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  DA RESSIGNIFICAÇÃO DA CULTURA À CONSTRUÇÃO DA ESCRITA

Érica do Nascimento Rivas – UERJ
Monira Rabelo - UERJ

“É preciso denunciar muito claramente, e tantas vezes quanto possível, até criar uma consciência pública de que não é possível alcançar os objetivos educacionais colocados para o final do século XX, se não se modificar, rapidamente, a própria concepção de alfabetização.” EMÍLIA FERREIRO

Tendo por objetivo a formação de leitores e escritores, autônomos e críticos, o Proalfa -Programa de alfabetização, Documentação e Informação da uerj, desenvolve ações extencionistas distribuídas em cinco projetos: Classes de Alfabetização e Letramento,Classe de Jovens, Apoio Pedagógico à enfermaria pediátrica do hospital Pedro Ernesto , Ciclo de Estudos em Alfabetização e Acervo especializado Emília Ferreiro.

As Classes de Alfabetização e Letramento trabalham com temas anuais, subdivididos em módulos com temas escolhidos conjuntamente pela equipe pedagógica e bolsistas,que são graduandos de Pedagogia, Letras, Matemática,Comunicação e Biblioteconomia.

Leitura,escrita e matemática são trabalhados de forma sistemática, em concordância com o tema desenvolvido em cada módulo. No ano de 2004, o tema anual foi Educação e Qualidade de vida, com os seguintes sub-temas: Educação e Meio Ambiente, Educação e Saúde e Educação,Cultura e Lazer.

O presente trabalho presta-se a descrição do projeto Educação,Cultura e Lazer,realizado na turma de alfabetização inicial das Classes de Alfabetização e Letramento. A turma Mangueira I era composta por 15 alunos, em sua maioria idosos, com média de freqüência de 6 a 10 alunos por aula. A grande parte não freqüentou nenhum tipo de estabelecimento de ensino, apresentando uma escrita que oscilava entre a hipótese silábico-alfabética e a alfabética.

Se nossos alunos recebessem um ensino tradicional, possivelmente escreveriam palavras soltas, desconectadas de seu cotidiano, com a preocupação de codificação e decodificação.No entanto, em nossa metodologia, acreditamos que a construção da escrita é um processo que parte das hipóteses elaboradas pelos alunos, cabendo ao professor mediar essa relação de modo a fazer com que os mesmos alcancem a escrita alfabética.Ainda que não saibam decifrar o código, os alunos, quando bem motivados e estimulados pelo professor, são capazes de compreender um texto,de modo que eles aprendem a ler e a escrever, lendo e escrevendo.

Nesse sentido, o objetivo desse módulo foi dar prosseguimento ao processo de construção da leitura e da escrita, atribuindo significado aos elementos da cultura popular presentes no cotidiano dos alunos, de modo a incentivá-los a se entenderem como sujeitos produtores/ transmissores da sua cultura .

O produto final foi a confecção do livro: Cultura e Sabedoria da turma Mangueira I, cujas etapas de construção passaremos a relatar:

• Levantamento dos conhecimentos prévios.

Nesta etapa, constatou-se que o conceito de cultura desses alunos era distorcido, sendo considerada cultura, apenas a erudita.Nosso objetivo, a partir de então, foi o de desmistificar tal conceito.

• Trabalho com provérbios, expressões populares e quadras populares.

Justifica-se a escolha desse tipo desses tipos de textos , por possuirem uma estrutura simples e por se tratar de escritas que os alunos tinham de memória.

Segue um exemplo de quadra criada por duas alunas:

O amor é a palavra mais importante da minha vida.
O amor é viver
Meu grande amor, se você for embora
Vou atrás de você

• Confecção e organização do Baú da Sabedoria Popular

Apesar da idéia ter sido sugerida pelas professoras regentes, foi unanimemente acatada pelos alunos.

O Baú foi depositário da rica sabedoria dos alunos que eram os autores dos textos, dando origem,posteriormente, aos textos que comporiam o livro da turma.

• Organização do Livro

A partir das escritas dos alunos, categorizou-se os textos, dando início às diversas etapas de um livro, como: escrita coletiva da apresentação, índice,título,dedicatória,etc...

Essas etapas sintetizaram a produção do livro no qual a turma trabalhou com muito empenho e dedicação, alcançando com êxito, os objetivos do referido módulo.

“O que quero dizer é o seguinte: não posso de maneira alguma, nas minhas relações político-pedagógicas com os grupos populares, desconsiderar seu saber de experiência feito.Sua explicação do mundo de que faz parte a compreensão de sua própria presença no mundo: E isso tudo vem explicitado ou sugerido ou escondido no que chamo 'leitura do mundo' que precede sempre a 'leitura da palavra.”' PAULO FREIRE

Trabalhando com os conhecimentos prévios dos alunos, com a leitura de mundo dos mesmos, tivemos a possibilidade de realizar atividades prazerosas e gratificantes para a aprendizagem dos educandos e para nós professoras, que tivemos a oportunidade de mediar esse processo de construção de conhecimentos dos alunos e aproveitar com eles a valiosa oportunidade do conhecer.

“...Colocar-se na posição humilde de quem não sabe tudo, reconhecendo que o analfabeto não é um homem 'perdido', fora da realidade, mas alguém que tem toda uma experiência de vida e, por isso, também é portador de um saber.”(Gadotti, 1991, p.69)

 
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