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A FORMAÇÃO INICIAL DO PROFESSOR: PROBLEMATIZANDO E ANALISANDO SITUAÇÕES DA PRÁTICA DE ENSINAR.

Marlene Dias Pereira Pinto - Mestre em Educação – Coord.Pedagógica do PROALFA/UERJ

“ O terreno é o meio concreto no qual uma aprendizagem se efetua.É por assim dizer o ar sobre o qual o pássaro se apóia para voar; sem a resistência do ar, o pássaro tombaria como uma pedra, ou melhor, seria incapaz de alçar vôo.”

Olivier Clouzot e Annie Bloch

Introdução

Considerando que, o ensino é uma prática social que precisa ser compreendida e investigada criticamente pelo professor e, como o docente é parte essencial no processo de construção de condições para que crianças, jovens, adultos e idosos aprendam a ler e escrever, o PROALFA – Programa de Alfabetização, Documentação e Informação do Centro de Educação e Humanidades da Universidade do Estado do Rio de Janeiro proporciona um espaço de formação inicial do professor alfabetizador. Ao longo desses dez anos, o PROALFA vem se constituindo como palco de formação de educadores. Por ele, até o ano de 2004, já passaram cerca de cem (100) bolsistas.

De modo geral, os cursos de formação encontram-se distanciados da realidade da escola, pouco contribuindo para as discussões e reflexões sobre as práticas sociais de educar. Assim, o Programa possibilita que alunos da graduação de Letras, Matemática e Pedagogia tenham como objeto de estudo sua própria prática pedagógica e o objetivo é ajudá-los a tomar consciência de sua formação.

Este trabalho tem por objetivo apresentar e discutir uma das oportunidades formativas que o PROALFA oferece aos bolsistas - a reunião pedagógica.

O PROALFA, como palco de formação, oferece oportunidades formativas, tais como:

• a prática em sala de aula, com adultos, idosos ou com crianças enfermas ou não ou com jovens;

• o acervo especializado, onde o bolsista tem acesso livre e independência de uso;

• os Ciclos de estudo sobre alfabetização, mensal, com professores renomados discutindo questões relativas ao tema;

• reunião pedagógica semanal, com duração de quatro horas, com a supervisão de uma psicopedagoga, para descrição, análise e reflexão da prática pedagógica e planejamento;

• grupo de estudo, semanal, onde são lidos e debatidos os teóricos que fundamentam nossa prática;

• Participação em eventos, congressos e seminários.


No Programa as condições para o desenvolvimento e o avanço do processo formativo de todos os bolsistas envolvidos estão previstas. Porém, a formação pertence à pessoa, vai depender de cada um com sua história de vida pessoal, sua história escolar e a atribuição de sentidos às suas vivências. Temos que considerar que não é suficiente que as condições sejam oferecidas ou que o professor saiba o que tem que fazer, o processo vai depender do trabalho reflexivo feito pelo próprio sujeito, no seu compartilhar com a equipe, nas suas trocas e experiências vividas.

Stenhouse (1982, apud Teberosky e Cardoso,1989, p. 51) afirma que chegar a ser um bom professor é

“produto da construção ou reconstrução do conhecimento que o professor leva a cabo individualmente. Ainda que o professor possa receber ajuda através de determinadas leituras ou por meio dos cursos de capacitação, trata-se de uma construção pessoal, elaborada através dos recursos socialmente disponíveis, e não pode ser transmitida por outro e para outro facilmente”

Os bolsistas de extensão, em formação inicial, são originários de diferentes Institutos e Faculdades da UERJ: Letras, Matemática e Pedagogia que convivem com saberes e linguagens diferentes de seu conhecimento específico. Nessa convivência a identidade docente vai se construindo e se constituindo num trabalho interdisciplinar e coletivo.

Os bolsistas ministram as aulas. Essas aulas acontecem três vezes por semana, nas salas de aula da própria universidade, com uma carga horária de nove horas semanais para os alunos. Cada turma possui um bolsista responsável no acompanhamento e sistematização dos conhecimentos que vão sendo adquiridos nas Oficinas de Leitura, Produção de texto, de Matemática e nas visitas pedagógicas a Centros histórico-culturais.

Os alunos, em sua maioria, são idosos (72%) e adultos, com pouca ou nenhuma escolaridade, interessados na leitura e escrita. Atendemos também, crianças na enfermaria do Hospital Universitário Pedro Ernesto, crianças e jovens oriundas do Abrigo Ayrton Senna. Estes alunos são recebidos pela universidade, professores e alunos, e nela se integram, ampliando seu universo de convivência e possibilidades.

Durante esses dez anos temos nos perguntado:

- Que modelo de formação? Que referencial teórico de conhecimento e de saber-fazer permite ao professor desempenhar o seu trabalho eficazmente?

Argumentação teórica e metodologia

A partir da configuração de um local, de um horário, da estrutura da reunião, de um coordenador que dê lugar a uma discussão, uma análise e reflexão da atuação do bolsista como professor, se consolida uma atitude de intervenção na prática.

A metodologia psicopedagógica utilizada é a intervenção sobre o processo de aprendizagem do bolsista, que pode estar apresentando problemas. O objetivo é compreender o processo e introduzir novos elementos para que ele reflita e modifique seu padrão de ensinar.

Acreditamos na concepção de professor como sujeito ativo, com informações e idéias, que fazem parte da estrutura de seu conhecimento, e que estão presentes na sua atuação em sala de aula, no seu planejamento e avaliação.

A partir dessa concepção, nossa proposta de formação consiste em oferecer a oportunidade do bolsista vivenciar concretamente a prática de sala de aula e uma equipe de trabalho que assegure a troca de informações, de conhecimentos e idéias. Essa equipe tem como coordenadora uma psicopedagoga que faz a mediação entre a prática vivenciada e os problemas com que se deparam os bolsistas e a teoria.

“A prática deve ser entendida como o eixo central do currículo da formação de professores. Contrariamente às teorias derivadas da racionalidade técnica, que situam a prática no final do currículo de modo a possibilitar uma aplicação dos conhecimentos adquiridos..”(Gómez, in Nóvoa, 1997).

O ensino é encarado como investigação e experimentação: os bolsistas em sala de aula vivenciam a prática e, em encontros semanais de quatro horas com a supervisão psicopedagógica e colegas, analisam e refletem sobre suas práticas de ensino. Através do relato, da análise e reflexão das aulas ministradas, em equipe o bolsista vai se questionando, propondo novas alternativas e reconstruindo o seu ensino.

Trabalhamos com a concepção de ensino que considera a problematização. Assim, o foco central é a prática de sala de aula do bolsista. A análise e reflexão a posteriori sobre a atividade pedagógica desenvolvida em classe, tem como objetivo a compreensão do processo ensino-aprendizagem e de suas possibilidades. A “escuta” da equipe e do psicopedagogo e suas intervenções possibilitam que o bolsista assuma seus erros, seus medos e os transforme em conhecimentos.

O processo de formação de professores segue os referenciais teóricos de Nóvoa, Gómez e Schön, (1997), Pimenta (2002,2004). Fazemos uso de um modelo interativo-reflexivo, no qual formador e formando são colaboradores e os saberes são construídos em cooperação para atender a problemas práticos. A relação criada com o psicopedagogo se torna formativa, sua presença para discutir a situação de aprendizagem e trocar idéias amplia a informação e facilita o processo de mudança. A atuação do psicopedagogo serve de modelo para a atuação do bolsista em sala de aula.

A reunião pedagógica

O objetivo é possibilitar um espaço de tomada de consciência da formação dos alunos/bolsistas que ali trabalham e convivem. O cotidiano da reunião é complexo, pois lidamos não só com as dificuldades advindas da universidade (não atendimento do número de bolsistas que necessitamos, transporte para complemento do planejamento das aulas etc) mas, também com as dificuldades e obstáculos de cada um dos atores que compõem esse cotidiano (aspectos relacionais, valorização de seus saberes específicos etc). Entretanto, acreditamos que é nesse cotidiano de enfretamento das dificuldades, dos medos e dos erros que o sujeito se constitui, com autonomia pessoal e profissional. Para isso, o espaço e o tempo da reunião é o momento de aprender a ouvir, aprender a conviver, aprender a compartilhar etc. Ele se constitui como um campo de aprendizagem para todos.

Nas reuniões de supervisão psicopedagógica os bolsistas narram suas experiências pedagógicas. Cada bolsista tem seu caderno de planejamento e registro das aulas e das observações do processo de aprendizagem dos alunos, instrumento esse, que é utilizado quando a narrativa é realizada. A equipe ouve e após a narrativa são analisados alguns aspectos considerados de relevância. O bolsista durante o relato reflete sobre sua prática de ensinar, percebe o seu processo como aprendiz e suas dificuldades então se revelam. Os aspectos teóricos vão se relacionando com as experiências pedagógicas e práticas de sala de aula, e nessa relação as transformações conceituais se processam e, com isso a postura do bolsista como professor se concretiza.

“Nega-se a separação artificial entre teoria e prática no âmbito profissional. Em primeiro lugar, só a partir dos problemas concretos é que o conhecimento acadêmico teórico pode tornar-se útil e significativo para o aluno-mestre”.( Gómez, in Nóvoa, 1997).

As experiências pedagógicas registradas, analisadas e refletidas, se constituem em novas elaborações teóricas e práticas de situações de ensino e aprendizagem. Toma-se o cuidado em registrar não somente a prática, mas explicitar a teoria utilizada, o processo, os resultados e a reflexão sobre os encaminhamentos realizados.

A formação se baseia não na racionalização técnica, mas sim, na reflexão sobre os procedimentos pedagógicos realizados e os resultados obtidos. Os dois encontros semanais são momentos de confrontação da prática com a teoria, o objetivo na revisão da prática e da teoria é ampliar a consciência do professor sobre sua própria prática de sala de aula e do sistema educacional. As reuniões pedagógicas colaboram no processo de passagem dos bolsistas de olhar o professor como aluno a olhar-se como professor e suas representações.

Como complementação teórica, a cada semana, são realizados grupos de estudo com materiais pertinentes ao trabalho desenvolvido. As reuniões pedagógicas semanais, pautadas na reflexão teórica da prática concreta de sala de aula, possibilitam o estudo teórico e a elaboração de teorias, a discussão sobre as dificuldades cotidianas e a construção coletiva de um planejamento adequado e criativo, com situações de aprendizagem desafiadoras que levem o aluno a avançar e desenvolver.

O bolsista, a partir de sua prática real de ensinar, conscientiza-se do significado que têm seus conhecimentos específicos para si mesmo, para o aluno e para a sociedade, por que e como ensiná-los. Ou seja, o futuro professor refletindo criticamente sobre o seu próprio fazer vai construindo a teoria a partir da sua prática docente. Nossa proposta metodológica parte da prática, vai para a teoria e volta para a prática.

Conclusão

O PROALFA completa dez (10) anos de existência neste ano, são dez (10) anos investindo na formação de professores. Ao longo dessa década passaram pelo PROALFA cerca de cem (100) bolsistas que atualmente atuam como professores na rede pública e particular. A maioria desses bolsistas deu continuidade ao seu processo de formação em cursos de pós-graduação – Doutorado, Mestrado e especializações. Numa pesquisa informal, vinte entrevistados atribuiram às condições formativas do PROALFA como facilitadoras para a compreensão e compromisso com a educação, contribuindo para o seu desenvolvimento enquanto profissional crítico e reflexivo, com uma prática participativa e democrática.

Esse modelo de formação – do professor refletir sobre sua prática de sala de aula nos encontros pedagógicos semanais com uma equipe e os grupos de estudo – com teorias adequadas às reais necessidades dos professores, contribuem para a formação de um professor consciente de seu papel enquanto educador.

O trabalho de refletir e refazer a ação pedagógica e também, o próprio processo de construção do conhecimento, conduz o bolsista a uma redefinição de sua prática educativa. Ele vai se transformando internamente e se tornando um elemento facilitador da aprendizagem do aluno, sem exigir mais do que este pode dar e sabendo lidar com as questões de limite, poder e autoridade.

Referências:

CARDOSO, Beatriz e Teberosky, Ana. Reflexões sobre o ensino da leitura e da escrita. São Paulo: Trajetória Cultural, 1989.

PIMENTA, Selma Garrido (coord.). Saberes pedagógicos e atividade docente. São Paulo: Cortez, 2000.

PLACCO, Vera Maria Nigro de Souza e ALMEIDA, Laurinda Ramalho de (org.). O coordenador pedagógico e o espaço da mudança. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

NÓVOA, Antonio (coord. ). Os professores e a sua formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1997.

WARSCHAUER, Cecília. Rodas em rede: oportunidades formativas na escola e fora dela. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.

 
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