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  PRÁTICAS DE LEITURA E ESCOLARIZAÇÃO: EXPERIÊNCIAS INCONCLUSAS

Maria Rosa Petroni (UFMT)

Poder-se-ia dizer que um texto, depois de separado de seu autor (assim como da intenção do autor) e das circunstâncias concretas de sua criação (e, conseqüentemente, de seu referente intencionado), flutua (por assim dizer) no vácuo de um leque potencialmente infinito de interpretações possíveis (Eco,2001: 48).

É unânime a concepção de que a leitura é importante para todo ser humano, independentemente de ter profissão ou de ser leigo, e que o incentivo à sua prática é fundamental, não só em casa, mas especialmente na escola. Formas, razões e fontes diversas de incentivos levam as pessoas ao desenvolvimento do hábito de leitura. Mesmo por percursos diferentes, a leitura é degustada com o mesmo sabor: sabor de descoberta, de entretenimento, de conhecimento ou aprendizagem.
Embora não se constituam em grande novidade, essas afirmações são assumidas, também, por um conjunto de entrevistados, no âmbito de uma pesquisa intitulada Aspectos da história da leitura no século XX em Mato Grosso, realizada com um grupo composto por pessoas de variadas profissões: docentes, funcionário público, escritores, médicos, religiosos, jornaleiros, livreiros, militares, farmacêutico e advogados, totalizando trinta e dois sujeitos, cuja faixa etária variou de 33 a 103 anos, sendo a média geral obtida de 61 anos e 9 meses.
Por limitações de tempo e espaço, serão apresentadas informações relativas à história de leitura dos entrevistados pertencentes às seis primeiras categorias profissionais.
Dentre as perguntas que lhes foram dirigidas, uma delas dizia respeito à origem do estímulo recebido para o desenvolvimento do hábito de leitura. A influência da família no incentivo à leitura foi a resposta mais citada entre os entrevistados. Dentre os doze professores, 5 deles apontaram os pais como responsáveis diretos pelo desenvolvimento do gosto pela leitura, enquanto 3 indicaram os parentes, especificamente, avós e irmãos, como fonte de estímulo e apenas 1 teve o estímulo somente dos irmãos. Dos docentes entrevistados, apenas 3 não tiveram nenhum estímulo de familiares. Ao lado do incentivo familiar, não pode ser desprezada a contribuição da biblioteca, seja pública, seja particular, mencionada por eles, sendo que 9 afirmaram lembrar- se da existência de biblioteca escolar e 3 de pública.
Vejamos alguns de seus depoimentos.
A leitura foi fundamental, porque se eu não tivesse feito essas leituras, eu com certeza não teria atentado pras questões que eu pude perceber com muito mais facilidade ao estudar História e mesmo escrever os meus trabalhos ...
... a partir da leitura, desenvolvi não só o gosto pela leitura mas o gosto pelo pensar... eu era um dos poucos alunos da escola que adquiriu o gosto pela leitura ...
Esses depoimentos nos lembram de que, segundo Morais (1996:12), os prazeres da leitura são múltiplos. Lemos para saber, para compreender para refletir. Lemos também pela beleza da linguagem, para nossa emoção, para nossa perturbação.
O último entrevistado relata a importância do pai incentivando-o à leitura:
...a minha leitura iniciou exatamente em casa porque meus pais, mais especificamente meu pai, lecionava. Então eles me contavam muitas histórias...
A respeito da leitura do adulto para a criança, Morais (1996) reforça a importância família na aprendizagem da leitura e da escrita e na formação do leitor habitual. Afirma esse autor (1996:171):
O primeiro passo para a leitura é a audição de livros. A audição da leitura feita por outros tem uma tripla função: cognitiva, lingüística e afetiva. No nível cognitivo geral, ela abre uma janela para conhecimentos que a conversação sobre outras atividades cotidianas não consegue comunicar. Ela permite estabelecer associações esclarecedoras entre a experiência dos outros e a sua própria. Mais importante ainda, talvez:pela própria estrutura da história contada, pelas questões e comentários que ela sugere, pelos resumos que provoca, ela ensina a compreender melhor os fatos e os atos ...
Dada a importância desse contato entre a leitura oral e a criança, o mesmo autor acrescenta como vantagem democrática dessa prática na escola o fato de contribuir para não deixar definitivamente a reboque as crianças cujos pais não lêem para elas ou simplesmente não lêem (1996: 172).
O funcionário público também ressaltou a influência da família na sua vida de leitor:
...mas eu puxei a papai, homem analfabeto de tudo, que nunca foi à aula, mas eu me lembro dele sentado em um tamboretinho lendo a Bíblia ali ... lembro dele soletrando ...
Observe-se que nesse caso, não era tanto o conteúdo da leitura o objeto de estímulo ao entrevistado, mas a tentativa de realização do próprio ato de ler, ou soletrar, que o pai executava. A atitude do pai parece ter sido “absorvida” pelo filho e tê-lo influenciado em sua vida de leitor.
Uma informação recorrente entre os sujeitos de nossa pesquisa é o fato de a Bíblia ter sido um meio para o ingresso na prática de leitura. Essa recorrência explica-se, entre outras razões, pela tradição cristã em que vivemos inseridos. Nunes (1999:194), ao discutir a idéia de que a experiência da leitura, particular e momentânea, reverte a favor da experiência da vida, geral e cumulativa, afirma que
Para o leitor de hoje, membro de uma cultura secularizada, os [livros] religiosos, aqui referindo-me aos sagrados, como fontes de uma revelação sobrenatural, adquiriram um vulto literário que antes não era realçado, apesar de que nesses livros, mais em uns menos em outros – basta lembrarmos, na Bíblia, o Gênese, o Cântico dos cânticos, o Livro de Job, o Eclesiaste, dentro da tradição judaico-cristã a que nos limitamos – a visão poética e a religiosa se misturem.
Analisando a história de leitura dos escritores, percebemos que todos tiveram estímulos vindos dos pais, um deles tendo biblioteca em casa, e lembrando-se, juntamente com outro, da existência de biblioteca escolar; os outros 02 disseram existir apenas a biblioteca pública.
A combinação entre estímulo familiar e facilidade de acesso ao material de leitura mostrou-se, mais uma vez, determinante para a criação do hábito de leitura, como atesta um dos escritores entrevistados:
Se há alguma coisa que eu possa falar sobre as origens de meu interesse em leituras e livros é que sempre tivemos muitos livros em casa. Desde que eu era criança lembro-me de prateleiras de livros em nossa casa e na casa de meus avós aqui em Cuiabá.
Uma das escritoras também reforça que os pais contribuíram muito no estímulo à leitura:
... meu pai me incentivava muito, minha mãe também gostava de leitura, mas como ela não tinha assim, um certo preparo, ela não gostava de ler para os outros, né?
Como resultado de sua experiência com a leitura, essa mesma escritora menciona, em sua entrevista, o fato de ter participado na elaboração de revistas e jornais durante sua escolarização: ... Pois é, a gente tinha um jornalzinho. Mas aí fizeram um escândalo, onde já se viu, um jornal? Eu passava à mão os artigos ...
Também profissionais da medicina fizeram parte dos nossos entrevistados. Somaram-se 03 os médicos entrevistados, dos quais 01 declarou ter sido estimulado por parentes, tendo os outros 02 restantes recebido estímulos mais propriamente do pai ou da mãe. Os 03 entrevistados tiveram acesso à biblioteca escolar. Um deles disse ter sido feliz, pois recebeu estímulos tanto em casa quanto na escola em que estudou:
... minha família começou a implicar que eu só lia revistas em quadrinhos e sugeriram algumas obras de Literatura como estímulo à iniciação à leitura... particularmente, me sugeriram Monteiro Lobato, nesse caso, o pessoal que sugeriu, vovô, vovó, foram particularmente felizes. Indicavam as obras que talvez fossem mais apelativas para aquele momento da infância, de modo que criou o gosto pela leitura imediatamente...

... os professores convidavam os alunos a recortarem de jornais palavras que eles achassem diferentes, para serem discutidas na classe para aumentar vocabulário ... também havia trabalhos com textos da revista VEJA ...
Assumindo com Nunes (1999: 195) que a importância ética da leitura está no seu valor de descoberta e de renovação para nossa experiência intelectual e moral é preciso considerar que os livros, quaisquer que sejam, chegam às nossas mãos por intermediários certos. A família nos dá ou dava alguns; a escola põe-nos na mão quase todos ... Os textos que fecundam nossa experiência são aqueles dos quais nos aproximamos livremente ...
Na lista de entrevistados, foram somente 02 religiosos escolhidos e ambos tiveram estímulo familiar apenas por parte dos pais. Os dois entrevistados relataram a existência de biblioteca escolar e também de livrarias na escola em que estudaram.
O estímulo institucional, entretanto, foi destacado por um dos entrevistados como igualmente decisivo em sua trajetória de leitor, não apenas de obras cuja temática fosse religiosa, mas também de leituras outras, como se lê no trecho a seguir:
O seminário incentiva bastante a leitura. Tanto assim, que todos os dias a gente tinha uma meia hora de leitura. Leitura espiritual, quer dizer, vida de santos, vida de meditação religiosa. E também tinha sobretudo... sábados e domingos tinha leitura livre. Chamada leitura livre, a gente escolhia qualquer romance, ou outro livro. Não é!?
Para esse entrevistado, a prática de leitura foi levada tão a sério que ele, ao chegar a uma cidade do interior do Estado de Mato Grosso, na qual ainda havia pouca circulação de material de leitura, fez várias assinaturas de um jornal de circulação nacional e as distribui entre moradores locais, para que se também se tornassem leitores ou, pelo menos, para que se mantivessem atualizados quanto ao que acontecia no resto do Brasil e no mundo.
Também foram entrevistados 02 jornalistas, dos quais somente para 01 houve estímulo familiar, mais especificamente dos pais. Leiamos o trecho que segue.
A mamãe lia, um outro tio que morava conosco, eu era o filho mais velho, mas me lembro ... me atraía muito aquela idéia da leitura da bíblia. Hoje eu não sou leitor da bíblia .. mas a imagem dela sentada no fogão lendo a bíblia com toda aquela falta de cultura dela, falta de informação, não é nem de informação, é de cultura no sentido formal, era marcante. E depois o pensar, o tentar interpretar ... criança não é burra ... a gente guarda, interpreta bem as coisas ... Então, eu acho que ... aprender a refletir, a trabalhar com as idéias foi mesmo a partir da leitura.
Esse mesmo entrevistado destaca dois aspectos, sem dúvida, determinantes na formação do leitor habitual: a existência de biblioteca e o papel do professor nesse processo de aquisição e desenvolvimento do gosto pela leitura:
O primeiro contato com a leitura foi muito especial ... eu fazia o curso primário lá no interior de Minas, lá numa cidadezinha pequena e a gente tinha por semana uma hora de aula de biblioteca, e a biblioteca da escola era muito pequenininha. A professora, ela, isso marcou muito a minha vida, ela escolheu especialmente para mim o livro e entregou, um livrinho pequeno, ilustrado, chamava “Sapatinho de Cristal”, histórias medievais. Mas o que marcou não foi a historinha, foi ela ter escolhido “para você este aqui”. Eu me senti muito distinguido com aquilo. ... E de lá pra cá eu nunca parei de ler. Nós assistíamos aula na biblioteca semanalmente, eu lembro que eu esgotei toda a biblioteca da escola, eu lia e depois no ginásio eu também esgotei toda a biblioteca da escola ...
Quanto ao aspecto relativo ao papel do professor na formação do gosto pela leitura, Almeida (2001: 119), diz acreditar que as leituras do professor são relevantes para a constituição da identidade desse profissional, uma vez que se vinculam à representação das práticas pedagógicas por eles construídas e podem produzir efeitos significativos em seu desempenho profissional, refletindo-se diretamente em sua práxis. Para a autora (2001: 119), através das múltiplas e dinâmicas experiências vivenciadas [pelo professor] em seu dia-a-dia, são construídos valores e modos de agir específicos que envolvem concepções de ensino, práticas pedagógicas e as representações concernentes à sua própria imagem e ao seu papel social.
Apesar da importância da leitura ser reconhecida por todos os entrevistados, também foi mencionado o fato de que, algumas pessoas nascidas na zona rural, onde o estudo era cada vez menos acessível, ou muitas vezes ministrado inadequadamente, cresceram sem saber da importância da leitura na sociedade em que vivemos e, por essa razão, não puderam transmitir aos filhos esse valor para sua formação como ser humano. Portanto, não entendiam as razões pelas quais seus filhos deveriam ler fora da escola. Essa experiência foi relatada por um dos professores entrevistados, pois para seus pais, que eram da zona rural, a leitura em casa não era assim tão importante, como podemos verificar no trecho a seguir:
Para os meus pais, o limite da leitura era sempre aquele da escola. Na minha casa, as leituras obrigatórias eram sempre as leituras da escola...
Esse mesmo entrevistado, entretanto, depois de iniciado na leitura, conseguia burlar a proibição dos pais. Ele nos disse que em sua cidade, Guiratinga, havia uma loja que vendia botões e aviamentos, e essa mesma loja era o ponto de venda de livros e revistas da cidade. Então, ele passava horas lendo dentro da loja os escritos que os pais não o deixavam ler em casa:
Lá vendia armarinhos, artigos, né?Linhas, botões, zíperes, né, e era onde eu ia comprar os aviamentos para que minha mãe costurasse. Então, mesmo que ela quisesse impedir, ela não conseguia, porque eu tinha que comprar as linhas e os botões e aí eu aproveitava para ler as revistas...
Observe-se que, uma vez despertado para a leitura, dificilmente o leitor habituado deixará de realizá-la, quaisquer que sejam as circunstâncias, como atestam o trecho anterior e o que segue:
... eu pegava constantemente pedaços de jornais nas ruas, rasgados, jogados fora porque eu gostava de ler... sempre gostei de ler...
A sedução que a leitura provoca parece encontrar uma explicação plausível nas palavras de Foucambert (1994:5):
Ler significa ser questionado pelo mundo e por si mesmo, significa que certas respostas podem ser encontradas na escrita, significa poder ter acesso a essa escrita, significa construir uma resposta que integra parte das novas informações ao que já se é.
Um poema ou uma receita, um jornal ou um romance provocam questionamentos, exploração do texto e respostas de natureza diferente; mas o ato de ler, em qualquer caso, é o meio de interrogar a escrita e não tolera a amputação de nenhum de seus aspectos.
Ao lado do prazer proporcionado pela leitura, sua importância foi confirmada, ainda, em relação a outro aspecto importante na vida profissional, a saber, o domínio da língua escrita, conforme se lê abaixo:
Minha escrita é bastante razoável, sem que eu conheça qualquer uma das regras de Língua Portuguesa.. Acredito que isso se deva ao fato de eu estar lendo constantemente...
Embora Ferreira (1995: 51) critique uma das representações de leitura como o seu caráter pragmático, que a legitima como algo produtivo e não como um fim em si mesma ..., enunciada por leitores-aprendizes interessados na aquisição de conhecimentos, no enriquecimento cultural, no melhor domínio da língua culta, é preciso reconhecer que, em muitos casos, a relação entre leitura e escrita tem, entre outros resultados, a produção da escrita conforme às normas vigentes. Numa perspectiva sociointeracionista, por exemplo, essa interação é mais do que desejável e seus resultados têm-se mostrado bastante promissores.
Ao fazermos o balanço sobre as relações entre os nossos entrevistados e a leitura, percebemos que ela desempenhou papel decisivo em sua formação, especialmente, profissional, a ponto de muitos deles, quando perguntados sobre a importância da leitura, não conseguirem imaginar suas vidas sem essa prática de leitura. Essa é uma prova de que a formação do leitor ancora-se em dois pilares: a família e a escola.
Silva (1999:165), ao discutir as condições de formação do leitor crítico, afirma que a leitura não é dom, vocação nem talento. Ao contrário, afirma o autor, ela é uma prática social que, para ser efetivada, depende de determinadas condições objetivas, presentes na sociedade como um todo. Ninguém é avesso à leitura por natureza; a pessoa pode, isto sim, ser levada a ser avessa, a detestar a leitura. Dentre as condições objetivas, o autor insere a organização escolar e a organização bibliotecária lembrando-nos que todo ato pedagógico de natureza formativa e informativa, seja ele executado na biblioteca ou na escola, é, em essência, um ato político.
Embora sempre tenha sido da escola o papel principal para a constituição do leitor, atualmente, a instituição escolar parece ter assumido maior importância, considerando-se que as condições sociais vigentes limitam, cada vez mais, a ação dos pais nesse processo. De qualquer modo, a história de leitura de nossos entrevistados mostra claramente o fato de que a família – pai, mãe, avó, avô, irmãos, parentes – ainda desempenha papel importante no caminho do desenvolvimento do gosto pela leitura. Para Ezequiel Theodoro da Silva (1991), na obra “De olhos abertos”, promover a prática da leitura é possibilitar a formação de indivíduos aptos a pensar, questionar e buscar melhorar a sociedade em que vivem, mais especialmente quanto à possibilidade de acesso a esse bem cultural tão valorizado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ECO, U. Interpretação e superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

FERREIRA, N. S. A. Lendo histórias de le itura. Revista Leitura: Teoria & prática. Porto Alegre, RS: Mercado Aberto, 1995, nº 25.

FOUCAMBERT, Jean. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

MORAIS, J. A arte de ler. São Paulo: Editora da UNESP, 1996.

NUNES, B. Ética e leitura. BAZOTTO, V. H. (org.) Estado de leitura. Campinas, SP: Mercado de letras, 1999.
SILVA, E. T. O bibliotecário e a formação do leitor. BAZOTTO, V. H. (org.) Estado de leitura. Campinas, SP: Mercado de letras, 1999.

 
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