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UMA LEITURA SOBRE AS PRÁTICAS DE ESCRITA EPISTOLAR

Jéssica Daniele Carvalho de Oliveira - UERJ – Faculdade de Educação

1. Definindo a Proposta

As cartas são suportes de texto muito desejados por alunos de EJA, motivo mesmo da busca à escola. Este trabalho pretende dar voz e vida a cartas trocadas por dois irmãos separados pelo movimento de migração para um grande centro urbano, na busca de melhores condições de vida. O recorte adotado persegue a compreensão dos motivos que fizeram da escrita epistolar o fio condutor da relação de amizade preservada por anos entre os sujeitos, entendendo que as cartas são uma das formas de representar a inscrição de suas personagens em determinado contexto sociohistórico. As mãos anônimas, ao mesmo tempo em que revelam punhados de intimidades, realizam um movimento de leitura das próprias experiências no mundo, configurando recorte ressignificado da história universal.

Em contato com a teoria de Arena (2003, p.53), e diante dos grandes apelos e esforços pela democratização da leitura e da escrita, me fiz a mesma pergunta que tanto incomoda ao autor. Aprender a escrever o quê? Ler e escrever, segundo ainda o mesmo autor, são verbos transitivos e, ultimamente, padecem de certa intransitividade. Diante desta constatação, a questão que surge é para mim ainda mais objetiva. O que escrevem as pessoas comuns? E, principalmente, por que escrevem? Estas perguntas ainda não foram totalmente respondidas, mas descobri, por meio de observações, de depoimentos de professores, de filmes e da própria história familiar que as pessoas comuns escrevem, entre outras coisas, cartas. Por que as escrevem?

As mãos anônimas compartilham angústias, conquistas, planos, fazem apelos desesperados, mas nesse movimento revelam muito mais que um punhado de intimidades. Nos momentos dessa escrita os sujeitos tratam da história de si mesmos, contando a história do mundo. Escrevem cartas pelos mais diferentes motivos, mas entre eles destaca-se o encurtamento das distâncias que separam entes queridos. Sem dúvida, e também por esse mesmo motivo as cartas familiares são trocadas há séculos.

Foi na intimidade de minha família, dentro da minha própria casa, que a curiosidade foi transformada em determinação para abordar a temática das cartas familiares como fundamento deste momento de reflexão. Mais especificamente, esta determinação estava guardada e à minha espera abaixo do calceiro, juntamente com outras “quinquilharias”, envolta por um saco plástico com cheiro de mofo, dentro de envelopes amarelos, empoeirados e começando a se decompor por culpa da ação do tempo.

Lá estava mais que um amontoado de folhas de papel. Lá estavam narradas as aventuras e desventuras da família Cavalcanti, narradas por um dos seus mais carismáticos integrantes, meu tio Nino.

À medida que as lia, era cada vez mais difícil largá-las. O interesse crescente que se manifestava não tinha relação apenas com o resgate de algumas memórias, até o momento desconhecidas por mim. Por conta da formação pedagógica buscada durante quatro anos de universidade, além do contato tão próximo com ações dirigidas ao campo da educação de jovens e adultos, minha preocupação foi compreender de que maneira a escrita epistolar cumpriu o papel de mediar, durante anos a fio, a relação de dois irmãos nordestinos separados ainda na juventude, pelo movimento de migração para os grandes centros urbanos em busca de melhores condições de vida.

Muito antes de Nino e Massé, as correspondências já eram utilizadas com o mesmo propósito, sobretudo a partir da Época Moderna, que trouxe consigo um significativo aumento da alfabetização e a emigração da Europa para terras americanas. A escritura das cartas, nesse período, tornava as distâncias mais toleráveis. E mais, as cartas familiares atravessaram oceanos na Espanha do Barroco para preservar laços de união entre as famílias (GÓMEZ, 2002, p. 14). O mesmo autor ainda faz referência a Vives para qualificar a escrita epistolar como “conversação entre ausentes”. Ou seja, os dois irmãos são representantes de uma cultura escrita que se mantém há séculos. De muitas formas e em diversos momentos das correspondências surge o apelo pelo ausente, assim como a tentativa de aproximar as distâncias e preservar os valores talhados pela família. Essas tentativas carecem de um olhar mais aprofundado para o entendimento do próprio sentido que as cartas assumem no contexto vivenciado por Nino e Massé.

Os textos escritos sob o suporte “carta” são repletos de particularidades, obedecem a um protocolo (BASTOS, CUNHA, MIGNOT, 2002, p. 5). Evidentemente, não tem sido mantido o mesmo protocolo com o passar dos séculos, mas escrever cartas continua a ser um movimento complexo que envolve regras tanto para quem as lê quanto para quem as envia. O reconhecimento das regras implícitas mantidas no conjunto das cartas de Nino para Manassés também se afirmou para mim como ponto a ser considerado com especial atenção no movimento de busca pela compreensão das marcas do universo familiar assumidas pela escrita.

2. Autores e Personagens

Depois de ter realizado a leitura das cartas, uma pergunta objetiva se formava diante de mim. Qual o melhor caminho a seguir para alcançar os objetivos propostos por essa pesquisa? Era necessário organizar o turbilhão de informações e realizar um movimento de releitura do conjunto, de forma a encontrar estratégias que permitissem sua análise e interpretação. A leitura das cartas, ainda que prazerosa, constituiu grande desafio, tarefa árdua, à medida que exige olhar ampliado e sensibilidade para enxergar além da ciranda de letras e grafemas, para identificar de que maneira os correspondentes utilizam esses recursos na elaboração de suas mensagens, na construção de novos laços e preservação de laços antigos. Traduzem mensagens que não apenas comunicam, mas carregam emoções, sentimentos, marcas de uma família e de uma geração. Por se tratar de um objeto de estudo tão complexo, dadas as suas especificidades, encontrei dificuldades para definir uma metodologia de pesquisa.

Buscando identificar características comuns entre as cartas, me chamava atenção a freqüência com que determinadas temáticas surgiam. Havia sempre a introdução de novas informações, mas os assuntos preferidos continuavam intocáveis, invariavelmente presentes, na maior parte das páginas. Pude identificar quatro eixos que basicamente constroem a dinâmica das correspondências, sem que a ordem aqui apresentada determine qualquer tipo de hierarquia: assuntos de âmbito familiar (nascimentos, mortes, doenças, cenas cotidianas, alterações na rotina familiar); acadêmico (intensificação dos estudos para as provas do vestibular e do curso CPOR, escolha por um curso superior, transferência de universidade); exército brasileiro (as duras rotinas militares, expectativa pela formatura, a preocupação em se destacar nas atividades desempenhadas no quartel); futebol (resultados de campeonatos locais e nacionais, comentários sobre desempenho de técnicos e jogadores, notícias das “peladas” que disputava na cidade). Fazendo comparações, não foi difícil a identificação das quatro categorias, mas, para os efeitos desse trabalho, irei me deter apenas à família e ao exército brasileiro.

Apesar do formato diferenciado, posso dizer que a carta, seja qual for seu conteúdo, assume status de documento histórico. Principalmente em se tratando de cartas familiares, muitas vezes não se percebe que nas linhas nas quais habita, aparentemente, o banal e privado, está a marca de um tempo, de uma geração. Recentemente, o material vem sendo revisitado por estudiosos e historiadores ávidos pela contribuição que podem gerar para a preservação das memórias de um tempo. Dauphin e Poublan (2002, p. 75) afirmam que “a nova importância acordada a esses escritos ‘sem qualidade’ desconcerta a hierarquia tradicional das fontes”.

Ao me deparar com um conjunto de correspondências ordinárias, verifico que, ao mesmo tempo em que se apresentam como refúgio do privado (GÓMEZ, 2002, p. 16), estas são uma das formas de representar a inscrição das suas personagens em um determinado contexto sociohistórico. Posso dizer que se trata de uma história paralela e não-oficial ou de um recorte ressignificado da história global e fria apresentada nos bancos escolares. Halbwachs (apud ROBERTO, 2000, p. 8) afirma que “as lembranças são sempre coletivas, mesmo que tratem de acontecimentos e objetos vivenciados individualmente”. Ou seja, todas as histórias contadas nas cartas, por mais que pareçam essencialmente privadas, encerram nelas a visão particular de um tempo, dos modos de conduzir a existência em uma determinada sociedade, dada sua inserção naquela realidade. Constitui um contraponto bastante interessante, à medida que permite o confronto da palavra de quem fala de dentro do contexto, por meio da escrita epistolar, com as idéias presumidas por quem está de fora, analisando-o. Bagno (2002, p. 54), travando discussão sobre a existência e função de diversos gêneros textuais, entre eles a carta, cita Marchusi para dizer que o gênero é “uma forma textual concretamente realizada e encontrada como texto empírico, materializado”. E mais, acrescenta que a escrita está submetida a determinadas condições de produção, levando-se em conta que, quem as escreve, o faz a partir de uma situação cultural, social, temporal e espacial. Por esse motivo, o inevitável jogo de lembranças, descrições, narrativas da intimidade surgidas a partir das cartas familiares devem ser valorizados e entendidos como uma possibilidade concreta para revisitar um período que, pretensiosamente, considera-se conhecer bem, somente por intermédio dos livros. Cada expressão, cada resgate e forma de abordar questões revela muito a respeito de quem as escreve e de suas intenções ao escrevê-las, assim como sobre o destinatário a quem devem chegar. Meu olhar sobre o conjunto de cartas — fonte primária desse estudo — ajuda a compreender um pouco mais sobre a mobilização da rotina de uma família que, como tantas outras do mesmo período, está em busca da imortalidade de seu legado, deixando registradas, na existência concreta das correspondências, as muitas etapas de sua experiência.

A partir do entendimento do suporte carta enquanto gênero textual, nos termos apresentados por Marchusi, posso tecer algumas considerações sobre suas principais características, em razão da função social que exerce. De todas as funções da linguagem apontadas por Gagné (2002, p. 185) – comunicação, ideacional, expressiva, estética, lúdica, relacional, metalingüística e integração social –, certamente a primeira e última são as que mais se destacam no gênero textual “carta”. A primeira função, e talvez a mais óbvia, é a de comunicação. Segundo o autor, ela “repousa na possibilidade da intercompreensão e supõe necessariamente um código comum, um conjunto de variáveis compartilhadas” (GAGNÉ, 2002, p. 182-183). Ou seja, no caso das cartas escritas de Nino para Massé, deveria haver uma sintonia, uma clareza nas formas de comunicar fatos até relativamente simples. De fato, esta característica pode ser facilmente percebida em vários momentos da comunicação entre os dois. Para compreender determinadas mensagens, necessitei do auxílio de meu pai, Massé, porque, embora escritas em minha língua materna, seria este elemento suficiente para decifrá-las? A resposta é não. Existe uma série de expressões, gírias, abreviações, sobre as quais minha leitura solitária não seria capaz de dar conta. Esta constatação pode ser facilmente entendida ao lembrar que não era eu o “interlocutor buscado” (GÓMEZ, 2002, p. 22) nas cartas. Guillén (apud GÓMEZ, 2002, p. 22) ainda aponta para a existência de um “duplo pacto epistolar” a partir do momento em que o autor organiza seus escritos com a consciência de que, para se fazer entender, depende da aceitação do leitor empírico a quem se dirige. O que escreve é personalizado, dirigido e pensado em função do seu interlocutor. Não sem motivo, somente o verdadeiro “interlocutor buscado” pôde me fornecer os elementos que faltavam à compreensão de determinadas passagens inseridas no universo epistolar em análise.

Outra função da linguagem apontada por Gagné, e a qual gostaria de dar visibilidade, é a integração social. O autor defende que, a partir da referência a determinados valores culturais que a linguagem veicula, assim como através das comunicações que permite estabelecer, o indivíduo se integra à família e à coletividade. Ora, assim, não resta dúvida de que uma das maiores possibilidades que o suporte carta oferece está associada diretamente a esta função. Em estudo realizado com mulheres da cidade de Mixquic, no México, Kalman (2004, p. 70) constata que as cartas familiares, além de trazerem narrativas das experiências vivenciadas por parentes distantes, constituem meio de seguir participando da vida familiar deixada para trás. As mulheres de Mixquic vivem situação semelhante à dos irmãos Nino e Massé, necessitando deslocar-se para os grandes centros urbanos em busca de melhores condições de trabalho e geração de renda. Ainda sobre este aspecto, Bastos, Cunha e Mignot (2002, p. 5) alertam para o fato de que “as cartas movem-se entre presença e ausência”, ou seja, o ente querido distante encontra nela uma estratégia valiosa que lhe permite seguir participando da rotina familiar, mesmo a milhares de quilômetros de distância. Nino trata de pôr Massé em contato direto com qualquer alteração ou decisão tomada no seio da família. Pede opiniões, favores com instruções a serem executadas também por carta, descreve ruas, praças, obras, pessoas, acontecimentos e toda a dinâmica da cidade onde nasceram e cresceram, salientando o encanto em nada esquecido de suas infâncias inenarravelmente felizes naquele lugar. Nino encontra na escrita de suas cartas a possibilidade concreta de colocar um de seus irmãos mais queridos novamente no cenário que jamais deveria ter sido abandonado, ao lado da família e dos amigos, com quem dividiram boa parte da infância feliz, não fosse de lá arrancado pelo amargor que se abateu sobre a cabeça de quem não mais permitiu que os sonhos lhe fossem arrancados. Enxergo nos escritos de meu tio uma tentativa desesperada, um inconformismo em aceitar passivamente a dura situação que a vida impôs não só a ele e a meu pai, mas a todos os membros da família. As narrativas de Nino, sempre fortemente marcadas pela oralidade, segundo Gómez (2002, p.25), são resultado da “função presentificadora” existente na escrita epistolar.

Não há dúvida que as cartas cumprem o papel de amenizar distâncias, aferrar os laços familiares, preservando a identidade e as tradições cultivadas em família. Mas uma questão objetiva surge a partir destas afirmações. Entender de que forma o gênero textual “carta” assume essas funções torna-se uma curiosidade pungente. As funções de comunicação e integração social, descritas por Gagné, oferecem elementos para esta compreensão. Mas existem detalhes no ritual de escrever cartas que justificam tais características, compreendendo que este “é um exercício que tem suas regras, seus códigos, suas condições de produção” (MIGNOT, 2002, p. 119). São expressões, trejeitos, estilos sustentados pelo “duplo pacto epistolar”. Guillén (apud GÓMEZ, 2002, p. 23) prossegue ainda anunciando a existência de uma relação de confiança entre o “eu textual” – o signatário – e o “tu textual” – o leitor imaginado (MIGNOT, 2002, p. 23). A escrita segue imersa de sentidos construídos pelo “eu autor” em função de um destinatário, o “tu leitor”, relação denominada por Guillén de “interpersonalidade imaginada”. Considerando esta lógica, inegavelmente os escritos epistolares surgem influenciados pela busca do “tu leitor”, seja nos recursos estilísticos, na linguagem utilizada, na opção dos assuntos abordados e na maneira de conduzí-los. Não por acaso, muitas passagens das cartas de Nino só puderam ser esclarecidas com a ajuda de Manassés. Diria que, neste caso, dado o nível de cumplicidade entre os dois, o autor conhece exatamente os caminhos que suas linhas precisam seguir quando sua intenção é emocionar, recordar, exortar ou simplesmente comunicar. O “eu autor” utiliza claramente estratégias para colocar o “tu leitor” no exato lugar que deseja. Sobre este aspecto, Douphin e Poublan (2002, p. 83) afirmam que os correspondentes, mesmo separados pela distância que o suporte carta presume, estão inscritos em um jogo de interações que constroem o social. Assim, gestos, expressões, palavras ditas e silenciadas, dentre tantos outros artifícios, serviriam como referenciais para que o signatário coloque suas questões, levando em conta a rede de acontecimentos que intervêm durante o tempo real da escritura. Seguem acrescentando que “todos esses signos permitem ao interlocutor imaginar a cena, vivê-la retrospectivamente através de ruídos, odores, presenças, objetos que são familiares, que têm um sentido especial para” (DOUPHIN, POUBLAN, 2002, p. 83-84).

Além da escolha do como vai ser dito, com base nas interações sociais estabelecidas entre os correspondentes, há ainda uma segunda escolha a ser feita pelo signatário que não deve ser ignorada. Trata-se fundamentalmente do que será dito. Embora possa parecer uma questão aparentemente simples ou despretensiosa, o não-dito tem o seu significado. Não cabe recair nas diversas interpretações possíveis para o que foi silenciado, até mesmo porque os silêncios são uma incógnita, mas tecer algumas considerações a respeito do jogo de presenças/ausências nas correspondências. Dizer alguma coisa sobre si mesmo ou sobre o outro não é tarefa das mais fáceis, porque foge de qualquer possibilidade de neutralidade. As limitações do suporte carta são um dos fatores que levam seus autores a fazerem opções temáticas. Seria inviável que alguém, no desempenho de atividades exigidas pela vida moderna, escrevesse sobre tudo que vem acontecendo na ausência do interlocutor, por exemplo. É necessário selecionar o que merece comentários. Mas, também nesse momento, emerge, através das linhas escritas, a leitura que o signatário realiza sobre o seu estar no mundo. Não somente isso, mas a preocupação com a leitura que o outro faz dessa sua inserção. Nesse sentido, Gómez (2002, p. 27) afirma a existência de uma “formalidade autobiográfica” conferida pelo “eu textual” a si próprio. É apontada como “o resultado do que se diz e do que se silencia, do que se escreve e do que se oculta”. Evidentemente, esta formalidade começa pela decisão do que dizer, mas se estende à escolha de como se desenvolvem as narrativas, não importando que sejam tão fiéis aos fatos ou que certos aspectos sejam salientados em detrimento de outros. Morin (2004, p. 21), também se pronunciando a respeito do funcionamento da memória no ser humano, afirma que a rememoração de fatos não é fiel, porque a própria memória é fonte de erros, e segue acrescentando que “nossa mente, inconscientemente, tende a selecionar as lembranças que nos convêm e a recalcar, ou mesmo apagar, aquelas desfavoráveis, e cada qual pode atribuir um papel vantajoso” (MORIN, 2004, p. 21-22). O que se coloca em jogo é a imagem que o signatário deseja construir dele mesmo para si e para o outro.

A primeira carta que tenho em mãos foi escrita em 23 de setembro de 1977, portanto Nino estava prestes a completar 19 anos. Quando Manassés veio embora para o Rio de Janeiro, aos 20 anos, seu querido irmão tinha apenas 14. Outras cartas foram enviadas nesse período, mas, por descuido ou por não reconhecerem nelas utilidade, meus pais não as preservaram. Durante o período em que as cartas coletadas foram enviadas, o irmão migrante já tinha uma situação mais ou menos estabilizada, contando com cinco anos no Rio de Janeiro. Mas não foi sempre assim. Ele conta que, cansado de enfrentar sempre as mesmas dificuldades, sem que pudesse fazer nada que lhe garantisse um amanhã mais promissor, porque todas as alternativas em Vitória de Santo Antão soavam apenas como paliativos, acreditava que seu futuro mesmo estava na cidade grande. Mas, como a maioria dos migrantes, logo à chegada, enfrentou situações que em nada lembravam o Rio de Janeiro de seus sonhos. Vindo de carona, praticamente com a roupa do corpo e um trocado que sua tia lhe dera, enfrentou a fome e o desânimo mesmo conseguindo localizar, na Baixada Fluminense, um velho companheiro de infância que já havia se aventurado neste mesmo movimento, fazia alguns anos. Quando encontrou Miguel, as coisas melhoraram consideravelmente. Miguel o abrigou e até escolheu o nome de seu primogênito, em homenagem ao amigo. Manassés começava, enfim, a trabalhar como ajudante na indústria naval, naquele período em plena ascensão no estado Rio de Janeiro, ramo onde permaneceu por 17 anos. Os problemas financeiros pareciam ir se abrandando, mas o nó na garganta ao lembrar da família em Vitória de Santo Antão não.

Nos envelopes endereçados ao pequeníssimo apartamento da rua Taylor, na Glória, Nino sabia como oferecer refúgio ao irmão retirante. Também sabia como seduzi-lo, é verdade. Sabendo do grande desejo de retornar à cidade natal e da paixão pelo carnaval cultivada por Manassés, Nino escreve dessa forma para o irmão:

Achei legal tua cartinha, bem como os postais da “cidade maravilhosa”, mas maravilhosa mesmo, é a nossa “Vitória-PE” com seu carnaval, o melhor do mundo, como tu bens sabe. Nossa “Vitória-PE” cresce, e já contamos com um “BANORTE”, mão e contra-mão no centro da cidade, construção de novos edifícios na “Mariana” e “MAGABAR” melhorando o atendimento, o sortimento, e tantas coisas que verás. (5 de outubro de 1977).

As cartas, em geral, obedecem a um formato bastante rígido. Antes de descrevê-lo, acredito ser necessário levantar uma das principais possibilidades que permitem a explicação de tal fato. Em fevereiro de 1977, Nino começa a freqüentar o curso CPOR, Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, do Exército Brasileiro. Na maior parte do tempo, o endereço do remetente é o da casa dos pais, em Vitória, mas, algumas vezes, os estágios do CPOR o fazem escrever de Natal, no estado do Rio Grande do Norte. A imersão na rotina militar certamente o influenciou na construção de um padrão quase milimetricamente pensado. As cartas não são apenas datadas, mas trazem em seu cabeçalho o horário em que foram escritas. A letra é sempre de fôrma. Os parágrafos estão sempre meia linha afastados das margens. Até mesmo o tipo de papel é mantido, na maior parte do tempo, e a forma de dobrar as cartas é muito semelhante. O tratamento, apesar de sempre carinhoso, traz no cumprimento inicial uma saudação formal como, por exemplo, “Meu prezado mano Manassés”.

Uma variação muito interessante presente nos envelopes traz alguns indícios do contexto sociohistórico em que as cartas estão inscritas. O remetente indicado, inicialmente, é Nino de Oliveira. No período de setembro de 1977 a março de 1980 são grandes as variações no nome do remetente, entre elas: José Cavalcanti de Oliveira Filho, J.C. de Oliveira Filho, Nineza de Oliveira Filho, José Cavalcanti Filho, entre outras, mas, a partir de abril de 1980, data em que assume o cargo de oficial do Exército, as cartas passam a vir remetidas pelo 2º. Tenente Oliveira. Basta lembrar do orgulho que ser militar ainda representava para as famílias daquele período, do status social que a profissão concedia, conferindo até mesmo alguns privilégios, principalmente em pequenas cidades nordestinas, marcadas pelo coronelismo. Mesmo em tempos de transição política da ditadura militar para a reinstauração da democracia no país, conduzida durante o governo do presidente João Baptista Figueiredo, ser militar ainda era o sonho de muitos jovens pobres como Nino, que ilustra muitas passagens nas correspondências, dos desabafos às grandes conquistas. Episódios dessa história, marcantes, como de 1978, quando o presidente Geisel decreta o fim do Ato Institucional Nº. 5, permitindo a reabertura do Congresso Nacional, fechado desde que o Ato restringiu as liberdades políticas no país; o processo de abertura política no país, restabelecendo, no ano de 1979, o pluripartidarismo; a pressão social que fez decretar, no mesmo ano, a Lei da Anistia, permitindo o retorno dos exilados e a liberdade aos presos políticos no país; a crescente exigência por eleições diretas por parte da sociedade civil, em novembro de 1980, restabelecendo, por meio de Emenda Constitucional, o voto popular para governador são o cenário em que as cartas se desenrolam, com forte pressão social pela retomada da democracia no Brasil. Mesmo com o gradual enfraquecimento do poder depositado nas mãos dos militares, ser oficial do Exército brasileiro ainda era um sonho cercado de glamour. A abertura política “lenta e gradual”, não significava um afrouxamento das tensões existentes entre o Estado e os setores militantes da sociedade civil. Diante de um cenário político intenso, com atuação marcante dos sindicatos e conseqüente criação do Partido dos Trabalhadores, quando reinstaurado o pluripartidarismo, torturas e prisões ainda eram táticas utilizadas para silenciar os sujeitos que representassem risco à estabilidade do regime. Integrado ao Exército Brasileiro durante este momento histórico, instituição estreitamente vinculada com o desrespeito aos direitos humanos de presos políticos na época, e fortemente defensora da ideologia da segurança nacional e de combate à subversão, Nino não deixa indícios nas cartas de que tivesse consciência política dos fatos ocorridos e da ameaça que a conjuntura representava para os cidadãos comuns, trabalhadores. As cobranças e a preocupação pela demora das respostas do irmão parecem ter, apenas, origens afetivas, decorrentes dos laços de sangue e amizade, mas não fundamento em um temor por sua integridade e segurança em um contexto incerto e imprevisível.

O patriotismo é um valor que surge com força entre os jovens do período e com Nino não é diferente, principalmente sendo aspirante a “milico”, como ele mesmo intitula a classe militar. Os trechos abaixo, retirados de uma correspondência datada de 8 de setembro de 1978, ilustram a importância atribuída à semana da pátria e o risco de não participar do desfile que aconteceu nessa ocasião.

[...] comigo vai mais ou menos, estou com uma crise de “amigdalas” que quase me impediu de desfilar [...].

Tudo em ordem, a semana da “PÁTRIA” transcorreu normalmente.

O desfile de 7 de setembro, uma das datas comemoradas na cidade, é revivido todos os anos. Percebe-se que, mesmo em plena crise de amigdalite, não mediu esforços para comparecer ao desfile. O 7 de setembro parecia estar tão enraizado na cultura local quanto as grandes folias, figurando ao lado de eventos de peso como o carnaval. Observe-se este trecho de uma carta enviada em 5 de outubro de 1977.

Quanto ao “carnaval” te garanto, será o melhor de todos os tempos, já que o prefeito conseguiu o melhor S. João, o melhor aniversário das “TABOCAS” e a melhor “PARADA” do 07 de Setembro [...]

A estrutura das cartas é muito semelhante, quando observado o conjunto que consegui reunir. O ordenamento dos assuntos freqüentemente segue a lógica saudação; notícias da família/cidade; exército; estudos; futebol; despedida. Evidentemente, há variações neste formato, mas de modo geral é mantida a mesma organização no conjunto. Até mesmo para os espaços no rodapé, ou ao lado das páginas, há um perfil comum para as mensagens. É como se apenas determinado tipo de informação coubesse nestes espaços, freqüentemente utilizados para observações e lembretes. O fac-simile abaixo ajuda a compor a idéia de como as cartas foram estruturadas.

 

 

O momento da despedida é sempre também o das recomendações: “cuide-se”, “escreva”, são algumas das expressões mais facilmente observadas nas linhas finais. Nestas linhas é onde também surgem outras personagens bastante influentes que interagem com Nino e Massé: os pais, os irmãos e as irmãs “moram” no último parágrafo. Sempre mandam dizer algo, queixam-se pela demora de alguma resposta, enviam beijos, abraços e algumas recomendações. Estas personagens também aparecem em outros momentos das correspondências, é verdade, mas surgem de forma passiva. No parágrafo final elas assumem forma imperativa. Ao invés de se falar sobre elas, se fala com elas. “Os pais te mandam bênçãos”, “Os manos mandam abraços”, “A mãe pede”. É freqüente encontrar esse tipo de interlocução nas últimas linhas. Os pais, no entanto, são as figuras mais presentes, sempre enviando bênçãos. Seguem-se algumas passagens que ilustram a situação.

Muitos te mandam lembranças, dos pais as bênçãos e um futuro brilhante para te (sic). (23 de setembro de 1977).

A “MÃE” pede que acuses recebimento de cartas dela. E aguarda respostas. (22 de julho de 1978).

Bom mano me despeço, dos pais as bênçãos, beijos e abraços, dos manos idem. (13 de agosto de 1978).

A Cida e os guris estão passando essa semana conosco, a mesma envia lembranças para te (sic) e a Biúza. (28 de janeiro de 1980).

A presença constante das personagens familiares sugere o ambiente de onde Nino escreve. A dinâmica dos espaços descrita com riqueza de detalhes permite visualizar cenas da família como se se estivesse lá. São situações cotidianas que, provavelmente, quem viveu naquele lar conhece muito bem, carregando ainda mais de sentimento linhas que narram momentos aparentemente “banais”. É quase possível sentir o cheiro, o sabor, o ritmo que conduz os moradores da casa. Esta maneira de escrever constitui uma estratégia de aproximação entre o “eu autor” e o “tu leitor”, à medida que a narrativa detalhista do signatário fornece elementos que conduzem o leitor para o cenário desejado. No caso de Nino, o cenário não é outro senão a casa da Avenida Demócrito Cavalcanti, em Vitória de Santo Antão. Observem-se alguns registros desses momentos nas cartas.

Nossa “casa” está passando por umas reformas, é que o “pagé” (sic) está construindo a “garagem” de seu novo “fusquinha” (uma joinha). O azul agora é do “Magá"[...] (21 de maio de 1978).

Agora são 11:30 hs da matina e na casa dos “CAVALCANTIS” a expectativa é o almoço. (25 de janeiro de 1979).

A maneira como Nino se reporta às demais personagens familiares nas cartas, fazendo muitas referências e dando voz aos pais e irmãos, revela indícios de que eram escritas em locais de grande circulação da casa. A cozinha sempre foi um dos principais espaços de reunião dos membros da família. Como bons nordestinos, os “CAVALCA” – forma como Nino denominava a família – sempre fizeram do ato de sentar-se à mesa um evento de muita alegria e tradição. A cozinha, mesmo quando vazia, carregava o simbolismo da união, da harmonia do lar, e os indícios nas correspondências levam a crer que algumas possam ter sido escritas de lá, da grande mesa de madeira da cozinha. A interferência das pessoas ao seu entorno, interagindo pela escrita, ajuda a tornar a inclusão de outras personagens da família uma característica forte, promovendo uma espécie de escrita integrada. É importante ressaltar que as maneiras de ler e escrever não foram sempre as mesmas com o passar dos séculos. Chartier (1999, p. 77) afirma que “os gestos mudam segundo os tempos e lugares, os objetos lidos e as razões de se ler”. Acrescenta ainda o autor (CHARTIER, 1999, p. 100) que durante muitos anos a leitura em voz alta constituiu condição de inteligibilidade do texto até mesmo para os sujeitos pertencentes ao mundo da cultura letrada. A idéia da leitura e da escrita como atos solitários foi socialmente construída e encontra espaço na lógica individualista da sociedade do capital, em nossos dias. Na Idade Média, as bibliotecas universitárias instauraram o silêncio obrigatório. Mas Chartier (1999, p. 6), trazendo a “Madone du Magnificat”, pintada por Botticelli por volta de 1482-1498, apresenta a escrita retratada como um ato coletivo. A mão que escreve surge acompanhada de outras que a auxiliam ou que apenas a assistem (talvez no exato sentido de assistir, ajudando inclusive) durante o ato de escrever. A opção de Nino pela escrita nos ambientes coletivos, em algumas oportunidades, mostra que esta forma de escrever ainda não está totalmente superada.

Conforme mencionado, geralmente no último parágrafo das cartas surgem as personagens imperativas. Sem dúvida, a escolha de um local menos reservado para escrever coloca Nino em uma situação de maior interação com toda a dinâmica do lar, interferindo na forma como desenvolve suas narrativas. O trecho abaixo, retirado de uma correspondência datada de 26 de junho de 1978, às 13h, ilustra bem como Nino utiliza as narrativas do cotidiano a fim de transportar seu irmão para a mesa, junto da família, além de sugerir que a correspondência em questão tenha sido produzida na cozinha.

Bom mano me despeço, agora sinto o cheiro da comidinha da “Gê-Gê”, um apetitoso perú (sic) e dobradinha, já que não aceitas o convite vou me servir.

Apesar de não ter recuperado todas as correspondências enviadas no período de 1977 a 1981, é possível perceber uma certa regularidade no envio, além de uma forte cobrança também em relação ao tempo de resposta. Em várias passagens, Nino queixa-se pela demora do irmão em dar notícias e também transmite reclamações dos pais pelo mesmo motivo. Parte de toda a importância conferida às cartas pode ser melhor compreendida se se levar em consideração que, no momento histórico em questão, o telefone era ainda um luxo para poucos. A carta realmente se mantinha como um dos principais meios para obter notícias de parentes distantes e, de certa forma, amenizar as saudades. Por isso, também se justifica toda a angústia e a apreensão gerada em função do recebimento ou não das cartas. Um trecho da correspondência escrita em 1º de outubro de 1978 revela de forma inconfundível a preocupação em manter regularidade na troca das cartas e da relevância sentimental que esse movimento assume:

Como é que vais? Espero que bem, hoje depois de refletir muito, resolvi te escrever, é que eu estava em dúvidas quem era que devia cartas, e cheguei a conclusão que era eu.

Em outras duas passagens de correspondência escrita em 25 de outubro de 1979, Nino narra o aborrecimento da família com a ausência das cartas, aparentemente provocada por problemas com os Correios.

[...] Finalmente uma parte da grande novela está sendo desenrolada, pô! É de encher o saco, te escrevi um porrilhão de cartas, e é uma pena que as mesmas não tenha (sic) chegado em vossas mãos.

[...] “CORRESPONDÊNCIAS” – todos estão por conta, lamentando a não regularidade das mesmas. Este “treco” está durando quase 5 meses, e ficamos na dúvida se atribuiríamos ao Nosso “CORREIOS” ou a vocês (o que achávamos impossível), porém creio que agora tudo vai correr normalmente.

Nino representa um típico escritor-usuário da carta, como meio de comunicação da época. Escreve com regularidade, cobra respostas, exige freqüência do seu destinatário. Como Nino, se a vida lhe tivesse dado o direito de seguir, se comportaria na atualidade, diante da Internet, dos e-mails, chats, blogs e tantas inovações, como suportes do escrito?

3. As Histórias
4.
Para compreender as temáticas da preocupação de Nino, em manter seu leitor informado, trabalharei com duas das que categorizei: a família e o exército brasileiro. Busco encontrar os sentidos dessas muitas histórias que Nino conta, pelo escrito, registrando um modo de viver, um tempo, sua juventude, sua curta vida.

A Família

A família é colocada por Nino em um patamar quase sagrado. O carinho com que se refere aos entes queridos transcende as linhas escritas e pode ser sentido por quem as lê. Os valores de união e harmonia no lar são reforçados a todo o tempo, como pode ser visto:

[...] já estou vendo nosso carnaval de rua, o papo animado e pouco demorado em casa, comida fora de hora, desencontro, e outras coisinhas que só nós “CAVALCA” sabemos fazer. (5 de outubro de 1977).

No trecho acima, Nino já planejava o carnaval de 1978 com o irmão, que iria do Rio para Vitória de Santo Antão a fim de passar ali os dias de folia. Note-se que a família é tratada quase como uma instituição, que tem a identidade construída através das relações que se estabelecem no cotidiano. “As coisinhas que só os CAVALCA sabem fazer”, com todo grifo conferido pelo autor ao sobrenome, traduzem a maneira única como os membros da família relacionam-se entre si e com o mundo. São situações e comportamentos, resgatados por intermédio da escrita, que surgem como uma estratégia de manter vivos na memória do irmão ausente os códigos compartilhados pelos CAVALCA. É o que mantém a família coesa e a diferencia das demais. A questão da identidade e da preservação do legado da família surge com muita força nas cartas de Nino, como pode ser observado em outra passagem:

Bem mano vou ficando aqui mesmo na terra das Tabocas, porém fico com a certeza de sempre vivermos nesta harmonia e paz que é peculiar em nosso “CLÔ. (25 de outubro de 1979).

No conjunto de correspondências é possível também encontrar algumas referências à infância em família e personagens do período. Não se percebe nos relatos nenhuma espécie de melancolia, mas a recordação alegre de aventuras que os “Cavalca” viveram anos antes. Recordar momentos através da leitura/escrita constitui um ato repleto de simbolismos, à medida que recupera episódios significativos da história da família e com os amigos, envolvendo suas personagens em um universo onde é quase possível reviver aquelas emoções. E, para quem não esteve presente às situações narradas, como eu, as letras funcionam como se fossem janelas a partir de onde se pode espiar a experiência do outro. Faço minhas as palavras de Mignot (2002, p. 160) ao dizer que “quando menos se espera, se está lado a lado com o outro da carta, da escrita, de início por curiosidade”. A curiosidade que motivou o início desta pesquisa é a mesma que me levou a imaginar situações e personagens, como exposto abaixo, narradas por Nino:

Agora hora da “ceia”, e se relembra o fato acontecido no “MORRO DA CONCEIÇÃO ”, onde todo o nosso “CLÔ ia dando adeus ao mundo. (23 de outubro de 1978).

[...] te garanto da (sic) para bateres uma peladinha conosco, como nos velhos tempos, o time é bonzinho e calçado, tem o PILÔTO (sic), CARECA, DARLAN, ZEZO e outros que fizeram parte de tua vida de “moleque”, e que agora ficariam feliz contigo (sic). (5 de outubro de 1977).

As passagens acima, ao mesmo tempo em que trazem à tona as memórias de infância, transformam-se em estratégia para manter acesa a identidade da família e fortes os laços com a terra natal. Na lembrança das origens é onde também Manassés podia encontrar conforto, frente aos desafios e frustrações decorrentes da vida agitada, e de certa forma monótona, na cidade grande.

As palavras de Nino também não escondem a expectativa da família em receber o irmão de volta a Vitória, e tampouco a satisfação de todos pelos dias que Manassés conseguia passar na terra natal, como pode ser observado:

Me despeço, que guardes a certeza que no dia 03 (sábado) estarei te esperando na “RODÔ”. (25 de janeiro de 1979).

Pôxa! Mano, como ficaram legais as fotos, que “HORA” fizemos, foto na fila do “BANCO”, (pô não dá pra entrar em detalhes, mas esta foi a maior,). Colocando carta na caixa de coleta, a do anjo CTA (3 de agosto), a do trem nem é bom falar, a máquina faz milagres, não sei se observaste a “PRAÇA”, tiramos de cima da barbearia do “Zé barbeirinho”. Ficou legal pacas, detalhe dos “MOLEQUES” brigando, e ao FUNDO O TREM. (28 de abril de 1978).

No trecho acima, Nino refaz os passos das rondas pela cidade realizadas nas férias com Manassés. É importante dizer que os lugares citados — Praça do Anjo, a barbearia e a linha do trem — fizeram parte de sua infância. Esses eram pontos de referência em Vitória de Santo Antão. Recordar estes poucos e bons momentos juntos, por intermédio da escrita, constitui uma estratégia para não permitir que os laços de amizade se afrouxem. O próprio estilo da narrativa, bastante descritiva, oferece elementos para que o “leitor imaginado”, Manassés, seja transportado de volta àqueles momentos de total cumplicidade com o seu irmão. Mesmo para mim, que não conheço tão bem a cidade e não cheguei a conviver com tio Nino, fica muito evidente o clima de companheirismo irradiado pelas ruas estreitas de Vitória de Santo Antão.

O Exército Brasileiro

A história de Nino no Exército Brasileiro está inscrita em um contexto de conflitos, expectativas e aspirações. Antes dele, houve casos de ingresso dos irmãos mais velhos nas forças armadas. Um deles seguiu carreira, os outros não. O próprio Manassés teve passagem pelo exército e marinha – Escola de Aprendizes Marinheiros de Pernambuco – pedindo baixa desta última farda. Quando as primeiras cartas foram escritas, Nino já estava matriculado no curso CPOR, iniciado em fevereiro de 1977.

Durante a análise das correspondências, a vivência de Manassés no universo militar pôde ser compreendida como um dado que favorece a aproximação entre os dois irmãos. Através do suporte carta, Nino o coloca na posição de confidente, conselheiro e ajudante, pois ninguém melhor para entender a dinâmica de um quartel, do que aqueles que já estiveram imersos na vida militar. São revelados ao leitor rotinas duríssimas, esquemas árduos de estudo, competições internas, desejo de superação. Uma das razões destacadas nas cartas para que não abandonasse a farda, a exemplo de irmãos mais velhos, é a construção de um projeto de vida financiado pelo suporte financeiro oferecido pelo exército, como pode ser observado:

[...] como não consegui ser um militar de carreira, estou aproveitando o que a lei me assegura. Pretendo fazer um “pézinho” de meia, e também fazer de minha atual condição uma escada para outros objetivos. (8 de abril de 1980).

A escrita de Nino remete a uma condição compartilhada por muitos jovens do período. Ainda hoje, a juventude é seduzida pelos ganhos que a carreira militar oferece. Suas palavras dão pistas sobre como a perspectiva econômica interfere na opção dos sujeitos oriundos das classes populares para seguir o militarismo. No caso de Nino, havia outra motivação para a escolha, expressando-a de forma clara no seguinte trecho:

Cá estou novamente, a vida me fez viajante, embora o que esteja fazendo agora seja o que mais desejei em minha vida, ser “militar”[...] (8 de abril de 1980).

Apesar do desejo manifesto em seguir a carreira militar, Nino, contraditoriamente, utiliza as cartas como um espaço de fuga desse universo. É possível perceber uma maior regularidade das correspondências após os “acampamentos” do exército. No período em questão, havia, por parte do governo, um clima de tensão constante, exigindo das forças armadas treinamento intensivo para o combate à “subversão”, entendida hoje como a resistência que alguns grupos ofereciam à ditadura militar. Ele próprio, por intermédio da escrita, põe o irmão na condição de conhecedor das rotinas que descreve. As declarações são contundentes, por vezes denunciando uma situação de esgotamento. A escrita parece funcionar como um canal de escape das pressões que a rotina do quartel lhe impõe. Algumas vezes, as palavras eleitas para narrar as rotinas são agressivas, denunciando uma condição de trabalho que desafia os seus limites. Os “acampamentos” surgem nas cartas como momentos de pico do seu stress e Manassés como a figura que pode lhe compreender por já ter passado pelas mesmas experiências, estreitando ainda mais a cumplicidade entre os irmãos. Eles partilham não somente um sobrenome, mas uma trajetória semelhante, que lhes permite colocar um, no lugar do outro, oferecendo conforto nas situações de maior desgaste emocional. Alguns exemplos podem ser observados:

Estou em “VITÓRIA” fazendo um “relax mental, passei 04 dias acampado na área do “14º BI” em Socorro, local que Você muito conhece, ficamos “acantonados”, perto do açude. Foram “04 dias” de fuder, “sobrevivência na selva”, “pista de cordas”, “navegação noturna”, e outras coisas que você que já foi “Infante” conhece [...] (23 de setembro de 1977).

Como é bom voltar a conversar contigo, cheguei agora a (sic) poucas horas, vinhe (sic) de um “acampamento” e estou um pouco cheio de todas aquelas rotinas. (28 de abril de 1978).

No entanto, há momentos em que compartilha certa vibração e orgulho em desempenhar as mesmas tarefas, motivo dos comentários acima. A escrita parece denunciar uma relação de amor e ódio com a farda. A seguir, destaco alguns trechos que dão indícios desse conflito, com destaque para o último que resume, nas palavras do próprio Nino, a tensão que envolve a carreira militar, incluindo simulações referentes à situação de captura de guerrilheiros e resgate de prisioneiros, obsessão política e ideológica no contexto da ditadura militar:

[...] é bom VIVER, sofrer, e aprender na “INFANTARIA”, tu deves saber, pois serviste no mais completo “QUARTEL” do “NE ” e quem sabe do “BRASIL”. (5 de outubro de 1977).

Nino era conhecido no quartel como um militar de comportamento e rendimento exemplares. Mostrava-se ansioso e preocupado às vésperas das avaliações, mas orgulhoso das notas altas obtidas após. O caráter competitivo emerge com força de suas linhas, não bastando um bom rendimento, mas importando ser “o melhor” entre os alunos do CPOR. A insistência em exibir excelentes resultados denuncia a necessidade de provar para si, mas também “prestar contas”, ao irmão, da sua capacidade. Manassés, quando militar, nunca se destacou pela boa conduta e nem por resultados de encher os olhos nas avaliações. Nino reparte, então, suas conquistas com gosto mais apurado. Alguns exemplos podem ser observados:

Estou lutando pelo 1º lugar na ENGENHARIA (SOU O 3º). (2 de junho de 1978).

ESTÁGIO – pô! Não poderia ser melhor, fui classificado em 1º lugar entre as 1ª e 2ª TURMA, obtive 07 gráus (sic) máximos do 08 observados, em suma, obtive 7 (sete) MUITO BOM e um “BOM”[...]. (25 de outubro de 1979).

Apesar do reconhecimento de seu desempenho e conduta, Nino também compartilhava com Manassés as estratégias utilizadas para burlar algumas regras do quartel e conseguir descansar mais um pouco. A confiança que deposita no irmão para fazer esse tipo de declaração gera uma espécie de confissão:

Assisti a decisão do “PAULISTÃO”, onde o nosso “CORINGÃO”, sagrou-se campeão, e como sabes, so (sic) terminou depois das 24:00 hs (sic), e no outro dia, só acordei às 5:30 hs (sic), e já que estava atrazado (sic), so (sic) fui ao “CPOR” às 10:00 (sic) de matina, e como desenrolado que é os “CAVALCANTI” arranjei um jeito de não perder pontos, fui ao “HGR ” e mandei que assinassem meu cartão. (24 de outubro de 1977).

Na mesma correspondência, Nino ainda nos dá idéia do tratamento privilegiado aos militares no período. A visibilidade que a farda assume em alguns espaços é retratada quando escreve contando sobre a decisão do Campeonato Pernambucano de Futebol daquele ano e a maneira como foi recebido no estádio:

Bem, como torcedor não foste mal este ano, “CORINTHIANS” e “SPORT” campeão, assisti a todas a (sic) duas decisões, e do “Sport” acompanhei de perto, ou melhor do “estádio”, sai (sic) de “revista ”, e fomos direto para o “arrudão ”, fardado pagamos “milico ” e fomos para as cadeiras numeradas, muita tranquilidade e alguns (sic) “boysinhas”, que já estão aderindo ao futebol.

Os temas de Nino se imbricam, e um auxilia o outro a contar as histórias de sua vida simples, mas heróica, porque dignificada e elevada à condição de memória de um tempo, pelo escrito, que lhe dá permanência, memória de um lugar, de um homem, que pela narrativa, deixa a forte inscrição, para seus descendentes, de uma curta vida, tragicamente ceifada aos 25 anos.

5. Uma Carta para Nino

Saudoso tio Nino,

Sei que não estava esperando por essa carta, mas não precisa se preocupar em respondê-la. Na verdade, ela surgiu para apontar as muitas respostas que você me deu. Respostas a perguntas que sempre carreguei comigo e àquelas geradas durante o curso de pedagogia que termino em algumas semanas, com a sua preciosa ajuda. Sua escrita foi a janela por onde pude ver um mundo com referenciais, às vezes, muito diferentes do que vivo agora. Sabia que também gosto de futebol? Provavelmente, eu seria uma daquelas “boysinhas” aderindo ao esporte que você viu no Arrudão na final do pernambucano de 77. E que também sou Sport, quando estou em Pernambuco, como meu pai. Suas linhas me fizeram enxergar além da figura perpetuada pelos “Cavalca” pra lhe representar, delas saltaram um Nino de carne e osso, com suas inúmeras virtudes e também seus defeitos.

Debruçada sobre essa janela que se abriu, você, generosamente, me deixou viajar por suas lembranças. Vi você, o pai e o pajé sentados à grande mesa de madeira da cozinha, esperando os quitutes de Ge-Gê, a esta altura no fogão. Vi você criança, assustado no acidente do Morro da Conceição, mas também vi você rapaz aproveitando a tragédia pra fazer piada com o pobre do “pajé”. Também pude vê-lo estudando no seu quarto ou em alguma brecha nas atividades do quartel, onde sempre mostrou ser um guerreiro em busca da superação de seus limites. Eu pude ver o homem inteiro, não apenas a parte que quiseram me contar. Quando não entendia alguma coisa que estava vendo, seu “prezado Manossés ” debruçava-se ao meu lado na janela e vivia tudo aquilo de novo, só pra me ajudar, ele diz, e, tenho certeza, também pra poder rever você. Ele sabe que não tive o mesmo privilégio de lhe conhecer enquanto esteve entre nós, então, essa é a única maneira. Muitas vezes, ele cantou aqui, ao meu lado, o hino da Infantaria, arma que vocês amaram no exército brasileiro. Aliás, tio, como você amou o exército! Pensando bem, você foi um homem de muitos amores: pela família, pelos livros, pela bola, pela vida, tio! Isso me dá mais motivos pra lhe amar também. Meu pai também lhe ama, mas ele é machão, como o “pajé”, você bem sabe, e fica “feio” dizer. Na verdade, fica é difícil dizer sem dar o nó na garganta que eu sinto agora.

Gostei muito de perceber como as coisas mudaram da sua juventude pra cá e poder acompanhar essa mudança a partir das suas experiências. Sabe que lá na faculdade os professores nos incentivam muito a considerar as experiências dos sujeitos no processo de construção do conhecimento? Acho que vão ficar felizes comigo, pois como valorizei as suas! Só que fui eu quem aprendi muito, a partir da leitura que fiz dessas experiências. Fiquei impressionada, não só com a leitura que você fazia entusiasmado dos livros que papai gostava de lhe mandar, mas principalmente da forma como interpretava sua própria trajetória nessa vida, ainda sem saber que estaria muito breve o seu ponto de chegada. Foi importante ver como, na prática, as pessoas produziam sua existência em uma sociedade em tantas coisas diferente dessa que vivo agora. Você sabe que, antes de ler suas cartas, pensava que todos viviam com medo durante a ditadura? Descobri que, como você, alguns não se davam conta da gravidade do que acontecia no Brasil àquela altura. Havia muitos quase meninos, a seu exemplo, não é verdade, que dariam tudo pra vestir a farda representando o país. O glamour da carreira militar ainda seduzia muitos jovens, mesmo quando a conjuntura política já apontava para uma gradativa distensão, fruto da resistência de alguns setores da sociedade civil organizada.

Pois é, tio, com o tempo muita coisa mesmo mudou. Os militares já não estão mais no poder, a ditadura acabou e agora quem conduz o país é um homem do povo, pela primeira vez um representante saído de uma indústria metalúrgica. O nome dele é Lula e, veja só que ironia, também é do interior de Pernambuco, como você e meu pai. Será que está satisfeito com a notícia? Os militares, gradativamente, foram perdendo seus privilégios e já não gozam de tanto status. Há vantagens nisso. Os treinamentos já não são tão árduos quanto os acampamentos que enfrentou, porque não estamos mais na iminência de uma guerra civil. Vivemos tempos de “paz”, e essa é uma outra discussão. Também não precisaria mais entrar e sair fardado do quartel, nem temer a tal da “revista”, que agora é bem menos exigente. Os “milicos” não tiram mais suas fardas dos armários nem mesmo para ir aos estádios e ao cinema, como você, muitas vezes, fez.

Há novos membros na família “Cavalca” também. Você tem muitos sobrinhos. Muitos já se formaram ou estão se formando como eu, tio, e, certamente teria muito orgulho de nós. Somente um, o filho mais velho do seu irmão Marcos, escolheu seguir a carreira militar. Acredito que, mesmo assim, ficaria feliz com o rumo que demos às nossas vidas. Sabe, tio, a juventude está muito diferente hoje. Há muito mais liberdade do que a que experimentou, mas, contraditoriamente, estamos aprisionados pela cilada do medo que se esconde em cada esquina. Ficaria aqui fazendo uma lista enorme das mudanças, mas me interessa agora destacar uma permanência. Passe o tempo que passar, o mundo pode dar quantas voltas quiser, mas você continua sendo um “Cavalca”, há muito distante, mas nunca esquecido e não menos amado, porque somente um legítimo saberia cultivar na vida e na morte “as coisinhas que só os ‘Cavalca’ sabem fazer”. Obrigada por me permitir conhecer-lhe, por essas muitas cartas que escreveu a meu pai.

Beijos, abraços e lágrimas pela ausência sentida da sua sobrinha que lhe ama,

Jéssica Daniele Carvalho de Oliveira

 

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