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  A CONTRIBUIÇÃO DA LEITURA DE UMA OBRA NAS REFLEXÕES SOBRE DIDÁTICA.

Cibelle Fernanda Spilborghs - UNESP
Elizandra Cellim de Carli - UNESP
Luciane Cristina Rissi - UNESP
Marcela Soares Polato - UNESP

Introdução

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada”.

Clarice Lispector

Este trabalho tem como objetivo apresentar as contribuições da leitura e da discussão da obra “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector no âmbito da disciplina Didática.

A proposição de leitura de uma obra completa, feita pela professora de Didática Maria Rosa Camargo, do terceiro ano do curso de Licenciatura em Pedagogia, da Unesp de Rio Claro, pautou-se por algumas perguntas iniciais como: qual é o papel ou a importância da leitura de uma obra completa na construção de conhecimento? Que espaço tem sido reservado à leitura na escola visando a construção de novos conhecimentos?

Como pontos de partida para discutir a relevância da leitura na construção de conhecimentos, podemos considerá-la, inicialmente, como uma habilidade pela qual temos acesso ao que o material escrito nos passa / nos informa / nos dá a conhecer.

Pensada como um “instrumento”, ela nos possibilita o acesso a outros modos e conteúdos de pensamento, elaborados por outros, sendo, ela própria, um “instrumento” de elaboração de pensamento, por cada um de nós, sujeitos do conhecimento, da imaginação, da criatividade. Como “instrumento” de elaboração do pensamento, podemos considerá-la, com Vigotski (2000), como constitutivo de novos conhecimentos.

Consideramos, também, que o ato de ler é uma operação do pensamento que é eminentemente criativa, inventiva. O ato de ler é uma operação de caça furtiva, nos diz Certeau (1994), historiador francês e estudioso da cultura, na qual os olhos passeiam dançarinos pelos lugares disseminadores da cultura, (a mídia, a TV, a escola). Assim pensado, o ato de ler se desloca do lugar de ser meramente consumo (de leitores passivos, receptores, os que consomem) para ser produto (leitores criativos, inventivos, que produzem novos sentidos para o lido).

O ato de ler caracteriza-se, ainda, como um movimento dialético que se estabelece entre a imposição posta, por exemplo, pelos editores, fabricadores de livros, incluindo os prefácios e as leituras orientadas etc., e a apropriação efetivada pelo leitor, nas diversas e múltiplas manifestações de entendimento de um texto. É o que nos diz Chartier (1990), historiador francês da leitura e do livro, situando o ato de ler entre as liberdades refreadas, por parte dos editores, professores etc. e os limites transgredidos, pelo leitor, aluno etc.

Fez parte da proposição do trabalho, a escolha da obra a ser lida, por grupos, sendo que cada grupo selecionou uma obra literária ou de pesquisa, que fosse de seu interesse para leitura, apresentação e socialização. O nosso grupo optou pela obra de Clarice Lispector “A Hora da Estrela” (1998).

Aqui, num primeiro momento, veremos o contexto em que a história foi escolhida e o motivo que levou os participantes a optarem pela obra. A seguir, veremos os detalhes que mais chamaram a atenção na sua leitura e como preparamos e apresentamos a obra para a sala. A partir da leitura escolhida, buscaremos também uma comparação da personagem principal da obra, Macabéa, com outras da literatura brasileira.

No segundo momento, apontaremos várias questões e inquietações que foram suscitadas na leitura da obra e na apresentação para sala, tais como: que relação pode ser estabelecida entre um texto literário e temáticas da Didática? Que relações e conexões podem ser estabelecidas entre obras literárias e o cotidiano de um ambiente escolar? Qual é a relevância de uma obra literária na construção do conhecimento no campo da Didática?

Diante dessa perspectiva, conduzimos nosso trabalho norteando-nos pelas questões apresentadas e assumindo que para encarar essas inquietações e outras que foram surgindo, foi preciso muita coragem, pois com diria Clarice Lispector, “Isto será coragem minha, a de abandonar sentimentos antigos já confortáveis”.

A escolha da obra

O livro “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector integra a lista de livros requisitados para exames como o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e os vestibulares. Dessa forma, a opção pela leitura deste livro deu-se pelo fato de muitos alunos já o terem lido no Ensino Médio pela “cobrança de professores” para os exames acima relacionados e, como agora, na universidade, surge a possibilidade de fazer uma leitura mais livre, podendo pensar e repensar sobre a referida obra de longe já conhecida, vários alunos reuniram-se para estudá-la mais a fundo. Pouco a pouco o grupo foi crescendo, as idéias foram aparecendo e, como uma árvore que começa a germinar a partir de uma pequena semente, vai crescendo, as folhas vão aparecendo e na devida estação produz seus frutos, vemos hoje esse trabalho que parecia tão somente mais uma exigência das disciplinas do curso de Licenciatura em Pedagogia da Universidade Estadual Paulista, tornar-se uma experiência fantástica que hoje podemos compartilhar com diversos leitores que também se interessam em estudar o tema.

Algo interessante foi o fato de que muitos alunos agregaram-se ao grupo por pensarem que seria mais fácil estudar essa obra, já que tem poucas páginas; entretanto, surpreenderam-se com a grandeza dos resultados obtidos, com a leitura do mundo, com as reflexões realizadas, com os frutos produzidos.

Inicialmente, nosso grupo era composto por treze pessoas: Ana Paula de Barros, Bianca Junqueira Franco, Carolina Brasil Choueri, Cibelle Fernanda Spilborghs, Daniele Menezes dos Santos, Elizandra Borsonello, Elizandra Cellim de Carli, Josiane Bueno de Oliveira, Juliana Aparecida Ladeira, Juliana Cavallari Borges, Luciane Cristina Rissi, Marcela Soares Polato e Wilson Ricardo A. de Almeida. Entretanto, quando decidimos dar continuidade ao trabalho, a convite da professora Maria Rosa, sob a forma deste artigo, apenas quatro pessoas desejaram continuar o trabalho e, aqui apresentamos o relato de nossa experiência.

Considerações sobre o livro “A Hora da Estrela”

O livro “A Hora da Estrela” apresenta histórias de vários personagens que se entrecruzam e apresentam-se sobre a forma de questionamento e reflexão a respeito da condição humana. Como um caleidoscópio, onde mundos e mundos se cruzam em torno da dinâmica da vida.

Temas como isolamento e solidão deslocam questões referentes à desigualdade social e ao significado da vida, propiciando reflexões acerca de problemas da vida e a busca de novas perspectivas para se reencontrar o sentido de viver.

Clarice Lispector assume o narrador-personagem Rodrigo e esconde sua fragilidade “feminina”, pois, “mulher chora demais”. A função metalingüística é presente em toda obra onde o narrador “conversa com o leitor”, sente sua história paralela à de Macabéa e identifica-se com ela, ora amando-a, ora odiando-a, ora identificando-se com ela, ora afastando-se dela, revelando sua sensibilidade, suas emoções através de coisas simples da vida.

Macabéa, moça de dezenove anos, alagoana, criada por uma tia que a espancava. Vem morar em São Paulo onde trabalha como datilógrafa dividindo um quarto com mais quatro moças que trabalhavam nas “Lojas Americanas”.

No trabalho, há uma colega chamada Glória que rouba seu namorado Olímpico, operário, nordestino e mentiroso que gostava de “contar vantagens”, parecia sentir prazer em menosprezar Macabéa. Para ele, namorar Glória dava-lhe status já que ela era loura, filha de um açougueiro e gordinha. Para o homem nordestino, acostumado com a falta de alimentos e pobreza, uma mulher “bem nutrida” e loura, era diferente das demais e, por isso, fazia parte do padrão de beleza feminino almejado por Olímpico.

Enfrentando tantas desilusões, sem quase ter o que comer e vivendo na mais pura solidão, Macabéa recebe de sua amiga Glória a sugestão de procurar uma cartomante, Carlota, mulher de olaria que leria a “sorte” de Macabéa.

Sua sorte seria então, conhecer um homem que faria sua vida mudar a partir do momento em que ela saísse da casa de Madame Carlota. Como ela acertou muita coisa a respeito da vida da moça, não deixou dúvidas em seu pequeno e triste coração de que agora realizaria um de seus grandes sonhos.

Saindo da casa, ela foi atropelada por uma Mercedes “cor de ouro” e morreu aos poucos, ao som dos sinos badalando, sem ajuda e esperança. É esse o seu momento de glória, onde se torna a estrela das ruas, a estrela do asfalto e é digna de receber a atenção de algumas pessoas que passavam pelo local. Macabéa, relembrando palavras de Getúlio Vargas num outro contexto, “sai da vida para entrar na história”, assim como Clarice que, não muito depois de escrever essa fascinante história, deixa-nos a saudade e sua lembrança escrita em seus livros. “A Hora da Estrela”, seu desabafo, suas incertezas, sua miséria de viver. Como os demais textos de Clarice, o romance mostra as personagens e seus destinos, suas dores de existir e suas descobertas do mundo. Ela faz uma crítica a sociedade capitalista, pois “a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende”, mas Macabéa não sabia que botão acender, não sabia que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso indispensável a ser usada por essa sociedade de exploração, de miséria e abandono que sustentam as bases da produção e da globalização.

A preparação do trabalho e sua apresentação

A preparação da socialização da obra “A Hora da Estrela” para os nossos colegas de classe iniciou-se a partir do momento em que começamos a leitura desta obra. Após a realização da leitura, marcamos uma reunião para discutirmos qual seria a melhor maneira de socializar a obra lida.

Em um primeiro momento, estávamos preocupados em como iríamos desenvolver nosso trabalho, pois estamos tão acostumados com os seminários que sempre nos deixam ansiosos. Mas quando nos reunimos, vimos que existia a possibilidade de realizar um trabalho diferente dos seminários que estamos acostumados. O grupo foi expondo suas idéias e conseguimos organizar o trabalho de uma maneira tranqüila e agradável.

O grupo se reuniu na biblioteca do campus e naquela noite, praticamente, organizamos todo o trabalho. Iniciamos conversando a respeito da obra, pontos que nos chamaram a atenção e passamos um bom tempo conversando sobre a obra estudada. Em seguida, começamos a pensar em como apresentar a obra para a classe.

As idéias para organizar o trabalho foram surgindo e decidimos anotar tudo o que pensávamos em fazer. Primeiro, pensamos que seria importante, além de falar da obra em si, falar um pouco da autora. Assim decidimos que iniciaríamos apresentando a obra, em seguida a autora, e um resumo da história; também falaríamos especificamente a respeito de cada personagem e por último faríamos uma reflexão a respeito das inquietações que a leitura dessa obra nos trouxe e suas implicações com a Didática.

Enquanto discutíamos sobre o trabalho e organizávamos as tarefas no grupo, foram surgindo sugestões para a apresentação da obra. Como por exemplo, a idéia de apresentar o filme “A Hora da Estrela” para os colegas da sala. Todos os integrantes do grupo concordaram com essa idéia e decidimos apresentá-lo no final da socialização.

Como a leitura da obra completa proporcionou muitas reflexões, estabelecemos também uma relação com a música chamada “Epitáfio”, do grupo Titãs. Apresentamos essa música para a classe e destacamos as relações entre ela e “A Hora da Estrela”, refletindo sobre a necessidade de pensarmos no presente e na construção de modos de existência que contemplem a vida e promovam a felicidade. Este livro, através de histórias de diferentes personagens, nos remete a um questionamento e reflexão a respeito da condição humana e na música “Epitáfio” também encontramos uma forma de reflexão sobre nossas vidas.

A música fala do que deveríamos ter feito e que muitas vezes esperamos que o acaso resolva nossos problemas e nos proteja, mas na verdade a vida vai passando e não podemos ficar imóveis. E assim acontecia também com Macabéa que deixava as coisas irem acontecendo, vivendo de uma maneira automática.

O grupo pensou ser muito importante apresentar de forma clara a história e principalmente a personagem principal, Macabéa. Para isso, decidimos encenar uma situação do livro, onde dois integrantes do grupo representaram a Macabéa e o Olímpico, o namorado dela.

Para que conseguíssemos, por meio da socialização da obra, provocar reflexões em nossos colegas, preocupamo-nos primeiramente em apresentar de maneira clara a obra estudada. Com isso surgiriam as questões e inquietações nos alunos da sala. E logo após também discutiríamos as nossas reflexões acerca da obra.

E para complementar a apresentação da obra “A Hora da Estrela”, o grupo pensou ser interessante utilizar imagens e fotos, apresentando situações do nosso mundo, como uma maneira de apontar algumas das reflexões que tivemos na realização do trabalho.

A socialização da obra aconteceu na data marcada pela nossa professora. Na sala de aula estavam a professora, uma estagiária-docente e quase todos os alunos do 3º ano de Pedagogia. O nosso grupo era um pouco grande e todos teriam alguns minutos de fala.

As cadeiras da sala de aula foram dispostas em círculo, logo fizemos uma grande roda. Pensamos que a apresentação do nosso trabalho desta maneira propiciou um ambiente confortável. Não foi um seminário, mas uma conversa muito produtiva a respeito de uma obra da Clarice Lispector que nos levou a refletir a respeito de nossas vidas e conseqüentemente nossas atitudes como educadores.

A apresentação da obra ocorreu praticamente da maneira que planejamos. Os nossos colegas se interessaram muito pela obra discutida, participando das discussões e alguns disseram que ficaram com vontade de lê-la.

A preparação e socialização da obra foram trabalhos diferentes e muito enriquecedores entre outros que realizamos no curso de Pedagogia. Os seminários sempre nos preocupam, mas o trabalho realizado na disciplina de Didática, a leitura de uma obra completa, foi diferente, pois aprendemos e refletimos de uma maneira muito mais agradável e tranqüila.

Comparação da personagem Macabéa com personagens de outros livros.

O trabalho também proporcionou uma comparação e reflexão de personagens da literatura brasileira com a protagonista da obra, Macabéa.

Ao fazer a comparação entre Macabéa e personagens de outros livros, veremos, por exemplo, que personagens de nossa literatura, como os de Machado de Assis, entre eles D. Plácida e D. Eugênia, de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, para garantirem certo lugar ao sol, ou pelo menos sobrevivência, submetem-se a papéis terríveis que influem em sua própria dignidade. D. Plácida é medianeira de um adultério; D. Eugênia é concubina e depois mãe solteira. Macabéa vive uma vida miserável, tanto de sentidos, de vitalidade, quanto de condições materiais. Ela não tem determinação, simplesmente vive e deixa as coisas acontecerem como também os personagens “Leonardo” de Manuel Antônio de Almeida do livro “Memórias de um Sargento de Milícias”, e “Macunaíma” de Mário de Andrade que são caracterizados por “deixarem-se levar pela vida, pelo acaso”, embora saibam, com sutileza e agilidade, de forma malandra, se virar em meio às dificuldades, pelo menos se desviando-se delas, o que não ocorre com Macabéa, que deixa levar-se pela vida, em meio às suas dores e pequenas alegrias.

Macabéa é realmente diferente, inédita na literatura, em cujo desfecho de sua vida, encontra sua hora de estrela, ou seja, o grande momento de sua vida, que ocorre justo quando morre. O momento de sua libertação, de seu grito de alívio, pois a vida para ela já passara, simplesmente, passara.

Severino, de “Morte e Vida Severina” lembra-nos também esta jovem cuja aspereza da vida tornou-a seca e rígida, sem ilusões ou desejos mais audaciosos. Ele, porém, descreve sua vida, busca-a e dá os motivos da retirada, percebendo o valor da vida já próximo de sua morte, o que o distancia de Macabéa cuja existência é apenas um percurso automático, embora sua morte tenha sido talvez o único marco de sua passagem pela vida.

“A Hora da Estrela” pode-se fazer sua aproximação com “Libertinagem”. Escrito às vésperas de sua morte, a obra pode ser entendida como resultado da epifania de Clarice Lispector, descobrindo o mistério do existir e, para falar dessa revelação, cria Macabéa.

Luísa e Juliana, do romance português “O Primo Basílio”, também fizeram-nos lembrar Macabéa. Luísa não é rejeitada pela sociedade e, embora aparentemente passiva quando seduzida, chega a lutar por algo que acha que é seu ou para evitar o prejuízo de sua reputação. Já Juliana, que de fato é marcada pela rejeição por pertencer à classe baixa da sociedade apresenta um desejo de vingança, deixando de ser passiva, à mercê dos acontecimentos e tornando-se ativa, diferente de Macabéa, que pouco ou nada faz por si.

Macabéa poderia também se aproximar das personagens de “Primeiras Estórias”, pois vivem em situações de marginalização. Entretanto, a marginalização dos protagonistas desses contos de Guimarães Rosa têm como vantagens epifanias para as quais intuitivamente parecem já estar esperando, diferente também de Macabéa que, nem mo plano de suas aspirações, parece reconhecer um sentido para sua existência.

“A Hora da Estrela” foi escrito às vésperas da morte de Clarice, o que abre uma possibilidade de a obra ser entendida como resultado da epifania de Clarice Lispector, descobrindo o mistério do existir às vésperas de sua morte e falando de suas angústias e desencantos frente à vida por meio de Macabéa.

Ela aproxima-se ainda de Fabiano, outro nordestino quando se qualifica como bicho, e “Festa”, em que, com sua família, não consegue encaixar-se no contexto social. Mas, por mais pobre que seja, parece mais crítico e determinado a viver, procurando fugir da seca.

Os personagens de “Vidas Secas”, “sonham” almejam algo que ultrapasse suas miseráveis condições de vida. Macabéa é carente, apática, sem brilho.

Macabéa, que nos suscitou tão belas e profundas reflexões sobre a vida como a arte da existência, é uma personagem vazia. Não se lembra de seus pais, no sertão de Alagoas; foi criada por uma tia beata, que lhe deu uma educação repressora, é simples, sem beleza, sem charme, sem “inteligência” cujo conhecimento que possui a cerca de si própria e da vida é limitado a seu mundo marcado pelo devassamento ocasionado por uma sociedade repressora, alienadora e discriminadora na qual hoje vivemos buscando sentidos para que nossas vidas não sejam levadas durante nossos anos de existência apenas enquanto um sopro que passa e já não está mais. Por isso estamos aqui buscando respostas, refletindo e procurando fazer de nossas vidas enquanto seres humanos e enquanto educadores muito mais do que apenas uma simples passagem, mas como um sim. Sim a vida, sim às mudanças sim ao potencial que cada pessoa tem na luta por uma sociedade mais justa e igual.

A relevância da literatura na construção do conhecimento no campo da didática

Ler “A Hora da Estrela” foi um deixar afetar-se... Foi mergulhar em Macabéa, viver um pouco da Clarice. Foi olhar para dentro de nós e começar a enxergar a vida e os mistérios da existência. Deixar de lado coisas pequenas que nos entristecem, abandonar comportamentos preconceituosos, esquecer de estereótipos e viver cada momento de nossa existência como quem tem na vida e não na morte uma hora de estrela. A leitura nos colocou em movimento, nos instigou desde o início, nos provocou. O que vamos fazer? Para onde vamos caminhar? Para quê vamos educar?

Foi um grande prazer e um intenso aprendizado que, mais do que o cumprimento de uma obrigação, a leitura tocou-nos profundamente e nos fez refletir sobre muitas coisas. Esse foi um belo exemplo de didática! Aprendemos com prazer, com dedicação, sem pressões.

A leitura se torna mais fácil quando se permite que o ensinar e o aprender aconteçam de forma livre, após ter sido instigado o desejo pela leitura.

Ao escolhermos essa obra, não imaginávamos como poderíamos estabelecer tantas relações com nosso objeto de estudo: a Didática.

Buscávamos relações entre educação e sociedade, procurávamos compreender as relações subjacentes à prática em sala de aula e refletir sobre os sujeitos desse processo na construção de seu conhecimento.

O contato com a leitura fez com que nossa vida, enquanto educadores, se abrisse como um livro diante de nós e, com um novo olhar, pudemos então fazer uma leitura diferente de nossas práticas, de nossa história, de nossas relações enquanto educadores e protagonistas desse “nosso livro” buscando respostas à questões que surgiam e tornavam-se cada vez mais instigantes e, assim, mergulhamos num processo de busca cada vez mais rico e prazeroso.

O abrir desse livro nos convocou à leitura e à atividade de ler não como um dever no sentido de uma obrigação, mas no sentido de uma dívida ou de uma tarefa como uma responsabilidade que tivemos para com aquilo que nos proposto em um movimento de ler que nos envolveu nas palavras da autora e nos fez refletir sobre nossas práticas.

Na leitura as coisas não se repetem e sempre é uma oportunidade de aprender mais sobre uma obra, enxergar aspectos que não tínhamos visto antes, pois “ler é recolher o que se vem dizendo para que se continue dizendo outra vez, ou seja, que é outra vez a mesma e cada vez outra vez, como sempre se disse, numa repetição que é diferença e numa diferença que é repetição” (LARROSA, 2001: 141).

Assim, a leitura da obra fez com que o texto ganhasse mais sentido, entendimento em suas palavras e personagens, remetendo-as a uma visão mais ampla e reflexão mais aguçada.

No ato de ler, não encontramos muitas respostas, mas novas perguntas; pois quanto mais procurávamos respostas, mais nos perdíamos na leitura e nas situações descritas e a partir do momento em que começamos a fazer nossas perguntas, a “conversar” com o texto e com as personagens, nossas reflexões aumentaram e passamos a fazer parte da obra, começamos a indagar a nós mesmas sobre os personagens e sobre os acontecimentos.

Nessa leitura não se busca o que o texto sabe, mas, o que somos capazes de pensar e refletir sobre esse texto, poderá dizer de muitas maneiras, de muitos dizeres. Por isso, na lição, a ação de ler extravasou o texto e o abriu para o infinito para fazermos relações com outros textos, outros personagens, além de transpormos algumas reflexões para o campo da educação e da didática.

Segundo Proust (2001) a leitura é uma das mais nobres distrações porque através do contato com outros espíritos desenvolvemos em nós mesmos a sensibilidade e inteligência, logo, a leitura e o saber dão as “belas maneiras” do espírito. E foi possível percebermos isto na realização deste trabalho, pois a leitura foi concebida como atividade prazerosa e até mesmo como distração e a partir dela desenvolvemos nossa sensibilidade e refletimos sobre a educação. A leitura nos incitou a pensar sobre as nossas vidas e especialmente sobre questões da educação.

Acreditamos que esta foi a intenção da nossa professora ao propor a leitura e discussão das obras literárias, despertar inquietações para que pudéssemos construir conhecimentos.

Proust (2001) afirma que um dos grandes e maravilhosos caracteres dos belos livros são as “Conclusões”, que na verdade, para os leitores, são “Incitações”, ou seja, nossa sabedoria começa onde termina a do autor, este, na verdade nos proporciona desejos ao contemplarmos sua arte. É a partir dos desejos e incitações despertados pela leitura de uma obra que refletimos e podemos construir novas idéias.

A leitura é uma atividade que, geralmente, realizamos sozinhos desfrutando desse poder intelectual que se tem na solidão. Entretanto, a partir do momento em que realizamos a leitura e tivemos inquietações despertadas, tornou-se importante discuti-las e compartilhá-las. E na realização do trabalho da disciplina de Didática, tivemos espaço para dividir muitas inquietações sobre a vida e a educação.

Proust (2001) nos fala que o estímulo para as nossas reflexões deve vir de outrem e que é preciso recebê-lo na solidão, ou seja, através da leitura. Mas quando lemos, desejos e incitações nos foram provocados e sentimos que precisávamos discuti-los e compartilhá-los. Portanto, a leitura e a discussão de uma obra completa foi um trabalho acadêmico muito especial, pois, além de lermos a obra e criarmos a partir dela, conseguimos dividir nossas reflexões e pensar as questões da Didática com os nossos colegas da Pedagogia.

A leitura nos trouxe o comum do aprender enquanto esse comum não é senão o silêncio ou o espaço em branco onde se mostram as diferenças.

Houve um comprometimento com a leitura, um apaixonar-se por ela, um envolver-se. Houve um verdadeiro estabelecimento de laços afetivos com Macabéa, uma amizade de ler que implicou na amizade de aprender.

“A amizade consiste em haver sido mordido e ferido pelo mesmo veneno, haver sido inquietados por ele”, (LARROSA, 2001: 145). Inquietados pelos personagens, pelo silêncio de Macabéa, o por quê de seu desprezo, o dar importância para as pequenas coisas da vida, a rotina, o olharmos para nós mesmos e nos perguntarmos o que temos de Macabéa dentro de nós o quanto não damos atenção ou desprezamos certas pessoas, ou certos acontecimentos.

Entregamo-nos à leitura, deixamo-nos inquietar por ela, e perdemo-nos nela.

O ler converteu-se num falar, e na vontade de escrever, que foi o que fizemos com essa obra e, a partir do espaço em branco, veio o desejo de escrever sobre a obra, sobre a personagem que tanto nos inquietou num ato de coragem.

“Isso será coragem minha, de abandonar sentimentos antigos já confortáveis”, como observa Lispector (1998). Assim, deixamos de lados nossas velhas práticas e nossos “pré-conceitos” numa busca de novas significações para nosso cotidiano enquanto educadores, para a compreensão dos seres humanos enquanto pessoas e enquanto sujeitos de um processo de reinvenção da vida.

Buscamos, na leitura deste livro, o que “nossos olhos ávidos gostariam de penetrar como uma última palavra da arte de um pintor” da arte de Clarice, pois “o supremo esforço do escritor como artista não consegue senão erguer parcialmente para nós o véu da feiúra e da insignificância que nos deixa negligentes diante do universo”. (PROUST, 2001: 32). Da feiúra de Macabéa. De um mundo onde “mundos e mundos” se cruzam em torno da necessidade de sobreviver e buscando razões para alimentar a essência do que somos: seres vivos. Seres vivos, mas dotados de um poder maior: do poder de criar e recriar nossa existência. A feiúra, a dor e a solidão de uma Macabéa deram vida à nossas reflexões. Criamos a partir do caos, da dor e da miséria.

Na atual sociedade em que estamos inseridos, onde cresce a miséria, dissemina-se a violência e onde nós, como educadoras, sentimo-nos ameaçadas e acabamos perdendo forças que nos moviam a buscar superar nossos problemas cotidianos; precisamos estimular nossos desejos latentes de superação dessa condição de miséria e esvaziamento da vida, pois “ou a humanidade, através deles reinventará seu devir urbano, ou será condenada a perecer sob o peso de seu próprio imobilismo, que ameaça atualmente torná-la impotente face aos extraordinários desafios com os quais a história a confronta”. (GUATTARI, 1992:178).

Muitas vezes, os discursos pedagógicos “têm efeitos disciplinares sobre os indivíduos incluindo-os ativamente na fabricação de usa própria experiência no mundo” (GARCIA, 2002:26).

Podemos nos remeter a Restrepo (2000) que nos diz que a escola e a família não têm outro objetivo a não ser o de amestrar o corpo. Somos prisioneiros deste corpo e, assim, inibindo muitas formas de manifestações criativas. A leitura pode significar uma ruptura desta prisão da qual vivemos.

Para Certeau (1999), o corpo que lê se acha mais livre em seus movimentos.

O ato de ler provoca um ato de conhecimento e um movimento criador, tais manifestações nos permitem suscitar inquietações e juntamente com elas possibilidades de mudanças.

Freire (1982) nos lembra que a leitura, em sua forma crítica da realidade, pode constituir num instrumento de transformação do mundo através de nossa prática consciente.

Essa leitura da qual falamos, não é aquela leitura obrigatória e mecânica que encontramos muitas vezes no ambiente escolar; a leitura que falamos é aquela que nos afeta é a leitura que, como diria Paulo Freire (1982), nos oferece à nossa inquieta procura.

Em nossa inquieta procura descobrimos Macabéa. Essa Macabéa que tanto habita em nós e habita no outro. Clarice Lispector foi sensacional ao colocar tanta sutileza e simplicidade a um personagem que nos puxa com tamanha violência para a vida. Esta violência da qual nos referimos, é uma forte dinâmica de movimentações internas que inquietam, deixando claro que a busca é infinita: “Basta descobrir a verdade que ela logo já não é mais” como observa Lispector (1998).

Ainda com a idéia de movimento, o livro começa tratando da origem do mundo: “Tudo começou com um sim...” e termina com um “SIM”, dando uma idéia de que é preciso continuar inventando o mundo, o que torna nosso desafio interminável.

A leitura da obra “A Hora da Estrela” contribuiu no sentido de pensar a respeito da condição humana: Como estamos vivendo? Vamos parar e olhar para o lado? O que eu estou fazendo para e pelo outro? A leitura nos colocou em movimento, nos instigou desde o início, nos provocou. O que vamos fazer? Para onde vamos caminhar? Para quê vamos educar?

No meio do caminho de Drummond existia uma pedra e assim ele disse: ”Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas”.

“Nunca esquecerei que no meio do nosso caminho tinha uma pedra”. No meio do nosso caminho também existiram pedras, eram os “por quês”, era a personagem de Clarice Lispector que nos causou tanto incômodo.

Desse modo, descobrimos que são as inquietações que aceleram ou desaceleram nossas vidas, que despertam nossos interesses, que aumentam nossa sede de curiosidade, curiosidade amiga da descoberta e da capacidade de transformação.

Neste sentido, fomos compreendendo a frase de Rubem Alves: “A tarefa do professor é mostrar a frutinha vermelha. Comê-la diante dos olhos dos alunos. Erotizar os olhos. Provocar a fome. Fazê-los babar de desejos. Acordar a inteligência adormecida. Aí a cabeça fica grávida: prenhe de idéias”.

Assim como o professor, a leitura também tem essa função de “engravidar a cabeça”, pois quando a cabeça está prenhe de idéias e de questões não há nada que segure o corpo.

O ato de educar nos remeteu a decifrar e a descobrir o outro. Este outro, como diria Drummond de Andrade, que é o desconhecido que habita em nós. Portanto, possuímos uma relação intrínseca, ao mesmo tempo em que o habitamos, ele nos habita.

A leitura da obra “A Hora da Estrela” nos fez refletir sobre esse outro e, conseqüentemente, utilizando-nos novamente de Drummond de Andrade, “sobre nossa escrita interior”, e acima de tudo fez-nos pensar sobre a condição humana.

Refletir sobre a condição humana implica refletir sobre a educação. Entretanto, não podemos promover uma educação reprodutora, mas precisamos, assim como fomos instigados a repensar nossas práticas, contribuir para que nossos alunos possam reinventar sua experiência no mundo e possam promover uma transformação social que parte de uma mudança iniciada no interior de cada um. É preciso enxergar a vida como uma obra de arte para conferir-lhe a dimensão de uma tela onde nós, os pintores e protagonistas de sua história, possamos criar e recriar quantas vezes forem necessários nossos modos de vida, nossas práticas, nossa passagem pelo universo.

Pudemos, então, concluir, que a didática também pode ser envolvente se trabalharmos, ao invés do mecânico, o lúdico; do tradicional, a criação contida numa música, de Chico Buarque, num poema, num jornal. O aluno estimulado pode tornar-se um pesquisador ávido e terá maiores chances de ler, por exemplo, Machado de Assis, por sentir-se seduzido pelo prazer da leitura e não porque esta é uma obrigação.

“A Hora da Estrela” passou a ser a nossa obra, o reflexo de nossas vidas e de nossas práticas e, a partir dessas reflexões, pudemos repensar também o a importância da escrita não enquanto reprodução de pensamentos, como geralmente fazemos em nossos trabalhos universitários. Lemos autores indicados pelos professores, misturamos um pouco das idéias deles, mudamos suas palavras, colocamos algumas de nossas idéias (que na maioria das vezes não discordam da deles) e escrevemos algo que nem sempre é parte de nós. Observamos regras, normas, mas deixamos de lado nossos sentimentos. Longe fica o afetar-se por ela, o entregar-se e o produzir uma escrita com sentido, enquanto reflexo de nossas práticas, de nossas inquietações de nossas reflexões e experiências enquanto educadores.

Desta vez, aprendemos a brincar com o que lemos, aprendemos a torná-lo nosso e a dar vida ao livro conforme nossas próprias experiências. Aprendemos a fazer da escrita uma obra de arte. Como uma tela branca nas mãos de um pintor, essas folhas que agora vocês lêem expressam o movimento de criação que esteve dentro de nós.

Assim, não podemos promover uma educação reprodutora, mas precisamos, como fomos instigados a repensar nossas práticas, contribuir para que nossos alunos possam reinventar sua experiência no mundo e possam promover uma transformação social que parte de uma mudança iniciada no interior de cada um. É preciso enxergar a vida como uma obra de arte para conferir-lhe a dimensão de uma tela onde, nós os pintores e protagonistas de sua história, possamos criar e recriar quantas vezes forem necessários, nossos modos de vida, nossas práticas, nossa passagem pelo universo.

E, ao relatarmos essa experiência de leitura, de como a realizamos, desde a escolha da obra, até a produção deste artigo, desejamos compartilhar com quem por ele se interesse e deseje afetar-se nossas singelas reflexões, nosso desejo de tornar a vida, assim como nossas práticas enquanto educadores e nossa didática, uma obra de arte.

Bibliografia

ALMEIDA, Manuel Antonio de. Memórias de um Sargento de Milícias. São Paulo: Martin Claret, 2002.

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

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Endereços eletrônicos:

Equipe Feranet21 - http://www.feranet21.com.br/livros/resumos_ordem/a_hora_da_estrela.htm

Revista on-line Nave da Palavra - http://www.navedapalavra.com.br/resenhas/claricelispector.htm

 
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