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  EROTISMO E LITERATURA COR-DE-ROSA - SEMELHANÇAS ERÓTICAS: DA ERUDIÇÃO À MASSA

Vivian Carla Antunes de Oliveira - graduanda em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS

Introdução

O erotismo é o tema mais antigo da literatura. Trata-se da cristalização do sexo, que sendo natural do homem, teve, portanto, a necessidade de ser verbalizado. Em virtude dessa verbalização, podemos hoje, nos deparar com interessantes representações dele que a literatura, em seu âmbito erótico, nos deixou e nos tem deixado.
Em sua trajetória literária, o erotismo se fez presente, mesmo que nas “entrelinhas”, visto que o ato de verbalizar o sexo era considerado pecaminoso, conforme nossas restrições religiosas.
Todavia, nos pouparemos aqui de traçar toda a sua trajetória histórica, visto que ela é demasiada longa; mas tentaremos demonstrar o comportamento deste erotismo em clássicos de diferentes épocas e em narrativas, consideradas por muitos sem importância: as narrativas de massa.
Recorremos às obras Senhora de José de Alencar, O Primo Basílio de Eça de Queiroz e Memorial do Convento de José Saramago (nesses textos, nos absteremos de colocá-los dentro de uma seqüência cronológica linear). Não descartaremos, no entanto, narrativas menos apreciadas como Júlia e Sabrina.
Em suma, este trabalho tem por objetivo estabelecer uma breve comparação entre obras ditas eruditas e narrativas de massa, no âmbito erótico.

Erotismo, obras clássicas e narrativas de massa: uma (breve) análise comparativa:

Senhora é um clássico romântico de José de Alencar, que relata o amor de Aurélia Camargo por Fernando Seixas. O enredo se desenvolve a partir de Aurélia, que ao tornar-se extremamente rica, deseja por vingança “comprar” o homem de sua vida: Fernando.
É importante ressaltar que a narrativa não apresenta cenas eróticas picantes e que durante todo o desenrolar da história, Aurélia e Fernando não se envolvem sexualmente. É somente após ambos acertarem suas diferenças e depois de Aurélia ter a certeza do amor espiritual de Fernando é que ela se entrega aos prazeres da carne (características típicas do Romantismo). No entanto, não há nada explícito e nem descrição dessa suposta entrega. Há somente uma sugestão nas últimas duas linhas do romance, que se dá pela seguinte passagem:

As cortinas cerraram-se, e as auras da noite, acariciando o seio das flores, cantavam ainda o hino misterioso do amor conjugal. (Senhora, p. 189)

Nota-se que há um leve erotismo nessa passagem e que o autor apenas sugere a consumação do amor espiritual através do ato sexual, deixando ao leitor a tarefa de imaginar.
Em contrapartida aos romances clássicos, as narrativas de massa têm invadido as prateleiras com suas leituras acessíveis e temáticas envolventes, despertando mais e mais leitores ao redor do mundo. Na verdade, elas trazem aquilo que o leitor quer ler. Um exemplo dessas narrativas são as revistas Júlia e Sabrina, e é com base em uma delas que iremos comparar o erotismo nela existente com o erotismo de Senhora.
Na narrativa Sedução Irresistível, de Flora Kidd, Sabrina, edição de 1981, a personagem Marina também só entrega sua virgindade a Vittorio depois de ter a certeza de que ele a ama:

Ele a beijava de maneira doce, porém perturbadora; seus lábios deixaram os dela para descerem para o pescoço macio e, depois, para os seios já descobertos. Ele a beijava sem trégua, até que a cabeça de Marina começou a rodar e seu corpo acabou tomado pelo desejo. Sem fôlego e atormentada pela paixão, Marina dava o melhor de si para responder às carícias de Vittorio, escorregando as mãos por baixo do roupão, esfregando-as sobre a pele macia das costas dele, passando delicadamente os dedos por aquele corpo adorado, na tentativa de encontrar os cantinhos mais vulneráveis, até que ele gemeu de prazer e seus dedos apertaram os seios de Marina com volúpia.(...) De repente, houve uma pequena e aguda dor e Vittorio estava dentro dela, em volta, em todo lugar. (Sedução Irresistível, Flora Kidd, Sabrina, 1981)

Tanto em Senhora quanto em Sabrina, a entrega só se realizou após a confirmação do amor masculino. A diferença está na maneira como ocorreu a entrega. Em Senhora, houve apenas sugestão ao ato e em Sabrina a descrição minuciosa dele.
Já no Realismo temos O Primo Basílio de Eça de Queiroz, muito conhecido pela sua temática de adultério e sexo proibido, além da forte crítica à burguesia (representada por Luisa). Dentre as muitas passagens eróticas existentes no romance, há uma que chama a atenção por deixar clara a passagem do amor espiritual para o carnal. Diferente do que ocorre em Senhora, em O Primo Basílio podemos nos deparar com o ato sexual fora do casamento, ou seja, o adultério. Descrições de carícias e beijos mais ousados que podem ser notados na passagem a seguir:

Basílio achava-a irresistível: quem diria que uma burguesinha ter tanto chic, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas “tão feias, como os fechos de metal, beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez –lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia : não! Não! – E escarlate, murmurou repreensivamente. ( O Primo Basílio, p. 180)

Essa passagem relata um dos encontros às escondidas de Luisa com Basílio, sendo casada, estava indo de encontro com os princípios bíblicos, da moral e dos bons costumes.Uma passagem do texto de Lúcia Castello Branco, bem exemplifica a temática do adultério:
Os mandamentos de Deus: “não matarás”, “não adulterarás” (o sexo só é legítimo quando sagrado pelo matrimônio), enquanto, em nossa vida diária, escondemos os corpos com o mesmo pudor de austeridade com que encobrimos a morte, com que edificamos túmulos suntuosos para nossos defuntos. Sexo e morte são fantasmas que pairam sobre a retidão de nossas vidas: ambos nos remetem ao “pecado de origem”, e devem ser, por isso, temidos e evitados. (BRANCO, 1984, p.33).

Temáticas polêmicas como a do adultério, também se fazem presentes nas narrativas de massa, além do erotismo cada vez mais explícito.

Meu casamento... não foi de verdade, Jonathan. Descobri que não poderia amar Eric desde o dia da cerimônia (...). Quero que faça amor comigo Jonathan. Eu estou lhe pedindo: Cynthia sentiu ele estremecer em meio à penumbra. As mãos firmes logo encontraram o corpo dela. Jonathan puxou-a mais para junto de si, até seus lábios tocarem nele. O beijo profundo fez Cynthia perder a sensação real (...). Deslizou a mão até a cintura de Cynthia e abriu o laço do robe. Fez com que ela o tirasse e deixou a peça ao lado. Vestida apenas com a sensual camisola de alças fininhas, Cynthia suspirou quando a mão experiente de Jonathan levantou o tecido e começou a acariciar sua pele nua (...). Tomando-a pelos braços, ele a levou para o quarto. Sentou-a na banqueta aveludada da penteadeira e se ajoelhou diante dela. Voltou a beijá-la daquela maneira que a deixava zonza, porém dessa vez foi mais longe nas carícias, provocando-a a ponto de Cynthia implorar para que ele a possuísse logo (...). Quando finalmente a penetrou com um gesto firme, ela gemeu mais alto. Seu mundo estava completo agora. (Vestígios do Passado, Vanessa Grant, Sabrina, 1994).

Com o passar dos anos, o erotismo torna-se cada vez mais explícito. As descrições tornam-se mais detalhadas, tanto das personagens quanto do cenário. Há a valorização do corpo, do sensual, das roupas. O ato sexual é minuciosamente descrito, beijos nos joelhos, mãos ou braços, dão lugar a beijos nos seios, e o que antes era possuir, agora é penetrar.
Mais adiante, em Memorial do Convento, de José Saramago, tem-se a seguinte passagem:

D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa (...) D. João V conduz D. Maria Ana ao leito, leva-a pela mão como no baile o cavaleiro à dama, e antes de subirem os degrauzinhos, cada um de seu lado, ajoelham-se e dizem orações acautelantes necessárias, para que não morram no momento do ato carnal (...) D. Maria Ana estende ao rei a mãozinha suada e fria, que mesmo tendo aquecido debaixo do cobertor logo arrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu com seu dever , e tudo espera do convencimento e criativo esforço com quem o cumpriu, beija-lhe como a rainha e futura mãe (...) E D. Maria Ana quem puxa o cordão da sineta, entram de um lado os camaristas do rei, do outro as damas, pairam cheiros diversos na atmosfera pesada, um deles facilmente identificam (...). (Memorial do Convento, p.17)

O conteúdo erótico da passagem de Memorial do Convento, explicita o do ato sexual, a preparação do casal, o “dever cumprido” do marido e a atmosfera sexual contida no quarto. O cheiro do esperma que paira no ar, é facilmente reconhecido pelos camaristas e damas que adentram o quarto após o término do ato sexual, visto que essa atmosfera também lhes é pertencente.
Fica evidente nessa passagem, que o sexo é tratado como algo pecaminoso. Antes do ato sexual o casal ajoelha-se e ora, como se transar fosse pecado. Tal fenômeno explica-se:
Nossa primeira falha, nosso “pecado original” constitui-se desses elementos: somos mortais porque pecamos, e pecamos porque ousamos comer do “fruto proibido” Parece que a partir dessa infração da ordem de Deus estamos irremediavelmente condenados a viver a morte no erotismo e reafirmar, através do sexo, nossa finitude, nossa falta, nossa culpa. (BRANCO, 1984, p.32)

Passemos à última parte de nossa análise, tentando enxergar possíveis evoluções do erotismo em uma edição de Julia, do ano de 1987 e em outra do ano de 2000, para notar que o erotismo se explicitou ainda mais:

A boca exigente cobriu a dela mais uma vez, só que agora com mais paixão, mais urgência, e Anne se entregou à carícia, vencida. Suas mãos buscaram a pele ardente sob a camisa masculina, e sentiram as batidas do coração descompassado. Repetiu o nome dele muitas vezes junto aos lábios macios, até soarem como uma ladainha, uma oração sagrada e querida (...). O mundo se abriu aos pés de Anne, tragando-a, levando-a para uma terra de sonho e de emoções onde Richard era o centro de tudo, a noite, o dia, o universo...(...). E rodaram juntos no centro de uma tormenta que os levava para um mundo onde não havia razão nem palavras, onde os corpos nus se experimentavam com urgência e transformavam-se num só, onde o prazer era tanto que transcendia qualquer sonho, onde nomes sussurrados em voz rouca misturavam-se a gemidos, gritos e à explosão de luzes que iluminava os caminhos indecifráveis da paixão. (Final Feliz, Sandra Marton, Julia, 1987)

Pode-se ver um erotismo mais sutil neste fragmento, o ato sexual chega a ser exemplificado de maneira um tanto poética. É importante lembrar que existe nele também, mesmo que inconscientemente, um pouco da teoria de Georges Bataille, quando se fala que o casal Anne e Richard “transformavam-se num só”, pois para Bataille, o indivíduo carregava consigo uma espécie de “nostalgia da continuidade perdida”, ou seja, a ânsia de procurar “recompor a antiga natureza perdida”, tal qual expressa a fala de Aristófanes em O Banquete, de Platão “quando se encontraram, abraçaram-se e se entrelaçaram num insopitável desejo de novamente se unirem para sempre”, e daí originou-se o termo Eros, o impulso para “recompor a antiga natureza e restaurar a antiga perfeição”.
Já no fragmento seguinte, o mais recente, o erotismo aparece de maneira muito mais explícita do que na passagem anterior. O ato sexual é descrito com riqueza de detalhes:

Sem pensar, ele curvou-se, beijando-a com avidez de um homem sedento. Ela era bonita e especial, preciosa e perfeita. Tudo de que ele precisava. Nunca um beijo fora tão verdadeiro. Jake puxou-a para si, desvairado pelo desejo. Não podia resistir por mais tempo. Desejava-a como cada célula de seu corpo e sabia, além da razão, que Emily também o desejava naquele momento. Calor e excitação dominavam o corpo de Emily. Presa nos braços dele, pressionada pelo corpo poderoso, tremeu sob o persuasivo beijo. Jake a beijou com sofreguidão, como se beijá-la satisfaria uma vida inteira de desejo.(...) Entre beijos e carícias, eles deitaram-se entrelaçados sobre o colchão, e Emily sentiu a evidência do desejo dele. Então, beijou-o apaixonadamente. Jake gemeu, entreabrindo-lhe o roupão, as mãos com os seios nus.(...) Ela deslizou as mãos pelo peito másculo, enquanto ele lhe abria o roupão. E arrepiou-se quando ele livrou-a da última peça de roupa, excitado. Jake a deitou de costas na cama e rastejou entre suas pernas.Com mãos quase reverentes, acariciou-lhe o ombro, braços e torso. Olhando para baixo, viu a ereção masculina perto do portal íntimo, pronta a invadi-la.(...) Estupefata, Emily permitiu que Jake a posicionasse sentada em suas coxas rijas. Ele apalpou-lhe os seios gentilmente, movendo-a para frente até que ela literalmente sentasse na sua ereção. Incapaz de esperar mais tempo, Jake a penetrou vagarosamente com um longo gemido de prazer.(...) Juntos eles subiram aos céus. (Sempre ao meu lado, Carol Rose, Julia, 2000)

O autor descreve minuciosamente cada carícia, cada movimento, deixando o leitor a par de toda a situação, numa leitura instigante e prazerosa. Mais uma vez, o verbo possuir dá lugar ao penetrar, e a genitália masculina recebe o nome do estado de êxtase em que se encontra. Embora sutis, as diferenças eróticas entre os dois fragmentos estão presentes.

Conclusão
Em síntese, pode-se afirmar que o erotismo independe do lugar onde está presente. Ele trará ao leitor o mesmo devaneio, esteja ele numa obra clássica ou numa narrativa de massa. Portanto, não há como inferiorizar uma revista quando comparada a uma poesia romântica, uma obra clássica quando comparada a uma narrativa de massa. Cada qual terá seu brilho e seu público leitor. É inegável o sucesso de revistas como Julia e Sabrina, que prendem a atenção de milhares de leitores, talvez por apresentar uma leitura mais acessível e temas condizentes à realidade do leitor.
Seria de muita valia, narrativas como essa no âmbito escolar, já que abordam temáticas que interessam aos jovens, e uma vez instaurada, passar então às obras clássicas, mostrando similaridades entre ambas, e quem sabe assim, trazendo jovem para o mundo fascinante da leitura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRANCO, Lúcia Castello. O que é erotismo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

BATAILLE, Georges. O erotismo: tradução de Cláudia Fares: São Paulo: Arx, 2004
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ALENCAR, José de. Senhora: São Paulo: Editora Ática S.A. 1987.

QUEIROZ, Eça de. O Primo Basílio: Belo Horizonte: Editora Itatiaia Limitada, 1987
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SARAMAGO, José. Memorial do Convento: São Paulo: Difel, 1983.

KIDD, Flora. Sabrina: Sedução Irresistível: São Paulo: Abril Cultural, 1983.

MARTON, Sandra. Julia: Final Feliz: São Paulo: Nova Cultural, 1987.

GRANT, Vanessa. Sabrina: Vestígios do Passado: São Paulo: Nova Cultural, 1994.

ROSE, Carol. Julia: Sempre ao meu lado: São Paulo: Nova Cultural, 2000.

 
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