contínua intermediação da vida real de cada um, ampliando também as possibilidades de refinamento do imaginário pessoal e coletivo. Atividades que, desenvolvidas na escola, geram também, lá fora, intercâmbios ilimitados.
Neste sentido, o projeto “Literatura em minha Casa” do MEC/FNDE/PNDE vai além dos primeiros projetos que visavam a biblioteca da escola ou de sala de aula.
A coleção é montada em forma de um kit e contempla vários gêneros, conto, poesia, teatro, novela, clássicos universais, histórias do folclore. Traz nomes consagrados pela literatura do Brasil e do mundo. É primorosamente editada e escolhida para ser entregue para o aluno levar para casa, ser seu dono e formar sua biblioteca.
E na apresentação , seu organizador Bartolomeu C. de Queiroz (2.003) diz sobre este projeto:

Meus queridos leitores e amigos, após a leitura destes contos, vocês poderão sugerir que também as suas famílias os leiam. Como vocês, elas sairão abraçadas pelas tramas capazes de alimentar nosso imaginário e de inquietar nossos entendimentos.

Os resultados não foram os esperados. Contrariando os otimistas, professores leitores entusiasmados, os livros começaram a ser vendidos em “sebos”, trocados por figurinhas ou abandonados na escola ou no caminho para casa.
Se o aluno não tem os livros como um bem, se não sabe o que fazer com ele ,é hora de todos os responsáveis pelo processo de letramento, entre eles o professor, entrarem em ação. Fazer um trabalho de “marketing”. Valorizar aquela mercadoria, aquele bem tão precioso que ele , o aluno , não sabe avaliar.
É não permitir que os pessimistas, aqueles que dizem que os Kits do projeto são “pérolas aos porcos” não se encham de razão.
É mostrar a todos que aqueles alunos da escola pública de periferia, e por isso mesmo, tem direito ao acesso a estes e a também outros bens culturais que a literatura vai poder abrir caminho.
O que fazer? Alguns requisitos devem ser exigidos daqueles responsáveis pelo bom aproveitamento deste material de leitura.
A esta altura, surge como essencial à atividade do professor. De um professor que deve sim, ser bem formado e mostrar-se capaz de pensar em um projeto de leitura para a faixa etária, o nível de escolaridade e a fase de letramento em que estão seus alunos.
E mais, saber usar, de forma competente e criativa os livros que tem à sua disposição, sejam eles enviados pelo MEC ou pela Secretaria Estadual de Educação, porque estas e outras ações que fazem parte das políticas públicas para a formação de leitor têm como propósito incentivar e apoiar a leitura de livros na escola e fora dela.
Que os professores sejam, antes de tudo, leitores com a imaginação povoada de tantas outras leituras, que se entrelaçam à do mundo.
Que a direção da escola veja na leitura, em suas múltiplas facetas, um bem cultural necessário, possível de ser adquirido por sua clientela, capaz de apropriar-se dele.
Que o livro seja discutido e apresentado a partir da capa. E que a carta escrita ao leitor seja mostrada a seus pais.
Que se possa sugerir e implantar uma das proposições de Bartolomeu C. de Queiroz “o círculo de leitura” do qual participaria a família, vizinhos e colegas de outras salas, que fariam leituras compartilhadas e discussão das obras.
Que as atividades propostas posteriores à leitura das obras não funcionassem como “camisa de força” direcionando ou cerceando leituras possíveis.
Que as obras não fossem trancadas na biblioteca e nunca lidas, ou apenas distribuídas sem serem mencionadas depois.
Pensando então nesta valiosa oportunidade é que eu levei meus alunos, a convite das escolas estaduais e municipais, para ministrarem oficinas à partir dos títulos tão variados que compõem os kits do projeto Literatura em minha casa. As atividades tinham como objetivo apresentar as obras, incentivando a leitura das mesmas.
Nem todos os alunos, de todas as séries e períodos receberiam os livros do projeto Literatura em minha casa. O projeto da escola, elaborado com minha ajuda, objetivava oportunizar a leitura dos livros por todos da escola. Quem recebia os livros etiquetava-os e depois de lê-los e fazer as atividades propostas pelo professor da série, emprestava-os a outros que não haviam recebido.
Algumas escolas não entregavam todas as obras de uma só vez. Trabalhavam uma a uma em atividades que variavam da reescrita, ilustração, contação de histórias até a encenação. Outra chamou a comunidade, jornais e fez a entrega solene dos livros. Em comum, o interesse das escolas e professores em valorizar aquele material e mostrar o destino que se esperava que dessem a ele.
A seguir vamos relatar as experiências vividas pelos quartanistas do curso de Letras, turmas matutina e noturna do Campus – UFG, em Catalão – Goiás, em escolas públicas estaduais e municipais, urbanas e rurais, desde a educação infantil até o ensino fundamental.
O trabalho desenvolveu-se em duplas ou trios, que propagavam uma obra literária das que o aluno receberia para levar para casa, ou mesmo outra que ele poderia obter por empréstimo. As atividades eram desenvolvidas por aproximadamente uma hora e trinta minutos.
Nas séries do ensino fundamental apresentou-se, mesmo que superficialmente, a teoria do gênero textual, objetivando uma melhor compreensão da obra a ser lida.
Aos estagiários do curso de Letras (quartanistas), foi solicitado que preparassem oficinas que despertassem nos jovens e crianças a curiosidade e interesse pelos livros que receberiam.
Durante a preparação, os alunos estagiários tiveram a liberdade de escolher o gênero textual que gostariam de trabalhar e pesquisar qual seria a clientela, para melhor adequar suas ações. O objetivo era comum a todos: despertar o interesse pelo livro, seduzir o leitor.
Foram preparadas atividades variadas que seriam oferecidas como um cardápio. Muitas, porque se algumas não surtissem efeito, outras surtiriam.
Os alunos que foram para a escola municipal localizada na zona rural, viajaram de ônibus escolar por mais de uma hora, acompanhando todo o percurso do ônibus que recruta os estudantes de casa até a escola.
À primeira vista, o prédio que cedia a escola desanima. De perto, os temores se confirmam. As salas são pequenas, separadas por placas de cimento que não chegam ao teto, permitindo que se ouça o que se fala nas salas vizinhas. O que animou os estagiários foi a recepção calorosa de alunos e professores. Essa e a outra escola municipal que nos recebeu programaram um dia especial.
As aulas foram suspensas. As atividades, em todas as turmas, giravam em torno da leitura de livros literários. O lanche foi especial, o recreio mais longo. Os professores haviam programado encenações de trechos das obras trabalhadas, simulação de entrevistas com os autores lidos, jograis, performances. Todas as atividades foram filmadas. O jornal local foi chamado e fez uma reportagem de folha inteira com entrevistas de alunos, professores, direção e estagiários.
As instalações da escola municipal urbana são um pouco melhores, mas está localizada em um bairro pobre, da periferia, o que faz com que a participação entusiasta dos alunos seja ainda mais surpreendente.
A escola funciona em dois turnos e oferece, mesmo em espaço exíguo e improvisado, inúmeras atividades que surgiram em foram de projetos bem direcionados às necessidades e interesses dos alunos.
Sobre as obras e atividades desenvolvidas pelos estagiários, vamos deixar que eles mesmos se manifestem:

Nessa escola, pela qualidade dos textos produzidos (depois da oficina de leitura e análise de poemas, 7a. e 8a. séries) no que se refere à articulação das idéias e pela desenvoltura dos alunos ao fazerem a leitura dos poemas e de seus trabalhos, percebemos que ali se faz estas atividades de forma sistemática. Isto é muito positivo e surpreendente, pois, apesar da escola atender a um público de periferia, (a escola está situada na parte mais pobre da cidade) seus professores estão conscientes da função das atividades de leitura e produção de textos na vida dessas crianças. (Sara e Ana Marta )

Outro grupo trabalhou várias versões do “Chapeuzinho Vermelho”. Foram colocados em uma caixa mais de oito livros contando a história e entre eles gibis da Mônica, Magali, tio Patinhas e um gibi maior que os outros, que era de autoria da própria estagiária. Foi o que mais chamou a atenção porque todos quiseram escrever a sua versão´da história. Foram propostos ainda atualização da história com a sugestão de um elemento novo: um helicóptero, ou celular, ou gás paralisante. Essas novas histórias foram encenadas e ilustradas em outros momentos.
O filme “Sherek” também serviu como incentivo para que os alunos procurassem ler histórias às quais o filme se referia, além de aprenderem um pouco sobre o que é paródia e estilização (tão comuns em letras de músicas ou quadros de programas humorísticos).
O conto de Moacyr Scliar, “Um sonho no caroço do abacate”, lido por duas estagiárias, serviu de mote para a discussão sobre o preconceito racial, religioso e, ainda, a nossa decepção ao concretizarmos alguns dos sonhos que temos. Os alunos lembraram que, às vezes, a aparência deles desperta suspeita nas pessoas e aqueles da zona rural lembraram do deboche com a sua origem. Foram elaborados cartazes e bilhetes que alertavam sobre o mal que o preconceito causa às pessoas e afixadas nas escolas.
Outra obra que levou a muitas discussões foi O Menino Narigudo de Walcyr Carrasco. As estagiárias apresentaram a visão original, de forma resumida, de Cyrano de Bergerac, do escritor francês Edmond Rostand, leram alguns trechos da peça teatral e falaram sobre o teatro grego e o moderno. Depois a turma fez leitura expressiva do texto de Carrasco,e encenaram trechos dessa peça teatral.
Partindo desta história, comentaram sobre as angústias e frustrações por não terem um corpo, na maioria das vezes, esteticamente aceito pelos padrões de beleza impostos pela sociedade. Foram mostradas revistas e eles leram depoimentos de pessoas que seguiam a cânone estético preconizado pela moda e outras que estavam longe disso e mesmo assim haviam se acomodado e não se sentiam infelizes.
Os adolescentes falavam de seus medos e inseguranças com relação às transformações do próprio corpo. Conseguiam falar de seus “defeitos” e alguns lembraram o nariz de Pinóquio (rapidamente resenhado para quem não conhecia). O livro de poesias de Roseana Murray e de Carlos Queiroz Teles, sobre problemas comuns na adolescência, despertou curiosidade.
Alguns projetos das estagiárias foram controversos. Foram bem aceitos em algumas escolas e detestados em outras, a ponto de terem que modificar o que havia sido planejado e trabalharem com as atividades de reserva.
Um deles foi o conto “A Cartomante” de Machado de Assis. As alunas programaram discussões sobre a “leitura da sorte”, amuletos, sortilégios, tarô. Usaram, para início, literatura de dois contos curtos do livro As sete faces do destino, da editora moderna. Depois as estagiárias encenaram uma adaptação do conto de Machado. Na escola da zona rural, a discussão não fluiu. Os alunos se mostraram reticentes, receosos. E as estagiárias se ativeram na parte final do programa que era apenas o conto “A Cartomante”. {Em compensação, na escola estadual de ensino noturno, o tema “destino” foi debatido e os alunos ao ouvirem/lerem os contos do livro As sete faces do destino, expressaram-se livremente contra ou a favor de tais práticas e a leitura de Machado veio como fecho de ouro}.
Em sentido contrário, estava a proposta de se trabalhar com os contos populares. Os estagiários assim relataram:

A proposta apresentada iniciou-se com a exposição oral sobre literatura dando um passeio pela teoria do conto tradicional ao moderno. E feita a leitura do conto tradicional, em círculo, falamos do necessário resgate, o que foi um exercício de interpretação que se tornou um gostoso exercício lúdico também para nós. (Branca )

Os alunos da escola municipal rural sabiam de vários contos que tinham ouvido e, às vezes, lido também e faziam comparações entre eles. Propuseram-se a coletar histórias correntes na oralidade, na comunidade em que viviam e editar um livro com elas.
Na escola estadual, de ensino noturno, com relação aos contos populares o graduando anotou:

Por se tratar de alunos do período noturno, a nossa postura de humildade (de contadores de causo), foi confundida com insegurança e medo pelos alunos e sua professora. Tal atitude fez com que, além de cercar o nosso discurso de autoridade de quem aprendeu e gosta de literatura popular. A autoridade de ser humano, que quando pede para ser ouvido tem o direito de sê-lo. No final, nossa segurança os seduziu e perceberam o valor da literatura popular que não pode e não deve ser desprestigiada. Mostramos a eles que a escola e eles podem e devem ser e ver além do que estava escrito naqueles contos aparentemente simples. (Reginaldo ) .

Na nossa opinião, mais do que propagar o valor literário e humano contidos na coletânea de contos, estes estagiários conseguiram mostrar àqueles alunos o que tinham em comum. Eram estudantes do ensino noturno, trabalhadores e pobres em busca de um futuro melhor através do estudo, que para eles a escola é uma ponte, que pode ou não ser atravessada, porque o saber está logo ali, ao alcance de quem se interessa por ele.
Os contos que falavam de seres fantásticos, que despertavam medo, foram bem aceitos, lidos e comentados. Percebe-se que é um tema que vem sendo abordado pela mídia de várias formas.
Uma obra que foi apresentada na escola municipal urbana surpreendeu as estagiárias:

Nós trabalhamos com o tema “drogas na vida dos adolescentes” fazendo uso de uma parte do filme Cidade de Deus e dos livros A droga da obediência de Pedro Bandeira e Walace e João Vitor de Amanda Shauz. Houve muitos debates, mais na 6ª e 7ª série. Os alunos deram depoimentos de uso de droga na família, dos amigos, conhecidos, porque eles vivem num ambiente de drogas. Fizeram muitas perguntas sobre os problemas que a droga pode causar e produziram textos sobre pessoas e fatos que conheciam. (Renata e Dagma ).

As estagiárias sabiam do conhecimento dos alunos e possível envolvimento com drogas e mesmo assim surpreenderam-se com a desenvoltura com que fizeram depoimentos sobre o assunto. Nas outras escolas limitaram-se aos comentários do filme e dos livros.
Outra decepção das estagiárias foi o projeto preparado em torno de uma crônica que tratava dos “Reality shows”. Tínhamos como objetivo incentivar os alunos a lerem este e todos os outros textos do livro que recebiam. Outro propósito era fazer com que os alunos assistissem a estes e a outros programas com um pouco mis de espírito critico.(Ana Carolina e Ana Paula).
Falaram sobre o que era um Reality show e lembraram de outros programas com este formato “Big Brother”, “Acorrentados”, “Casa dos Artistas”, “No limite”, “Amor a bordo” e “Fama”. Formaram-se grupos para lerem reportagens diversas que abordavam o tema ou discorriam sobre outros programas similares em outros países.
Foram levantadas questões provocatórias, que suscitavam debate, o aspecto anticultural deste tipo de programa, a não aleatoriedade da escolha, do perfil dos candidatos, os possíveis motivos pelos quais os programas ainda têm tanta audiência, apesar das críticas, a possibilidade de haver manipulação de resultados, a exposição da vida íntima em busca de fama, tão efêmera. E concluem:

Apesar de nossos esforços, o tema suscitou pouco debate. Observamos dificuldades na apresentação (mesmo depois de lerem algumas reportagens). A nós pareceu que temiam a nossa opinião e a dos colegas. Parecia que as críticas que os programas receberam, e que eles tomaram conhecimento através das reportagens, deixou-os com dificuldades para dizer se teriam vontade de participar de um programa assim. Então, indagamos sobre o tipo de programa que assistiam. A maioria citou “Malhação”. Falamos sobre os temas abordados neste programa e os alunos debateram com mais entusiasmo e escreveram sobre o que conversamos. (Ana Carolina e Ana Paula ).

Muito teríamos ainda a relatar, mas para o nosso propósito nesse momento, o exposto pareceu suficiente.
Desta experiência pudemos concluir que não há dúvidas que o processo de leitura, letramento, formação do leitor, passa necessariamente pela escola,pois, mesmo não sendo a única, é a principal agente deste processo. Como a sociedade brasileira, dada as suas dificuldades, atribui à escola responsabilidade maior de formação de leitores, temos em vista esse espaço, quando propusemos a levar estagiárias pra incrementar projetos de leitura.
Move-nos a certeza de que o domínio da cultura letrada abre, a cada sujeit ,um leque maior de possibilidades de compreensão do real e de exercícios de cidadania. Por essa razões, aqueles que envolvem com a educação de crianças e jovens precisam estar cientes de seu papel na formação de leitores e, principalmente, ser também, leitores. Isso porque só transmitimos um valor quando o introjetamos, quando estamos convencidos de sua importância. Assim, quem não lê, não pode incentivar os outros a lerem.
Urge, portanto, investir na preparação de professores, bibliotecários e outros animadores culturais, para lidarem com o livro (e especificamente o literário, na escola, conhecendo a natureza, função e dinâmica de circulação deste material).
Constatamos que apenas as iniciativas oficiais de enviar os livros às escolas, seja para as bibliotecas ou para os alunos, não são, por si só, eficientes ou suficientes. São partes do processo.
Aquele professor, leitor interditado, na definição de Luiz Percival Leme Brito, nem sempre é capaz de entender que o trabalho com a obra literária, previsto nos P.C.Ns, é parte importante do “conteúdo” que julga obrigatório passar para o aluno.
Há de se ter uma parceria com a universidade na formação de professores aproximando todas as áreas do conhecimento, uma vez que nenhuma delas dispensa o ato de ler. Cuidar de metodologias de ação, enraizadas nas necessidades da clientela, providenciar, ainda, o desenvolvimento de prática leitoras diversificadas em cada região escola brasileira.
Este é um pequeno relato de uma leitora apaixonada que objetivou uma docência e observação, mostrando que é possível levar adiante o prazer de ler. O que é possível se entrarmos em contato com o objeto de estudo, nos descobrirmos leitores e socializarmos os resultados alcançados. Conhecendo o caminho, podemos trilhá-lo com nossos alunos, sejam eles da educação infantil ,da graduação ou além dela.

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