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  ARGUMENTAÇÃO E AUTORIA: O SILENCIAMENTO DO DIZER

Soraya Maria Romano Pacífico- FFCLRP-USP
“A verdade é que a minha atroz função não é resolver e sim propor enigmas, fazer o leitor pensar e não pensar por ele”.
Pausas – Mário Quintana

O objetivo deste trabalho é analisar como alunos, do curso de Psicologia, de uma universidade particular de Ribeirão Preto - SP, trabalham com a compreensão e produção dos sentidos dos textos dissertativo – argumentativos, mais especificamente, como estes sujeitos ocupam as posições de autor e leitor, tomando como base, o conceito de interpretação. A fundamentação teórica sustenta-se nos pressupostos da Análise do Discurso de ‘linha francesa’ (AD), que tem como principal expoente Michel Pêcheux. Com as contribuições da AD, pôde-se avançar nas questões sobre o sentido e procurar compreendê-lo como uma construção com o sujeito, em determinado contexto histórico. Dessa forma, pretende-se aqui investigar a interpretação como uma questão ideológica, vinculada à ideologia das instituições dominantes. Sendo a escola uma instituição, a interpretação deixa de ser um ato livre, e permanece ligada a uma classe que controla os sentidos que podem e devem circular . Em nosso trabalho, ideologia será entendida como mecanismo de naturalização dos sentidos. Para a realização desta pesquisa foram coletadas 200 (duzentas) redações de alunos do primeiro ano de Psicologia de uma universidade particular, produzidas a partir da leitura e discussão de textos de vários gêneros e materialidades simbólicas. As redações foram produzidas como trabalho extraclasse. Analisou-se o funcionamento dos textos a partir dos indícios marcados pelas formas lingüísticas presentes nos mesmos a fim de se compreender como se constrói, em cada redação, a relação do sujeito com o sentido. Do que foi observado, é possível dizer que criar o efeito–autor no texto argumentativo é uma tarefa complicada, pois para argumentar o sujeito precisa mobilizar uma multiplicidade de conhecimentos, ou seja, ele precisa ter acesso ao arquivo, entendido aqui como um campo de documentos disponíveis sobre uma questão. Com base nas análises feitas, pode-se afirmar que o sujeito não tem acesso ao arquivo, pois o conhecimento sobre o referente chega ao aluno pela visão legitimada que o professor tem do objeto, causando assim, no aluno, um silenciamento no seu poder de argumentação. Para nós, a falta do trabalho com o arquivo, nas escolas, provoca a interdição do sujeito à possibilidade de produção do texto argumentativo e, como defendemos, à autoria. Podemos afirmar, enfim, que a autoria, assim como a argumentação exigem que o sujeito assuma a responsabilidade pelo dizer, e isso, a escola nega, pois determinadas vozes (mediadores) detêm o direito de autoria sobre um dizer, e resta aos alunos apenas reproduzir esses sentidos, através de paráfrases. Permitir que o aluno seja autor/leitor, na perspectiva da Análise do Discurso, significa instigá-lo a trabalhar na tensão entre paráfrase (o mesmo ) e polissemia (o diferente), e isso será possível se a escola inserir na história os sentidos dos textos lidos e produzidos pelos sujeitos.


BIBLIOGRAFIA


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