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  LETRAS DE CANÇÕES DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA ILUSTRANDO AULA SOBRE FUNÇÃO POÉTICA DA LINGUAGEM: ATIVIDADE APLICADA EM 1ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO

Cibele Oliveira – Colégio Técnico de Campinas (COTUCA/UNICAMP)

A experiência pedagógica em questão foi a elaboração, de parte do professor, de uma proposta de trabalho escolar para alunos de 4 turmas de 1ª série do Ensino Médio do Colégio Técnico de Campinas, levada a cabo no 2º Bimestre letivo de 2005, tematizando o tópico “função poética da linguagem” associada a uma pesquisa junto a letras de canções da música popular brasileira (MPB). O trabalho foi individual e culminou com uma apresentação oral à classe, na qual a orador deveria proceder a uma análise interpretativa da canção no seu aspecto geral, além de destacar determinados trechos da letra da música para comentários mais específicos, ligados ao tema central.

Contextualizando (Por quê?):

Qual o propósito pedagógico que fundamentou a criação desse tipo de trabalho escolar?
A introdução ao estudo sistematizado da literatura aparece como componente curricular da 1ª série do Ensino Médio e prevê o ensino de tópicos como os elementos da comunicação, de onde derivam as chamadas funções da linguagem e o conceito de função poética, este diretamente associado aos textos literários. Ainda surge aí a apresentação dos conceitos de linguagem denotativa e conotativa e o estudo das figuras de linguagem.
A questão é que os exemplos apresentados pelos livros didáticos quase invariavelmente são de textos em verso de autoria de escritores renomados. Ao propor o trabalho de pesquisa junto a um corpus diferenciado, o das letras das canções de MPB, o objetivo era o de mostrar aos alunos que a produção de textos com a citada função não é coisa do passado, limitada aos compêndios literários tradicionais, mas que esses textos do tipo “obra-prima da palavra” estão circulando entre nós desde há muito, bem como ainda estão sendo criados em nossos dias.

Objetivos do professor (Para quê?):

1) Assegurar que o aluno assimilasse melhor o conceito de função poética da linguagem e de texto com qualidade literária. Isto é, garantir que ele tomasse contato direto com textos nos quais o autor chama a atenção para a mensagem e onde as palavras e frases são combinadas de forma artística, não-convencional, rica, explorando-se os recursos sonoros, sintáticos e semânticos, para se alcançar determinados efeitos de sentido especiais;
2) Apresentar ao estudante um exercício que envolveu, ao mesmo tempo, o desafio de: a) executar uma leitura crítica; b) elaborar uma redação (em forma de esquema, apresentado em transparência para a classe) que sintetizasse sua análise, e c) expressar-se oralmente, de forma fluente e adequada à norma culta da língua;
3) Sensibilizar o aluno, diante desse contato com os textos, oferecendo-lhe a oportunidade de leituras altamente enriquecedoras, o que o levaria a tomar maior consciência dos inúmeros recursos que a língua materna nos oferece para a construção de textos primorosos;
4) Aprimorar a percepção do leitor para construções textuais de boa qualidade, ampliando o universo de leitura do estudante, a partir do contato com as letras da MPB;
5) Induzir o estudante a leituras mais atentas e críticas de textos que o rodeiam em seu cotidiano;
6) Outorgar autonomia ao aluno para que ele, fazendo sua pesquisa e lendo vários textos para chegar a uma escolha e à sua análise, se envolvesse mais integralmente e não se limitasse a uma condição passiva no processo de ensino-aprendizagem.

Trajetória/implementação do trabalho (Como?):

Após a leitura e a discussão do conceito fundamental (função poética da linguagem), a partir da teoria e exemplos do livro didático, o professor apresentou, por escrito, a proposta do trabalho escolar. Em seguida, ocupou algumas aulas fazendo simulações de apresentações do trabalho com 3 canções, a fim de que pudessem servir como modelo para os alunos. Também foram citados oralmente, de maneira mais informal, casos de letras de música que não seriam adequadas ao trabalho proposto, tendo em vista seu objetivo central, uma vez que a mensagem dessas canções era expressa de forma denotativa, explícita, sem ocorrência de passagens nas quais a linguagem era trabalhada expressivamente e de forma figurada. Isso foi feito através da execução cantada de trechos de certas canções do tipo sertanejas comerciais e “rap”, inclusive com a contribuição de exemplos fornecidos pelos próprios alunos.
Surgiu, no entanto, uma interessante colocação de alguns alunos quanto à sua dificuldade de acesso a material de pesquisa adequado ao trabalho, pelo fato de que eles não eram ouvintes da MPB e de que o veículo de pesquisa a que estavam habituados, a Internet, dificultava encontrar letras de música, na medida em que eles desconheciam nomes de canções e de compositores e intérpretes desse gênero musical. Diante do exposto, o professor organizou uma pesquisa em sala de aula, feita pelos alunos, em torno de inúmeras letras de música, a partir de 150 encartes de CDs de MPB pertencentes ao acervo musical pessoal do professor, que foram levados à classe. Assim, muitos alunos puderam fazer suas escolhas para o trabalho ou, ao menos, puderam ler textos novos e conhecer melhor o amplo universo da Música Popular Brasileira.
Quanto ao momento da Apresentação Oral individual, todos os alunos da classe receberam Fichas de Avaliação, que iam de zero a 10, a fim de acompanhar atentamente os Seminários e de avaliá-los segundo critérios previamente discutidos. Inclusive, o próprio seminarista se auto-avaliava.

Critérios de avaliação do trabalho escolar:

1) Qualidade da escolha do texto, levando em conta o objetivo central do trabalho
2) Interpretação geral do texto e das partes selecionadas por ele para comentários analíticos
3) Qualidade do esquema de interpretação redigido por ele
4) Comunicação oral didática, fluente, organizada
5) Comunicação oral adequada à norma culta da língua

Canções analisadas pelos alunos:

Chamou a tenção a variedade de tipos de texto escolhidos pelos alunos, devido à liberdade que tiveram e ao conceito amplo de MPB do qual se partiu, o que levou a escolhas de letras tanto de canções clássicas da MPB tradicional (Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Ivan Lins, Milton Nascimento, Vinicius de Moraes, João Bosco) como de canções de compositores de uma geração mais atual (Lenine, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Ana Carolina, Itamar Assumpção e Gabriel, o pensador), além de canções de compositores “pop”, como Cazuza, e bandas “pop”, como Titãs, Skank, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, , Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, etc, passando por outro tipo de clássicos, como Raul Seixas e “Os Mutantes”.
Tal resultado foi considerado muito positivo, na medida em que revelou que o trabalho escolar serviu como pretexto para colocar os alunos em contato com textos de variados estilos, além do fato de que essa experiência acalentou a expectativa principal do professor de que esse contato permitiu uma leitura cuidadosa, atenta dos textos que, potencialmente, trazem exemplos de uso poético da linguagem.

Canções analisadas pelo professor:

1. Guardanapos de papel (Leo Masliah; Versão: Carlos Sandroni) (CD Tambores de Minas, de Milton Nascimento, WEA Music, 1998)
2. Comida (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Sérgio Britto) (Grupo Titãs)
3. Samba e amor (Chico Buarque)

A escolha desses textos pelo professor não foi aleatória. A primeira canção foi escolhida pelo fato de ser pouco conhecida do público e pela abordagem direta do tema do fazer poético (assunto em pauta na sala de aula por ocasião da apresentação da proposta do Trabalho Escolar e que, inclusive, o subsidiou). Tal canção é metalingüística em amplo sentido, pois, ao descrever o poeta e falar de seu papel social, o faz poeticamente. A segunda canção foi escolhida pela familiaridade do público discente adolescente com as canções das chamadas bandas de música “pop”, da qual faz parte o grupo “Titãs”; era intenção explícita do professor mostrar que a função poética está presente em canções conhecidas, ouvidas e cantadas pelos jovens. A escolha da terceira canção pretendia justificar a consagração, no cenário dos clássicos compositores da MPB, de autores como Chico Buarque de Holanda, por possuírem, de fato, excelência na tarefa de lidar com a linguagem de forma poética.

Amostragem dos resultados do Trabalho Escolar (Canções analisadas pelos alunos):

A amostragem selecionada para ilustrar os resultados dessa proposta de trabalho escolar, que partia de um total de mais ou menos 140 canções (tendo em vista que, nas 4 turmas que continham, cada uma, entre 30 e 40 alunos, houve casos em que uma mesma letra de música foi escolhida e analisada por diferentes seminaristas) foi de 5 letras de música.
O critério de escolha dessa amostragem não foi o de selecionar as melhores análises, de acordo com o objetivo central do Trabalho Escolar. O professor pretendeu, isso sim expor a variedade na qualidade e no tipo de análise da letra de música feita pelo aluno.
Quanto à variedade na qualidade das análises, surgiram análises interpretativas de nível insatisfatório, regular, bom e muito bom. Quanto à variedade no tipo de análises, observou-se os seguintes resultados: 1) ocorrência da escolha de uma letra rica do ponto de vista do trabalho com a linguagem, mas que recebeu uma análise interpretativa superficial demais e, às vezes, fraca (partes importantes do texto - pelo flagrante da linguagem sendo usada em sua função poética - que sequer foram comentadas, além de falhas ou inadequações propriamente ditas na interpretação de certos trechos); 2) independente da qualidade do texto selecionado, surgiram casos em que alguns alunos procederam a uma análise interpretativa limitada apenas ao aspecto geral da canção, sem fazer recortes de determinadas passagens conotativas da letra para interpretação; 3) diferentemente do caso anterior, houve alunos que focalizaram seu trabalho na análise interpretativa de certas partes do texto, de uma forma um tanto estanque, com pouca integração entre partes e todo da canção; assim, a análise geral do texto foi prejudicada, ficando superficial, breve; 4) surgiram análises interpretativas que alcançaram a integração entre a interpretação de trechos do texto e a geral; e 5) ocorreram casos em que a análise da letra de música feita pelo aluno foi estritamente tecnicista, no sentido de ater-se tão somente à identificação ou reconhecimento, na letra da música, de certas figuras de linguagem estudadas em sala de aula.

DADOS RELATIVOS À EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA AQUI PARESENTADA

I. CANÇÕES SELECIONADAS PELO PROFESSOR, ANALISADAS COMO MODELO

CANÇÃO Nº 1:
GUARDANAPOS DE PAPEL

Na minha cidade tem poetas, poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas, trombetas
E sempre aparecem quando menos aguardados
Guardados, guardados entre livros e sapatos em baús empoeirados

Saem de recônditos lugares, lugares, lugares, onde vivem com seus pares, seus pares, seus pares
E convivem com fantasmas, multicores, ,de cores, de cores
que te pintam as olheiras e te pedem que não chores

Suas ilusões são repartidas, partidas, partidas entre mortos e feridas, feridas, feridas
Mas resistem com palavras confundidas, fundidas, fundidas ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas

Não desejam glórias nem medalhas, medalhas, medalhas
Se contentam com migalhas, migalhas, migalhas de canções e brincadeiras
Com seus versos dispersos, dispersos, obcecados pela busca de tesouros submersos
Fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos que jamais são alcançados, cansados, cansados
Nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem, escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem

Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas e outras e outras cujo brilho sem barulho veste suas caudas tortas
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas esvaindo-se em milhares, milhares, milhares de palavras
Retorcendo-se confusas, confusas, confusas em delgados guardanapos feito moscas inconclusas

Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
O que eles vêem nos vão dizendo, dizendo e sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram, não se cansam de falar do que eles juram que não viram
Olham para o céu esses poetas, ,poetas, poetas como se fossem lunetas, lunetas lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro, inteiro, inteiro
Fossem vendo pra depois voltar pro Rio de Janeiro

ESQUEMA INTERPRETATIVO DA CANÇÃO “GUARDANAPOS DE PAPEL”

Mensagem geral do texto:

O texto propõe-se a definir o que é ser poeta e a descrever qual seu papel social e sua importância. Os poetas são mostrados como seres extremamente sensíveis, humildes, além de idealistas e sábios. Quanto à sua função na sociedade, o texto destaca a importância dos poetas como provocadores de uma percepção de mundo mais crítica.

Destaque para passagens poéticas:

[Poetas] “ que chegam semt ambores nem trombetas”
Poetas anônimos, discretos, que não fazem alarde. Ou também espécies de anjos (“trombetas”) que nos protegem da alienação.

“Convivem com fantasmas multicores, de cores que te pintam as olheiras e te pedem que não chores”
Poetas que se debruçam sobre questões existenciais, que refletem sobre a vida de forma mais abstrata, e se desgastam com isso, não conseguindo ser diferentes. Mas, ao mesmo tempo, eles carregam, no fundo, um forte otimismo.

“Ilusões repartidas, partidas entre mortos e feridas, mas resistem com palavras fundidas com seu triste passo lento pelas ruas e avenidas”
Os poetas podem ser considerados verdadeiros guerreiros, resistentes ao sistema massacrante. Têm como “armas” as palavras e aguardam com paciência o efeito delas sobre o ouvinte/leitor.

“Se contentam com migalhas de canções e brincadeiras com seus versos dispersos, obcecados pela busca de tesouros submersos”
Não há desejo de fama e reconhecimento glorioso. O objetivo do poeta é revelar aos leitores mais sensíveis grandes verdades, a partir de seus versos.

“Fazem quatrocentos mil projetos que jamais são alcançados, cansados. Nada disso importa enquanto eles escrevem”
Os poetas são idealistas e convictos. Não abrem mão de sua atuação social através da literatura.

“Escrevem o que sabem que não sabem e o que dizem que não devem”
Os poetas escrevem sobre incertezas humanas também e, muitas vezes, ousam dizer o que poucos têm coragem.

“Como se fossem cometas num estranho céu de estrelas idiotas”
Eles são uma fonte de inteligência e sensibilidade brilhando em meio a um contexto medíocre.

“Sendo eles poetas de verdade, enquanto espiam e piram (...) olham para o céu como se fossem lunetas lunáticas lançadas ao espaço e ao mundo inteiro”
Muitos poetas são vistos como loucos (é preciso relativizar o conceito de loucura; ela pode revelar, na verdade, a mais refinada lucidez)

CANÇÃO Nº 2: COMIDA

REFRÃO: Bebida é água.
Comida é pasto.
Você tem sede de quê?
Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida, A gente não quer só comer,
A gente quer comida, diversão e arte. A gente quer comer e quer fazer amor.
A gente não quer só comida, A gente não quer só comer,
A gente quer saída para qualquer parte. A gente quer prazer pra aliviar a dor.
A gente não quer só comida, A gente não quer só dinheiro,
A gente quer bebida, diversão, balé A gente quer dinheiro e felicidade.
A gente não quer só comida, A gente não quer só dinheiro,
Agente quer a vida como a vida quer A gente quer inteiro e não pela metade.


ESQUEMA INTERPRETATIVO DA CANÇÃO “COMIDA”

REFRÃO: “Bebida é água / Comida é pasto / Você tem se de quê? / Você tem fome de quê?”

Tomado isoladamente, tem sentido enigmático, a princípio. Seu sentido está fortemente associado ao entendimento da mensagem das estrofes. Estas chamam a atenção para determinadas necessidades humanas e o recurso estilístico que dá maior expressividade ao tema é o uso da anáfora de “A gente não quer só...” e “A gente quer...”). Destaque para a diferença entre desejo e necessidade (esta mais urgente e apelativa). Os autores se tornam porta-vozes do povo, apropriam-se do discurso do homem, mas de um homem não alienado, de um homem crítico, consciente de seus direitos.

Destaques para passagens poéticas:

“A gente não quer só comida / A gente quer saída para qualquer parte”
Parece que A palavra “saída” representa aqui solução para os vários problemas enfrentados pelo homem (desemprego, desilusão, falta de segurança, etc)

“ A gente não quer só comida / A gente quer a vida como a vida quer”
Quando se reivindica a vida, está se trabalhando com um conceito de vida plena e digna (já citado anteriormente), na qual as expectativas de paz e felicidade sejam satisfeitas, na qual a alma do ser humano se sinta equilibrada. A vida, ela mesma, que é viva, quer que as pessoas usufruam da vida nesse sentido de plenitude.

“A gente não quer só comer / A gente quer comer e quer fazer amor”
Há uma brincadeira lingüística e semântica envolvendo a palavra “comer”, que, na gíria ou coloquialidade, significa transar, manter relações sexuais. Mas “comer” como sinônimo de transar aborda a relação sexual de modo mais carnal e menos sentimental ou amorosa. Daí o acréscimo do “fazer amor”, expressão relacionada ao ato sexual, mas que lhe imprime um sentido de fazer sexo num contexto de afetividade e cumplicidade com o parceiro. Este “fazer amor” vai ao encontro da necessidade emocional, interior do ser humano.

“A gente não quer só dinheiro / A gente quer dinheiro e felicidade”
Referência indireta ao ditado popular “Dinheiro traz felicidade”. Mas essa referência traz junto uma idéia implícita: se o homem pleiteia os dois elementos, numa expressão que denota o acréscimo da felicidade ao dinheiro, então, isso pode querer dizer que o dinheiro por si só não é garantia de felicidade. Vê-se aí uma negação do ditado popular e uma colocação crítica dos compositores que podem estar pretendendo alertar o ouvinte/leitor de que existem pessoas ricas infelizes (preocupadas demais com a violência de que podem ser alvo; entendiadas; desiludidas ou cansadas de uma vida de aparência; desgastadas por causa da forte competitividade capitalista e com a árdua e contínua luta pela ascensão financeira e social ou a manutenção de seu status, etc)
Mensagem geral do texto:

NECESSIDADES NECESSIDADES
MATERIAIS ? HOMEM ? ESPIRITUAIS
EMOCIONAIS
Há um contraponto entre, de um lado, necessidades de natureza material, fisiológica, como dinheiro, bebida/beber e comida/comer, e, de outro lado, necessidades emocionais, como solução para os problemas, lazer, prazer e felicidade.

Relacionando as estrofes ao Refrão, percebemos que os autores da canção fazem um protesto diante do fato de que o homem, em especial o trabalhador brasileiro (salário mínimo e cesta básica) está sendo contemplado apenas (e ainda de forma falha) nas suas necessidades básicas, materiais e fisiológicas.

SOBREVIVER X VIVER / HOMEM = ANIMAL IRRACIONAL

Portanto, o homem sobrevive, mas não vive. A água e o pasto fazem referência àquilo que mantém a sobrevida do homem (e este está sendo reduzido à condição de animal irracional, limitado ao trabalho pesado e à recompensa do “pasto”, da comida da cesta básica). Já a vida, em seu sentido pleno, precisa contar com os ingredientes que aliviam sua alma e suas expectativas e necessidades humanas, emocionais. Isso nos permite interpretar o título da canção: o texto fala da “comida para o corpo” e da “comida para a alma”, reivindicando a necessidade de que o homem seja contemplado com ambas.

As perguntas do refrão “Você tem sede de quê?” e “Você tem fome de quê?” denotam ironia. Se o homem tem o que comer e o que beber, teria mais algo a reclamar? Sim! Daí os versos que fecham a canção “A gente quer inteiro e não pela metade”. O homem quer dignidade e vida plena, com amor, prazer, lazer, soluções e felicidade, ou seja, a vida por inteiro, mas grande parte da população não está recebendo isso.

CANÇÃO Nº 3: SAMBA E AMOR

Eu faço samba e amor até mais tarde / e tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade, que arde / e apressa o dia de amanhã

De madrugada a gente ainda se ama / e a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama / reclama do nosso eterno espreguiçar

No colo da bem-vinda companheira / no corpo do bendito violão
Eu faço samba e amor a noite inteira / não tenho a quem prestar satisfação

Eu faço samba e amor até mais tarde / e tenho muito mais o que fazer
Escuto a correria da cidade, que alarde / será que é tão difícil amanhecer?

Não sei se preguiçoso ou se covarde / debaixo do meu cobertor de lã
Eu faço samba e amor até mais tarde / e tenho muito sono de manhã

ESQUEMA INTERPRETATIVO DA CANÇÃO “SAMBA E AMOR”

Mensagem geral do texto:

Mundo real, apressado, tenso, Mundo paralelo dos amantes
Industrial, materialista, capitalista, X Prioridade para o prazer e para
Frio, insensível a preguiça

O eu-lirico é masculino e declara-se um sensível amante e compositor/cantor. Para ele, compor suas canções e executá-las, e fazer amor com a amada são seus maiores prazeres. E ele se entrega totalmente a esses seus deleites sem culpa.
Destaques para passagens poéticas:

“De madrugada, a gente ainda se ama / E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama, / Reclama do nosso eterno espreguiçar”
“Fábrica” e “trânsito” são ícones do ambiente urbano, ignorado pelos dois amantes. O mundo real lá de fora parece ter inveja da entrega dos amantes a uma vida de prazeres.

“Eu faço samba e amor até mais tarde / E tenho muito mais o que fazer”
O eu-lírico opta por abandonar seus compromissos, deixa as obrigações de lado para ser feliz e viver seus amores com intensidade. Ele dispõe-se a pagar o preço dessa escolha, ficando com “muito sono de manhã”.
Refugia-se em lugares mais confortáveis, aconchegantes, como “o cobertor de lã”, “o colo da companheira” e o “corpo do bendito violão”
Note-se a equiparação entre o colo da mulher amada e o corpo do violão, ambos supervalorizados e até idealizados através dos adjetivos “bem-vinda” e “bendito”. Há inclusive uma referência indireta ao fato de o violão ter um corpo comparável ao da mulher: delineado e sensual, provocador de sensações prazerosas.

II. AMOSTRAGEM DE CANÇÕES ANALISADAS PELOS ALUNOS:

Em seguida, apresentamos a Amostragem de Letras de Música e suas respectivas análises feitas pelos alunos seminaristas, com base nos 5 casos mencionados anteriormente que revelam a variedade no tipo e no qualidade das análises interpretativas das canções.
Obs.: Transcreveu-se literalmente as transparências apresentadas pelos alunos em sua exposição oral. Não fizemos nenhum tipo de correção gramatical ou reescrita do texto de autoria do estudante.

CANÇÃO Nº 1: CASO EM QUE A LETRA ESCOLHIDA FOI INTERESSANTE, ADEQUADA AO OBJETIVO DO TRABALHO, MAS QUE RECEBEU UMA ANÁLISE MUITO SUPERFICIAL

OÁSIS (Joyce & Lea Freire)

Pra quem passa é paisagem / nada a acrescentar
Mas pra quem vem de viagem / é porto de chegar
Pra quem olha é uma parede, construção vulgar
Mas pra quem lá põe sua rede chama de “meu lar”
Pra quem não conhece os segredos do meu bem
Pode parecer estranho o jeito que ele tem
Se ele é muito louco, seja como for, muito é muito pouco para explicar o nosso amor

Pra quem olha desatento / é rio a correr
Mas pra quem chegou sedento / é água de beber
Pra quem passa é uma miragem / feita pra enganar
Mas quem entra na estalagem / fica pro jantar
Pra quem não conhece os segredos do meu bem
Pode parecer estranho o jeito que ele tem
Dizem que é loucura, que é pura ilusão
Mas quem vem de selva escura jura que é paixão

ANÁLISE FEITA PELO ALUNO:

Oásis (= entre uma imensidão de areia) ? Pessoa amada (= entre muitas pessoas)

Ambos estranhos à vista, parecem ser coisas estranhas, talvez arriscadas
Ambos representam o desconhecido, mas, que quando é descoberto, gera fortuna
Pra quem ? É insignificante ? Mas quem ? aproveita o que ele
Passa/não conhece conhece/entra tem para oferecer
Essa estrutura mostra as comparações que o eu-lírico faz com seu amado, mostrando que o que ele parece ser não é o que ele realmente é.

CANÇÃO Nº 2: CASO EM QUE O ALUNO IGNOROU A ANÁLISE DAS PARTES E LIMITOU-SE AO ASPECTO GERAL DA LETRA DA MÚSICA, NÃO ATENDENDO TOTALMENTE AO OBJETIVO DO TRABALHO

RELAMPIANDO (Lenine & Paulinho Moska)

REFRÃO: (Bis) Tá relampiando, cadê neném?
Tá vendendo drops no sinal pra alguém

Todo dia é dia, toda hora é hora / Neném não demora pra se levantar
Mãe lavando roupa, pai já foi embora / E o caçula chora pra se acostumar
Com a vida lá de fora do barraco / Ai que endurecer um coração tão fraco
Para vencer o medo do trovão / Sua vida aponta a contramão

Tudo é normal, tal e qual / Neném não tem hora para ir se deitar
Mãe passando roupa do pai de agora / de um outro caçula que ainda vai chegar
É mais uma boca dentro do barraco / mais um quilo de farinha do mesmo saco
Para alimentar um novo João Ninguém / E a cidade cresce junto com neném

ANÁLISE FEITA PELO ALUNO:

O texto faz uma crítica expressiva ao trabalho infantil, esse mesmo que não é feito por espontânea vontade, e sim por necessidade e também obrigado pelos seus responsáveis.

Fatores que contribuem para essa situação: desigualdade social no país; falta de uma educação pública de qualidade; desemprego; “companhias” para o crime; falta de controle da natalidade; crescimento da violência; proximidade que o jovem da favela tem para se envolver com o crime.

CONCLUSÃO: Enquanto não houver um interesse maior do governo na educação pública, mais esse quadro irá se agravar. Hoje, por exemplo, os principais problemas do Brasil estão ligados a falta de alfabetização, o crime organizado, o trafico de drogas, o contrabando, a falta de interesse do brasileiro sobre a política, falta de alimentação para os carentes... Com isso, a solução está em nossas mãos, para que em cada eleição devemos pensar bem em quem deveremos colocar no poder de nosso país, e tentar reverter essa situação!


CANÇÃO Nº 3: CASO EM QUE A ANÁLISE CONCENTROU-SE NO COMENTÁRIO ISOLADO DAS PARTES DA CANÇÃO, NÃO ATENDENDO TOTALMENTE AO OBJETIVO DO TRABALHO

UM MAIS UM (SamueL Rosa & Rodrigo F. leão) (Grupo Skank)

Éramos nós / Éramos nós / Um mais um / Éramos mais / que só dois
Éramos um / feito de dois / mais que nós dois / Nunca então sós

REFRÃO: Eu era eu / quando era nela / Ela em mim / como ela era

Soma sem subtração / Múltiplos sem divisão / Dois que se amavam então / Éramos multidão
E na matemática torta / da vida aqui sem ela / Dois menos um é zero / Eu não sou nada do que eu era

ANÁLISE FEITA PELO ALUNO:

Representações da VIDA na MATEMÁTICA:

“Éramos nós / um mais um”: “Nós” =Ele + Ela (VIDA) ? “Nós = Um + um (MATEMÁTICA)
“Éramos nós / um mais um / Éramos mais eu só dois”. Aqui temos uma provocação à razão. Afinal, se NÓS = 1 + 1 e 1 + 1 = 2, como Nós ? 2 ?
“Éramos um” = Metáfora
“Éramos um feito de dois”: UM = casal, unidade; DOIS = Ele e Ela
“Eu era eu quando era nela / ela em mim como ela era”: Ele só vivia realmente bem quando com Ela e Ela só vivia realmente bem quando com Ele. Neste mesmo trecho, REPETIÇÃO DE SONS (“era”, “nela, “ela”).
“Soma sem subtração / múltiplos sem divisão” ? Não existem!
“Dois menos um é zero / eu não sou nada do que eu era”:
Matematicamente: 2 – 1 = 1 logo Casal sem Ela = Ele
Sentimentalmente: Casal sem Ela = nada logo 2 – 1 = 0 (Ele sem Ela não é nada)


CANÇÃO Nº 4: CASO EM QUE O ALUNO CONSEGUIU UMA INTEGRAÇÃO ENTRE A INTERPRETAÇÃO DAS PARTES DA CANÇÃO E O SEU TODO

VOU TIRAR VOCÊ DO DICIONÁRIO (Itamar Assumpção & Alice Ruiz)

Eu vou tirar do dicionário a palavra você, vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário e no seu lugar, vou colocar outro absurdo
Eu vou tirar suas impressões digitais da minha pele
Tirar seu cheiro dos meus lençóis, o seu rosto do meu gosto

REFRÃO:
Eu vou tirar você de letra nem que tenha que inventar outra gramática
Eu vou tirar você de mim, ,assim que descobrir com quantos “nãos” se faz um sim

Eu vou tirar o sentimento do meu pensamento, sua imagem e semelhança
Vou parar o movimento a qualquer momento e procurar outra lembrança
Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz dos meus ouvidos
Eu vou tirar você e eu de nós, o dito pelo não tido
“Tudo o que você disser deve fazer bem, nada que você comer deve fazer mal”
“Eu quero as mulheres que dizem sim e quem não tem vergonha de ser assim”

ANÁLISE FEITA PELO ALUNO:

Mensagem geral do texto:

O eu-lírico do texto sofreu uma grande decepção amorosa e faz a si mesmo uma proposta de esquecer esse grande amor. Faz promessas, determina metas para alcançar o seu objetivo, e, pelo modo como as expressa, percebemos forte ressentimento. Ele está ciente de que a tarefa de “apagar” as marcas do amor frustrado não é fácil, mas ele está determinado. Levando em conta em especial o último verso da canção, que é citação de outro texto, podemos levantar a hipótese de que esse eu-lírico é uma mulher.

Comentários de partes da canção que trazem passagens poéticas:

Dois primeiros versos da primeira estrofe:
Tanto a Língua (lembrada no texto pelas palavras “dicionário”, “vocabulário”, “gramática” e “letra”) como o relacionamento amoroso vivido pelo eu-lírico são complexos. Quando um idioma é internalizado pelo sujeito, fica difícil esquecê-lo. Assim também será com aquele amor que trouxe forte desilusão.
Na verdade, não é a palavra “você” que será descartada, mas as lembranças todas ligadas a esta palavra, porque este “você” equivale a uma imagem de uma certa pessoa que o fez sofrer. Falar “você” ou pensar esse “você” é trazer à memória uma coisa ruim, que entristece e ao mesmo tempo enraivece o eu-lírico.

Terceiro e quarto versos da primeira estrofe:
O eu-lírico fala da intimidade da relação amorosa e propõe-se a esquecer as marcas do outro, do ex-amante, marcas que têm a ver com os sentidos da visão, do olfato e do tato (rosto do outro que caiu no gosto desse eu que agora sofre, cheiro e impressões digitais do outro que ficaram na pele).
Refrão:
“Tirar de letra” é expressão da língua que significa resolver algo, transpor dificuldade. A palavra “letra” faz um jogo com “gramática”. “Nem que tenha que inventar outra gramática” é tarefa difícil, é reformular uma sólida estrutura. Aqui tem a ver com o imenso esforço que o eu-lírico fará para esquecer o antigo amor.
“Com quantos ´nãos` se faz um sim” é uma brincadeira com o provérbio “Vou mostrar com quantos paus se faz uma canoa”, usada em situações em que alguém se propõe a resolver algum desafio para demonstrar sua coragem e capacidade. Neste caso, podemos imaginar que o “sim” significa o esquecimento do amado e os “nãos” significam as características negativas do amado que causaram decepção no eu-lírico.

Primeiro e segundo versos da segunda estrofe:
“Tirar o sentimento do meu pensamento” revela a oposição, o conflito entre RAZÃO e EMOÇÃO vivido por quem ainda ama, mas precisa esquecer esse amor. “Procurar outra lembrança” é substituir as imagens registradas tanto na razão como na emoção do eu-lírico. Só assim ele chegará ao seu objetivo.

Terceiro verso da segunda estrofe:
“... limar de vez sua voz dos meus ouvidos” é uma imagem forte pelo uso do verbo “limar” (agressivo). Volta-se aos sentidos (agora falando da audição). Interessante aqui o uso da aliteração da consoante “v” justo quando se fala de audição.

Quarto verso da segunda estrofe:
“Eu vou tirar você e eu de nós”. Na gramática o “nós” é a soma de um eu mais alguém. Se o “você” vai sair, o “nós” vai se renovar.
Quinto verso da segunda estrofe:
“... o dito pelo não tido” sugere que o relacionamento amoroso teve muitas palavras de promessa de felicidade desse outro, mas poucas ações para isso se concretizar.

Último verso da letra:
“Eu quero as mulheres que dizem sim”. Aqui há uma relação com o sim anteriormente citado. Mulheres que dizem sim seriam aquelas capazes de esquecer um amor que as feriu, pois elas têm orgulho próprio e personalidade, e também que não “jogam palavras ao vento”, mas que agem para que o romance seja feliz.

CANÇÃO Nº 5: CASO EM QUE A ANÁLISE DO ALUNO FOI INSATISFATÓRIA PORQUE ELE SE PREOCUPOU PREDOMINATEMENTE EM IDENTIFICAR FIGURAS DE LINGUAGEM NO TEXTO

PODRES PODERES (Caetano Veloso)

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos e perdem os verdes. Somos uns boçais.
Queria querer gritar setecentas mil vezes como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses. Mas tudo é muito mais .

Será que nunca faremos senão confirmar a incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica terá que soar, terá que se ouvir por mais zil anos?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres e adolescentes fazem o carnaval
Queria cantar afinado com eles, ,silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente, mas tudo é muito mau.
Ou então cada paisano e cada capataz com sua burrice fará jorrar sangue demais
Nos pantanais, nas cidades, caatingas e nos Gerais?
Será que apenas os hermetismos pascoais, os tons, os mil tons, seus sons e seus dons geniais
Nos salvam, nos salvarão dessas trevas e nada mais?

Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede são tantas vezes gestos naturais
Eu quero aproximar o meu cantar vagabundo daqueles que zelam pela alegria do mundo
Indo mais fundo. Tins e bens e tais

ANÁLISE FEITA PELO ALUNO:

Título: “Podres poderes” = METÁFORA
1ª estrofe:
A podridão dos políticos se reflete na sociedade
METONÍMIA: “Motos e fuscas”
“Somos uns boçais” ? estupidez

2ª estrofe:
Pensar assim como penas o restante da sociedade
HIPÉRBOLE: “gritar setecentas mil vezes’

3ª estrofe:
“América católica” (América do Sul) ? OPOSIÇÃO ? América protestante (América do Norte = EUA)
“ridículos tiranos” ? Estados Unidos
“incompetência” ? Importação de valores e cultura e submissão financeira (FMI, etc)

4ª estrofe:
Questionamento ? Afirma sua persistência diante do caos
Referência a Chico Buarque: “Será que será que será que será”

5ª estrofe:
METONÍMIA: “Índios e padres e bichas e mulheres e adolescentes fazem o carnaval” ? Sociedade
POLISSÍNDETO: “Índios e padres e bichas e mulheres e adolescentes”
Constatação da alienação total da sociedade brasileira

CONSIDERAÇÃO FINAL

Pudemos observar que, das 5 canções da Amostragem acima e respectivas análises feitas pelos alunos, apenas a análise da Canção nº 4 atendeu ao objetivo do trabalho escolar, que era o de proceder a uma interpretação geral do texto, associada ao recorte de passagens em que se flagrava a linguagem em sua função poética.

 
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