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  LEITORAS: UM ESTUDO DAS PRÁTICAS DE LEITURA DE PROFESSORAS DE EDUCAÇÃO INFANTIL

Selma Martines Peres - Universidade Federal de São Carlos - UFSCar

Este trabalho é um relato parcial da investigação acerca das práticas de leituras de professoras que atuam na rede pública de Educação Infantil em Catalão - GO. A intenção desta pesquisa é cartografar as histórias de leituras vivenciadas por professoras de Educação Infantil procurando conhecer as maneiras como elas se constituíram e se constituem enquanto leitoras, sem com isso buscar o significado da leitura, mas como ela funciona e com o que ela funciona, quais as suas conexões e intensidades.

Desta forma, a questão central deste trabalho é: como as professoras de educação infantil se constituíram e vêm se constituindo enquanto leitoras?

Para compor as bases teóricas deste estudo recorro a obras de autores como: Deleuze e Guatarri, Chartier, Abreu, Manguel, dentre outros. Minha intenção ao trabalhar com esses autores é mostrar como os conceitos, tais como de leitura e práticas de leitura, remetem uns aos outros e ainda como podem ser reativados a qualquer momento no mesmo plano ou planos diferentes.

Esclareço ainda que para a realização desta investigação recorri à narrativa de cinco professoras – Mariluci, Ana, Marlene, Nilda e Nerci – que lecionam em uma creche no município de Catalão-GO.

LEITURAS

Falar de leitura, leituras, leitores, práticas de leituras, não só falar, escrever, não só escrever, “dar a ler ”. Para dar a ler, leio, desbordo. No meu ato (ler) exercito minhas práticas. Por isso, inicio essa leitura, que se torna sua prática, não pela primeira página, nem mesmo pela última página, mas pelo meio, porque a leitura não tem começo nem fim, mas meio. A leitura está entre o leitor e suas práticas, entre: suas histórias, a história lida e o como essa história é lida. Estar entre é estar no não localizável, é estar na reciprocidade do movimento, “riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio” (DELEUZE – 2000, vol.1). Tomo aqui a leitura como movimento de desbordamento.

O que dizem as palavras é levado nesse rio, mas as palavras não, elas permanecem, sem que com isso se diga o mesmo. Daí que desbordar é um pouco isso, solapar o sentido das palavras, corroer por meio da força da correnteza as margens - linhas limítrofes do sentido –, aluir o conhecido.

Para que as palavras durem dizendo cada vez coisas distintas, para que uma eternidade sem consolo abra o intervalo entre cada um de seus passos, para que o devir do que é o mesmo seja, em sua volta ao começo, de uma riqueza infinita, para que o porvir seja lido como o que nunca foi escrito... há que se dar as palavras que recebemos. (LARROSA, 2004, p.15)

Desta forma, é preciso para dar a ler, ler as palavras como se fosse a primeira vez. Caso contrário, não seria possível esse movimento, já que se saberia o que dizem as palavras e assim, aquele que sabe o significado da leitura não dá a ler, pois de alguma forma já traz o texto lido. Para dar a ler, segundo Larrosa (2004, p.20), é preciso dar o que não se tem: “somente aquele que não tem pode dar. Aquele que dá como proprietário das palavras e de seu sentido, aquele que dá como dono daquilo que dá ... esse dá ao mesmo tempo as palavras e o controle sobre o sentido das palavras e, portanto, não as dá”.

Dar o que não se tem para dar a ler implica uma relação de abandono com as palavras. Abandono tomado como generosidade, diferentemente da idéia de apropriação para nossos interesses e vaidades particulares. Pois as palavras que se dão a ler, não são palavras para se ter.

Daí as múltiplas possibilidades da leitura. Lembrando que o múltiplo não tem nem sujeito, nem objeto. A multiplicidade comporta texturas, grandezas, dimensões que se transformam ao crescer. Leituras, muitas são as suas faces, por isso o plural – leituras -, aí também a sua singularidade.

Muitos(as) foram e são os(as) estudiosos(as) da temática leitura. De certa forma, todos(as) fisgados por essa “coisa” que é a leitura, que seduz, inquieta e corrompe. Muitas, também são as maneiras de entender a leitura. Para mim, leituras é isso “coisa” que desborda e agrega a outra “coisa” e outra e.... Mas, faz-se necessário compreender o seu movimento, sua corporeidade e seu desterritorializar. Dessa forma, em meu mapa de estudo esboço alguns traços sobre o Livro e Revoluções da Leitura, fala das práticas de leitura, do atos de ouvir e aprender a leitura.

Apresentando as narradoras

Ouvir as cinco professoras é no mínimo uma tarefa instigante. São narrativas diferentes, que relatam viver em lugares distintos, mas que tem em comum o fato de serem professoras de educação infantil. São mulheres cuja idade varia entre 42 e 57 anos de idade. Ao narrar suas experiências foram desterritorializando e reterritorializando a partir do vivido e daquilo que contam. A cada narrativa surgem antigas cartilhas, contadores de histórias que não ficaram esquecidos, histórias de lobisomem que não se apagaram da memória, livros de romances, leituras secretas de bilhetes, de romances, o lugar marcado da leitura de livros religiosos, espaços de leitura que vão da intimidade da cama às varandas da casa. Enfim, um universo múltiplo se constitui a cada narrativa que vem carregada de emoção, pois os olhos brilham, outras vezes o silêncio impera e até o esquecimento daquilo que não se quer esquecer evidenciam a importância das experiências narradas.

Cada uma das narradoras é assim uma, que dentro dessa uma encontram-se as muitas mulheres, leitoras, professoras. Mariluci alegre, de bem com a vida, atlética no jeito de lidar com a vida, cabelos curtos fala com prazer das leituras das tias deitadas nos quartos. Ana, tímida e sorridente, cabelos encaracolados da cor de ébano, pele branca como a neve, sua história lembra um conto de fadas, órfã de mãe desde bebê encarregou-se dos afazeres domésticos desde muito cedo para ajudar a família. Nerci, uma garimpeira de/da vida. Narra sua trajetória com orgulho, entre o trabalho na creche, na casa, na costura ainda encontra tempo para procurar diamantes no solo da região, por isso diz que a leitura se dá principalmente nos textos religiosos. Nilde com seu tom de voz baixo e tímido, fisicamente frágil, mas forte na realização dos afazeres de seu cotidiano, narra a censura de leituras que não fossem as religiosas. Marlene, olhos negros, pele rosada do sol escaldante do centro-oeste, tímida, mas de respostas curtas e diretas. Todas mulheres, mães, esposas e professoras, leitoras. Elas têm muito que contar...

Entre recordações e narrativas ... garimpando as leituras

Ao entrar nesse rico solo da leitura agenciamentos foram cavados, algumas pedras foram laboriosamente encontradas, outras esquecidas na memória, assim a leitura foi surgindo em cada narrativa. Para as professoras a ferramenta dada, para que procurassem no cascalho diamantífero da memória episódios relacionados à leitura, não foi a bateia, mas questões que propiciassem uma narrativa, dentre elas: os primeiros encontros com a leitura, a recordação da alfabetização, a leitura na infância e na juventude, a leitura na escola, os espaços de leitura, os momentos de leitura, enfim as práticas de leitura.

Um exemplo das narrativas - sobre os primeiros contatos com a leitura

Nerci narra um episódio bastante curioso, diz que no caminho por onde costumava passar para ir até sua casa – que ficava na zona rural – havia na entrada de uma fazenda uma placa de madeira em que havia escrito em carvão algumas palavras. Diz que sempre ficava observando aquela placa até perdê-la de vista. Por muito tempo ficou imaginando o que estaria escrito naquela placa já que não sabia ler. Depois de algum tempo leram para ela o que havia escrito:

Eles leram para mim. A gente passava porque era caminho de vir para a cidade. E estava escrito “mãe da lua”, “mãe da lua”. Aí eu fiquei muito tempo pensando por que, mãe da lua e com aquilo na cabeça né?Aí estudando, mas parece que a gente não tinha aquela idéia de perguntar para a professora ou então esquecia eu não sei o motivo. Aí quando um dia eu resolvo pegar o dicionário e olhar eu não achei. Aí eu perguntei para o fazendeiro porque ela chamava “mãe da lua”. E ele disse: é devido um passarinho que existe por aqui e ele aparecia muito.

A leitura aqui pode ser tomada como desbordamento. A leitura sempre tão buscada nos livros e nos textos impressos mostra uma de suas possibilidades por meio de uma placa de fazenda. E mais, ler sem saber ler, Nerci exercita a capacidade de dar a ler, numa prática quase que adivinhatória, numa grande brincadeira de criptograma. Imagina muitas coisas até que alguém lê para ela – aliás na memória de Nerci esse alguém vem traduzido no plural, são os outros, “eles leram”. E assim que “eles” leram o que deveria ser a solução do enigma surgiu um novo: “mãe da lua”. Mas, o poder das palavras ultrapassa sua decifração, naquele momento Nerci descobriu isso. Descobriu também, que ainda que se desvende os códigos das palavras elas podem resguardar o seu mistério. Nerci experimenta um misto de decepção e sedução durante um período difícil de ser mensurado, apenas nos dá a idéia de um tempo que está entre o ler sem saber ler a placa, entre ouvir “eles lerem”, entre aprender a ler e ler sozinha, entre o não consultar a professora, entre o procurar no dicionário, entre a interpretação dada pelo fazendeiro. Entre o lembrar e o narrar.

O movimento promovido por Nerci aproxima-se do devir-leitura. Ao tentar ler, sem saber fazê-lo ela estabelece uma multiplicidade de possibilidades interpretativas, que está carregada de potencialidades. E o mais interessante, nesse caso, é que logo que ficou sabendo da leitura-una – leitura decifrada - “mãe da lua” Nerci desvia-se da linha que a ligaria a um ponto de origem – passarinho, e a entende como leitura-devir. Nas palavras de Deleuze e Guattari (2000, p.91, vol. 4) “uma linha de devir não se define nem por pontos que ela liga nem por pontos que a compõem: ao contrário, ela passa entre os pontos, ela só cresce pelo meio”. Assim, o devir-leitura acaba por desfazer os pontos e a leitura de “mãe da lua” não tem um percurso linear, pois suas linhas já estão embaralhadas, enfim, é puro desbordamento.

 
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