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  A BIBLIOTECA ESCOLAR COMO MEDIADORA PARA FORMAR LEITORES

Ana Arlinda de Oliveira* – UFMT-PPGE-GEPLL**

INTRODUÇÃO

Esta comunicação foi elaborada a partir de pesquisa, em nível de doutorado, na qual abordei questões relacionadas às práticas de leitura no ensino fundamental. Fiz um recorte sobre a leitura na biblioteca escolar, acreditando ter esta um papel relevante na formação da juventude. Estudos e pesquisas apontam a biblioteca escolar como uma instância de mediação no processo de formação de leitores. Sua importância precisa ser evidenciada pelo fato de que a biblioteca escolar tem sido relegada ao segundo plano, no que diz respeito ao acesso à leitura por aqueles que não podem adquirir livros e, conseqüentemente, sofrerem um processo de exclusão do mundo letrado.

OBJETIVOS

- Refletir sobre a importância da biblioteca escolar como mediadora para a formação do leitor.

- Analisar as concepções e práticas que norteiam os usuários da biblioteca escolar.

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

As instituições escolhidas para a realização da pesquisa foram três escolas confessionais de Cuiabá – MT, e teve como centralidade as seguintes questões:

- Que concepções e práticas têm alunos da 4ª. série e bibliotecárias sobre a leitura na biblioteca escolar? Que papel desempenha a biblioteca no contexto das escolas pesquisadas?

Foram entrevistados 36 alunos entre 10 e 11 anos e duas bibliotecárias, pois em uma das escolas não havia esse profissional. Os instrumentos para a coleta de informações foram entrevista gravada, observação do ambiente da biblioteca escolar e acervo.

PRESSUPOSTOS TEÓRICOS

A leitura tem valor social e, é por meio dela que o sujeito adquire conhecimento e enriquecimento cultural. Todo ato pedagógico de natureza formativa e informativa, seja ele executado na biblioteca ou na sala de aula é, em essência um ato político, porque vem sempre carregado de propósitos e interesses por parte de quem o executa.

“A formação do leitor não é produto do acaso: o potencial que todos os seres humanos possuem para ler o mundo e a palavra (ou qualquer outro tipo de signo) não vai se desenvolver na vida da pessoa, caso as condições para a produção de leitura não se fizerem presentes no corpo social” (BARZOTTO, 1999, p. 165).

Leal (2202) propõe que adotar e assumir a concepção de biblioteca como eixo estruturante do currículo escolar é “instituir um novo modo de ensinar e aprender; é estabelecer novas relações com os processos de conhecimento; é considerar a exigência de uma nova concepção de educação” (Leal, 2002, p. 322). Para a autora, a biblioteca deve ser um local privilegiado no currículo.

________

* Professora doutora da Universidade Federal de Mato Grosso, atuando no Programa de Pós-graduação em Educação – Linha de Pesquisa Educação e Linguagem.

** Grupo de Estudos e Pesquisas em Leitura e Letramento.

“A biblioteca não é o lugar onde o aluno vez por outra, tem aula ministrada por alguém que assume o papel de provedor, de auxiliar, transformando o encontro dos alunos com a biblioteca em algo eventual, sem força de envolvimento. Também não é o lugar onde existem livros e onde o aluno poderá refletir sobre seus conhecimentos em busca de enriquecê-los, nem apenas um suporte ou apoio didático ao professor, mas é o espaço de produção, sistematização de saberes e desenvolvimento de competências, de habilidades, de valores e de atitudes, porque deve ser o lugar de trocas de experiência entre sujeitos humanos” (LEAL, 2002, p. 323)

A biblioteca escolar tem sido relegada ao abandono pelas políticas educacionais. Os estudos e pesquisas têm mostrado que poucas escolas apresentam projetos satisfatórios de biblioteca escolar. Na maioria das vezes, a escola arranja uma sala qualquer, coloca algumas estantes, um punhado de livros didáticos, sobra daqueles que o governo manda para os professores, e mais alguns que as editoras enviam em suas campanhas publicitárias na tentativa de cooptar o professor, e assim está instalada a biblioteca. Para o usuário, pode se tornar um espaço do castigo ou para copiar verbetes de enciclopédias, trechos de livro para as “pesquisas” exigidas pelos professores.

Constatei nesta pesquisa, que nas salas de aula existem armários, onde são depositados livros de literatura infantil que os professores colocam à disposição dos alunos para quando terminarem as atividades formais. No entanto, os professores não conhecem, a escola não atualiza o acervo e as crianças estão sempre a ler livros de conteúdo pouco enriquecedor para a vida intelectual em formação e, em péssimo estado de conservação. A leitura literária se torna secundária na proposta pedagógica da escola, e a biblioteca acaba virando um depósito de livros embolorados.

Silva (1995) constata que a biblioteca escolar é um objeto rejeitado pela Educação, o que para a autora se constitui em grande injustiça.

Com relação aos recursos humanos, a biblioteca escolar tem, de acordo com a autora, o “guarda-livros”, que não tem muito a dizer sobre a educação dos jovens. Essa concepção precisa ser revista, pois o bibliotecário é também um educador que necessita,

“Conhecer a fundo os usuários da biblioteca escolar, principalmente, do ponto de vista de suas necessidades informativas, pois precisa estar de acordo com os interesses dos alunos. Pensar numa formação pedagógica que possibilite ao bibliotecário escolar uma tomada de consciência quanto ao caráter educativo de sua ação, portanto, quanto à sua condição de educador” (SILVA, 1995, p. 80).

Dentre as atribuições, como prática educativa, o trabalho do bibliotecário deveria estar articulado com o trabalho pedagógico desenvolvido pelo professor, ou seja conhecer os conteúdos trabalhados por este último para orientar a inserção da biblioteca no ensino-aprendizagem (Silva, 1995, p. 75-6).

Diante do exposto, a biblioteca, tão pouco usada para atividades de leitura se constitui em letra morta, quando deveria ser um andaime fundamental do projeto pedagógico da escola. A biblioteca deveria ser colocada como cérebro do sistema de ensino, como o centro de referencia para o qual recorre o professor e o aluno no intuito de produzir conhecimento (Silva, 1995, p. 2).

Um projeto de Educação que realmente deseja a formação de leitores engajados e conscientes de seu estar no mundo, necessita pensar no acesso aos bens culturais registrados na biblioteca; que dê ao leitor-jovem acesso às práticas pessoais de leitura de livros que marquem para sempre sua história.

RESULTADOS

Os resultados da análise confirmaram que em duas escolas o ambiente da biblioteca é precário, pois as crianças não têm acesso, porque o ambiente está sempre fechado. Não apresenta um acervo de Literatura Infanto-juvenil a contento e, portanto, não oportuniza leitura de diversidade textual. Constatou-se que o acervo é composto, em grande parte, por livros didáticos. Não há profissionais qualificados para o desempenho da função. Apenas uma escola tem biblioteca com excelente espaço, profissional qualificado e bom acervo de livros de literatura para crianças e adolescentes.

As crianças disseram freqüentar muito pouco a biblioteca da escola e, quando a freqüentam, a finalidade é fazer pesquisa a pedido da professora.

“Não. Eu não entro aqui, porque está sempre fechado” (Felipe-EP).

“Às vezes vou, quando tem pesquisa. Eu vou lá tirar xerox e pegar a pesquisa”

(Helder – EA).

“Sempre não. Só quando eu vou pegar um livro para fazer pesquisa”(Cherman – EA).

“Nenhuma. Ela só xeroca assim as coisas... Às vezes, ela fala pra gente: ’Esse livro é

bom, esse não é muito legal” (Ana Lícia – EA).

O “cuidado” com os livros impede que as crianças façam uso freqüente do acervo, por temer que as crianças estraguem os livros. Como resultado a criança assume que a culpada se isso vier a acontecer.

“...ela não gosta que fica assim, pegando livro, porque some... a gente é culpado. (Paula – EP)

Para grande parte das crianças a ida à biblioteca, para ler tem um objetivo utilitário. A leitura prazer não é uma prática da escola.

“A professora, nas vezes que a gente foi, ela pegou um livro, leu... Aí, ela pergunta pra gente o que a gente entendeu do livro” (Érica – EC).

Quando a professora acompanha os alunos a biblioteca, as atividades são programadas por esta, não dando liberdade as crianças de escolherem os livros livremente.

Uma das bibliotecárias faz crítica à biblioteca da escola pela falta de livros de literatura.

“Acho muita carência de livros. Eu acho aqui pobre de livros. Precisa adquirir mais.

As crianças gostam” (Márcia – biblio-EA).

A escola EP não possui bibliotecária, mas uma sala com algumas estantes cheias de livros didáticos, e a chave fica em poder da coordenadora pedagógica, que assume a função de “guarda-livros” da biblioteca. Dessa forma não há como as crianças sequer saberem da existência da biblioteca.

Na EC existe uma situação diferenciada, pois coexistem biblioteca e sala de leitura. De qualquer forma a finalidade maior da biblioteca é subsidiar as pesquisas escolares nas disciplinas do currículo escolar, e para os empréstimos de livros de Literatura Infantil, o que ocorre com mais freqüência que nas demais escolas. Essa escola é a única que tem uma bibliotecária formada, mas que por sua fala demonstra não estar ainda satisfeita, pois acha distante o espaço geográfico entre a biblioteca e as salas de leitura.

“Eu queria fazer uma biblioteca para a criança! Nós temos que ter a sala das crianças, junto com essa daqui, porque senão fica muito fora de mão” (Irmã Odi biblio. – EC).

Tomando como ponto para reflexão, as falas de alunos e bibliotecárias, podemos afirmar que, de modo geral, não existe um trabalho pedagógico na biblioteca com relação à leitura.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ainda não existe, por parte da escola, com relação à biblioteca, a consciência da dimensão política e educativa do trabalho de formação do leitor crítico, o que somente será possível investindo-se em acervo e profissionais competentes. O leitor que não tem acesso a livros, qualquer que seja o motivo, pode encontrar na biblioteca o ambiente propício para a formação do gosto, a partir de sua interação com as pessoas envolvidas em sua formação e os livros que tiver a liberdade de escolher.

BIBLIOGRAFIA

BARZOTTO, Valdir Heitor. Estado de Leitura. São Paulo: Mercado de Letras. 1999.

LEAL, Leiva de Figueiredo V. Biblioteca escolar como eixo estruturador do currículo escolar. In: RÖSING, Tânia. (org.) Leitura e animação cultural. – repensando a escola e a biblioteca. Passo Fundo:UPF, 2002.

SILVA, Ezequiel T. da. Leitura na escola e na biblioteca. 5ª. Ed. São Paulo: Papirus, 1995.

SILVA, Waldeck Carneiro da. Miséria da biblioteca escolar. São Paulo: Cortez, 1995.

RÖSING, Tânia M. K. Leitura e animação cultural – repensando a escola e a biblioteca. Passo Fundo: UPF, 2002.

 
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