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  CONSTRUINDO HOJE, O AMANHA: ADOLESCENTES PROMOTORES DE LEITURA

Fabiola Macedo de Paula1 - PLAN INTERNATIONAL BRASIL
Tereza Roberta Rodrigues2 - PLAN INTERNATIONAL BRASIL

A participação direta de cidadãos em atividades sociais pode contribuir para o enfrentamento da exclusão social e para a consolidação de uma cidadania participativa. Assegurar os direitos humanos e sociais passa a ser uma responsabilidade não apenas do Estado, mas de toda a sociedade.

Abraçando essa idéia a Plan, Organização Não-Governamental humanitária, sem filiação religiosa, política ou governamental que integra uma sólida rede internacional. Há mais de 65 anos, trabalhamos em 60 países do mundo, com recursos arrecadados em 15 países doadores, entrando em parceria com famílias, comunidades, municípios, organizações governamentais e não-governamentais para motivar o desenvolvimento comunitário centrado na criança e no adolescente.
O patrocínio de crianças é o fundamento de sua ação. No Brasil, atua, desde 1997, e desenvolve programas nas áreas de Saúde, Educação e Direitos das Crianças. Tem como objetivo final facilitar os processos participativos para conseguir melhorias duradouras na qualidade de vida das crianças e adolescentes para que eles e elas possam realizar seu pleno potencial em sociedades que respeitem os direitos e a dignidade das pessoas.

O Desenvolvimento Comunitário Centrado na Criança e no Adolescente procura dar forte ênfase a infância o que significa trabalhar com as comunidades para aproveitar as habilidades e os conhecimentos e converte-los em participantes ativos, em lugar de receptores passivos no processo de desenvolvimento, como promover a liderança e gestão comunitária os projetos e programas. Dar meios aos membros da comunidade para que definam seus projetos de desenvolvimento e planos estratégicos, a fim de incidir nas causas e conseqüências estruturais da pobreza, através: da promoção do conhecimento e entendimento dos direitos da criança e do adolescente, da escuta do que as crianças e adolescentes tem a dizer sobre os obstáculos que tem para se tornarem realidade, facetando a participação das crianças e adolescentes nas discussões de políticas publicas, garantindo a inclusão daqueles mais marginalizados, vulneráveis na comunidade. Ao longo dos anos o nosso papel nas comunidades é apóia-la afim de identifiquem suas necessidades e definam soluções para satisfaze-las. Foi identificado por parte das crianças e adolescentes a inexistência de bibliotecas nos distritos, o que pode ser verificado junto a dados da secretaria de educação.

Desde 2004 tornou-se parceira das comunidades de Ponte dos Carvalhos e Pontezinha / Cabo de Santo Agostinho em Pernambuco no desenvolvimento do Projeto Biblioteca Itinerante, uma ação cultural que considera o livro um direito e a leitura fundamental para o exercício pleno da cidadania, acesso à educação além de desenvolvimento comunitário e pessoal.

1. Assistente social pela Universidade Federal de Pernambuco, especialista em Terapia da Família pela FAFIRE, Coordenadora do Projeto pela Plan. fabiola.Macedo@plan-international.org
2.
3. Psicóloga pela Universidade Federal de Pernambuco, especialista em gestão da Capacidade Humanas nas Organizações pela Universidade de Pernambuco, especialista em Qualidade da Educação pelo CREFAL-Mexico. Gerente de Unidade de Programas da Plan. tereza.roberta@plan-international.org
4.
O Brasil está hoje entre os países com o maior índice de desigualdade social do mundo e, para reverter essa situação, é necessário que a população se torne leitora, com competência para compreender e mudar essa realidade. No entanto, muitas escolas, principalmente da rede pública, não têm dado conta de preparar e formar esse indivíduo requisitado pelo mundo do trabalho e com conhecimento necessário à transformação social e econômica dessa realidade. Pensar em formar leitores no Brasil é pensar nas dificuldades enfrentadas pelos jovens e crianças que provêm dos meios menos favorecidos. Normalmente suas famílias não têm acesso à leitura. Em suas casas não existem livros, jornais ou revistas, ainda que a escrita seja considerada necessária.

A dificuldade de acesso à leitura é um problema básico para a formulação de qualquer política cultural. Os elevados preços dos livros, a inexistência de bibliotecas publicas na maioria bairros periféricos das cidades brasileiras e os altos custos de instalação de novas bibliotecas são obstáculos que se somam a todos os fatores sociais que roubaram da população o direito de ler.

Entende-se a biblioteca como sendo um sistema de informação para servir aos usuários bem como parte integrante do trabalho de educação e desenvolvimento da comunidade onde está inserida. . Ela serve para conservar e transmitir idéias, pensamentos e a cultura que estão registrados nos livros que abriga. Cada biblioteca tem sua função e seu público e precisa ser pensada para as pessoas que farão uso dela: crianças, adolescentes, adultos.

Acreditamos na biblioteca como espaço de reflexão para o desenvolvimento de política de leitura, que possibilita transformar a informação dos sujeitos sociais implicando-os no processo. Dessa forma, é preciso pensar o espaço da biblioteca como um lugar atraente onde, além de ler, as pessoas possam trocar idéias, discutir, ouvir histórias, dar risadas etc. Acima de tudo, pretende implantar uma concepção de trabalho nesse espaço em que as crianças sejam vistas como sujeitos ativos na construção de seu conhecimento e como produtores de cultura.

Assim, é função social das organizações não governamentais complementar as ações governamentais criando, ampliando e fortalecendo espaços que fomentem a leitura, desde salas de leitura em escolas publicas até bibliotecas itinerantes espalhadas pelas comunidades carentes do país. As bibliotecas existentes nesses locais muitas vezes estão voltadas exclusivamente para as atividades formais de aprendizagem tais como pesquisas escolares e atividades de interpretação e compreensão de texto. Além disso, muitos professores, em função da carga horária, do programa que têm a cumprir e do tipo de formação pedagógica que receberam, enxergam dificuldades na incorporação da mediação de leitura à rotina escolar, o que é compreensível. No entanto, sabemos que em muitas regiões são as escolas os únicos locais que poderiam disponibilizar livros e que podem contar com adultos sensibilizados à questão da leitura. Na maioria dos casos em que professores ou profissionais das salas de leitura integraram essa prática ao cotidiano das crianças, outro fator que não se pode deixar de lado é o tipo de trabalho feito com a literatura nas escolas. Muitas escolas, tanto públicas quanto particulares, não formam leitores porque nem sempre estão preparadas para lidar com a literatura e transformam o que deveria ser uma leitura prazerosa e livre em

uma atividade didática, compulsória, impessoal e utilitária, afastando as crianças dos livros, que passam a ser vistos como símbolos do seu fracasso escolar

Desta forma, o projeto investe seus recursos na formação de jovens voluntários (promotores de leitura) e na assessoria técnica para que sejam mediadores de leitura junto às comunidades atendidas. Aqui, o promotor é o agente de uma ação cultural que tem por objetivo possibilitar o acesso ao livro e à leitura. É a pessoa que lê os livros para as crianças e os jovens, iniciando-os no mundo da leitura. É quem leva crianças e jovens a conhecer, muitas vezes, esse universo novo, diferente, desconhecido. Nesse sentido, a sua ação facilita o caminho da leitura, fazendo com que o livro seja compreendido como uma forma de expressão de seu autor, que pode ter significado para o leitor.

O promotor de leitura é a pessoa que pode facilitar a construção dessa biblioteca. Ao ler, a criança é invadida por novas informações, emoções diferentes e pode querer se expressar, dizer o que pensou, o que sentiu. O espaço da biblioteca tem de permitir essa vontade de falar, de trocar idéias com os companheiros e com o promotor, que tem um importante papel aqui, permitindo a expressão e respeitando o silêncio de cada criança.

As histórias podem funcionar como um facilitador dos encontros e favorecem o desenvolvimento da imaginação. Com esta, pode-se superar conflitos, mover o mundo emocional, promover o desenvolvimento social e promover um enriquecimento cultural através de um meio que é patrimônio de toda a humanidade. O sentido central desta ação é o resgate da importância do valor das narrativas. Estas são um instrumento de comunicação privilegiado porque estabelecem o diálogo entre todos que estão em torno delas: mães e crianças, adolescentes, jovens e educadores. O livro, portador e mantenedor das narrativas em nossa cultura tem, assim, o dom de unir as pessoas e de nos comunicar sua vitalidade, desenvolvendo assim a comunidade. O promotor de leitura será o agente desta ação cultural. É ele que irá praticar o ato de ler de forma descomprometida e livre para que cada criança aproveite, a seu modo esses livros e momentos.

“ Experiência vivida por Emanuel Antonio da Silva na comunidade de Pontezinha com Wellington de 10 anos, que nos faz perceber o quanto a contação de estória pode levar as crianças a refletirem sobre a sua própria condição,:

Wellington ? Oh ! Emanuel ! Por que você vem pra cá ?

Emanuel ? Vem aqui vou contar-lhe porque.

Wellington ? Você vai contar uma estória pra mim é ? (nesse momento aparecem várias crianças)

Emanuel ? Todo mundo conhece a estória do patinho feio , não é ?

Wellington ? Quem não conhece ? Todo mundo sabe que ele era feio.

Todos ? É, ele era feio e ficou bonito.

Emanuel ? Como ele ficou bonito ?

Wellington ? Quando ele cresceu.

Emanuel ? E se eu disser que ele era sempre bonito.

Todos ? Não, ele era feio quando era criança.

Emanuel ? Então vocês só serão bonitos quando adultos ?

Wellington ? Não, eu sou bonito até morrer.

Emanuel ? Um menino que sabe jogar bola é bonito ?

Todos ? É !

Emanuel ? Uma menina que lutas caratê é bonita ?

Wellington ? Não,

Emanuel ? Então ser bonito , é ser igual aos outros ?

Wellington ? Não,

Emanuel ? A beleza está no seu interior, seja você mesmo, você é bonito do jeito que é, não adianta se igualar aos outros ! Wellington, você lê como ninguém , Aline canta muito bem, Vanessa dança como sabe, e é lindo !

Wellington ? E o que o patinho feio sabia fazer ?

Emanuel ? Amigos! Quando os outros o conheciam viam que ele era legal, ajudava os outros, quem não precisa de ajuda ? Eu sou um patinho feio porque sei contar estória!

Wellington ? Eu também sou patinho boni...

Emanuel ? Patinho, o que ?

Wellington ? Mas eu sou bonito porque sou assim !

Emanuel ? É verdade !”

Para selecionar os promotores, a coordenação do projeto, diante do planejamento do que foi possível realizar, abriu as inscrições aos interessados nas escolas, nas associações de base e na comunidade, utilizando cartazes e folhetos com informações sobre o que faz um promotor, o período, o local das inscrições e os requisitos necessários aos candidatos. Estes deviam ter disponibilidade de tempo para a capacitação, supervisão e desenvolvimento das ações do projeto e vínculo com a comunidade local.

Nessa etapa, a coordenação também elaborou uma ficha, para ser preenchida pelos interessados no ato da inscrição, contendo campos para preenchimento dos dados pessoais do candidato (nome, endereço, telefone, idade, sexo, escolaridade, e algumas perguntas importantes para conhecer melhor o futuro mediador e traçar o perfil do grupo, tais como):

• O que você sabe a respeito do projeto?

• Por que você gostaria de ser um promotor de leitura?

• Você dispõe de tempo para participar de uma capacitação?

• Você já realizou algum trabalho voluntário? Se sim, qual? Relate um pouco do seu

trabalho.

• Quais são suas relações com a instituição e com a comunidade?

Essas informações foram tabuladas e organizadas com a finalidade de retratar as características do grupo selecionado. O conhecimento prévio do perfil desse grupo serviu de subsídio para planejar a capacitação e o acompanhamento das atividades.

Para evitar o risco da descontinuidade do trabalho, um critério fundamental na seleção do futuro promotor, voluntário é ter vínculo e compromisso com a comunidade local. Após a seleção, o promotor foi capacitado por meio de um programa de formação que pode durar 40 horas de treinamento.

O objetivo da capacitação de mediadores de leitura é formar um grupo de pessoas habilitadas a fazer a atividade, propiciando-lhes o acesso a um conjunto de conteúdos teóricos e procedimentos práticos necessários ao exercício da função. A capacitação é apenas a etapa inicial desse processo de formação continuada e ela será retomada diversas vezes durante o acompanhamento e supervisão do projeto.

A metodologia aplicada nessa proposta estimula a prática da interdisciplinaridade, o trabalho coletivo e o respeito à diversidade. A implantação da mediação de leitura em uma instituição ou em uma comunidade pressupõe a participação de todos, independentemente do papel que desempenham no dia-a-dia, pois ela não pretende se configurar como um evento excepcional, mas como uma prática cotidiana, inserida na rotina. Além disso, aprender a trabalhar em grupo por intermédio da experiência do outro, valorizando diferentes contribuições, é importante para a consolidação de um compromisso coletivo e para a implantação de qualquer proposta.

A metodologia adotada na capacitação utiliza os mesmos elementos e recursos da mediação de leitura feita com as crianças. Os livros são colocados à disposição dos promotores e a mediação é feita durante todo o tempo da capacitação. O multiplicador faz a mediação e espera que os promotores reajam à leitura primeiro para depois interagir com eles e trabalhar os conteúdos propostos na capacitação. Os promotores têm acesso a diversos tipos e modos de transmissão de narrativas, priorizando a transmissão da linguagem escrita por meio da leitura.

Para cada um dos objetivos foram definidos os conteúdos e estratégias, os recursos materiais e humanos necessários, a carga horária e as questões para avaliação ao final de cada dia. Se a avaliação apontasse dificuldades ou revelasse que os objetivos não foram plenamente atingidos, o planejamento deveria ser revisto em termos de estratégias, de recursos ou de carga horária das atividades.

O conteúdo básico trabalhado com o grupo na capacitação será sempre retomado durante o acompanhamento e a supervisão das atividades do mediador. A partir desse conteúdo básico podem surgir, durante a capacitação, tais como o desenvolvimento comunitário centrado na criança e no adolescente.

O conteúdo básico da capacitação abordou os seguintes temas:

• quem é a criança com a qual o grupo vai trabalhar;

• como se dá o desenvolvimento da linguagem na criança;

• o papel do promotor;

• o que é mediação de leitura;

• o livro, enquanto objeto cultural, em seus aspectos relacionada ao projeto.

gráfico, ilustração, texto, temas;

• diferença entre ler e contar;

• o que é leitura e literatura;

• planejamento da mediação;

• registro e observação;

• avaliação do trabalho de mediação.

Convém destacar que esses conteúdos são importantes e necessários à formação de promotores de leitura em qualquer contexto, institucional ou não-institucional, urbanos ou rurais, que pretendam desenvolver seu trabalho. O multiplicador escolhe estratégias que contribuam para que o promotor possa reconhecer suas próprias reações diante da proposta, dos livros e da leitura. E também estratégias que permitam ao mediador vivenciar situações inesperadas, de escuta das crianças e de outros adultos, e perceber que esse conhecimento que está adquirindo sofre constantes alterações. Ou seja, a aprendizagem se dá pela maneira como os conhecimentos são transmitidos e também a partir das relações que se estabelecem entre as pessoas. A valorização da diversidade e do encontro com o outro, além de ser condição dessa proposta, contribui com freqüência para ampliar e transformar o universo de todos

aqueles que participam da mediação.

Além dos conteúdos teóricos, possibilitou-se visita a museus, centros históricos, bibliotecas públicas, cinema e teatro com o objetivo de proporcionar contato com outras realidades e que os próprios jovens conhecessem uma grande variedade de experiências novas, não relacionadas necessariamente com a mediação de leitura: aprenderam a deslocar-se na cidade, entraram em contato com pessoas de outras culturas e grupos sociais, conheceram e se apropriaram de diferentes espaços públicos.

Após a etapa de capacitação, o multiplicador supervisiona o trabalho do mediador, acompanhando diretamente suas atividades, dando prosseguimento ao processo de formação. O acompanhamento pode ser realizado de diversas formas: registros, reuniões, observação e/ou realização conjunta das situações de mediação de leitura.

Durante esse processo pode-se observar como o mediador interage com as crianças, qual a reação destas durante a mediação, quais são as condições de trabalho e quais as dificuldades enfrentadas.

Na supervisão, os encontros foram uma forma de avaliação contínua do processo de trabalho, com o objetivo de dar apoio teórico e prático ao promotor. Ela foi planejada com base nos problemas e nas dificuldades detectados no acompanhamento e nos registros dos promotores e do multiplicador, definindo os objetivos, os conteúdos a serem trabalhados e as estratégias a serem utilizadas na reunião mensal. Esses encontros são fundamentais para que cada um perceba que não está sozinho e que outros também encontram dificuldades. Essa troca de experiências enriquece a visão de cada um e a experiência do conjunto realimenta o projeto.

Os registros das atuações nas bibliotecas itinerantes e da supervisão nos forneceram subsídios para analisarmos o impacto do referido projeto fornecendo dados importantes para refletir sobre as ações, tais como o comportamento das crianças, as dificuldades encontradas pelos promotores e a busca de soluções para os problemas, visando ao aperfeiçoamento do trabalho.

O projeto já capacitou 48 jovens da comunidade, adolescentes e jovens entre 16 e 22 anos, sendo 70% do sexo feminino e 90% negros, estudantes ou concluintes do Ensino Médio com renda familiar em torno de 02 salários numa família com 06 componentes em média.

A estrutura do projeto foi pensada a partir de 06 quiosques de leitura desmontáveis, compostos cada um por: uma casinha estante, um baú, um biombo estante, esteiras e algumas mesinhas e cadeiras infantis além de ter um acervo de 1200 livros de literatura infanto-juvenil. A escolha do acervo dependeu do público que queríamos atender. Após as primeiras ‘visitas ‘nas comunidades as crianças sugeriram que cada quiosque recebesse o nome de um personagem do Sitio do Pica-pau Amarelo, sendo assim: Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Saci, Visconde de Sabugosa e Emilia.

“NO meu primeiro dia no quiosque, quando estava no Maruim, e a casa de uma voluntária foi assaltada perto do quiosque. Eu fiquei com muito medo pensei em desistir, mas a força de vontade foi maior”. Patrícia 21 anos

Em 01 ano de desenvolvimento, o projeto beneficia não só as crianças e adolescentes atendidos, mas também seus familiares e acompanhantes, tendo atingido cerca de 10 mil pessoas. O projeto está em sua segunda fase, que tem como objetivo a mobilização e sensibilização das comunidades para a futura adoção dos primeiros 06 quiosques, tendo como critérios à participação e o envolvimento com as atividades dos quiosques.

O sucesso do projeto depende muito do trabalho de divulgação: o envolvimento da comunidade é indispensável, esclarecendo e motivando quanto à importância de uma biblioteca. Com a divulgação, pode-se obter a colaboração de entidades e grupos organizados locais, desde a fase de concepção até a operação do serviço.

“Foi ver que as crianças apreciavam o nosso trabalho e os pais gostavam muito também de ver as crianças lendo imagens e criando suas próprias estórias. É maravilhoso.” Ana Maria da Silva – 21 anos

Os quiosques firmaram-se como espaço de referencia cultural para a população das comunidades abrangidas pelo projeto. Além de oferecer livros, foram inseridas outras atividades, como exposições monitoradas, apresentação de talentos da comunidade, e a hora do conto realizada pelos próprios promotores de leitura.

Atualmente, conta com a participação de 20 promotores de leitura que são voluntários destas comunidades. O centro de nossa proposta é que, através da participação ativa, construtiva e solidária, o adolescente possa envolver-se na solução de problemas reais na comunidade e na sociedade. O tipo de jovem que quisemos formar é aquele autônomo, solidário, competente e participativo. Assim, quando o adolescente, individualmente ou em grupo, se envolve na solução de problemas reais; atuando como fonte de iniciativa, liberdade e compromisso; temos, diante de nós, um quadro de participação genuína no contexto sócio-comunitário, o qual pode ser chamado de protagonista juvenil.

Acreditar no voluntariado jovem significa - é claro - acreditar no voluntariado e no jovem. Nos últimos anos, vem tomando forma no Brasil a concepção de voluntariado como ação cívica; que tem como objetivo a mobilização de pessoas, empresas e instituições da sociedade civil para rever seus próprios problemas; tanto pela articulação de iniciativas e recursos, quanto pela reivindicação de políticas públicas satisfatórias.

Dentro dessa nova realidade, como se pode caracterizar o voluntário e o voluntariado? “O voluntário é o cidadão que, motivado pelos valores de participação e solidariedade, doa seu tempo, trabalho e talento, de maneira espontânea e não remunerada, para causas de interesse social e comunitário. Além de bem informado e consciente da complexidade dos problemas sociais, o voluntário trabalha considerando o horizonte da emancipação, ou seja, estimulando o crescimento da pessoa e da comunidade para resolver seus próprios problemas”.

O principal objetivo deste projeto foi incentivar o hábito da leitura. Neste aspecto, a prática vem contrariando o senso comum que diz que a população de baixa renda não gosta ou não tem interesse de ler. Os quiosques são muito freqüentados porque são espaços lúdicos e menos intimidadores/formais que as bibliotecas.

“As crianças não conheciam o prazer que um livro podia proporcionar, e a biblioteca trouxe isto para elas.” Patrícia-21 anos

Acreditamos que a formação de leitores, não se dá no vazio ou apenas no acaso. A leitura é um ato social e historicamente demarcado, sendo as instituições as grandes mediadoras do vinculo entre leitura e sociedade.

Ser leitor, porém, não é resultado de um processo natural. É preciso, além da interferência educacional e cultural, contato permanente com o material escrito, variado, e de qualidade, desde cedo, fruto de uma ação consciente da sua importância e função social.

Nestas circunstancias, o trinômio “biblioteca, leitura e desenvolvimento” pode ser analisado de forma que o ato de ler passe ser visto como elemento ativo de melhoria do nível cultural, educacional, social e econômico da população. Assim, o ato de ler é de suma importância no processo de desenvolvimento de uma comunidade”.

“Meu trabalho é importante, porque o tráfico de drogas hoje cresce continuamente, a prostituição infantil é um meio de renda, o Cabo é recorde em homicídios. Estou tentando mudar muitos fatores que impedem o crescimento cultural, social e educativo” Emanuel Antonio da Silva – 20 anos

Esse processo tem nos levado a três conclusões fundamentais:

Que o desenvolvimento das crianças deve basear-se em um compromisso integrado e em longo prazo,

Que as crianças podem participar totalmente somente quando suas famílias apóiam e se lhes dão os meios para faze-los,

Que as famílias e comunidades podem cumprir as responsabilidades que tem com suas crianças somente quando possuem as habilidades e os conhecimentos requeridos para satisfazer as necessidades e fomentar os direitos das crianças.

Em que tipo de comunidade queremos viver? A expressão é o primeiro passo para sair da opressão.

“ Eu me vejo como alguém que saiu do anonimato, ou seja, eu me tornei uma pessoa que quando passo pelas comunidades, todos dizem: ‘tia estou com saudade’”Milena Santana – 20 anos

Definir identidade é a prática de construir uma visão compartilhada para a comunidade através da biblioteca itinerante e seus promotores de leitura como um dos atores ativos e valorizados. As conexões entre as gerações começam a conectar as crianças com as pessoas que atuam como promotores e modelo em seu tempo livre. Fazer mais por elas é melhorar o relacionamento com a comunidade, facilitando o processo para que se percebam como comunidades sustentáveis mantendo uma perspectiva de longo prazo e assim entendem sua interdependência com a educação.

Os membros da comunidade entendem como indivíduos, que a evolução de cada criança depende da atenção individual que recebe. A sustentabilidade, portanto, leva as pessoas a investirem seu tempo nas crianças porque é isso que passam a querer fazer.

A interação com a comunidade expandiu o foco e direção fazendo com que os promotores olhassem de verdade o que a comunidade esperava deles. E a tarefa deles era muito mais complexa do que haviam pensado.

O trabalho voluntário é um processo recíproco no qual aqueles que recebem o serviço e que aqueles que estão servindo são beneficiários iguais do projeto. Aqueles que recebem o serviço tem o beneficio dos esforços dos voluntários, mas os voluntários adquirem importantes perspectivas, habilidades, conhecimento e experiências devida das pessoas e organizações que estão ajudando. O trabalho voluntário é colaborativo por natureza e baseia-se na premissa básica de que aprendemos com as experiências e atividades de reflexão crítica devem ser continuas.

Os membros da comunidade aprendem como fortalecer suas comunidades, colaborando para resolver as questões sociais complexas que enfrentam. Os promotores de leitura aprenderam importantes habilidades cívicas e conhecimentos por meio da prestação d serviços comunitários, propiciando que participem da governança democrática- entendimento mais critico de suas realidades e dos papeis que podem desempenhar como cidadãos.

Na verdade, temos apenas três escolhas no que diz respeito a viver em nossas comunidades: não fazer nada, desencorajar-se e /ou ser cético quanto a complexidade da participação e desistir ou comprometer-se em torna-las lugares melhores para se viver. Se você é como nós, talvez alterne entre os três, dependendo do seu nível de energia.

“Eles acham que o mundo um dia ainda vai ser melhor, graças a pessoas que dedicam parte do seu tempo prestando serviço voluntário em prol de um sonho, por que não dizer uma meta, de um dia viver em um mundo um pouco mais humano.” Simone Tenório –17 anos

 
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