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  CAMINHOS E SEMENTES: EXPLORANDO OS ESPAÇOS NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Daniela Batista de Oliveira - CECI-Centro de Convivência Infantil
Luciana Nascimento - CECI-Centro de Convivência Infantil

Esse relato apresenta uma reflexão sobre a experiência vivenciada com crianças de uma creche ,durante o desenvolvimento de um projeto,que reúnem a importância da prática concreta e busca de significados para compreensão do nosso espaço interno e externo,ultrapassando os limites das “cercas”.
Nosso projeto intitulado”Caminhos e Sementes”, teve inicio no final de Julho de 2002,com um grupo de dezesseis crianças com 4 anos de idade,no CECI-UNICAMP.
A programação das atividades e a postura das professoras frente o imprevisto ,segundo Búfalo (1999:120) “para evitar o improviso ,mas sim o imprevisto ”,respeitou o tempo e espaço da criança em Educação Infantil, vista a valorização dos interesses e experiências infantis.
Iniciamos estas atividades a partir do interesse das crianças nas sementes,folhas e frutos e degustação de algumas frutas,fomos coletando e guardando sementes.Foi então que tudo começou...
A principio nosso objetivo era descobrir o sabor das frutas e diferenciar as sementes, paralelo a essas atividades, revelou-se uma forte observação das crianças pelo nosso espaço físico o que possibilitou um novo pensar na reconstrução de nosso espaço interno,como arrumar prateleiras baixas para as crianças,buscarem o brinquedo que queriam,pendurar móbiles confeccionados por eles, desenharem o espaço,fazendo mapas das salas,enfim reorganizando tudo. De acordo também com nossas possibilidades( com as normas estabelecidas pela creche). Nessa ocasião surgiu uma brincadeira proposta pelas crianças de subir e descer rampas,com motocas que foi além de muito divertida, motivo de curiosidade nos desenhos , desenho não é treino ,para se chegar ao mundo adulto, produzidos pelas crianças .

O desenho circular para representar as rampas I. 4 anos e J. G. 4 anos

Assim nosso projeto foram construídos,como um processo de aprendizagem continuo,pois o interesse também pelas sementes e folhas não terminavam por aqui.As crianças traziam de casa algumas sementes ,pediam para guardá-las e na hora da alimentação separavam as sementes e colocam para secar em guardanapos,como semente da laranja ,melancia,limão.Degustamos uma laranja,chamada kicam ,que uma criança trouxe de casa e nos mostrou que era comida com casca.A medida que íamos descobrindo as coisas ficávamos ainda mais curiosos
Fizemos uma experiência com a Cebolinha (plantamos dentro da creche,pois estava muito frio)observamos, anotamos e desenhamos tudo o que acontecia,depois representamos , com massa de modelar e por último fizemos uma salada de tomate com as cebolinhas.

A partir da observação do crescimento das cebolinhas ,
Representamos com massa de modelar

Diante dessas situações de construção coletiva ,passamos a explorar nosso ambiente externo, passeando pelo campos,fazendo passeios simples como:ir à feira,praça da paz,CAS(Creche Área da Saúde),trabalho dos pais,lagoa(próximo ao parque Ecológico).


Descrição do passeio a lagoa:

Subimos o barranco para olhar uma outra lagoa onde fica os patos,mas um Pato começou a correr em nossa direção,as crianças ficaram com medo.

Dialogo entre as crianças:

N: por que ficamos olhando a lagoa?por que aqui tem peixe para fazer uma boa pescaria

L: brincamos de subir e de descer o barranco quem não sabia de pé descia sentado ( o D. rasgou a calça de tanto que se arrastou.

Observando as lagoas as crianças notaram que elas fazem barulho.

D: gostei de cair e tava subindo com a mão

I: eu gostei da lagoa e aquela lagoa fazia barulhinho e gostei do pato e da lagoa eu tenho medo da descido na e o pato nadado no fundo do mar do passeio,da rua,não da calçada do mato

L: eu gostei do pato do lobão eu gostei da lagoa do passeio,posso te falar uma coisa? quando eu mudar lá em Betel ,lá bem lojão ,vou ter uma...só pra mim e pro meu irmão.

I: se nos cai na lagoa nos cai e morre.

J: eu gostei de ver os patinhos e a lagoa que faz barulho ,mais nada.

Nosso projeto que partiu do interesse de observar e coletar as sementes e produzir um livro de receitas passaram a tomar um outro rumo até então desconhecido...com dois objetivos interligados.De um lado a exploração dos espaços externos e internos do outro a diversidade das sementes.Nos passeios a princípio tinham o objetivo de:

- Identificar os seres vivos;
-Classificar as sementes,folhas e frutos;
-Mudança do tempo e do espaço na ação do homem;
-Preservação da natureza;
-Fenômenos da natureza;

Com essa crescente intensificação dos nossos passeios, as crianças começaram a pegar vários objetos do chão além das sementes galhos...e sentimos a necessidade de marcar e registrar nossos caminhos como na história de João e Maria :

História contada por uma criança da sala:

“Tinha uma madrasta má e o pai e eles levaram para um lugar distante daí ele vai jogando pedrinha de pão e os passarinhos comeram tudo e eles acharam uma casinha de doce e pão e a madrasta ficou boazinha para ele trouxe jóia e comida pra ele e o João dava o dedo pra ela a bruxa e a Maria deu comida pra ela e empurrou a bruxa no fogo ela era cega de um olho”

Dialogo entre as crianças no dia seguinte da história da Isadora e passeio.

I: e nos vai nesse mesmo caminho?da história?

F: eu queria ir aí na história

J: eu gosto da bruxa

I: e o hospital?

A: onde meu pai trabalha?

I: pronto socorro

F: é dos doentes

I: e a goiabeira

Professora: como nos vamos chegar até a praça da paz?

F: desce para atravessar a rua e desce e aonde tem monte de árvore

J: eu to vendo flor laranja

A: que legal, posso pegar?

Tivemos a idéia de marcar nossos caminhos com pedrinhas,mas não deu certo pois elas se confundiam com as outras.Indagamos as crianças durante e depois dos passeios ,sobre o que elas viram o que coletavam o que mais gostaram e assim combinamos o que fazer após os passeios para registrá-los , as crianças faziam desenhos ou pintura ,segundo Sapadoni (apud Gobbi, 1999: 140) ,”sobretudo ,a capacidade de observar e escutar sem expectativas para evitar cair na tentação de interpretar com olhos de adultos o universo infantil...”

Conversa após o passeio:

Professora: onde fomos passear?

I: passear?

I: de ônibus

A: Faculdade de Educação

J :depois nos voltamos para a escola

M: A gente contou histórinha

M: livrinho de história

J: cantamos no ônibus

F: nos esperamos aquela lá

J: tive uma outra idéia!vamos pintar?

J: eu gostei da história que o menino tava sentado no cavalo na escada

M: do menino no cavalo,hoje eu vi um cavalo branco no mato comendo mato

M :eu li três histórias

J: eu vi o cavalo e apareceu o tubarão e o periquito voando, voando, voando...

Sem experiência em informática e recursos necessários, de registrar o imprevisto ,recorremos as fotos, escrita dos relatos das crianças e um livro coletivo de registro das crianças, que por sua vez tinha na capa um espelho para interpretação daqueles que o viam que,cada um ,cada criança foi responsável na construção daquele livro e que portanto ao olhar ele refletia sua própria imagem.
Com a descoberta do mundo ao nosso redor ,sentimos a necessidade de um questionário para os pais, a nível somente de conhecimento, sem interferir na realidade da criança, como: Qual o bairro onde moram? se tem lugares públicos com praça de esportes? Se as brincadeiras se limitam só no espaço interno da casa? Se tem plantas ou jardins? A partir da leitura do livro sobre parques infantis, fizemos a seguinte reflexão: Será que esses espaços públicos ou privados, favorece o convívio com árvores ,plantas ,água areia e condições para as crianças realmente serem crianças? E nas creches, esse espaço da educação infantil está sendo respeitado? E como os espaços estão sendo planejados?
Esse projeto da construção do espaço e sua relação na educação infantil, teve uma marca bastante significativa . As propostas de atividades para responder as indagações desse trabalho foi gadadativamente construída com os nossos trajetos e tomado um outro caminho cheio de questionamentos.
Após tentar traçar nossos caminhos com as pedrinhas, partimos para nos localizar com marcas feita pelas crianças com giz de cera, em lugares como: Heliponto; pronto socorro, goiabeira, amoreira, entre outros.
Vimos que não deu certo, mas foi muito importante para as crianças fazerem suas marcas depois partimos para as setas, porém ao retornar do percurso ,vimos que algumas estavam caídas ou foram retiradas. Foi então que a professora ,que fazia parte desse projeto me alertou sobre um lirvro: A procura da dimensão perdida, de Rabitti (1999:144) que mostrava fotos das crianças italianas, colocando setas nas escadas. Do qual me chamou a atenção e iniciei a leitura.
Fomos muitas vezes à Faculdade de Educação, Educação Física e Praça da Paz....Só que desta vez sobre uma nova perspectiva.Com outros olhares. O que nos possibilitou compreender que as crianças embora tendo um parque privilegiado ele oferece movimentos repetitivos, como balança, escorregador, e as crianças, encontraram em nosso projeto condições para manifestarem seus sentimentos e criatividade.
Concluímos que as crianças gostaram mais da Praça da Paz ,porque proporcionou as crianças criar, imaginar, brincar de lobo mau. Embora elas tenham gostado dos outros lugares ,eles tinham algumas limitações dos adultos ,e a Praça da Paz não.
Nossa história foi registrada ,nas falas ,desenhos e na construção tridimensional que durou 5 meses, (de Julho à Novembro) primeiramente com massa de modelar ,depois juntamos todo o material coletado e com areia paus pedras , copinhos plásticos. Foi tomando forma a nossa construção, que chamamos de engenhoca, ”Praça da Paz”
Percebe-se que conseguimos envolver um número bastante grande de pessoas no nosso Projeto ,mesmo na construção da engenhoca , com a participação de crianças de outros grupos de faixa etária diferente, e a importância das interações ocorridas ultrapassando os limites das cercas ,contagiando a todos com a retomada da consciência das intervenções que foram construídas ao longo da construção do espaço e o quanto somos responsáveis para transformá-las.

Construção da Praça da Paz

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BUFALO, J.M.P. O imprevisto previsto. In Revista Pro-Posições n.º 28. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1999.

FARIA, A. L. G. Educação pré - escolar e cultura: para uma pedagogia da educação infantil. Campinas, SP: Editora da unicamp, SP: Cortez, 1999.

GOBBI, M. Lápis vermelho é de mulherzinha. In Revista Pro-Posições n.º 28. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1999.

LOWENFELD, V. A criança e sua arte. SP: Editora Mestre Jou,1977.

RABITTI, G. Á Procura da dimensão perdida: uma escola de infância de Reggio Emília. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999.

 
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