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CARRINHO DE LEITURA

Helena Baltar de Oliveira - Prefeitura do Recife / Secretaria de Educação

Na realização de atividades com os estudantes na sala de aula, com o uso de textos literários, deve sempre haver a preocupação quanto à escolha das obras, pois ao leitor iniciante, desse tipo de leitura, existe, por um lado, a necessidade de cativá-lo com “obras capazes de suscitar o desejo de novas leituras (e com isto ir propiciando parâmetros que criem condições para escolhas pessoais mais exigentes); e se reconhece, por outro, a impossibilidade de a criança escolher sozinha em meio de toda produção que sai ao mercado” (YUNES, 2002 :15). Nessa perspectiva, pretende-se oferecer bons livros a fim de despertar nos leitores o prazer de ler, antes que forçar a instalação de um hábito sem deleite. Vale salientar aqui a noção do que seja “bons livros” apresentado por YUNES (2002:15) que afirma que à “qualidade literária, pode-se apontar a originalidade da abordagem que tanto surpreende a criança como o crítico; do caráter vital, que impele o leitor a colocar-se no lugar do outro, uma empatia que o faça encontrar-se com as personagens da obra e consigo mesmo, no melhor sentido da cartase aristotélica; da verossimilhança que convence o leitor por mais fantástica que seja a obra e alarga sua percepção de mundo.”

A Importância da Literatura na Escola

A realidade brasileira mostra que o lugar da leitura no cotidiano dos indivíduos é cada vez menor. Muitos jovens não têm em seu contexto familiar o ato da leitura, limitando-se, portanto, a adquiri-lo no ambiente escolar. Então, cabe ao professor desenvolver uma prática pedagógica voltada para a formação de leitores. Formação esta, não contemplando apenas o hábito pela leitura, mas desenvolver no estudante o prazer por ela.

No entanto, para se formar leitores é preciso ter paixão pela leitura. Segundo Bellenger (1978, apud Kleiman, 2001:15) ler “é identificar-se com o apaixonado ou com o místico, é ser um pouco clandestino, é abolir o mundo exterior, deportar-se para uma ficção, abrir o parêntese do imaginário. Ler é muitas vezes trancar-se (no sentido próprio e figurado). É manter uma ligação através do tato, do olhar, até mesmo do ouvido (as palavras ressoam). As pessoas lêem com seus corpos. Ler é também sair transformado de uma experiência de vida, é esperar alguma coisa”.

Se ler é tudo isso apontado por Bellenger, a escola não deve se manter indiferente a esses aspectos relacionados à leitura. Assim, considerando que a escola é um espaço privilegiado de promoção da leitura, a literatura infanto-juvenil não poderia estar à parte desse espaço, pois a obra literária é uma fonte de atuação e transformação necessária ao processo educativo. Esse campo discursivo atrai leitores pela força imaginária contida “capaz de colocar em movimento um dinamismo de imagens com as quais o sujeito interage profundamente, modificando o próprio cotidiano” (TURCHI, 2002: 24).

Dessa maneira, o trabalho na sala de aula com os textos literários desencadeia momentos de reflexão baseados nos fatos fictícios e reais, possibilitando, portanto, um amadurecimento intelectual e afetivo. E por envolver o imaginário e a realidade é que, percebe-se, nas preferências dos jovens, as narrativas que procuram representar seu cotidiano, suas ansiedades, expectativas e dificuldades. Nessa perspectiva, a escola tem um papel fundamental na formação leitora dos estudantes e, acima de tudo, na formação do indivíduo crítico.

Por isso, foi considerando todos os aspectos mencionados, os quais estão presentes no trabalho com a literatura infanto-juvenil, que se pensou em analisar como tal abordagem na sala de aula pode ser realizada e o que esse trabalho pode desenvolver nos indivíduos envolvidos.

Viabilizando a Literatura

O presente trabalho foi realizado na Escola Municipal Padre Antônio Henrique, com alunos do 2º ano do 4º Ciclo do Ensino Fundamental, onde foram proporcionados textos literários a partir de uma diversidade de livros. A escolha dos livros estabeleceu-se através da observância da necessidade de se ter meio que facilitasse o acesso à literatura, uma vez que a escola não dispõe de biblioteca. No processo de escolha dos livros a serem oferecidos, alguns critérios foram estabelecidos, a saber: um nível gradativo de complexidade em relação à linguagem, um maior número de páginas com predominância do texto verbal. Os temas abordados eram de acordo com a maturidade da turma, por isso, a temática girava em torno de questões relevantes à adolescência, tais como: gravidez, AIDS, drogas e amor.

Para a efetivação das atividades relativas à leitura, mais especificamente à literatura infanto-juvenil, os livros eram levados até a sala de aula através de um carrinho idealizado e confeccionado para este fim. Os próprios estudantes conduziam o carrinho à sala, onde se desenvolviam as atividades sob orientação da professora.

Os livros eram escolhidos pelos estudantes voluntariamente e anotados pela professora para futura devolução e troca. A anotação dos empréstimos era feita em um caderno para o controle dos livros e acompanhamento da professora no que se referia ao tema escolhido por cada aluno.

Ainda no processo de escolha das obras por parte dos alunos, percebeu-se que a mesma acontecia tanto através do aspecto visual quanto pela leitura da sinopse contida na capa ou mesmo a partir de sugestão da professora ou colegas que já tinham lido o livro.

O passo seguinte à escolha foi a leitura dos livros, a qual se realizava pelos alunos em suas casas, em prazo estipulado de uma semana, podendo se estender ou devolver antes, caso fosse necessário.

Realizada a leitura, alguns momentos foram destinados à socialização das histórias lidas, sendo esta de maneira informal, utilizando a linguagem oral. Nesse momento, aconteciam as intervenções por parte dos ouvintes que, por sua vez, exercitavam o ato de ouvir e intervir no momento apropriado. No que se refere ao contador da história, este desenvolvia sua oralidade, memória, percepção de mundo, capacidade de captar a essência do sentido do texto e a criatividade.

Além dos procedimentos mencionados para a socialização das obras lidas, havia momentos de debates em torno dos temas abordados nas obras. Os temas provocavam discussões que propiciaram ampliar o conhecimento de maneira geral e mais especificamente do uso da linguagem nas suas dimensões lingüísticas e discursivas.

Após os encaminhamentos mencionados, solicitou-se que os alunos escrevessem um texto, expondo que obra eles mais gostaram, comentando sobre o tema que a mesma abordava. A seguir será demonstrado um texto elaborado por uma estudante, cujo tema é drogas.

Texto 1

 

 Pode-se constatar, a partir do texto da estudante, que a mesma se identificou com o tema e encontrou na história a verossimilhança com o real, além de refletir a respeito do que foi mostrado no texto e transportar para a vida real aquilo que conseguiu captar da obra lida, ampliando, portanto, sua percepção de mundo.

Em produção de um outro estudante, a questão temática é também muito significativa, podendo-se observar que o assunto abordado é sempre transferido para a vida real. Assim, as problemáticas presentes na atualidade, tais como: AIDS, drogas, gravidez na adolescência, entre outras, são as mesmas presentes nas obras, o que possibilita o confronto e a reflexão sobre as situações reais e a intervenção sobre as mesmas. Exemplificando tal afirmativa, observe-se o seguinte texto:

Texto 2
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 No tocante ao estilo dos autores, é possível observar que alguns estudantes já conseguem indentificá-lo e realizam a escolha do livro evidenciando esse aspecto. Além do mais, percebe-se a comparação que o estudante já faz com outras obras, tornando-se, assim, um leitor atento e crítico. O texto abaixo possibilita essa observação.

Texto 3

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 A partir das análises apresentadas, pode-se concluir que trabalhos desenvolvidos na sala de aula com textos literários podem ser feitos de maneira prazerosa e possibilitando que os estudantes reflitam sobre o que leram e desenvolvam a criatividade, além de outras habilidades que o textos possam desencadear.

Considerações Finais

O texto literário proporciona um trabalho pedagógico que amplia a visão de mundo do estudante e estabelece para ele um elo entre sua realidade, a sociedade em que está inserido e o unirverso dos livros. Nessa perspectiva, cada novo livro surpreende e movimenta um imaginário diferente do anterior.

Desenvolver a capacidade de ler com prazer, bem como combinar as informações contidas nos livros com as já armazenadas possibilitam a transformação do estudante e do seu processo intelectual. Isso também é proporcionado pelo texto literário.

No entanto, cabe à escola fazer o “enlace” do leitor com a obra e facilitar o acesso aos livros e a sistematização dos trabalhos desenvolvidos a partir da leitura, consolidando a formação leitora do estudante. Essa prática possibilita que tanto os ouvintes exercitem o ato de ouvir e intervir no momento apropriado quanto o contador da história desenvolva sua oralidade, memória, percepção de mundo, capacidade de captar a essência do sentido do texto e a criatividade.

Bibliografia

TURCHI, M. Zaira e SILVA, V. M. Tietzmann. Literatura infanto-juvenil: leituras críticas. Goiânia: Editora da UFG, 2002.

GURGEL, M. C. L. Leitura: representações e ensino. In: VALENTE, André (org.). Aulas de português: perspectivas inovadoras. Petrópolis: Vozes, 1999.

KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática. Campinas: Pontes, 2001.

 
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