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LEITURAS DO JORNAL NACIONAL

Mariana Brasil Ramos - Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica e Professora substituta do Depto. de Metodologia de Ensino da Universidade Federal de Santa Catarina

Introdução

A televisão ocupa, a cada dia, mais tempo da vida dos brasileiros. Ela se insere no cotidiano das pessoas como lazer, como fonte de informação e, acredito eu, como fonte de aprendizagem também. Tanto pela facilidade de aquisição do aparelho, como pelo hábito estabelecido culturalmente em nível nacional, ela proporciona um espaço importante para a veiculação de informação sobre as práticas científicas. Ao mesmo tempo, muitas críticas têm sido trazidas à tona, a respeito do sensacionalismo, da manipulação de informações e da manutenção ou mudança das ideologias que pretendem regrar ou constituir as identidades dos telespectadores.
De acordo com Monteiro & Brandão (2002), a chamada televisão aberta alcança 99,3% de todo território brasileiro. O que significa que grande parte da população pode ter acesso ao que nela é veiculado diariamente. É no mínimo estranho viver sem a “companhia” da televisão. Muitas pessoas chegam a considerar o aparelho como “parte da família” tal é o nível de proximidade que o televisor adquiriu desde sua entrada no Brasil. Assim como Hilty (2001, p. 112), acredito que “poucos de nós podem lembrar de um tempo em nossas casas em que a televisão não estava ligada”.
E a ciência também ocupa seu espaço na tv, destacando-se em documentários, telejornais, telecursos, programas de auditório, desenhos animados, enfim, em variados momentos da programação televisiva brasileira. Tendo em vista esta presença, tanto da ciência na televisão, como da televisão no cotidiano brasileiro, é necessário buscar analisar como a ciência vem sendo tratada por esse veículo de comunicação.
Para reforçar esta necessidade, considero relevante descrever minha experiência como professora de ciências, durante a qual, muitas vezes, fui surpreendida por alunos que afirmavam ter visto determinado assunto ser tratado de forma diferente na televisão (fosse em documentários, telejornais, programas de variedades, etc). Nestas ocasiões, eu pedia aos alunos que me contassem o que havia de diferente e eles explicavam como haviam “aprendido” na televisão, colocavam os sentidos por eles construídos sobre determinados temas, com base no que haviam assistido na “telinha”. Eles já conheciam o tema e já tinham atribuído significados relacionados ao mesmo somente pelo contato com uma reportagem ou documentário. Uma das coisas que mais me surpreendia, é que, às vezes, ouvia que “se a televisão disse que é assim”, eu provavelmente estava errada...
Levando em conta estas experiências e pensando a televisão como uma comunicadora de informações sobre a ciência para o público em geral, questiono aqui que ciência vem sendo divulgada na telinha brasileira. Freqüentemente, durante as explicações dadas pelos alunos, eu podia notar que muitos dos temas trazidos para discussão eram explicados por estes de forma diferente da trabalhada na escola. Admito que, tanto a escola como os outros meios de difusão científica podem distorcer (simplificando, omitindo, etc) os discursos científicos, pois cada um destes campos atende a demandas diversas, que envolvem o público-alvo, interesses econômicos, políticos, entre outros, e que, a partir destas modificações, podem ajudar a criar diferentes visões, sentidos para a ciência, como veremos mais adiante. Meus alunos tinham idéias sobre ciência retratadas pela tv, pela escola, ou por outros meios de comunicação. Não me refiro aqui somente ao conteúdo das informações científicas veiculadas, mas sim, ao que se pode compreender acerca do que seja a ciência, sobre quem sejam os cientistas, no que consistiriam seus trabalhos com base nestas informações.
Já existem alguns movimentos preocupados com a imagem difundida da ciência, seja na escola ou em outros espaços de informação. Como exemplo, podemos citar o enfoque educacional CTS que objetiva uma regulação social da ciência, através do estímulo a uma “compreensão da natureza da ciência e do trabalho científico” (Caamano apud Teixeira, 2003, p. 182), para que as pessoas possam emitir opiniões acerca da realização desta atividade humana, se posicionar politicamente sobre as decisões que podem mudar os rumos de suas vidas. Este enfoque tem suas origens nos estudos de sociologia e epistemologia da ciência e visam desmistificar a imagem de ciência e tecnologia neutras, objetivas e desinteressadas que foi, e ainda é, amplamente difundida através de modelos positivistas de ciência. Ainda hoje, porém, entre pessoas que não são especialistas nas áreas científicas, é comum percebemos diversas associações da ciência a modelos como aqueles de cientistas loucos, de jalecos brancos e cabelos espetados, com trabalhos cansativos, que exigem muitos cálculos, bancadas intermináveis... sempre há a necessidade de se testar infinitas vezes teorias surgidas da observação. Os intrumentos utilizados são modernos, têm design avançado...
Tomando como exemplo alguns resultados da pesquisa de Castelfranchi et al (2002), na qual foram investigadas as imagens que crianças e adolescentes de escolas italianas faziam da ciência e dos cientistas, percebemos como a mídia acaba ajudando a constituir as relações que o público traça acerca destes universos:

Um primeiro “sedimento”, profundo, do imaginário sobre ciência e cientistas pintado pelas crianças é ligado a uma dimensão “emotiva”, rica de conotações míticas sobre conhecimento em geral. Os desenhos das crianças mostram, em muitos casos, o cientista como figura imaginária construída a partir do imaginário midiático, inspirada no cinema de Hollywood, nos programas de TV, nos quadrinhos: dinossauros, naves espaciais, Harry Potter, Frankenstein, Pokemon, viagens no tempo, aparecem com grande freqüência na descrição do ambiente no qual esse cientista “de conto de fadas” vive e atua. O cientista, quando colocado num contexto fantástico, é uma figura estereotipada: tende a ser um homem, branco, ocidental, de jaleco (“como posso desenhá-lo sem tê-lo visto?”, comentam as crianças; “Fácil: bota nele um jaleco branco!”, respondem outras), de óculos (“tem que observar muito/estudar muito”), que vive num laboratório protegido por grandes portas trancadas.
Castelfranchi, 2002, p. 5

Ainda utilizando-me deste trabalho, destaco a percepção dos autores de que diversos conceitos associados às práticas científicas, modos de se olhar para os conhecimentos científicos, inclusive de cunho epistemológico, foram percebidos nas falas das crianças, que já possuíam noções, construíam sentidos sobre a natureza das atividades científicas e de seus realizadores:

Além disso, as crianças descrevem com nível de detalhe bastante surpreendente a dimensão espaço-temporal e a dimensão de vida social aonde o cotidiano do cientista se coloca, como também os aspectos epistemológicos (a ciência como modelo, como descoberta e descrição de novos aspectos do mundo) e de aplicação tecnológica ligados à pesquisa aplicada (o cientista como inventor). Em fim, na fase de escritura da “carta para outras crianças”, os alunos mostram de saber distinguir entre aspectos míticos, ligados à ficção mídiatica, e aspectos atuais e concretos da prática científica: demostram um conhecimento bastante articulado de alguns aspectos da “ciência real”, utilizando palavras chaves como modelo, teoria, hipótese, análise, experimento. Em alguns casos, são capazes de explicar esses conceitos por meio de metáforas e exemplos: “um ‘projeto’ é como quando você tem um dinheiro para gastar e precisa decidir como vai gasta-lo. Só que o cientista faz isso com as idéias…”; “análise, por exemplo, é quando você tem que picar o pelo do cachorro, e estudá-lo, em vez de estudar o cachorro todo, sem fazer mal ao cachorro”.
Castelfranchi, 2002, pp. 6-7

Num trabalho anterior , investiguei as possibilidades de produção de sentidos sobre as relações entre seres humanos e outros animais em três filmes hollywoodianos. Algumas das leituras realizadas em um dos filmes , me pareceram associar a imagem do cientista a um ser-humano neutro, objetivo, despido de envolvimentos emocionais em relação à sua pesquisa. A anunciação da ciência, muitas vezes, se dava de forma final, como se esta tivesse colocado um ponto no assunto tratado. Além disso, os cientistas de outros dois filmes eram apresentados como “loucos” por defenderem seus “objetos” de estudo (gorilas), não apenas pela perspectiva da conservação de espécies (uma imagem mais racional desta defesa, mais aceita cientificamente), mas por envolverem-se emocionalmente com os mesmos. Enfim, modelos que podem contribuir para a construção de diversos sentidos sobre os cientistas, sobre a ciência.
Acredito que também a televisão esteja contribuindo para divulgar “estas e outras ciências”, através dos filmes, dos telejornais, programas de auditório, etc. E se está, será que estes significados não estarão permeando o imaginário de milhões de telespectadores? Será que estas ciências não estão sendo aprendidas? E, se estão sendo aprendidas, que ciências estão sendo aprendidas?

Análise do Discurso e Leitura

Lopes (2004) afirma que, no campo das teorias da comunicação, constituíram-se duas visões principais sobre a evolução das relações entre a televisão e os telespectadores, sob um ponto de vista social: uma delas, de caráter emissionista, encara o público como passivo e passível de sua influência direta; a outra compreende grande parte das teorias da recepção que procuram “explicar como o público recebe e dialoga com os emissores televisivos” (Lopes, 2004, p. 132-133). Tendo em vista estas abordagens, entendo (sob a perspectiva da análise do discurso, como o leitor perceberá mais adiante) que a televisão exerça sim influência na constituição do imaginário humano, mas não num caráter estritamente emissionista. Acredito que todo o conteúdo veiculado pela tv passa por uma reorganização no momento de interação com cada telespectador, que recebe também outros estímulos em sua vida sobre os mesmos conteúdos, tais como: escola, família, igreja, enfim, todo tipo de contato social.
Considero importante destacar que estes conteúdos trazidos pela tv entram em contato com o telespectador através de formas verbais, sonoras ou visuais, que constituem as linguagens trazidas pela televisão. Levando isto em conta, alguns estudos provenientes da lingüística seriam facilitadores de um tipo de compreensão das relações mantidas entre a televisão e seus espectadores. Trago, portanto, para este trabalho, alguns aportes teóricos relacionados à análise do discurso francesa (AD), buscando uma reflexão sobre este momento de interação entre a televisão e o espectador. Estas interações constituem-se no domínio do simbólico, dos significados estruturados dentro de/por uma cultura que atravessam cada indivíduo que entra em contato com a produção do programa televisivo e, também, com aqueles que o assistem. E, neste sentido, é apropriado trabalhar com o referencial teórico da AD, pois esta busca estabelecer a linguagem como foco de construção de sentidos sobre as coisas do mundo...
A AD concebe que produzimos, atribuímos e incorporamos sentidos através da linguagem e busca exatamente estes momentos de expressão dos sentidos, aos quais atribui o nome de discurso. O discurso superaria a dicotomia língua (manifestação social de sentidos)/fala (manifestação individual de sentidos), situando-as num mesmo lugar. Sendo assim, uma depende da outra e, para sua compreensão, num dado contexto, estas não podem ser separadas (Cardoso, 1999). Ou, de acordo com Pêcheux:

O objeto da lingüística (o próprio da língua) aparece assim atravessado por uma divisão discursiva entre dois espaços: o da manipulação de significações estabilizadas, normatizadas por uma higiene pedagógica do pensamento, e o de transformações de sentido, escapando a qualquer norma estabelecida a priori, de um trabalho do sentido sobre o sentido, tomados no relançar indefinido das interpretações. Esta fronteira entre os dois espaços é tanto mais difícil de determinar na medida em que existe toda uma zona intermediária de processos discursivos (derivando do jurídico, do administrativo e das convenções da vida cotidiana) que oscilam em torno dela. Já nesta região discursiva intermediária, as propriedades lógicas dos objetos deixam de funcionar: os objetos têm e não têm esta ou aquela propriedade, os acontecimentos têm e não têm lugar, segundo as construções discursivas nas quais se encontram inscritos os enunciados que sustentam esses objetos e acontecimentos.
Pêcheux, 1990, pp. 51-52

Para a AD, quando produzo um discurso (construção de sentidos, por intermédio da linguagem), coloco não apenas o funcionamento dos signos e suas regras, mas alguns funcionamentos dos signos e suas regras que construí ao longo de minha existência. Esta construção contém o que estes signos significam para mim – indivíduo – que remete imediatamente ao meu lugar na sociedade e à minha relação com esta. Desta forma, meu discurso reflete meu contexto histórico-social. E meu contexto histórico-social determina meu discurso. Coletividade e individualidade se expressam no discurso. Segundo Pêcheux,

(...) se poderia dizer que é a coletividade, como entidade preexistente, que impõe sua marca ideológica em cada sujeito, sob a forma de uma “socialização” do indivíduo em “relações sociais” concebidas como relações intersubjetivas (...)
Pêcheux apud Almeida, 2004, p. 41

E também a ideologia se expressa no discurso, constitui o próprio discurso, já que, no momento da produção do discurso, ao significar, ao produzir sentidos, o indivíduo não se dá conta do contexto histórico-social que determina seu discurso. Nas palavras de Orlandi:

A relação com o simbólico é uma relação com a interpretação. Ela está na base da própria constituição do sentido. Diante de qualquer objeto simbólico o sujeito é instado a interpretar, a dar sentido. E o faz determinado pela história, pela natureza do fato simbólico, pela língua. Aí está o princípio mesmo da ideologia: não há sentido sem interpretação, mas este processo de constituição de sentido (sua historicidade) não é transparente para o sujeito. Ao contrário, é através de um processo imaginário que o sentido se produz no sujeito na relação que interliga linguagem/pensamento/mundo. A interpretação (a ideologia) é assim necessária: não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia.
Orlandi, 1997, p. 26

Para a AD, como já mencionado anteriormente, os sentidos se constituem durante o discurso. Mas este não existe independentemente dos chamados interlocutores, sujeitos (determinados ideologicamente, discursivamente) entre os quais o discurso se efetiva. Quem fala, fala a alguém, direciona seu discurso, ocupando uma posição, a outro, ocupando outra posição. O primeiro tem idéias sobre o segundo e vice-versa, e estas estarão implicadas em seu discurso. O segundo fará a leitura do discurso do outro, leitura, sendo entendida aqui como totalmente dependente de interpretação e, referindo-se a qualquer tipo de texto (escrito, falado, imagético, etc). Os sentidos que ambos construirão no ato do discurso dependerá intrinsecamente desta relação, que está diretamente relacionada à ideologia que os permeia, ao contexto histórico-social de cada um, ao interdiscurso.
A televisão (ou o programa televisivo, ou as pessoas que o constroem), portanto, ao expressar-se através de linguagens, e os espectadores, ao interagirem com as mesmas, envolvem-se em sistemas simbólicos construídos social e historicamente. Estes sistemas simbólicos constituem a noção de interdiscurso, redes de sentidos já ditos, pré-existentes que dialogam com os dizeres “do agora”, com as interpretações que fazemos com base em nossas memórias discursivas, construindo sentidos. Orlandi (1997, p. 30) coloca que para a AD, “o interdiscurso é a memória do dizer, o saber discursivo, a filiação de sentidos”. Ou, de forma mais abrangente:

A noção de interdiscurso, traz para a reflexão sobre a linguagem a consideração do inconsciente e da ideologia. Em sua definição, o interdiscurso é o já dito que sustenta a possibilidade mesma de dizer: conjunto do dizível que torna possível o dizer e que reside no fato de que algo fala antes, em algum outro lugar. Toda vez que falamos, para que nossas palavras tenham sentido, é preciso que já tenham sentido. Esse efeito é produzido pela relação com o interdiscurso, a memória discursiva: conjunto de dizeres já ditos e esquecidos que determinam o que dizemos.
Orlandi apud Almeida, p. 46, 2004

Acredito que, através das leituras dos discursos que nos bombardeiam no dia-a-dia, vamos formulando e re-formulando nossos sentidos (por nossos sentidos, entenda-se os sentidos que atribuímos a objetos em um dado momento, em um dado discurso). Desta forma, os discursos produzidos e veiculados na televisão, no Jornal Nacional, também possuem diversas particularidades, podendo nos influenciar, no ato de nossas leituras, a respeito dos significados, dos novos (novos para nós) sentidos que poderemos atribuir aos signos e aos objetos a que eles se referem. Estes discursos relacionam-se a outros, num processo contínuo de intertextualidade (sendo texto, entendido aqui, na perspectiva da AD como uma unidade de análise) e inscrevem-se em determinadas formações discursivas, de acordo com suas constituições transitórias. De acordo com Orlandi (1993, p. 58), “a formação discursiva se define como aquilo que numa formação ideológica dada (isto é, a partir de uma posição dada em uma conjuntura sócio-histórica dada) determina o que pode e deve ser dito”. Ou ainda,

As formações discursivas são diferentes regiões que recortam o interdiscurso (o dizível, a memória do dizer) e que refletem as diferenças ideológicas, o modo como as posições dos sujeitos, seus lugares sociais aí representados, constituem sentidos diferentes. O dizível (o interdiscurso) se parte em diferentes regiões (as diferentes formações discursivas) desigualmente acessíveis aos diferentes locutores.
Orlandi, 1995, p. 20

A formação discursiva autoriza ou impede um ou outro discurso, endereça-o, permite ou não uma interpretação a este ou aquele interlocutor, legitima ou ridiculariza um enunciado. Ela está relacionada diretamente ao(s) contexto(s) ideológico(s) que perpassa(m) os interlocutores, possibilitando ou não determinados efeitos de sentidos do texto e por esta razão se torna importante na construção deste trabalho, ao considerarmos o espaço da televisão, como divulgadora da ciência, inscrita em diversas formações discursivas que a autorizam a falar de... para... com a intenção de... e todas as conseqüências que estes discursos podem trazer no momento da interlocução com o telespectador brasileiro. É importante considerarmos que

Somando filmes, vídeo-games, programas televisivos variados e outras formas de imagens em movimento, as pessoas passam mais tempo neste mundo imagético do que lendo ou estudando. Elas assistem e relaxam, também se informam e formam idéias a respeito das coisas do mundo e de como supostamente nos situamos nele.
Bruzzo, 1999, p. 03

Ainda sob a perspectiva da AD, acredito que as “conseqüências” mencionadas anteriormente reflitam uma questão importante: a dos efeitos de sentido possibilitados pelo discurso. Cada telespectador estará, no momento da leitura do programa televisivo, dialogando com um discurso que poderá passar a constituir novos sentidos a respeito do tema tratado, ou de uma palavra utilizada, ou da imagem de alguma idéia representada no momento. E isto é um pressuposto dos produtores dos programas de tv. Eles têm a intenção de passar o seu recado sobre o que comprar, em quem votar, qual canal assistir, como se vestir, como falar, o que você tem que saber sobre tal, ou sobre tal. Seus discursos devem produzir sentidos que invadam o imaginário dos telespectadores, sentidos que, talvez, passem a fazer parte dos sentidos dos próprios telespectadores. Sentidos que possam ser apreendidos/aprendidos pelos espectadores. É possível dizer isso? Afinal, incorporar, adotar, construir sentidos através dos variados tipos de interação social não seriam sinônimos de aprender?
Mas esta também não é uma intenção do professor, ao entrar em sua sala de aula, re-produzindo um discurso sobre ciência, por exemplo? Que os alunos incorporem sentidos provenientes de uma formação discursiva científica? Que eles tomem estes sentidos como os seus? Como os “corretos”? Como os adotados? Que eles construam estes sentidos, aprendam estas idéias? E passem também a reproduzir e atuar de acordo com as determinações da formação discursiva científica usada na sala de aula? É neste sentido que intenciono despertar no leitor do meu texto a pergunta: não estaríamos falando de aprender? Aprender como a construção, incorporação, contato, talvez, adoção de novos sentidos, que “conversem” com nossos sentidos anteriores, que se tornem novos e influentes em nossas vidas, ou sejam imediatamente descartados? Vejam bem! Não estou falando de se aprender a “forma correta” (mesmo porque, o “correto” pode variar de acordo com a formação discursiva, certo?), mas sim de se incorporar, conhecer novos sentidos, como fazemos o tempo todo, bombardeados de informações que somos pelos diferentes veículos de comunicação de que dispomos atualmente.
Quando falamos em educação, alguns pesquisadores “se arrepiam” ao pensar a tv como espaço de construção de sentidos, de aprendizagem. Porém, se pensamos na possibilidade de troca, de veiculação de discursos entre telespectadores e televisão, colocações como as de Monteiro & Brandão [“é praticamente impossível a apreensão sistemática de conteúdos de conhecimento quando transmitidos por um meio tão veloz e vertiginoso como <a tv>” (Monteiro & Brandão, 2002, p. 96)] pressupõem uma subestimação da capacidade de comunicação, de interlocução entre a tv e o espectador. Talvez, mais importante do que negar a possibilidade de apreensão sistemática de conhecimentos através da tv, seja a de que, por mais que esta apreensão possa não ser “a” desejada por grande parte dos educadores em ciência, alguma apreensão esteja acontecendo! Assim como Freire, acredito que, “como educadores progressistas não apenas não podemos desconhecer a televisão mas devemos usá-la, sobretudo, discutí-la” (Freire, 2000, p. 110).
Por estas razões, compreendo que nós, educadores, devamos discutir esta questão, desvinculando a tv de certos preconceitos. Devemos começar a percebê-la como um veículo de comunicação, como uma interlocutora do discurso científico, que pode contribuir para uma formação (ou de-formação) científica do povo brasileiro tanto quanto a escola, por exemplo. Se não por diversos fatores complexos (velocidade, falta de sistematização, abordagem equivocada de conteúdos, repetição de temas, entre outros), por uma simples questão de acesso! Por isto, acredito que seja de extrema necessidade, um olhar mais aprofundado para a tv: veículo de comunicação, que adentra a porta de milhões brasileiros todos os dias, levando “informações”, “sentidos”, por meio dos discursos que veicula; de maneira prazerosa, muitas vezes, confortável, para pessoas que talvez não tenham acesso a escolas, a outras fontes; valendo-se de diversas formações discursivas e construindo e legitimando as suas próprias; numa velocidade que pode inibir, inviabilizar a reflexão crítica, que pode facilitar a filiação de sentidos pelos telespectadores.
Em resumo, as pessoas podem estar aprendendo através da televisão. Ao veicular discursos, ao produzir e endereçar discursos, ela atinge seus telespectadores. Acredito que esta seja uma forma de se compreender as possíveis relações que se dão entre os telespectadores e a televisão. Partindo desses pressupostos, penso na importância de se buscar o que a televisão vem ensinando sobre a natureza da ciência através do telejornalismo, uma das formações discursivas mais assistidas e acreditadas pelo público em geral nos dias atuais.

Leituras Jornalísticas

É comum escutarmos “verdades” referentes a um conteúdo veiculado pela televisão, principalmente, tratando-se de conteúdos veiculados em jornais. O jornalismo, de modo geral, adquiriu enorme credibilidade do público. As pessoas tendem a associar os discursos jornalísticos a uma “verdade”, expressão ou anunciação de “fatos reais”. Esta visão está relacionada a uma proliferação da imagem de neutralidade e objetividade auto-proclamada pela imprensa nos últimos anos, respaldada, principalmente pelo paradigma positivista. De acordo com Meditsch,

Nas sociedades ocidentais contemporâneas, é possível identificar uma concepção do que é real e verdadeiro fortemente estabelecida. Resumidamente, esta concepção propõe que a realidade é material e passível de ser conhecida, através da evidência dos fatos que a compõem. Nesta concepção, o discurso que se adequa e não contradiz os fatos da realidade é o discurso verdadeiro. Fatos são observações empiricamente verificáveis, e com fatos não se discute.
(Meditsch, 2001, p. 03)

Desta forma, ao demonstrar suas atividades como uma revelação ou descrição da verdade, o jornalista imprime também este caráter ao seu público, que pode também compreender desta forma a atividade jornalística. “Esta concepção não apenas guia a prática cotidiana do homem comum, como inspira o ideal de objetividade presente tanto na prática dos jornalistas como na dos cientistas - que não são exatamente a mesma” (Meditsch, 2001, p. 03). Para melhor ilustrar estas concepções de jornalismo, tomo como exemplo a descrição do jornalista Nilson Lage, ao comparar as ciências com as humanidades, traçando um paralelo entre a ciência e o jornalismo:

Não há, nem pode haver, um único critério de cientificidade para as ciências – exatas, da natureza e as biológicas – , mas seus objetos são definidos e as metodologias específicas de cada uma. O que é fundamental não é tanto a operação com valores (que assusta os estudantes que “odeiam matemática”) mas a suposição de que existem proposições sobre o mundo objetivo que podem ser provadas verdadeiras ou falsas em determinados universos de observação; o pré-requisito, como observa Karl Popper , é que possam ser falsificadas, isto é, que se possa propor sua falsidade. Em síntese: o conhecimento é não apenas computável mas também não contraditório (...)
Alguns campos dos estudos humanos buscam conhecimentos também consistentes – novos espaços se abriram para isso com os processos estatísticos e se abrem, agora, com a aplicação da informática no estudo da neurofisiologia ou a construção de sociedades artificiais com agentes inteligentes. No entanto, salvo nesses poucos episódios, o critério de verdade é, nas humanidades, resultado de confrontos retóricos, de modo que cada geração pode reescrever a sabedoria da geração anterior, propondo eventualmente novos paradigmas, que refletem perspectivas ideológicas da época em que são formulados. (...)
Lage, 2002

Lage observa que, para as ciências humanas (as quais ele atribui o nome de conhecimentos humanos, pois estas não seriam ciências), o embate ideológico marcaria as produções da área. As teorias não seriam baseadas em fatos e, sua falseabilidade não seria pré-requisito para determiná-las. Estes conhecimentos, estas teorias, refletiriam as tendências históricas da época, mas não refletiriam, talvez, uma “realidade”.

Enquanto a evolução das ciências costuma dar-se por inclusão (os conhecimentos anteriores são assumidos como parte ou caso particular do universo do discurso que se amplia, como acontece na relação entre a física de Newton e aquela que decorre das teorias da Relatividade e dos Quanta), nos estudos humanísticos há efetivamente paradigmas – o estruturalismo, o funcionalismo, o comportamentismo, o relativismo etc. – que se digladiam por longo tempo, e, mais, costumam retomar à hegemonia, levemente transformados, ao longo de extensos períodos históricos. São recorrentes em séries aparentemente ilógicas, como um pêndulo que se move em várias direções.
Lage, 2002

Neste último trecho, ele ainda coloca que as ciências naturais (não humanas), tenderiam a “acumular”, englobar os conhecimentos provenientes das teorias anteriores, não estabelecendo rupturas entre uma teoria e outra. As ciências naturais, portanto, para este autor, tenderiam a ser lógicas, cumulativas, não-contraditórias, utilizariam-se de metodologias específicas e definidas e, por consequência, refletiriam um “real” objetivo (dado um certo universo de observação).

As ciências se propõem a trabalhar sobre problemas específicos; costumam produzir textos mais breves, exceto quando o discurso trata de questões epistemológicas relacionadas ao próprio fazer científico. Já os estudos do homem (não de sua existência física ou mental, mas da abstração a que se reporta o termo, também ambíguo ou vago, “humanidades”) tendem a construir sistemas abrangentes, voltados no final das contas para a normalização ou controle das instâncias políticas e da cultura. São obras extensas, em que se procuram orientações tendendo à universalidade.
O espaço do jornalismo científico é o que se chamou, nos parágrafos anteriores, de “ciência”; acresce que o conceito que os jornalistas em geral têm de “informação” é bem próximo ao dos cientistas – o da adequação, tanto quanto possível, do enunciado ao objeto do discurso . Aos estudos de humanidades – que se deveriam chamar de “conhecimentos” e não de “ciências” – corresponde o embate retórico, a fala de convencimento, advocatícia, política, que, no jornalismo de notícias, deve ser apenas citada, jamais assumida. Assumi-la, sempre com alguma crítica, cabe, no máximo, aos articulistas, editorialistas e formuladores da linha editorial.
Lage, 2002

Podemos perceber, nesta fala, a referência a uma apresentação da atividade jornalística científica pautada na objetividade, na neutralidade do jornalista que a desempenha, que se aproxima bastante de um modelo de ciência, o positivista, muito aceito atualmente, principalmente pelo público leigo. Dentre as implicações do paradigma positivista para a ciência, podemos destacar que as atividades científicas seriam encaradas como neutras, desinteressadas, objetivas e refletiriam observações reais da natureza, alheias à atribuição de valores. Seria como se o jornalista pudesse controlar a objetividade de seu texto, despindo-o de suas concepções sobre os assuntos em pauta e também de suas posições políticas, de seus interesses. Parece-me que este modelo idealizado de jornalismo tenta aproximá-lo de uma condição de ciência, conferindo-lhe maior legitimidade (já que nossa sociedade parece estar mais convencida desta visão atualmente) e, em consequência, aceitação pelo público. Meditsch aponta que, aceitando esta noção,

o público em princípio não põe em questão os fatos apresentados pelos jornalistas em cujos critérios de apuração confia, e tanto o público como esses jornalistas costumam ter um profundo respeito pelos fatos apresentados pelos cientistas.
(Meditsch, 2001, p. 03)
E acrescenta que

a noção de realidade que reifica os fatos estabelece um critério de verdade baseado na objetividade. Se os fatos é que são a realidade, resta descrevê-los de maneira objetiva, anulando toda a intervenção do sujeito no resultado de sua descrição. Esta pretensão, que sustenta o ideal de objetividade no jornalismo, revela-se falaciosa quando se constata que a não-intervenção não passa de uma ilusão: as pesquisas sobre a construção da notícia e sobre a sua forma demonstraram que a própria noção de objetividade e a maneira de se adequar a ela varia com as circunstâncias
Meditsch, 2001, p. 04

Desta forma, resgatando as colocações sobre a AD discutidas no item anterior, considero relevante tomar o jornalismo científico como ato dependente da linguagem e, portanto, produtor e veiculador de discursos. Assim, ao produzir um discurso, o jornalista atribui sentidos aos conteúdos de referência, ou seja, ele os interpreta com base na relação histórica que mantém com um interdiscurso. Ele não apenas relata um fato, como muitas pessoas ainda o crêem, mas imprime em seu discurso as marcas ideológicas que o relacionam com o mundo. Portanto, argumentar que “o embate retórico, a fala de convencimento, advocatícia, política, que, no jornalismo de notícias, deve ser apenas citada, jamais assumida” implicaria, no mínimo, a percepção das idéias implícitas (intrínsecas já ao modo como o jornalista percebe o mundo, os fatos com os quais está trabalhando, etc) que permeiam o discurso do jornalista, trabalho que nem sempre pode ser realizado, impregnados que somos de ideologias. Como coloca Caldas, referindo-se a este tipo de visão do pensamento jornalístico:

Cabia aos jornalistas o papel de “tradutor” e divulgador da produção científica de maneira acrítica, sem contextualizar seus procedimentos, métodos e implicações políticas, econômicas e sociais. Tratava-se, na verdade, de um jornalismo meramente declaratório, onde a principal preocupação era evitar distorções que comprometessem a informação original.
Caldas, 2003, p. 73

Esta “tradução”, a que se refere Caldas, passa longe de constituir apenas uma mera mudança na forma, visando facilitar ao leitor uma compreensão de seu conteúdo. A reformulação do discurso leva em conta muitos outros fatores que não estavam presentes no ato da produção do discurso inicial – os discursos científicos. Estes fatores são silenciados no discurso novo, constituindo-o, significando-o também. É importante observar que o analista do discurso busca o que o autor do discurso quis dizer e também o que ele não quis dizer. Para a AD, os silêncios também constroem sentidos, eles significam (Orlandi, 1995). O silêncio não é, portanto, a ausência de palavras, mas algo que há entre elas, podendo significar de várias maneiras.
Quando pensamos no telejornalismo, deve-se tomar em conta, por exemplo, a necessidade de aumento ou manutenção da audiência, o que implica decisões quanto à escolha do conteúdo, o tempo, a forma, o que dizer e o que não dizer. De acordo com Sousa:

Se para conquistar espaço num programa específico os conteúdos científicos passam por um processo de ressignificação, são reconstruídos na perspectiva do espetáculo e investidos de uma nova identidade – produto midiático -, imagine o que não acontece nos telejornais. Em primeiro lugar é preciso considerar o tempo e a variedades de temas. (...) Uma pesquisa que consumiu anos de dedicação, por mais importante que seja, do ponto de vista acadêmico e social, dificilmente encabeça a lista de prioridades (...). Os telejornais, de forma geral, não dispensam mais de 2 minutos para uma matéria de ciência.
Sousa, p. 4

Além de apontar uma “redução do tempo científico” propiciada pela veiculação nos telejornais, Sousa ainda destaca as características que um “fato” científico deve apresentar, no mínimo, para ter espaço em telejornal:

novidade (caráter de descoberta revolucionária, principalmente se for na área de saúde), curiosidade (a exploração do inusitado), polêmica (fatos que envolvem questões éticas, morais e religiosas, como a clonagem humana), utilidae (aplicabilidade imediata, resultados previstos, mudanças) e potencial de mídia (imagens sensacionais ou animações eletrônicas, simulações, demosntrações públicas). Numa frase: tudo na televisão tende a ser trabalhado na perspectiva do espetáculo.
Sousa, p. 4

Além de “contaminar” a produção jornalística com suas próprias concepções, o jornalista ainda deve lidar com o grupo para o qual trabalha e suas exigências, que compreendem diversos fatores associados à política, economia, necessidades de mercado, etc. Por conseguinte, pensar o jornalismo, o discurso jornalístico de forma neutra e objetiva, não faz sentido neste trabalho, dentro desta leitura da atividade. Tomo, portanto, o discurso jornalístico sobre ciência como instância de relações de poder, na qual a ciência é retratada de diferentes formas, dependendo dos efeitos de sentido proporcionados pelo texto através do qual é veiculada. E, neste sentido, concordo com Freire (2000, p. 110)quando afirma que “talvez seja melhor contar de um a dez antes de fazer a afirmação categórica (...): "É verdade, ouvi no noticiário das vinte horas". Aproveito ainda a fala de Freire para trazer uma síntese de como, com base no referencial da AD, compreendo as leituras realizadas na televisão:

Não temo parecer ingênuo ao insistir não ser possível pensar sequer em televisão sem ter em mente a questão da consciência crítica. É que pensar em televisão ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação, processo impossível de ser neutro. Na verdade, toda comunicação é comunicação de algo, feita de certa maneira, em favor ou na defesa, sutil ou explícita, de alguma coisa contra algo e contra alguém, nem sempre claramente referido. Daí também o papel apurado que joga ideologia na comunicação, ocultando verdades, mas também a própria ideologização no processo comunicativo. Seria uma santa ingenuidade esperar de uma emissora de televisão de grupo do poder dominante que, noticiando uma greve de metalúrgicos, dissesse que seu comentário se funda nos interesses patronais. Pelo contrário, seu discurso se esforçaria para convencer que sua análise da greve leva em consideração os interesses da nação.
Freire, 2000, pp. 109-110

Metodologia

O trabalho foi até o momento desenvolvido através da gravação, em fita VHS, de episódios do JN, durante os meses de fevereiro e março de 2005. Os episódios foram gravados por inteiro, com exceção dos intervalos comerciais. A frequência e escolha dos dias de gravação foi aleatória, de acordo com a disponibilidade de horário da autora. Ao término das gravações, o material foi catalogado conforme a data e está passando por uma triagem inicial, que consiste num levantamento das reportagens veiculadas no dia, anotação de comentários que considerei relevantes sobre as mesmas e busca das reportagens que veiculassem conteúdos relacionados às ciências naturais, cujo critério foi a comunicação, ao público leigo, de notícias associadas à ciência. Para escolher estas reportagens, recorri à busca das seguintes palavras-chave, que deveriam ser expressas durante a reportagem: ciência, cientistas, nomes de ciências (biologia, física, geologia, etc), tecnologia, assuntos relacionados às ciências (medicina, saúde, trangênicos, células-tronco, etc). Estas informações estão sendo dispostas em “Fichas de Avaliação das Reportagens”, que serão utilizadas como base para as análises das mesmas. Nestas fichas são destacadas as palavras-chave que me levaram a selecionar uma reportagem, a transcrição das reportagens selecionadas, seu tempo e sua inserção no noticiário do dia.
A AD nos oferece alguns pressupostos teóricos que implicam em alguns pressupostos metodológicos de análise. Em primeiro lugar, destaco que os sentidos de um texto não estão dados neste texto a priori, pois, como já discutimos anteriormente, os sentidos se constituem no ato da leitura, inseparável da interpretação, no domínio da subjetividade do leitor e sua relação com o texto, dentro de um contexto social. Ou seja,

Quando assumimos a leitura como ato no domínio do simbólico, devemos desconsiderar, definitivamente, a possibilidade de que os sentidos estejam dados no texto, não bastando, portanto, nos restringir apenas a ele propriamente dito.
Almeida, 2004, p. 33

É importante perceber que, sendo subjetivos, os sentidos que um leitor atribui a um texto não necessariamente são os mesmos colocados pelo autor. Desta forma, como então, fazer uma análise dos discursos veiculados pelo JN? Não seria a minha contrução de sentidos em cima desse discurso apenas? Eu acredito que sim, sempre estará presente a minha construção de sentidos em primeiro lugar. Para a AD, porém, existe a possibilidade de se aproximar dos sentidos do(s) autor(es) através da investigação das condições de produção de um discurso. De acordo com Almeida, estas seriam:

contexto histórico social de formulação do texto; interlocutores (autor e a quem ele se dirige); os lugares (posições) em que eles (os interlocutores) se situam e em que são vistos; as imagens que fazem de si próprios e dos outros, bem como do objeto da fala – o referente.
Almeida, 2004, p. 33

Através destas condições, pode-se tentar reconstruir o cenário no qual o discurso foi produzido, aproximando assim, o analista do discurso do autor do discurso analisado e, possivelmente, dos sentidos desejados (e também os não desejados mas impressos no texto) por este autor. As condições devem ser buscadas em praticamente todas as fontes disponíveis: textos sobre o autor; outros textos do autor; documentos; instituição à qual pertence, etc. Sendo assim, resgato a função do analista do discurso, trazida por Orlandi (2001, p. 19): “a finalidade do analista do discurso não é interpretar, mas compreender como um texto funciona, ou seja, como um texto produz sentidos”.
Ao olharmos para um programa televisivo sob a perspectiva da AD, não podemos afirmar que este apenas esteja “emitindo um significado” determinado ao espectador. Portanto, não é possível buscar o que este programa significa a respeito de tal ou tal assunto, mas como ele produz sentidos.

Perguntas como “o que determinado texto significa?” ou “qual é a sua função?” não são compatíveis com essa abordagem, pois nela os sentidos estão associados a sujeitos social e historicamente localizados, e sentidos e sujeitos se constituem mutuamente, não cabendo, portanto, suposições que remetem a origem de um discurso apenas à individualidade do sujeito, o qual, por viver neste ou naquele lugar, num dado tempo, ocupando estas ou aquelas posições, significa de maneiras diferentes.
Almeida, 2004, p. 33

Colocadas essas considerações sobre a metodologia do trabalho, passarei às análises do material gravado, através das quais buscarei a produção de sentidos sobre ciência nos textos do Jornal Nacional. É importante destacar que trata-se ainda de análises iniciais, já que esta pesquisa ainda está em andamento.

Resultados Iniciais (Transcrição das Reportagens Selecionadas)

No dia 08 de fevereiro de 2005, foi veiculada no Jornal Nacional, após seis reportagens desde o início do programa a seguinte notícia, que continha as palavras-chave: cientistas, técnica, pesquisadores, clonar, entre outras.

Reportagem 1 a ser analisada:
Narração de Fátima Bernardes: Os cientistas que criaram a ovelha Dolly receberam hoje permissão do governo britânico para clonar embriões humanos. Os pesquisadores pretendem usar a mesma técnica que produziu a ovelha Dolly há oito anos. E dizem que não querem criar cópias de seres humanos, e sim, estudar como se desenvolve a esclerose lateral ameotrófica, uma doença que afeta o sistema nervoso, paralisa os músculos e é fatal na maioria dos casos.

No dia 11 de fevereiro de 2005, foram ao ar duas reportagens no Jornal Nacional destacadas para este trabalho: a reportagem 2 a ser analisada, que se inseria, no contexto do programa como a 6ª reportagem do dia, apresentando as palavras-chave ciência e pesquisadores; e a reportagem 3 a ser analisada, que se inseria como a 22ª do dia, contendo as palavras-chave efeito-estufa e aquecimento global.

Reportagem 2 a ser analisada:
Anúncio da reportagem, Willian Bonner: Nem culto ao corpo, nem preocupação com a saúde. Mais da metade dos jovens brasileiros não pratica esporte. É o que revela uma pesquisa da UNESCO, o órgão das nações unidas para a educação, a ciência e a cultura.
Narração da repórter: não convide Danúbia para malhar.
Entrevistada, Danúbia: eu detesto fazer esforço.
Narração da repórter: Diego também, exercícios, só à mesa.
Entrevistado, Diego: levantamento de peso, né?
Repórter, se dirigindo ao entrevistado: que peso?
Entrevistado, Diego: O da comida.
Narração da repórter: os pesquisadores da UNESCO ouviram dez mil jovens, de quinze a vinte e nove anos. E o resultado foi surpreendente: cinquenta e sete por cento dos entrevistados não praticam nenhum tipo de atividade física. As mulheres são mais sedentárias: somente vinte e dois por cento delas se exercitam.
Narração da repórter: Michele tem pavor de ginástica, mas a gordurinha na cintura incomoda.
Repórter, se dirigindo à entrevistada: Se fizesse exercício...
Entrevistada, Michele: com certeza não tinha, né?
Repórter, se dirigindo à entrevistada: e por que que não faz?
Entrevistada, Michele: não tenho tempo, trabalho muito.
Narração da repórter: falta de tempo. Esta é a principal justificativa dos jovens para tanta preguiça. Um outro motivo que aparece na pesquisa é o desinteresse por uma atividade física.
O Luís está tentando começar há quatro meses, pagou adiantado, mas só vem à academia passear.
Entrevistado, Luís: paga, adora a paisagem.. mas malhar que é bom é... é... pouquíssimo.
Narração da repórter: o futebol semanal não é suficiente, segundo especialistas.
Professor de educação física, entrevistado (especialista): reservar uma hora do dia, três vezes por semana. Daí já consegue fazer uma atividade física regular.
Narração da repórter: Dezessete por cento dos jovens ouvidos só fazem exercícios na escola. E porque é obrigatório.
Mariá foi reprovada no ano passado.
Entrevistada, Mariá: eu tomei bomba em educação física porque eu não fazia.
Narração da repórter: segundo a coordenadora da pesquisa, o relacionamento entre os jovens pode ser prejudicado sem a prática do esporte.
Entrevistada, coordenadora da pesquisa: ela é fundamental nessa faixa etária. Que é o aprender a conviver, aprender normas, aprender regras...
Narração da repórter: Carla nunca deixou de fazer exercícios. Aos trinta e nove anos e, em plena forma, tem certeza de que fez a escolha certa.
Entrevistada, Carla: eu sou um exemplo pros jovens de hoje. Tempo não é desculpa.

Reportagem 3 a ser analisada:
Anúncio da reportagem, Willian Bonner: A agência espacial americana anunciou que dois mil e cinco poderá ser o ano mais quente registrado na história. Por enquanto, o recorde é de mil novecentos e noventa e oito. Segundo a NASA, o aumento do aquecimento global é devido principalmente ao feito estufa, causado pelo aumento de gases poluentes na atmosfera.
No próximo dia dezesseis, semana que vem, entra em vigor o Protocolo de Kioto, um acordo internacional assinado por cento e oitenta e seis países com medidas de médio e de longo prazo para impedir o avanço do aquecimento da Terra.

Leituras Iniciais Sobre Ciência no Jornal Nacional

Ao “ler” estas reportagens, o caráter atribuído à ciência de forma mais predominante me parece ser o de “verdade”, ou correspondente a um real único e final. A ciência parece ser apresentada como instrumento que busca esta realidade, como se seus produtos sempre correspondessem a esta realidade. Por exemplo, quando se utiliza, na reportagem 2, a fala de especialistas, imprime-se um caráter de credibilidade à fala do Jornal Nacional. O texto já parte de um pressuposto – o científico – de que a prática de esportes é condição essencial para que as pessoas sejam saudáveis. Na frase “o resultado foi surpreendente: 57% dos entrevistados não praticam nenhum tipo de atividade física”, percebo que existe um tom de indignação com o fato de que mais da metade das pessoas pesquisadas não seguiam as “indicações prescritas” pela ciência. A verdade científica, talvez não consiga permear totalmente a cultura atual, o discurso, a ideologia, as condições sócio-históricas destas pessoas. E o jornal parece “julgar” estas culturas com base nesta “única” verdade que seria proveniente do meio e culturas científicas. Ao atribuir a palavra “preguiça” às atitudes que não corroboram os ditos científicos, o Jornal Nacional traz um juízo de valor claro: parece que nenhuma outra verdade importa, além daquela proveniente das pesquisas científicas. Assim, pode-se perceber que um dos sentidos construídos sobre a ciência nesta reportagem, é o de correspondente ao real, que pode trazer, como conseqüências, uma inquestionabilidade das práticas científicas, como se estas estivessem sempre corretas. A escolha certa, desta forma, é sempre a anunciada pela ciência. Se você não adere a esta, você está errado. Mostra-se exemplos de atitudes a serem seguidas, como o caso da entrevistada Carla, que segue os pressupostos científicos de praticar exercícios. Mostra-se exemplos de atitudes a não serem seguidas, como da entrevistada Michele, imprimindo ainda que a falta de exercícios terá a conseqüência de se estar fora dos padrões de beleza estabelecidos atualmente pela mídia. Parece que mais nada importa, além da verdade científica.
Na reportagem 3, ainda posso notar um sentido que a NASA acaba por adquirir na notícia: símbolo, ícone representante da ciência mundial, ela é utilizada para que se tenha certeza de “onde se está falando”. “Estamos falando de ciência. Não nos questione”. Quando se admite que, “segundo a NASA, o aumento do aquecimento global é devido principalmente ao efeito estufa, causado pelo aumento de gases poluentes na atmosfera”, corrobora-se a visão de ciência como verdade. Não se levanta que existam questionamentos a respeito dessa afirmação, como, por exemplo, os de alguns cientistas que são um tanto céticos ao pensar em se atribuir ao efeito estufa uma das causas do aquecimento global pelo qual o planeta vem passando ultimamente. Não se coloca o debate científico em pauta, as discordâncias, as diferenças entre grupos de pesquisas, as controvérsias e embates pelos quais passam as teorias científicas. Não se destaca também que as teorias são teorias às quais os cientistas se filiam, e não necessariamente a realidade em si.
Nas três reportagens, percebo também a “impessoalidade” do discurso científico. O cientista, o especialista, o pesquisador parecem distantes, imersos em instituções... “os cientistas que criaram a ovelha Dolly”; “pesquisa da UNESCO, o órgão das nações unidas para a educação, a ciência e a cultura”; “a agência espacial americana anunciou”. Parece que não estamos tratando de pessoas, realizando atividades, compartilhando resultados e trocando opiniões sobre o que fazem. Na reportagem 1, o cientista “se esconde”, só é conhecido pelo fato histórico científico que criou e que se tornou público: a clonagem da ovelha Dolly. Fica complicado estabelecer uma imagem para estes cientistas, atribuir sentidos mais humanos aos mesmos. Ao “impessoalizarmos” a ciência, esta pode ser vista como neutra, isenta de juízos de valores, busca da realidade, pois estes (interesse, julgamentos de valor, subjetividade, etc) são atributos relativos ao humano. E este humano é mascarado aqui. Quando, na reportagem 1, se identifica, mesmo que parcialmente, os cientistas dos quais o jornal está falando, surge a possibilidade de dúvida sobre a veracidade de suas afirmações de “não querer criar cópias de seres humanos”. Será mesmo? Como poderemos saber? Como não se explicita a natureza dos estudos científicos a serem realizados, ficam dúvidas sobre a veracidade da afirmação, já que, anteriormente, os estudos destes cientistas tinham como objetivos finais a clonagem da ovelha. Porém, como no início da reportagem traz-se a regulação destes cientistas, através da permissão do governo britânico, esta possibilidade é atenuada. Mas quem deveria fazer esta regulação? Terá, o governo britânico condições de regular a produção científica? E como este estará regulando? Correspondendo à opinião da maioria das pessoas que este governa? Mas como, se a opinião que acaba por se constituir, através destes sentidos de ciência a vêem como correspondente ao real e à verdade? É necessária a regulação pelas pessoas, pelo governo? A princípio, com base nestes sentidos construídos sobre ciência pelo jornal, parece que não.
A linguagem científica também acaba por afastar a ciência do público que a assiste e patrocina. “Esclerose lateral ameotrófica”, mesmo que explicada como “uma doença que afeta o sistema nervoso...”, ainda carrega em si uma distância do público não-especialista. Efeito-estufa, aquecimento global, também são termos muito trazidos pela mídia atual que podem trazer dúvidas e sentidos diferenciados por parte da diversidade de pessoas que os assistem. Estes termos podem dar a impressão de que a ciência trabalha com coisas complicadas, distantes da realidade imediata presenciada pelos telespectadores. Parece que a ciência, assim como outros tipos de conhecimento, não busca resoluções de problemas, novas (e velhas) leituras do mundo onde vivemos, novas formas de se relacionar com o mesmo, etc. Parece que ela é trabalho dos cientistas e que, suas realizações, pesquisas e modos de se olhar pro mundo são em demasia complicados e que não vale a pena ou, não é possível compreendê-la ou seus resultados. Quanto mais julgá-la, votá-la, regulá-la...

Considerações Finais do Artigo

Destaco aqui que os sentidos construídos pelas reportagens sobre ciência acabam contribuindo mais para que o público apenas “digira”, aceite seus resultados, do que para que os compreenda ou os questione. Isto se deve à forma como o discurso de divulgação foi construído nesses casos, pelo Jornal Nacional. Esta construção acaba por imprimir certas características à prática científica, como a impessoalidade e a veracidade do discurso científico, não problematizando como este se constitui.
Como educadora em ciências, mais especificamente, em biologia, isto muito me preocupa. O distanciamento entre o público em geral e o controle das práticas científicas acabam por contribuir para uma produção científica que é patrocinada por este público no Brasil, mas que não atende às demandas do mesmo. E, o primeiro passo para a regulação social da ciência, sob meu ponto de vista, seria uma melhor compreensão e acesso às práticas científicas, o que me parece, está longe de acontecer.
Quando penso na distância entre os currículos tradicionais escolares, ainda dominados por um conteudismo extremo, com vistas à aprovação em exames vestibulares, e as reportagens trazidas pelo telejornal mais assistido no país, percebo possibilidades infinitas de complementação. O jornal traz conteúdos atuais, que procuram anunciar o que está acontecendo naquele momento no âmbito científico, porém sem aprofundamentos e questionamentos sobre a prática científica. A escola poderia ter aí o papel de discutir estes conteúdos, de forma contextualizada (já que trata-se de assunto em pauta) e crítica, instrumentalizando os alunos a construir seus discursos sobre ciência com base em suas concepções políticas, éticas e morais. Neste sentido, o Jornal Nacional realmente se tornaria um espaço de educação em ciências. Bem como, a escola...
Volto a destacar que este trabalho não está terminado. E não pretende estar nunca, já que as possibilidades de análise são muitas. As leituras aqui realizadas são pessoais-sociais e refletem minha inserção em determinados contextos (biologia, educação, análise do discurso, etc)... sendo, portanto apenas algumas entre muitas outras possibilidades...

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