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  LITERATURIZANDO A CIÊNCIA

Luciane Vieira Palma - Faculdade de Educação / FE - Unicamp

Apontada por muitos escritores como um gênero literário mestiço, híbrido, ocupando algum lugar entre o jornalismo e a literatura, a crônica representa para mim uma forma menos estéril e imparcial de apresentação dos resultados obtidos na minha pesquisa de mestrado – “No Morumbi, entre meninos, meninas e tambores: crônicas do cotidiano de uma ONG em São Paulo”. Narrar os (des)caminhos que me levaram a esta opção, bem como discutir os pressupostos teóricos no qual se baseia é o objetivo desta comunicação.


Iniciei minha pesquisa de mestrado em 2003. Minha proposta era conhecer e analisar o cotidiano dos trabalhos desenvolvidos por uma ONG (Organização Não-Governamental), a Associação Meninos do Morumbi, localizada na cidade de São Paulo/ SP para retirar possíveis implicações da metodologia de trabalho adotada pela mesma para a educação escolar, de modo que os êxitos por ela obtidos em termos educacionais apontassem caminhos e/ ou alternativas para a melhora da qualidade do ensino nas escolas.
A Associação Meninos do Morumbi (MM), foi fundada em 1996 por um professor de bateria, morador do bairro do Morumbi em São Paulo/ SP, que no início ensinava garotos das imediações deste mesmo bairro a tocar instrumentos de percussão. Nesta fase, isto ocorria na garagem de sua casa, mas devido ao aumento do número de interessados, passou a fazê-lo nas ruas. Hoje, a Associação conta mais de três mil integrantes entre meninos e meninas e já possui uma sede própria onde, além das tradicionais aulas de percussão, também são oferecidas outras atividades como dança, cavaquinho, jiu-jitsu, capoeira, fotografia, escultura, áudio-digital, moda , teatro, informática e inglês.
Vale ressaltar que toda criança ou adolescente que queira fazer parte da Associação Meninos do Morumbi deve obrigatoriamente fazer aulas de percussão ou de dança. A obrigatoriedade destas atividades se deve à formação da chamada “Banda-show” que, pode-se dizer, é a razão de ser dos Meninos do Morumbi.
A inclusão de um integrante na “Banda-show”não é automática. Primeiramente é necessário que o pretendente se dedique às atividades obrigatórias e demonstre evolução nos quesitos definidos e exigidos pelos professores de cada curso - e também por seu maestro no que se refere especificamente à percussão. Por não ter um número limite de participantes, via de regra a ninguém é impedida a participação na banda, desde que devidamente preparado.
A Associação conta com uma equipe dos mais diversos profissionais responsáveis pelo andamento do projeto. Dentre estes há psicólogos, professores, músicos, profissionais ligados à área administrativa etc. Toda esta estrutura é mantida financeiramente por importantes empresas do setor privado como Pão de Açúcar, parceira do MM, e o apoio de outras como Cultura Inglesa, Britsh Airways, Vitae, além da Secretaria Municipal de Assistência Social de São Paulo, Unicef e Ministério da Cultura.
Vale ressaltar que é possível a participação de qualquer criança ou adolescente nas atividades da MM, independentemente da sua condição sócio-econômica. A única exigência que se faz é que o interessado esteja freqüentando a escola no período oposto ao freqüentado na MM.
A maior parte dos freqüentadores é moradora dos bairros Campo Limpo, Paraisópolis, Morumbi, Vila Sônia, Jardim Jaqueline, Real Parque, Caxingui, e Municípios de Taboão da Serra e Embu, na Grande São Paulo.
Embora esta associação não tenha, no processo de sua criação, movimentos ou associações comunitárias militantes por detrás, isso necessariamente não determina o seu caráter emancipador tampouco seu caráter meramente assistencial, uma vez que dentre estas duas vertentes que, segundo GOHN (2000), são passíveis de serem encontradas sob a égide de Terceiro Setor, há inúmeras combinações possíveis em se tratando de uma realidade específica, podendo ser explicitadas, porém, jamais esgotadas, na vivência cotidiana no/ do projeto.
Sendo assim, em julho de 2003 iniciei o trabalho de observação das aulas ministradas na Associação. Nesta que irei chamar de primeira fase da pesquisa, eu entrava na sala com a autorização prévia do professor e me sentava num canto onde pudesse observar e anotar tudo quanto se passava nestas aulas que me chamasse atenção: disposição dos alunos na sala, a relação professor-aluno, aluno-professor e aluno-aluno, atividades oferecidas, forma como o professor as conduzia, como era o comportamento dos alunos na sala etc. Além disso, às vezes conversava com o professor no final da aula e com um ou outro aluno que encontrasse no corredor ou no pátio. Mas desde a minha chegada na Associação até a hora de ir embora, tudo o que lá eu visse, registrava no meu caderno de campo.
Estas observações tinham como foco de análise a forma como estes cursos eram planejados e também seus conteúdos, suas dinâmicas, assim como os critérios e forma utilizada na avaliação.
Na verdade, estes focos observados nos atendimentos e cursos fazem parte de uma complexa rede de relações que é muito mais ampla, construída para além dos limites de suas intenções específicas. Sua construção se dá nos diversos e dinâmicos espaços e tempos da vida cotidiana, onde e quando, segundo ALVES (2001), são muito mais difíceis de captar, pois nunca estão dentro dos padrões pré-determinados. Por isso, observá-los era ir além do que se via, do que se ouvia, do que se sentia – desde cheiros até texturas – passando (por que não?) pela própria intuição.
Procurei, então, nesta primeira fase, realizar anotações que fossem muito além do que eu observava durante as aulas dos cursos oferecidos na Associação, incluindo até situações aparentemente simples vividas no dia-a-dia, como encontros num corredor, na cantina, no portão da sede - situações estas que muitas vezes são consideradas irrelevantes, mas que podem se tornar imprescindíveis para a compreensão da lógica do cotidiano da Associação.
A chamada pesquisa no/ do cotidiano em cujos pressupostos se baseou este estudo, tem quatro aspectos que, segundo ALVES (op. cit) são necessários na busca de uma cada vez maior e mais profunda compreensão da complexidade que envolve o próprio cotidiano. Dentre eles, destaco um inicialmente: “É preciso executar um mergulho com todos os sentidos no que desejo estudar” (p.19, grifo da autora), algo que vai completamente contra o paradigma moderno de ciência que presume/ exige o quanto possível, um distanciamento do pesquisador do seu objeto de pesquisa.
E foi principalmente este aspecto que motivou, nesta fase do estudo, o aparecimento de alguns pontos relativos à metodologia de trabalho que me incomodaram.
Conquanto acreditasse que fosse possível pesquisar o cotidiano estando inserida nele, como fazer isso num local onde eu era uma desconhecida, uma peça colocada no meio de um jogo já iniciado? Várias vezes, nos dias em que estive na sede da MM “produzindo” meus dados, tive a sensação de lá ocupar aquilo que SOUZA (2003) chama de “entrelugar das formas complexas, híbridas e miscigenadas do próprio cotidiano” (p. 245): eu não fazia parte daquele cotidiano e tinha a pretensão (?) de desvendá-lo, sem, porém, ter sobre ele um olhar asséptico. Eu não era/ queria/ podia ser uma pesquisadora convencional, porém me sentia muitas vezes perambulando pela Associação: sem par, sem vínculos, sem laços... Isso foi minimizado nas vezes em que lá cheguei e alguém me cumprimentou com um beijo, por exemplo, e, maximizado, quando pessoas já conhecidas passavam por mim indiferentes , sem dizer sequer um “oi”.
Lembro-me de me sentir constrangida, envergonhada, invasora... Resquícios, talvez, do meu modo cartesiano de ver e viver o pesquisador: aquele que recolhe dados, analisa-os friamente e a distância, que tem olhos exclusivos para o seu objeto de análise sem considerar o seu contexto e a complexidade do todo em que está inserido. Esta que SOUZA (2003) chama de “situação de cotidianeidade”, como tal

parece indicar a existência de fronteiras no cotidiano, uma rede de contextos em que muitas significações interagem, abrindo possibilidades de entrelugares: deslocamentos que realizam estranhamentos, como uma ponte que se desloca e nos leva a transitar por territórios culturais diferentes, realizando uma estranha tessitura ao caminhar, ‘aqui e lá, de todos os lados, (...) para lá e para cá, para frente e para trás (Bhabha, 1998, p.19), num movimento de ir e vir, no território do inter, nos invadindo e nos desnorteando, provocando distanciamento do familiar, e exigindo novas significações (p. 246, grifos da autora).

Enquanto organizava os dados produzidos nesta fase, minha dificuldade de inserção no espaço do estudo se tornou ainda mais presente, pois relendo-os, sentia o meu distanciamento daquele cotidiano, e se tornava clara a qualidade do meu olhar sobre o mesmo: um olhar externo e aparentemente superficial que se traduziu em textos puramente descritivos, que não refletiam a dimensão da experiência vivenciada tampouco a sua complexidade.
A partir destas constatações, um novo rumo teria que ser dado à pesquisa, tendo como certo que esta primeira fase de muito valeu para uma primeira aproximação, para um tateamento daquela realidade, tão rica e complexa como qualquer outra e tendo como certo também o que nos lembra PAIS (2003):

na aplicação de métodos qualitativos os desenhos de investigação são emergentes e em cascata, uma vez que se vão elaborando à medida que a investigação avança. Os questionamentos são contínuos e as reformulações constantes, em função da descoberta de novos dados e de novas interpretações. Esta metodologia flexibiliza os procedimentos de investigação, permitindo uma adequação às múltiplas realidades que se vão descobrindo (p.144, grifos do autor).

Sendo assim, a decisão tomada em conjunto com a minha orientadora de pesquisa foi a seguinte: a partir de 2004, eu iria passar a pesquisar o cotidiano da Associação Meninos do Morumbi como uma integrante, ou seja, eu iria freqüentar os cursos da MM como aluna. Isso contribuiria para a construção de um outro canal de comunicação com alunos e professores e uma outra forma de perceber aquela realidade: sentindo-a na pele, encarnando um dos papéis mais importantes da Associação ou o motivo de sua existência.
Tendo sido autorizada pela Associação a assim proceder, dei início a essa nova fase da pesquisa.
Ao mesmo tempo em que me sentia eufórica por estar na eminência de vivenciar uma nova forma de pesquisar, forma esta que me parecia muito mais próxima dos pressupostos metodológicos que eu utilizava, sentia-me meio constrangida por vivê-la. Afinal de contas, eu iria fazer coisas que jamais tinha feito na vida como tocar um instrumento, e juntamente com pessoas bem mais novas: será que eu conseguiria um desempenho como na média aqueles jovens e crianças se desempenhavam ou daria vexame? Será que eu teria dificuldades muito sérias para aprender o que ensinavam nos cursos? Será que eu atrapalharia o andamento das
Estas preocupações, embora não relacionadas diretamente aos meus objetivos de pesquisa, podem dar a medida do que há de mais humano na minha tentativa de mergulhar cada vez mais fundo no cotidiano dos MM: os sentimentos, que alguém até poderia chamar ou classificar como tolos ou mesmo infantis, porém como quaisquer outros sentimentos, espontâneos. E eu os utilizei a meu favor para me aproximar dos outros integrantes das turmas. No primeiro dia de aula de percussão, por exemplo, fiquei conversando com alguns integrantes sobre já saberem ou não tocar algum instrumento, se estavam ansiosos para começar a aula, se estavam sentindo um “friozinho na barriga”... E isso me ajudou a me descontrair e acho que também a alguns deles.
Interessante notar como há uma dança de papéis nesta situação: torno-me uma aluna dos MM para poder me aproximar da sua realidade. Este papel me absorve tanto que tenho que lidar com sentimentos típicos de alunos em início de curso, mas ao mesmo tempo não devo perder a noção do meu verdadeiro papel de pesquisadora em função do qual me tornei uma aluna. Mais uma vez sou envolvida pelo hibridismo típico da complexidade do cotidiano.
Freqüentei como aluna três cursos nos MM: percussão, dança e fotografia.
Posso dizer que muitas coisas mudaram a partir do momento que passei a ser esta aluna/ pesquisadora. Como previsto, fiquei muito mais próxima das pessoas principalmente dos alunos, mas também de funcionários e professores.
Além desta participação como integrante, tenho me valido de outros instrumentos de investigação, como encontros, trocas de idéias com a equipe da Associação (e também com pessoas que freqüentam/ trabalham/ visitam a MM). Nestes momentos, procuro captar suas posições, suas percepções, suas práticas, seus referencias teóricos, formação, experiências em educação e/ ou outras áreas, apreciação que fazem do próprio trabalho no conjunto das ações educacionais da Associação.
Da mesma forma, continuei conhecendo o que pensavam as crianças e jovens da Associação, procurando saber o que os motivava a freqüentarem os programas que a mesma lhes propicia e quais interferências esses programas têm na vida escolar de cada um.
Também foi muito interessante acompanhar os contatos que a Associação fez com as famílias dos integrantes, através do programa “Família e seus contextos” , o que contribui para que de certa forma seja fosse conhecido pensam os pais em relação ao trabalho realizado na Associação.
Além disso, tenho criado momentos de entrevista formais com várias pessoas da MM, entrevistas estas que gravadas em cassete.
Como se vê, minha proposta metodológica implicou em reunir uma quantidade tão grande quanto diversificada de informações ao longo da pesquisa e para organizá-las não poderia perder de vista o fato de que o cotidiano é algo que se tece diariamente, e que estas informações fazem parte de um conjunto de conhecimentos interligados constante e infinitamente. Além disso, é imprescindível que esta organização dos dados produzidos explicite que aquilo que foi visto, sentido, destacado é fruto da minha percepção e por isso carregado, como não poderia deixar de ser, da minha forma de ver o mundo, de interpretar a realidade. Ou seja, é preciso prezar para que a organização dos dados produzidos especifique o lugar de onde fala o pesquisador. Este gesto, segundo NAJMANOVICH (2001),

não é um mero indicativo, nem uma regra protocolar. Ao contrário, trata-se de uma afirmação: ética, porque indica a decisão do falante de fazer-se responsável por seu discurso; estética, já que reconhece a importância do conteúdo, da forma e dos vínculos específicos que esta cria; e política, porque pretende um lugar no
emaranhado de relações contemporâneas (p. 8).

Desta forma, retorno o início deste texto pois considero oportuno ainda destacar mais um dos quatro aspectos levantados por ALVES (op. cit.) em relação à pesquisa no/ do cotidiano, sendo ele “narrar a vida e literaturizar a ciência”. Isto, segundo a autora, se traduziria numa escrita que

não obedeça à linearidade de exposição, mas que teça, ao ser feita, uma rede de
múltiplos, diferentes e diversos fios; que pergunte muito além de dar respostas; que
duvide no próprio ato de afirmar, que diga e desdiga, que construa uma outra
rede de comunicação, que indique talvez, uma escrita/ fala, uma fala/ escrita ou uma fala/
escrita/ fala (p.29, grifos da autora).

Sendo assim, apresentarei os dados produzidos durante a minha imersão no cotidiano da Associação Meninos do Morumbi na forma de pequenas crônicas, todas baseadas em fatos vivenciados neste cotidiano, porém (re)inventando-o. Esta “reinvenção” me permitirá expressar minhas idéias de uma forma muito mais envolvente e menos estéril e asséptica do que a mera descrição permitiria. Da mesma forma, permitirá ao leitor participar ativa, pessoal e inteiramente daquilo que ocorre na Associação e que ao meu ver é passível de análise. Sendo assim, nestas crônicas, virão à tona as percepções que tive durante os episódios, o que presumi e o que inferi sobre o fato narrado. Ainda segundo ALVES (op.cit), “é preciso pois que eu incorpore a idéia que ao narrar uma história, eu a faço e sou um narrador praticante ao traçar/ trançar as redes dos múltiplos relatos que chegaram/ chegam até mim, neles inserindo sempre, o fio do meu modo de contar” (p.32, grifo da autora). Acredito que esta é, se não a única, uma das poucas formas que me permitirá conduzir o leitor para o interior da Associação e fazê-lo entender pouco a pouco o que lá se vive e se faz na busca de atingir os objetivos a que a própria Associação se propõe.
Se o meu estudo estivesse pautado nos pressupostos da ciência moderna, para demonstrar a validade dos dados produzidos, eu deveria utilizar nesta tradução uma linguagem que configurasse a minha neutralidade em relação ao conhecimento que estaria sendo produzido e, a minha imparcialidade diante da realidade vivenciada. Para isso, deveria me valer de um discurso impessoal e tentar descrever da forma mais clara e objetiva possível, e por isso mesmo estéril, toda a minha experiência.
Ocorre que este trabalho se pauta nos pressupostos pós-modernos de ciência ou, como diria SANTOS (1995), no “Paradigma Emergente”. Sendo assim,

a transgressão metodológica repercute-se nos estilos e géneros literários que residem à escrita científica. A ciência pós-moderna não segue um estilo unidimensional, facilmente identificável; o seu estilo é uma configuração de estilos construída segundo o critério e a imaginação pessoal do cientista. A tolerância discursiva é o outro lado da pluralidade metodológica (p.49).

Diante disso, a opção por apresentar os dados na forma de crônicas responde a vários anseios deste estudo.
Primeiramente, no que se refere à própria natureza da Crônica, que é considerada por muitos escritores como um gênero mestiço, híbrido pois ocuparia um espaço (por que não um “entrelugar”?) entre o jornalismo e a literatura . Ou de uma forma mais poética, atribuiria lirismo ao cotidiano.
Antes de um olhar lírico sobre o cotidiano dos MM, mas não me furtando a ele, o que eu buscarei com as crônicas escritas a partir da minha vivência na Associação, é comportar-me como um cronista em relação a um jornalista. Este último “tende a buscar a verdade sem deixar margens a interpretações (...) [como pretende um pesquisador com tendências positivistas] enquanto o cronista abandona a neutralidade e a impessoalidade” ao narrar a vida.
Um outro fator que me estimula a escrever crônicas sobre minha vivência na Associação é que estes pequenos textos poderão ser encarados como uma alegoria ao próprio cotidiano que é, por si só, fragmentado. Os fatos cotidianos não obedecem, por assim dizer, a uma linearidade temporal, não obedecem a uma sucessão lógica. Ao contrário, os fatos se entrecortam: tudo se passa ao mesmo tempo e de alguma forma se relaciona a tudo, o que dá margem a infinitas formas de se tecer este cotidiano.
Ao escrever uma crônica, estarei iluminando uma parte deste cotidiano, um fragmento do mesmo, em contraposição ao obscurecimento da totalidade do real, a qual jamais possuiremos. Segundo PAIS (op. cit) “nesta forma de aproximação ao social, a realidade apenas se insinua, não se entrega. Mas é assim mesmo que, na perspectiva da sociologia do quotidiano, ela tem de ser imaginada, descoberta, construída” (p. 27).
Além disso, embora as crônicas venham a tratar de uma situação específica, vivenciada, os detalhes que a enriquecerão não necessariamente terão ocorrido no mesmo espaço-tempo. São detalhes oriundos de outras vivências, outras observações, frutos de conversas e/ ou entrevistas.
PAIS (op.cit) nos ensina sobre o uso da literatura como fonte documental que “com todos os seus artifícios, o texto literário inventa a trama que encadeia os acontecimentos na vida cotidiana, não apenas dando sentido à história, como produzindo também uma historicidade: significativa,representativa”(p.155) A linguagem literária é uma contraposição à linguagem gélida, esvaziada, redutora em que se transformou a linguagem utilizada nos textos científicos, uma linguagem, repito, que responde às suas intenções de redução do real ao formal, à reificação da realidade, ao engodo da manutenção da distância e neutralidade do pesquisador em relação ao seu objeto de pesquisa.
Para que o leitor possa conciliar a apreensão desse cotidiano, a sua complexidade com o que pretendo atingir como objetivo deste estudo, estas crônicas terão uma organização particular. Serão compostas por fatos do cotidiano que de alguma forma respondam às questões postas nesta pesquisa - podendo ser recolhidas do diário de campo, das gravações das aulas, das entrevistas – e discussões e referências teóricas que permitam e/ ou de alguma forma contribuam para elucidá-lo.
Sendo assim, à margem de cada uma das crônicas, trançarei comentários, discussões e posições teórico/ metodológicas que funcionarão como um ponto de encontro entre mim e o leitor. Nesse ponto vão se cruzar o meu modo de explicar e entender um dado com aquilo que o leitor pensar sobre ele, concordando, discordando, ampliando a discussão.
Desta forma, não nos bastará um único referencial para compreender este cotidiano e nem mesmo o que se aprendeu com a ciência moderna, que divide para analisar. Será preciso multiplicar – as teorias, os conceitos, os métodos - (aquilo que Alves (op. cit.) chama de “beber em todas as fontes”) para dar conta, sempre parcialmente, do que se apreende dos fatos conhecidos. Para PAIS (op.cit.),

ao contrário das tradições sociológicas mais positivistas, que exigem um ‘quadro teórico de partida’ que por vezes, enquadra excessivamente o percurso da investigação, em ambiente qualitativo a primazia deve colocar-se em torno das problemáticas de investigação, embora construídas com sensibilidade teórica, naturalmente. O esforço de teorização mais criativo vem depois, em articulação directa com a pesquisa de terreno (p. 146).

Em relação a esta questão, cabe também ressaltar que este estudo se identifica com aquilo que PAIS define como “lógica da descoberta”, que instiga o pesquisador a ir muito além daquilo que suas hipóteses iniciais e o seu quadro teórico a princípio lhe permitiriam, e por caminhos que não seria capaz de prever. Rompe, portanto com a chamada “lógica da demonstração”, que obriga o pesquisador a uma perseguição tão rígida quanto obstinada das suas hipóteses iniciais, dificultando, ou até mesmo impedindo, que se deixe sensibilizar pela diversidade, riqueza e complexidade que envolve cada fenômeno.
Os estudos de Michel de Certeau, Edgar Morin, Boaventura de Sousa Santos e José Machado Pais serão nossos companheiros, nossos faróis, aqueles que nos permitirão dinamizar nossa percepção do cotidiano em estudo. Além destes, outros autores certamente surgirão durante o percurso deste estudo e a eles recorrerei sempre que puderem emprestar à narrativa uma profundidade maior e um melhor entendimento, nessa tentativa de descobrir, de ir além do que minhas idéias são capazes de atingir, de antever, de especular.
A seguir, a título de ilustrar e de orientar o leitor sobre como pretendo analisar o cotidiano em estudo, por meio da crônica, apresento uma de minhas imersões nessa metodologia e saliento que a forma como me propus a realizar os comentários - à margem de cada crônica - é apenas uma possibilidade de analisar os dados e por isso aguardo a manifestação dos que compõem esta banca em relação à sua pertinência.
Minha intenção é atingir os objetivos deste trabalho, sem contudo, tirar dos possíveis leitores a possibilidade de se envolverem com o assunto tratado e ter- me apenas como mais um companheiro/ interlocutor.
Certamente o sentido que foi engendrado pelo texto não se esgota no que eu pude beber do assunto até então.

Referências Bibliográficas

ALVES, Nilda. Decifrando o pergaminho – o cotidiano das escolas na lógica das redes cotidianas. In: OLIVEIRA, Inês B. de e ALVES, Nilda (Orgs.). Pesquisa no/ do cotidiano das escolas: sobre rede de saberes. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

GOHN, Maria da Glória. Mídia, Terceiro Setor, MST: impactos sobre o futuro das cidades e do campo.
Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

MORIN, Edgar. A cabeça bem feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Tradução por Eloá Jacobina. 5ª ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2001.

NAJMANOVICH, Denise. O sujeito encarnado: questões para pesquisa no/ do cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

PAIS, José Machado. Vida cotidiana: Enigmas e revelações. São Paulo: Cortez, 2003.

SANTOS, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre as ciências. (7ª. ed.)
Porto:Afrontamento, 1995.

SOUZA, Maria Izabel Porto de. Fronteiras do cotidiano. In: GARCIA, Regina Leite. Método: pesquisa com o cotidiano. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.

 
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