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  PLANEJAMENTO DIDÁTICO A PARTIR DAS REPRESENTAÇÕES QUE OS ESTUDANTES TÊM SOBRE A LEITURA DO TEXTO LITERÁRIO

Giovana Flávia de Oliveira - Universidade de Taubaté – UNITAU

Muito se tem questionado sobre o desinteresse de jovens da faixa etária entre onze e dezesseis anos por livros de literatura infanto-juvenil. Este trabalho parte da visão de um grupo de adolescentes sobre leitura. Desta forma, buscou-se, através de um questionário aplicado em 127 alunos de escolas públicas de periferia dos municípios de Caraguatatuba e São Sebastião, conhecer a idéia que esses adolescentes têm de leitura e a possível influência da escola na formação desses leitores. A partir dos resultados, foram elaboradas intervenções dirigidas a seus centros de interesse visando sempre à formação do leitor autônomo.

Introdução

O trabalho com leitura em sala de aula é um desafio constante para professores de diversas áreas. Muito se tem pesquisado sobre o assunto: Bordini e Aguiar (1993), Bamberger (2001), Zilberman (1998), Brandão e Micheletti (1998), Coelho (2000), Lajolo (2001) e Faria (2004), entre outros, muito contribuíram para o desenvolvimento de pesquisas sobre a importância do ensino e aprendizagem da leitura nas escolas.
De um lado do problema, testes apontam para a péssima condição de interpretação de textos dos estudantes brasileiros, alunos afirmam que não gostam de ler, a mídia ataca com uma imagem negativa de leitores, o preço dos livros é muito alto. Por outro lado, pesquisas apontam para a importância da leitura na formação do indivíduo crítico, campanhas governamentais buscam o desenvolvimento do gosto pela leitura, professores são cobrados para desenvolverem em seus alunos a habilidade de leitura.
As escolas recebem, anualmente, centenas de títulos de obras literárias que, muitas vezes, ficam amontoados nos cantos das escolas com a justificativa de que os alunos não gostam de ler. Quando usados, limita-se o trabalho à leitura dos livros para posterior avaliação do professor, feita por meio de provas, resumos ou exposições orais. Pouco se faz para o desenvolvimento efetivo do gosto pela leitura.
Neste contexto, os objetivos deste trabalho são analisar qual a opinião de adolescentes de classe baixa de bairros de periferia dos municípios de Caraguatatuba e São Sebastião sobre leitura e propor sugestões de intervenção no percurso de formação do leitor visando ao desenvolvimento do gosto pela leitura.

Metodologia

Foram aplicados questionários a 127 alunos dos 3º e 4º ciclos do ensino fundamental (5ª a 8ª séries) de duas escolas de periferia: uma estadual, em Caraguatatuba; e uma municipal, em São Sebastião.
Os questionários buscavam caracterizar os alunos de duas formas: primeira (questões de 1 a 5), quanto à identificação do aluno e opinião sobre leitura – idade, sexo, número de livros lidos em média por ano, se gosta de ler - seguida da justificativa para a resposta escolhida -, e atividades preferidas; segunda (questões de 6 a 10), quanto aos gostos específicos de leitura – tipos de leitura que gosta de realizar, o que chama a atenção em um livro, livros que gostariam que a escola indicasse, nome do último livro lido, e nome da história favorita.

Análise do corpus

a) Identificação do aluno e opinião sobre leitura

Dos 127 alunos pesquisados, 26% tinham 11 anos; 16%, 12 anos; 20%, 13 anos; 35%, 14 anos e 3% tinham 15 anos. Destes, 54% eram do sexo masculino e 46% do sexo feminino.
Questionados quanto ao número de livros lidos durante o ano de 2004, 10% dos alunos responderam que não tinham lido nenhum livro; 25% afirmam ter lido um ou dois livros; 29% dos alunos afirmam ter lido três ou quatro livros; e 36% dos alunos afirmam que realizaram a leitura de 5 ou mais livros.
Quando questionados se gostam de ler, 14% dos alunos responderam que sim, muito; 25% dos alunos responderam apenas que sim; 59% dos alunos responderam que às vezes; e 2% dos alunos responderam que não.
Quanto à justificativa para a pergunta “Você gosta de ler?”, as respostas foram abertas e 28% dos alunos justificaram o gosto (ou não) pela leitura devido a um interesse pessoal; 12% disseram que o interesse pela leitura se dava porque ler faz bem e distrai; 17% disseram que gostam de ler dependendo do assunto, se é interessante, legal; 5% justificaram que lêem porque ler auxilia na aprendizagem e na interpretação; 7% dizem que gostam de ler quando têm tempo; 9% afirmam não possuírem muito gosto pela leitura porque não entendem o que lêem; 4% afirmam que têm preguiça de ler, pois os livros têm muitas páginas; 3% disseram que não acham livro algo legal; 15% dos alunos não justificaram a resposta.
Por meio da observação destes resultados, pode-se observar que a idéia de que o aluno não gosta de ler não é verdadeira; pouquíssimos foram os que afirmaram não gostar de ler. No entanto, a preocupação com o tipo de leitura a se realizar é grande. Ao afirmarem que lêem quando se interessam pela leitura, os alunos demonstram que já possuem um certo gosto por leitura, já possuem certa autonomia que, quando não respeitada pela escola, pode levar à falsa idéia de que os alunos não gostam de ler.
Afirmações de que não gostam de ler porque não entendem o que lêem é outro reflexo do que precisa ser feito na escola. Se os alunos não entendem o que lêem, um trabalho sistematizado com leitura poderia ajudá-los na solução deste problema e colaborar para que passem a gostar de ler.
Entre as atividades preferidas, as que mais se destacam como favoritas pelos alunos são jogar bola e assistir a filmes. A atividade que eles menos gostam de fazer é dançar. A leitura, quando comparada às outras atividades, obteve notas medianas na preferência dos alunos.
O interesse por atividades práticas, como o futebol, também pode abrir um campo de estudo e idéias sobre possíveis trabalhos com leituras: os alunos não gostam de ficar parados, querem movimentos. Assistir a filmes é, também, uma preferência quase que absoluta para os alunos. Desta forma, associar a literatura a outras áreas de conhecimento pode ser um ponto de partida para o desenvolvimento do leitor.

b) Gostos específicos de leitura

Entre os tipos favoritos de leituras, 14% dos alunos afirmam que gostam de ler livros; 40 % preferem a leitura de gibis; 17% afirmam que gostam de revistas de esportes; 26% afirmam que gostam de revistas sobre TV; e 3% afirmam gostar de outros tipos de leitura.
A preferência por gibis entre os alunos é grande e provavelmente se deve ao fato do custo relativamente baixo deste material, o que o torna mais fácil de ser levado à sala de aula pelos professores. A facilidade de leitura também pode ser um fator que contribui para a preferência pela leitura do gibi: os desenhos e textos pequenos colaboram com isso.
Sobre o que mais chama a atenção em um livro, os alunos responderam: assunto, 47%; ilustração, 28%; capa, 13%; propaganda na mídia, 6%; e letra 6%.
Quanto ao tipo de livro que os alunos gostariam que a escola indicasse para a leitura, 15% dos alunos sugerem histórias de terror; 23%, histórias de suspense; 13%, histórias de aventura; 10 %, histórias sobre conflitos de adolescentes; 8% preferem a leitura de assuntos atuais; e 31% das indicações foram variadas, com muitas sugestões, inclusive, de leitura de livros didáticos.
Entre os títulos dos últimos livros lidos pelos alunos, apareceram muitos livros didáticos (de História, de Ciências, por exemplo), gibis, livrinhos da coleção Contos Clássicos (contos de fadas adaptados a crianças e vendidos nas lojas de R$1,99), e livros das coleções Literatura em minha casa, distribuídos pelo governo para as escolas.
Entre as histórias favoritas dos alunos, apareceram muitos títulos de contos clássicos (A Bela e a Fera, Os três porquinhos, Chapeuzinho vermelho) e filmes americanos (Shrek, Procurando Nemo, Harry Potter e O senhor dos anéis).
É através das leituras que os alunos gostam de realizar que eles poderão chegar a leituras mais profundas. Quando se pega um livro, há certos interesses que fazem com que o leitor interaja com o texto. A escola deve respeitar os centros de interesses dos alunos e daí propor novas leituras.

Propostas de intervenção

Serão descritas neste artigo duas atividades desenvolvidas com alunos de 6ª e 7ª séries de uma escola de periferia do município de São Sebastião.
A primeira atividade foi realizada com alunos de 6ª série no ano de 2004, durante os meses de novembro e dezembro; a segunda atividade foi realizada com alunos de 7ª série no ano de 2005 durante o mês de junho.

Atividade 1 – A menina dos fósforos, de Hans Christian Andersen.

A primeira atividade teve como texto gerador o conto A menina dos fósforos, de Hans Christian Andersen. Cada aluno recebeu o texto xerocopiado e colou-o no caderno.
A primeira leitura foi realizada em voz alta pela professora. É importante que os alunos tenham um referencial de leitura, um modelo de leitor. Muitas vezes, alunos de periferia, quando crianças, não tiveram acesso às histórias infantis interpretadas por profissionais (como aquelas gravadas em fita cassete ou CD), muito menos assistiram a peças de teatros ou filmes infantis. Desta forma, a leitura dramatizada feita pelo professor é muitas vezes o único referencial de leitura que estes alunos possuem.
Após a leitura feita pela professora, foi aberta a discussão para a classe do que havia acontecido com a menina.
Os alunos comentaram sobre as dificuldades passadas pela personagem até chegar a sua morte. Foram comentadas as diferenças da menina descrita no texto de Andersen e as crianças que passam necessidades aqui no Brasil: aquela, loira de cabelos cacheados; estas, normalmente negras e mulatas. Outras diferenças foram observadas: a neve, na noite de ano novo (Ano Bom, como é falado no texto); os alimentos que estavam postos à mesa, o fato da menina vender fósforos, entre outras coisas.
Os alunos fizeram, num primeiro momento, comentários orais quanto a essas diferenças. Num segundo momento, foram feitos no caderno exercícios de interpretação para fixação destes elementos observados.
Na semana seguinte, uma segunda versão do conto A menina dos fósforos, desta vez de um livrinho infantil, deste com grandes ilustrações e pouco texto, foi apresentada para a classe. A primeira leitura da história também foi feita pela professora, enquanto mostrava os desenhos do próprio livro.
Os alunos puderam notar que a história era a mesma, porém com algumas diferenças: nesta versão, a menina não morre, é adotada e aparece no final do conto em seu quarto, “em uma cama bem quentinha”. Questionados quanto ao porquê desta diferença, os alunos chegaram à conclusão de que deveria ser para não assustar as crianças, público-alvo deste tipo de livrinho, que ainda são muito pequenas e se assustariam com a versão original da história.
Na semana seguinte, alguns alunos levaram para a sala de aula outras versões da mesma história, descobertas entre os livros que tinham em casa. As histórias eram lidas e os alunos comentavam as diferenças entre a versão atual e as outras que já conheciam.
Num terceiro momento, os alunos leram a versão de Ricardo Ramos do conto A menina dos fósforos (neste texto o autor conta a mesma história, porém adaptada à realidade brasileira: a menina morre de fome e de calor na noite de ano novo.). Os alunos ficaram chocados com a versão brasileira do conto. A história, mais próxima à realidade que conhecem, causou a compaixão de muitos alunos. Discutiram-se assuntos como os direitos da criança e do adolescente e o ECA, Estatuto da criança e do adolescente.
A última versão da história apresentada aos alunos precisou de um preparo prévio: por se tratar do mesmo conto já lido várias vezes, só que em cordel, os alunos foram apresentados a este gênero primeiramente por meio de outras histórias. Muitos, migrantes do Nordeste brasileiro, já conheciam o gênero e lembraram a forma de apresentação das histórias. Foi relembrada com a turma a história Cordel adolescente, ó xente!, já conhecida dos alunos por causa das aulas de leitura, e também foram mostrados alguns livrinhos de cordel com histórias variadas. Foram elencadas com a classe algumas das características do cordel: histórias em versos na maioria das vezes rimados, impressas em livrinhos feitos em xilogravura (alguns alunos pesquisaram o significado de xilogravura), vendidas em feiras e/ou nas ruas penduradas em cordinhas – daí o nome literatura de cordel.
Mais uma vez a versão da história foi lida primeiramente pela professora. Depois, os alunos leram trechos da história, representando, carregando no sotaque nordestino, que muitos já possuíam naturalmente.
A etapa seguinte do trabalho foi a de produção. Foram feitas as seguintes propostas, de acordo com as características das classes: turma E: reprodução da história na versão em cordel em livrinhos ilustrados pelos grupos, feitos com folhas de sulfite cortadas em quatro partes; turma B: reprodução do dois primeiros versos da história já existente em cordel e criação dos versos finais para cada estrofe, feitos pelos alunos em livrinhos “reciclados” de uma campanha contra cópia ilegal de livros (os livros não tinham nada impresso, apenas as páginas em branco); turma C: criação de nova versão em prosa do conto, porém adaptado à realidade do bairro onde moravam (Saíram histórias cujos títulos eram A pequena vendedora de balas, A pequena vendedora de drogas. Infelizmente estas histórias foram destruídas por alunos da própria escola, no período em que ficaram em exposição na sala de aula); turma D: foram produzidas versões integrais do conto A menina dos fósforos, também em cordel. Serão descritos a seguir os passos desta atividade.
Este trabalho foi realizado em grupos e dividido em várias etapas: criação no caderno da versão da história; correção pela professora dos problemas gramaticais; passagem a limpo da história em folhas de sulfite, obedecendo à diagramação para a produção do cordel; ilustração das folhas do cordel; criação da capa para o livrinho; escrita das versões finais das histórias em estêncil (cedido pela escola); produção final dos livrinhos, com o uso do mimeógrafo.
Os alunos tinham de produzir, com material cedido pela professora, um mínimo de três livrinhos: um para a professora, um para a escola e um para o grupo. Alguns grupos, porém, produziram livrinhos para todos os membros do grupo e até para os familiares. Os alunos que não tinham material foram auxiliados pela professora e pelos próprios colegas.

Atividade 2 – Um apólogo, de Machado de Assis.

A segunda atividade descrita neste artigo foi realizada com alunos de 7ª série desta mesma escola de periferia do município de São Sebastião. Desta vez, o texto gerador foi o conto Um apólogo, de Machado de Assis.
No início do trabalho, os alunos pesquisaram sobre a vida e a obra de Machado de Assis. Foram orientados pela professora de que encontrariam material sobre este autor em enciclopédias, em livros de Língua Portuguesa do Ensino Médio e nos próprios livros do autor, que poderiam ser encontrados na biblioteca da escola e do bairro. No prazo marcado para a entrega dos trabalhos, houve um momento para comentários sobre as descobertas a respeito de Machado de Assis. Muitos citaram que Machado de Assis era de origem pobre, mulato, e que se tornou o maior escritor brasileiro. Outro fato muito comentado foi sobre Machado de Assis ter sido autodidata e não ter freqüentado escolas. Conhecido o autor, foi apresentada para a classe parte do conto Um apólogo (até o parágrafo 17).
Os alunos copiaram o texto da lousa e foram avisados de que o texto não estava completo, e que trabalhariam com ele por algum tempo.
A 1ª atividade desenvolvida com o texto relacionou-se ao vocabulário. As palavras desconhecidas, inclusive o título, foram procuradas nos dicionários ou elucidadas pelos colegas ou pela professora.
A 2ª atividade foi a leitura dramatizada do texto: primeiramente, feita pela professora e um aluno da classe, que se ofereceu como voluntário; posteriormente, feita pelos próprios alunos, divididos em trios (um narrador, uma linha e uma agulha). Os alunos tiveram o prazo de um final de semana para treinar em casa a leitura do texto.
A atividade de leitura dos textos foi uma das atividades de avaliação do bimestre. Durante a atividade, alguns alunos puderam perceber a importância de uma cópia bem feita no caderno, pois não poderiam, durante a leitura, omitir ou trocar nenhuma palavra. Para que as leituras ficassem atraentes e que as personagens fossem bem representadas eram necessários treino e compromisso. Um dos critérios de avaliação era o maior respeito possível por quem estivesse lendo. Aqueles que realizavam leituras insatisfatórias eram orientados a treinar mais um pouco e tinham a chance de recuperar a nota na aula seguinte.
Alguns alunos tiveram grandes dificuldades na divisão da leitura entre as personagens: liam bem, com entonação adequada, porém não dividiam corretamente as falas entre as personagens. Alguns paravam de ler no primeiro ponto final; outros trocavam de leitor a cada linha do caderno. Estes alunos forma orientados pela professora para que realizassem as leituras novamente, atentando para as falas das personagens. Paras que lessem corretamente, os alunos pintaram, no caderno, com lápis de cor, as falas de sua personagem. Alguns grupos com maior facilidade ajudaram os colegas nesta tarefa.
Realizadas as leituras, a terceira atividade consistiu numa espécie de julgamento da linha e da agulha. As salas, divididas em dois grandes grupos, tinham como tarefa buscar, no texto e na vida real, argumentos para verificar quem tinha razão na discussão apresentada na história: a linha ou a agulha. Alguns alunos, que faltaram no dia da divisão da sala, julgaram o desempenho dos colegas durante a atividade.
As discussões, num primeiro momento, ficaram presas ao texto, com falas do próprio autor. Posteriormente, foram se estendendo à vida real, com os possíveis valores e funções de uma linha e uma agulha. Ao final do debate, era apresentado o veredicto final, resultado da votação do júri.
A quarta atividade foi a leitura do final do conto, para verificar quem venceu a discussão, na versão de Machado de Assis. A leitura completa do conto foi apresentada pelos alunos por meio de um CD com a narração da história realizada por um ator profissional. Os alunos ouviram atentamente a leitura do conto e perceberam que, em dois momentos, o ator comete pequenos deslizes na leitura, trocando palavras ou se perdendo quanto à entonação.
Com o texto completo, os alunos comentaram suas conclusões: no início, com um certo estranhamento quanto à entrada do professor de melancolia no final do conto; depois de alguns comentários dos próprios colegas, compreendendo a moral do texto.
A quinta atividade proposta aos alunos foi a transformação do conto “Um apólogo” em história em quadrinhos. Os alunos poderiam escolher entre fazer a atividade em trios, duplas ou individualmente. Foi dada a orientação de que a história não poderia ser modificada, porém que, para que ficasse agradável na versão em quadrinhos, teria de ser diminuída. Para isso, os alunos poderiam resumir o texto como um todo, ou suprimir algumas partes da história.
Foram revistos alguns elementos básicos das histórias em quadrinhos: os balões, a presença do narrador, a expressão dos desenhos, as onomatopéias, as cores, tipos de letras, entre outras coisas. Durante a atividade, surgiram dúvidas quanto ao uso ou não de travessões dentro dos balões. Voltada a pergunta para a classe, os próprios alunos chegaram à conclusão de que não precisaria ser usado o travessão no balão, uma vez que o próprio balão já indica que aquele texto é fala da personagem.
Os alunos levaram, aproximadamente, uma semana (seis aulas de 45 minutos) para a realização da atividade. Neste período, alguns alunos chegaram a decorar trechos do texto e ficavam brincando durante as aulas como as personagens. Alguns preferiram levar as histórias para adiantarem uma parte em casa, pois não gostariam de perder a aula de leitura (realizada com as turmas toda quinta-feira) terminando a atividade. A grande maioria dos alunos entregou as histórias em quadrinhos no prazo, inclusive aqueles alunos que não realizam freqüentemente as lições.
A sexta atividade realizada com a turma a partir da leitura do conto de Machado de Assis foi a criação e uma paródia para o texto. Esta idéia surgiu da observação de que os alunos, enquanto faziam as atividades de reprodução do conto em história em quadrinhos, durante vários momentos perguntaram se não poderiam modificar as histórias, sendo negada pela professora esta possibilidade. O momento de transgressão do texto seria a produção da paródia da história.
Para a compreensão do que seria uma paródia, foi realizada com as salas a leitura de duas versões da fábula O lobo e o cordeiro: a primeira, escrita por Monteiro Lobato (alguns alunos já haviam notado semelhanças entre fábulas e o apólogo); a segunda, versão de Luis Fernando Veríssimo, paródia da fábula, chamada A solução. Ambos os textos se encontram no livro didático adotado pela escola.
Após discussões sobre a fábula e a sua paródia lidas em sala (discussões quanto a diferenças e semelhanças nas idéias apresentadas, na estrutura do texto, nas questões éticas dos textos), os alunos passaram à produção, em duplas ou individualmente, de uma paródia do texto Um apólogo.
No momento de revisão dos textos, apareceram alguns problemas quanto à pontuação do diálogo. Foi relembrada, então, a pergunta feita durante a criação das histórias em quadrinhos, quanto ao uso dos travessões em balões, e os alunos puderam perceber a importância do uso do travessão no texto em prosa.
O momento seguinte foi de apresentação para a classe das paródias produzidas. A pedido dos próprios alunos, a leitura foi realizada pela professora. Ficou combinado que, se o autor do texto não quisesse se manifestar quanto à autoria da história, esse direito seria garantido. Todos os alunos, porém, se manifestaram, assumindo a autoria dos textos, e eram aplaudidos pela sala após a leitura dos mesmos.
As histórias produzidas pelos alunos serão digitadas e organizadas pela professora em um livro, para divulgação na escola durante o 2º semestre.

Comentários finais

O trabalho com literatura nas escolas de 5ª a 8ª séries, quando bem realizado, pode colaborar na solução de muitos problemas que vêm sendo enfrentados na educação nos últimos tempos. Os alunos gostam de ler, basta que compreendam as obras e que tenham claros objetivos de leitura em mente. Por meio destes dois trabalhos, um de leitura de texto popular outro de leitura de literatura clássica, procurou-se demonstrar que o trabalho com literatura entre alunos de escola pública de periferia é possível.
Mais que quantidade, o trabalho com literatura deve buscar qualidade. Ronca e Terzi (1998, p.76) afirmam que:
Num tempo em que se cultua a imagem, ela é apresentada com tal força e constância onde, com muita facilidade, se desvaloriza a reflexão; há pressa na apresentação de conteúdos, que incita a superficialidade e afugenta a crítica. Subjugados ao falso mito de que um Homem informado é um Homem poderoso, supervalorizamos a quantidade de informações, em detrimento de sua qualidade e aprofundamento.

Sabe-se que é preciso que algo seja feito com a leitura destes livros. Um acompanhamento por meio de resumos e/ou exposições orais pode ser adequado se possibilitar a organização do aluno e gerar um trabalho mais efetivo de leitura, que parta do texto para a realidade do aluno, que extrapole todas as possibilidades de leitura e retorne para a realidade do aluno e para o texto, que mais uma vez retornará à sociedade como algo concreto.
Os dois trabalhos aqui descritos foram rigorosamente acompanhados pela professora. A participação dos alunos com comentários sobre os textos só é possível se a sala tiver um ambiente de extremo respeito. Gostar de ler é um hábito e, como tal, se adquire através do exemplo, da constância e do acompanhamento do adulto. Ter consciência do que se está fazendo, do lugar onde se está e de onde se quer chegar são etapas que poderão nortear um trabalho efetivo com leitura.

Referências

ASSIS, Machado de. Contos consagrados. 2.ed. reform. São Paulo: Ediouro, 2001. (Coleção Super Prestígio).
BAMBERGER, Richard. Como incentivar o hábito de leitura. 7.ed. São Paulo: Ática, 2001.

BASTOS, Othon. Machado de Assis: contos. Rio de Janeiro: Luz da cidade produções, 1998. 2 CD.

BORDINI, Maria da Glória; AGUIAR, Vera Teixeira de. Literatura: a formação do leitor: alternativas metodológicas. 2.ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993. v.27. (Série Novas perspectivas)

BRANDÃO, Helena; MICHELETTI, Guaraciaba. (Coord.). Aprender a ensinar com textos didáticos e paradidáticos. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1998. v.2.

CIRANDA CULTURAL. A pequena vendedora de fósforos. (Coleção Contos clássicos)

COELHO, Nelly Novaes. Literatura: arte conhecimento e vida. São Paulo: Peirópolis, 2000. (Série Nova consciência).

CORREA, Maria Helena; LUFT, Celso Pedro. A palavra é sua: língua portuguesa, 7ª série. Ed. reform. São Paulo: Scipione, 2002.

FARIA, Maria Alice. Como usar a literatura infantil na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004. (Coleção Como usar na sala de aula).

LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 6.ed. São Paulo: Ática, 2001.

ORTHOF, Sylvia. Cordel adolescente, ó xente!. São Paulo: Quinteto Editorial, 1996.

RONCA, Paulo Afonso Caruso; TERZI, Cleide do Amaral. A aula operatória e a construção do conhecimento. 7. ed. São Paulo: Edesplan, 1995.

ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 10.ed. São Paulo: global, 1998.

 
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