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  A FALTA DE LEITURA COMO FATOR PARA A INCOMPREENSÃO DE UM TEXTO LITERÁRIO

Priscila Pereira Paschoa - UNESP – IBILCE

Relato da experiência

No início do ano letivo, ministrei aulas no ensino médio da escola estadual da cidade de Urupês, Estado de São Paulo. Nas três séries em que trabalhei, foi possível perceber um problema grave que persiste desde os tempos em que fui aluna dessa escola (ano 2000): a falta de leitura dos alunos e, conseqüentemente, a falta de maturidade para a compreensão tanto de textos que articulam realidade, fantasia e reflexão sobre essas instâncias quanto do porquê se deve ler esse tipo de material, principalmente o literário.
Na primeira série, percebi que parte dos alunos ainda sente dificuldade em apreender o sentido de um parágrafo inteiro: para eles, estabelecer a articulação entre as frases de um parágrafo, compreendendo a que ponto o autor quer chegar, é uma tarefa, muitas vezes, inalcançável. Do parágrafo para o texto como um todo, à proporção do aumento da complexidade das unidades da mensagem escrita, a dificuldade de compreensão amplia-se. Ao fim da leitura, se o professor perguntar do que trata o texto, ninguém consegue afirmar com precisão. Os que respondem acabam fixando-se em algum trecho e, pelo fato de terem-no considerado mais interessante, dizem que o texto trata do assunto topicalizado por aquele trecho. Existe uma dificuldade de articular os parágrafos e concluir sobre a questão principal trazida pelo texto, principalmente se ele é extenso. Quando é, a tendência é a de os alunos se perderem ao longo da leitura e esquecerem de “amarrar” todas as partes que leram. Mesmo depois de uma explicação minuciosa, se o professor pede uma redação para os alunos refletirem sobre o que leram, a maioria da classe acaba produzindo meia página de texto, tomando como direcionamento o detalhe mais apreciado, ou seja, um detalhe que, em virtude de uma má interpretação, por parte dos alunos, do material lido, o professor teve que enfatizar na explicação. Assim, boa parte da classe, sem realizar um encadeamento reflexivo, rapidamente escreve uma paráfrase da explicação fragmentada do professor. Se o texto é literário, a situação agrava-se, pois, tendo em vista as ambigüidades promovidas por esse tipo específico de discurso, a dificuldade que era maior na articulação do texto como um todo antecipa-se já ao nível da frase. Desse modo, compreender o ponto de vista do autor, do narrador ou do eu-lírico, considerando a complexidade das relações sintáticas e semânticas, entre outras, que compõem o texto, passa a ser uma tarefa mais lenta. Observando essa dificuldade, há alunos que questionam a validade de se ler um texto literário, se isso irá ajudar ou piorar a capacidade de leitura e interpretação de cada estudante. Essa é uma realidade que se verifica também nas outras duas séries do ensino médio. A maioria dos alunos quer objetividade, clareza nos textos, a fim de não “perder tanto tempo” com uma atividade que pode ser facilitada. Num mundo em que predomina o visual e a rapidez possibilitada pela tecnologia, os estudantes não têm paciência para desvendar as particularidades de um texto, muito menos o que eles consideram “os mistérios” de uma obra artística.
Os problemas aqui apresentados podem ser entendidos como decorrentes, principalmente, da falta de leitura dos alunos, pois o desenvolvimento da capacidade de compreensão depende de etapas de estudo, e elas são superadas por meio de estímulos promovidos justamente pela leitura dos mais diversos tipos de texto. Mesmo que o aluno leia num mesmo momento textos de níveis variados de complexidade e, por isso, consiga entender uns, mas não outros, em virtude da tentativa de progredir diante daquela situação de facilidades até a etapa de aprendizagem à qual a escola pôde conduzi-lo, seu cérebro torna-se mais preparado para compreender qualquer texto convencionalmente estipulado pelo sistema de ensino, para alunos naquela fase de desenvolvimento intelectual.
Para compreender e depois estudar um texto literário, é preciso, antes de tudo, um posicionamento enquanto leitor, procurando definir qual é a voz que se apresenta no texto (se é uma ou se são várias) e a que questão ela leva ou, então, por exemplo, pensando na forma de apresentação da problemática ao leitor, como essa entidade trata a questão ali instaurada. Numa sala de segunda série, quando introduzi o poema “A cruz mutilada” de Alexandre Herculano, notei um grande desinteresse dos alunos em levar adiante aquela leitura. Para eles, era um texto sem nenhuma ligação com o momento atual da vida deles e, por isso, não merecia atenção. Num momento como esse, o professor deve saber motivar a turma, explicando onde está a importância de se estudar o referido poema. Tendo em vista o texto como aspecto principal a se estudar numa aula de literatura, considera-se a linguagem o tópico fundamental a ser destrinchado pelo professor. Leia-se o poema de Herculano (1980, p.126-127 e 1999, p.154):

“A cruz mutilada”

Amo-te, oh cruz, no vértice, firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas;
Amo-te sobre o altar, onde, entre incensos,
As preces te rodeiam;
Amo-te quando em préstito festivo
As multidões te hasteiam;
Amo-te erguida no cruzeiro antigo,
No adro do presbitério,
Ou quando o morto, impressa no ataúde,
Guias ao cemitério;
Amo-te, oh cruz, até, quando no vale
Negrejas triste e só,
Núncia do crime, a que deveu a terra
Do assassinado o pó:

Porém, quando mais te amo,
Oh cruz do meu Senhor,
É se te encontro à tarde,
Antes de o Sol se pôr,

Na clareira da serra,
Que o arvoredo assombra,
Quando à luz que fenece
Se estira a tua sombra,

E o dia últimos raios
Com o luar mistura,
E o seu hino da tarde
O pinheiral murmura.

*
E eu te encontrei, num alcantil agreste,
Meia quebrada, oh cruz. Sozinha estavas
Ao pôr do Sol, e ao elevar-se a Lua
Detrás do calvo cerro. A soledade
Não te pôde valer contra a mão ímpia,
Que te feriu sem dó. As linhas puras
De teu perfil, falhadas, tortuosas,
Oh mutilada cruz, falam de um crime
Sacrílego, brutal e ao ímpio inútil!
A tua sombra estampa-se no solo,
Como a sombra de antigo monumento,
Que o tempo quase derrocou, truncada.
No pedestal musgoso, em que te ergueram
Nossos avós, eu me assentei. Ao longe,
Do presbitério rústico mandava
O sino os simples sons pelas quebradas
Da cordilheira, anunciando o instante
Da ave-maria; da oração singela,
Mas solene, mas santa, em que a voz do homem
Se mistura nos cânticos saudosos,
Que a natureza envia ao Céu no extremo
Raio de sol, pasmado fugitivo
Na tangente deste orbe, ao qual trouxeste
Liberdade e progresso, e que te paga
Com a injúria e o desprezo, e que te inveja
Até, na solidão, o esquecimento!

*
Foi da ciência incrédula o sectário,
Acaso, oh cruz da serra, o que na face
Afrontas te gravou com mão profusa?
Não! Foi o homem do povo, a quem consolo
Na miséria e na dor constante hás sido
Por bem dezoito séculos: foi esse
Por cujo amor surgias qual remorso
Nos sonhos do abastado ou do tirano.
Bradando – esmola! a um; piedade! ao outro.

Oh cruz, se desde o Gólgota não foras
Símbolo eterno de urna crença eterna;
Se a nossa fé em ti fosse mentida,
Dos opressos de outrora os livres netos
Por sua ingratidão dignos de opróbrio,
Se não te amassem, ainda assim seriam.
Mas és núncia do Céu, e eles te insultam,
Esquecidos das lágrimas perenes
Por trinta gerações, que guarda a campa.
Vertidas a teus pés nos dias torvos
Do seu viver d'escravidão! Deslembram-se

De que se a paz doméstica, a pureza
Do leito conjugal bruta violência
Não vai contaminar, se a filha virgem
Do humilde camponês não é ludíbrio
Do opulento, do nobre, oh Cruz, o devem;
Que por ti o cultor de férteis campos
Colhe tranqüilo da fadiga o prêmio,
Sem que a voz de um senhor, qual dantes, dura
Lhe diga: «É meu, e és meu! A mim deleites,
Liberdade, abundância: a ti, escravo,
O trabalho, a miséria unido à terra,
Que o suor dessa fronte fertiliza,
Enquanto, em dia de furor ou tédio,
Não me apraz com teus restos fecundá-la.»

Quando calada a humanidade ouvia
Este atroz blasfemar, tu te elevaste
Lá do Oriente, oh Cruz, envolta em glória,
E bradaste, tremenda, ao forte, ao rico:
«Mentira!», e o servo alevantou os olhos,
Onde a esperança cintilava, a medo,
E viu as faces do senhor retintas
Em palidez mortal, e errar-lhe a vista
Trépida, vaga. A cruz no céu do Oriente
Da liberdade anunciara a vinda.

Cansado, o ancião guerreiro, que a existência
Desgastou no volver de cem combates,
Ao ver que, enfim, o seu país querido
Já não ousam calcar os pés d'estranhos,
Vem assentar-se à luz meiga da tarde,
Na tarde do viver, junto do seixo
Da montanha natal. Na fronte calva,
Que o sol tostou e que enrugaram anos,
Há um como fulgor sereno e santo.
Da aldeia semideus, devem-lhe todos
O teto, a liberdade, e a honra e vida.
Ao perpassar do veterano, os velhos
A mão que os protegeu apertam gratos;
Com amorosa timidez os moços
Saúdam-no qual pai. Nus largas noites
Da gelada estação, sobre a lareira
Nunca lhe falta o cepo incendiado;
Sobre a mesa frugal nunca, no estio,
Refrigerante pomo. Assim do velho
Pelejador os derradeiros dias
Derivam para o túmulo suaves,
Rodeados de afeto, e quando à terra
A mão do tempo gastador o guia,
Sobre a lousa a saudade ainda lhe esparze
Flores, lágrimas, bênçãos, que consolem
Do defensor do fraco as cinzas frias.

Pobre cruz! Pelejaste mil combates,
Os gigantes combates dos tiranos,
E venceste. No solo libertado,
Que pediste? Um retiro no deserto,
Um píncaro granítico, açoutado
Pelas asas do vento e enegrecido
Por chuvas e por sóis. Para ameigar-te
Este ar húmido e gélido a segure
Não foi ferir do bosque o rei. Do Estio
No ardor canicular nunca disseste:
«Dai-me, sequer, do bravo medronheiro
O desprezado fruto!» O teu vestido
Era o musgo, que tece a mão do Inverno
E Deus criou para trajar as rochas.
Filha do céu, o céu era o teu teto,
Teu escabelo o dorso da montanha.
Tempo houve em que esses braços te adornava
C'roa viçosa de gentis boninas,
E o pedestal te rodeavam preces.
Ficaste em breve só, e a voz humana
Fez, pouco a pouco, junto a ti silêncio.
Que te importava? As árvores da encosta
Curvavam-se a saudar-te, e revoando
As aves vinham circundar-te de hinos.
Afagava-te o raio derradeiro,
Frouxo do Sul ao mergulhar nos mares.
E esperavas o túmulo. O teu túmulo
Devera ser o seio destas serras,
Quando, em Gênesis novo, à voz do Eterno,
Do orbe ao núcleo fervente, que as gerara,
Elas nus fauces dos bolcões descessem.
Então para essa campa flores, bênçãos,
Ou é saudade lágrimas vertidas,
Qual do velho soldado a lousa pede,
Não pediras à ingrata raça humana,
Ao pé de ti no teu sudário envolta.

*
Este longo esperar do dia extremo,
No esquecimento do ermo abandonada,
Foi duro de sofrer aos teus remidos,
Oh redentora cruz. Eras, acaso,
Como um remorso e acusação perene
No teu rochedo alpestre, onde te viam
Pousar tristonha e só? Acaso, à noite,
Quando a procela no pinhal rugia,
Criam ouvir-te a voz acusadora
Sobrelevar à voz da tempestade?
Que lhes dizias tu? De Deus falavas,
E do seu Cristo, do divino mártir,
Que a ti, suplício e afronta, a ti maldita
Ergueu, purificou, clamando ao servo,
No seu transe: «Ergue-te, escravo!
És livre, como é pura a cruz da infâmia.
Ela vil e tu vil, santos, sublimes
Sereis ante meu Pai. Ergue-te, escravo!
Abraça tua irmã: segue-a sem susto
No caminho dos séculos. Da Terra
Pertence-lhe o porvir, e o seu triunfo
Trará da tua liberdade o dia.»

Eis porque teus irmãos te arrojam pedras,
Ao perpassar, oh cruz! Pensam ouvir-te
Nos rumores da noite, a antiga história
Recontando do Gólgota, lembrando-lhes
Que só ao Cristo a liberdade devem,
E que ímpio o povo ser é ser infame.
Mutilado por ele, a pouco e pouco,
Tu em fragmentos tombarás do cerro,
Símbolo sacrossanto. Hão-de os humanos
Aos pés pisar-te; e esquecerás no mundo.
Da gratidão a dívida não paga
Ficará, oh tremenda acusadora,
Sem que as faces lhes tinja a cor do pejo;
Sem que o remorso os corações lhes rasgue.
Do Cristo o nome passará na Terra.

*
Não! Quando, em pó desfeita, a cruz divina
Deixar de ser perene testemunha
Da ávida crença, os montes, a espessura,
O mar, a Lua, o murmurar da fonte,
Da natureza as vagas harmonias,
Da cruz em nome, falarão do Verbo.

Dela no pedestal, então deserto,
Do deserto no seio, ainda o poeta
Virá, talvez, ao pôr do Sol sentar-se;
E a voz da selva lhe dirá que é santo
Este rochedo nu, e um hino pio
A solidão lhe ensinará e a noite.

Do cântico futuro unta toada
Não sentes vir, oh cruz, de além dos tempos
Da brisa do crepúsculo nus asas?
É o porvir que te proclama eterna;
É a voz do poeta a saudar-te.

*
Montanha do Oriente,
Que, sobre as nuvens elevando o cume,
Divisas logo o Sol, surgindo a aurora,
E que, lá no Ocidente,
Última vez seu radioso lume,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Rochedo, que descansas
No promontório nu e solitário,
Como atalaia que o oceano explora,
Alheio às mil mudanças
Que o mundo agitam turbulento e vário,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Sobros, robles frondentes,
Cuja sombra procura o viandante,
Fugindo ao Sol a prumo que o devora,
Nesses dias ardentes
Em que o Leão nos céus passa radiante,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Oh mato variado,
De rosmaninho e murta entretecido,
De cujas tênues flores se evapora
Aroma delicado,
Quando és por leve aragem sacudido,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Oh mar, que vais quebrando
Rolo após rolo pela praia fria,
E fremes som de paz consoladora,
Dormente murmurando
Na caverna marítima sombria,
Em li minha alma a eterna cruz adora.

Oh Lua silenciosa,
Que em perpétuo volver, seguindo a Terra,
Esparzes tua luz ameigadora
Pela serra formosa,
E pelos lagos que em seu seio encerra,
Em ti minha alma a eterna cruz adora.

Debalde o servo ingrato
No pó te derribou
E os restos te insultou,
Oh veneranda cruz:

Embora eu te não veja
Neste ermo pedestal;
És santa, és imortal;
Tu és a minha luz!

Nas almas generosas
Gravou-te a mão de Deus,
E, à noite, fez nos céus
Teu vulto cintilar.

Os raios das estrelas
Cruzam o seu fulgor;
Nas horas do furor
As vagas cruza o mar.

Os ramos enlaçados
Do roble, choupo e til
Cruzando em modos mil,
Se vão entretecer.

Ferido, abre-o guerreiro
Os braços, solta um ai,
Pára, vacila, e cai
Para não mais se erguer.

Cruzado aperta ao seio
A mãe o filho seu,
Que busca, mal nasceu,
Fontes da vida e amor.

Surges; símbolo eterno,
No Céu, na Terra e mar,
Do forte no expirar,
E do viver no alvor!

Verifica-se, em primeiro lugar, uma linguagem sóbria e erudita, da qual emerge uma voz contemplativa em relação à cruz firmada no alto de igrejas. É construída uma forte adoração ao objeto sagrado, citando-se as situações que permitem a apreciação e exaltando-se o momento no qual o eu-lírico mais ama a cruz: à tarde, antes de o sol se pôr. Ao divino é reservado o agradecimento pela passagem de mais um dia de vida: é o motivo da escolha do pôr-do-sol como o momento de maior adoração da cruz.
O ideal é proceder, primeiramente, a uma leitura superficial e discutir qual a atmosfera lírica em que se realiza o poema. Depois de elencados elementos essenciais do texto, parte-se para uma leitura mais aprofundada, articulando forma e conteúdo, para construir sentidos. Examinam-se as semelhanças sonoras e o seu grau de intensidade, a fim de perceber quais efeitos de sentido elas promovem: não há rimas em todos os versos, mas em apenas dois de cada estrofe de quatro versos, criando uma musicalidade que marca de uma certa maneira o sentimento do eu-lírico. O verso com o qual o sujeito do poema inicia a estrofe não apresentará rima com outro, conduzindo, assim, ao próximo verso, que, não gratuitamente, encaminhar-se-á para a rima, pontuando o alto grau de adoração proferido pelo eu-lírico. Instaura-se uma divisão entre o início e o fim da estrofe, como se, antes de ver a cruz, o eu-poético estivesse carente de uma proteção e, depois de vê-la e adorá-la, ele se transformasse para um estado ou situação melhor, sentindo-se iluminado. A cruz marca, desse modo, um caminho, o do bem, e, por exemplo, em cada estrofe de quatro versos, esse caminho é delineado, por meio da sonoridade, das rimas intercaladas.
É esta capacidade de percepção que o professor deve apresentar aos alunos, a fim de levá-los, depois, a desenvolverem a deles. Um texto literário genuíno, plurissignificativo, é o que permite um grande número de interpretações possíveis. Então, em seguida a uma leitura mais aprofundada de “A cruz mutilada”, o professor pode trazer um outro texto poético passível de comparação com o poema focalizado, com o objetivo de avaliar o grau de literariedade de cada um deles. Agindo dessa maneira, o docente começa a esclarecer à classe o que é literatura enquanto discurso particular em relação à realidade empírica e como proceder diante das várias possibilidades de leitura e interpretação de um texto literário.
Um poema a ser comparado com “A cruz mutilada” pode ser “A estátua jacente” de Orides Fontela (1988, p.68-69), em que, apesar de também haver a contemplação de um objeto estático, apreciável respeitosamente pelo observador, há recursos de linguagem consideravelmente contrastantes ao poema de Herculano e que permitem reconhecer um grau mais alto de modulação da forma literária:

“A estátua jacente”

I

Contido
em seu livre abandono
um dinamismo se alimenta
de sua contenção pura.

Jacente
uma atmosfera cerca
de tal força o silêncio

como se jacente guardasse
o gesto total do segredo.

II

O jacente
é mais que um morto: habita
tempos não sabidos
de mortos e vivos.

O jacente
ressuscitado para o silêncio
possui-se no ser
e nos habita.

III

Vemos somente o repouso
como uma face neutra
além de tudo o que
significa.

(Mas se nos víssemos
no verbo totalizado
– forma que se concentra
além de nós –

(Mas se nos víssemos
na contenção do ser
o repouso seria
expressão nítida.)

Vemos apenas
repouso:
contenção da palavra
no silêncio.

IV

Jaz
sobre o real o gesto
inútil: esta palma.

A palavra vencida
e para sempre inesgotável.

Primeiramente em relação à forma do poema, identificam-se em Fontela versos livres e sem rimas, o que indica a possibilidade de o trabalho com a linguagem transferir-se do nível fonético, marcado pelas coincidências sonoras do final dos versos, para, também, o sintático e o semântico, promovido no interior das estrofes, suscitando um conjunto de relações entre os vários níveis lingüísticos. Na maneira como a linguagem poética se auto-constrói, inicia-se um murmúrio contido que depois se amplia, transformando-se numa força condutora do poema. O desenho formado pelo contorno de todas as estrofes assemelha-se ao desenho dos batimentos cardíacos ou ao do percurso da voz, numa folha de exame médico. Tem-se um pulsar no desenrolar dos versos, compatível com a sensação de fluido provocada pela relação semântica entre as palavras: “dinamismo”, “contenção”, “força”, “repouso”, “forma que se concentra”, “expressão nítida” e “palavra inesgotável”. Unindo essas expressões, consegue-se uma gama de contrastes que levam à sensação de fluidez crescente. No poema, essa sensação é ainda mais intensificada pela recorrência das sibilantes, que articulam os pontos em contraste. Então, recursos dos planos semântico e fonético unem-se, para promover a idéia de força a brotar daquilo que jaz. Kleiman (2000, p.45) pontua o fato de o texto ser uma unidade semântica em que os vários elementos de significação são materializados por meio de categorias lexicais, sintáticas, semânticas, estruturais. Pensando em literatura, isso quer dizer que são várias as estruturas a se correlacionarem para a produção de sentidos num texto poético. Conforme visto em “A cruz mutilada”, as categorias lexical ou fonética, com a formação de rimas, e sintática, com o desenrolar dos versos, atuaram em conjunto para a construção do sentido de adoração do objeto sagrado. De uma maneira próxima, no poema de Fontela, também houve essa articulação entre os níveis lingüísticos.
Percebe-se em Fontela uma confluência de sentidos para os versos finais de cada estrofe, como se o sujeito do poema fosse desencadeando sua observação para sintetizá-la no final. As estrofes iniciam-se focalizando o objeto e terminam, pois, na síntese da apreciação. O poema não se forma por meio de versos que pincelam um todo, no caso, a estrofe, mas cada conjunto de versos apresenta-se como uma pincelada a compor o grande todo que é o poema. Isso significa que cada estrofe é uma parte concentradora de intensidade no texto. Essa concentração é reforçada pela enumeração de cada estrofe. Já em “A cruz mutilada”, as estrofes não são todas autônomas, mas se sucedem, adquirindo um caráter de maior verticalização do poema do que em relação a “A estátua jacente”. Decorrente dessas gamas de intensidade, uma reflexão predomina no poema, levando a pensar no que significa a estátua. À leitura de cada bloco movido por um olhar contemplativo sobre a estátua jacente, compreende-se que a estátua convencional, anteriormente imaginada, é, na verdade, o silêncio, estático, querendo expressar-se, mas, ao mesmo tempo, impedido de tal façanha por sua condição de inércia. O final do poema é taxativo, ao deixar nítida a real condição do elemento focalizado: o silêncio é uma “palavra vencida”, “para sempre inesgotável”.
Chegando a tais associações e observando a capacidade de percepção dos alunos, podem ser introduzidas explicações teóricas de Lotman, destacando relações entre a poesia e a prosa. De acordo com este autor, “o processo da passagem das estruturas poéticas para a imitação do discurso vulgar pelos meios da prosa artística é para muitos análogo à passagem das formas diretamente escritas da linguagem para a imitação da conversação” (p.179). Tem-se, nos dois casos, um sistema conscientemente convencional, distinto pela sua natureza da feitura de um mundo reproduzido; depois, começa a aproximação entre esses discursos. Isso serve para a poesia, na medida em que se percebe, no poema “A cruz mutilada”, uma aproximação ao discurso prosaico do cotidiano, pela forma de expressão do eu-lírico dirigindo-se à cruz, em que se imita a fala do dia-a-dia. A aproximação com a prosa, nesse poema, acontece ao longo de todo o texto, em virtude do discurso declamatório do eu-lírico. Já no poema de Fontela, não se verifica tão forte o caráter prosaico, apesar dos versos livres, pois não há uma imitação da fala cotidiana, mas se manifesta uma concentração de sentidos ao longo do texto, por meio de uma articulação entre os vários níveis lingüísticos (fonético, sintático e semântico), processo que leva a observar, mesmo numa primeira leitura, não o referente, mas o jogo de relações construído pelas camadas do material lingüístico. O referente é gerado das formas dos signos, associadas a semi-símbolos, e não do que se conhece somente no uso cotidiano da palavra. Logo, a pertinência da relação estabelecida com a teoria de Lotman está na aproximação entre o artístico e o cotidiano, em que se podem verificar os graus de modulação do discurso poético e constatar, assim, como essa modulação se realiza de um autor para outro, conforme visto em Herculano e em Fontela. Quanto mais distante da realidade objetiva, mais artístico é o texto e, portanto, também mais literário.
Não se pode deixar de trabalhar com os alunos, nesse contexto de estudo da linguagem literária, as funções da linguagem sistematizadas por Jakobson (1975, p.118-162). Para tal pretensão, devem ser reservadas, no mínimo, duas aulas de cinqüenta minutos cada. No dia em que trabalhei os dois poemas com a turma, só foi possível apresentar o capítulo “Lingüística e poética”. A explicação foi realizada em outra ocasião, pois, neste dia, o que fiz foi comentar sobre as funções, enfatizando a poética e tentando esclarecer sua importância. É fundamental o aluno saber a natureza do objeto estudado e, para isso, é necessário reconhecer a linguagem literária em meio às outras. Trata-se de um tipo de linguagem particularizada pela função poética, que, dominante neste discurso verbal, conforme Jakobson (1975, p.128), promove o caráter palpável dos signos, aprofundando a dicotomia fundamental de signos e objetos. O que é um conceito básico nos estudos acadêmicos de literatura deve ser trabalhado em etapas moderadas no ensino médio, sem subestimar a inteligência dos alunos: “a função poética projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação” (1975, p.130). Como enxergar essa síntese nos poemas de Herculano e de Fontela? Em “A cruz mutilada”, por exemplo, no sétimo verso, “Amo-te quando em préstito festivo”, em vez da palavra “préstito”, poderiam ter sido escolhidas uma entre as seguintes: “acompanhamento”, “procissão”, “comitiva” ou “séqüito”; no entanto, o poeta preferiu “préstito”, por causa da idéia de reconhecimento, de troca de favor, do caráter de ato prestativo suscitados pelo tom da primeira sílaba. Essa intenção de ser prestativo por parte do sujeito do poema decorre dos benefícios ou das bênçãos trazidos pela cruz, nos quais esse sujeito acredita de maneira consideravelmente intensa. Ao escolher “préstito”, o poeta recorria a um dos recursos semânticos da função poética, em base de equivalência, semelhança e dessemelhança, sinonímia e antonímia. Por outro lado, na inversão de sintagmas entre este verso e o seguinte, “As multidões te hasteiam”, complementa-se a relação entre o eixo de seleção e o de combinação. Na forma referencial, sem inversão, os dois versos seriam assim relacionados: “amo-te quando as multidões te hasteiam em préstito festivo”. No caso de “A estátua jacente”, os dois eixos da função poética encontram-se principalmente na palavra “jacente”, que, sinônimo de “imóvel”, foi selecionada para produzir efeitos de paronomásia ao combinar-se com “gesto”, “guardasse”, “segredo”, “ressuscitado”, “silêncio”, “possui-se” e “ser”. Além disso, também é possível pensar na imagem em cruz formada pela estátua e sua situação de jacente: tem-se um objeto que, como os outros de sua categoria de estátua, é imaginado, na maioria das vezes, sob a forma vertical, e uma circunstância inevitavelmente horizontal, ambos articulados poeticamente pela sibilante /s/.
Convém, nesta etapa do texto, relatar o que os alunos da segunda série sentiram, quando terminei de apresentar minhas leituras dos poemas, realizadas em conjunto com a turma: “nós nunca iremos chegar a um nível desse, professora, pois não conseguimos entender nem um texto completo [em prosa], quanto mais um assim, enigmático; nós não lemos o que a senhora acha que nós deveríamos ler”. Ouvindo isso, eu lhes disse que precisaríamos estudar, atentamente, alguns textos teóricos sobre discurso artístico, para compreendermos o papel da arte e alguns dos principais procedimentos dos quais ela é formada. Eles questionaram a utilidade desse estudo e eu lhes respondi que, do ponto de vista humanístico, que é o que mais lhes interessa, trata-se de uma maneira de ampliar a visão de mundo, ao se conseguir compreender os efeitos de sentido da arte, observados principalmente em poesia, discurso que, em virtude da abstratização promovida pelas interrupções no plano sintático, leva mais eficazmente do que a prosa à reflexão sobre o como dizer e não o que dizer, particularidade da literatura como um todo.
Conforme exposto, sabe-se da dificuldade de se trabalhar poesia com os alunos, tanto por causa da complexidade do assunto quanto, também, em razão de uma das conseqüências da falta de conhecimento sobre a questão: o preconceito concernente à natureza de inutilidade funcional desses tipos de texto. Apesar de tais dificuldades, sustenta-se, no presente relato, a necessidade de os estudantes do ensino médio aprenderem a lidar com poesia, por causa da formação intelectual e humanística do indivíduo promovida pela literatura. E só se consegue tal proeza com a realização de dois tipos de exercícios: leitura de obras poéticas e teóricas e análise de textos literários, não só com o professor, mas, sobretudo, individualmente, por causa da conscientização interior do aluno, alcançada em momentos de concentração individual.
Para terminar, ressalte-se a importância da leitura específica e variada para a compreensão de um texto literário, pois a análise coerente de uma obra poética em que se recorre adequadamente aos níveis de descrição lingüística (fonético e fonológico, morfológico, sintático, semântico e textual) e se reconhecem outros recursos de linguagem, como, entre outros, as seis funções sistematizadas por Jakobson, as figuras de retórica, modalidades de frase e modalizações, estilizações, paráfrases e paródias relacionadas a outras obras poéticas e não poéticas, requer uma certa bagagem cultural, que, imprescindivelmente, advém dos livros. Quem não aprendeu sobre esses recursos de linguagem não consegue realizar uma leitura crítica (análise mais interpretação) adequada de um texto literário.

Referências bibliográficas

CÂNDIDO, Beirante; CUSTÓDIO, Jorge. Alexandre Herculano: um homem e uma ideologia na construção de Portugal. 2.ed. Lisboa: Bertrand, 1980. p.126-127.

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HERCULANO, Alexandre. A cruz mutilada. In: SIQUEIRA e SILVA, Antônio de.; BERTOLIN, Rafael. Curso completo de Português. São Paulo: IBEP, 1999. p.154. (Coleção “Horizontes”)

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