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O USO DOS QUADRINHOS EM AULAS DE LÍNGUA PORTUGUESA

Paulo Ramos (PG-USP/UMESP)

Introdução

É fato: o brasileiro lê pouco. Alguns números confirmam a afirmação. No país, a pessoa lê uma média de 1,8 livro por ano. Para comparação: nos Estados Unidos, são 5,1 obras anuais; na França, 7. Mais um dado: da população brasileira adulta, 61% têm pouco ou nenhum contato com livros .
Entre as crianças, a estatística também não é muito animadora. Pesquisa do instituto Ipsos –publicada no jornal Folha de S.Paulo em 17 de outubro de 2004 - ouviu 500 pais de crianças e adolescentes de idades entre 2 e 17 anos. A pergunta era: o que seus filhos fazem diariamente? Respostas: 57% disseram que os filhos assistem à TV por pelo menos três horas num só dia. 43% afirmaram que os jovens não ocupam o tempo com leitura ou com brincadeiras com amigos. Em outros países estudados, pareceu haver um incentivo maior aos livros. Nos Estados Unidos, 52% dos pais responderam que seus dependentes dedicam de uma a duas horas à leitura. Na França, 45% também se enquadraram nesse período de tempo.
Voltamos à idéia inicial: lê-se pouco no Brasil, muito pouco. Não é o objetivo aqui discutir as causas que levaram –ou que ainda levam- o brasileiro a ter pouco contato com livros, jornais, revistas ou outras formas de produção escrita. A proposta é constatar que o problema existe, que é preocupante e que deve ser enfrentado. A escola, bem como os professores, não pode fugir a esse debate. Os docentes, em particular os de Língua portuguesa, têm papel ativo no estímulo ao contato com as letras e com as infinitas idéias e benefícios provenientes da leitura.
O que fazer, na prática, para fazer com que os jovens estudantes adquiram o hábito de ler? Resposta difícil de ser dada. Não há uma receita pronta para ser aplicada nas salas de aula, com todas as garantias de sucesso. O que há são experiências, bem ou mal sucedidas. Postulamos nesse artigo que as histórias em quadrinhos podem ser um –certamente não o único- canal de entrada para o processo de leitura. Um dos atrativos é a presença de dois códigos, o verbal aliado ao visual. Da junção de ambos, constroem-se o sentido da narrativa. E a leitura, por conseqüência.
É sobre esses assuntos que este artigo irá versar: leitura e histórias em quadrinhos. Incompatíveis na prática de ensino da língua? Não, muito pelo contrário.

1. Lê-se pouco, entende-se pouco

É difícil medir até onde a falta de leitura interfere na vida de uma pessoa. Por não ler, ela terá dificuldade para ser aprovada numa seleção de emprego? Num concurso, que tem no texto uma de suas questões? Ela terá menor volume de informações? Será menos crítica? É possível que nunca saibamos as respostas com segurança, pelo menos até que surja um estudo empírico sobre o tema. O que se pode afirmar com maior grau de certeza é que quanto menos se lê, maior é a tendência de encontrar dificuldade em apreender as informações contidas num texto.
O MEC (Ministério da Educação e Cultura) fez um levantamento sobre o nível de leitura dos estudantes brasileiros. Os dados foram baseados em estudo do Saeb, Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, também ligado ao governo federal, feito em 2001. Havia cinco categorias de análise:

• Muito crítico: alunos que não são bons leitores ou, no caso das quartas séries, não têm habilidade de leitura.
• Crítico: habilidades de leitura aquém das exigidas na série que freqüenta.
• Intermediário: habilidades ainda insuficientes de leitura para a série.
• Adequado: bom nível de compreensão.
• Avançado: nível mais consolidado de leitura.
Cristovam Buarque, à época ministro da educação do governo Luís Inácio Lula da Silva, classificou os resultados como “dramáticos”. Aos resultados:

4ª. série:
• Muito crítico: 22,21%
• Crítico: 36,76%
• Intermediário: 36,18%
• Adequado: 4,42%
• Avançado: 0,43%

Não parece ser um raciocíono equivocado entender que as categorias adequado e avançado sejam as mais positivas em termos de qualidade de leitura. Somadas, não chegam a 5% dos alunos (4,85%). As demais, que apontam problemas de leitura de diversas ordens, representam a maioria esmagadora, mais de 95% (95,15%). Na 8ª. série, situação timidamente melhor:

8ª. série:
• Muito crítico: 4,86%
• Crítico: 20,08%
• Intermediário: 64,76%
• Adequado: 10,23%
• Avançado: 0,06%

As categorias adequado e avançado representam 10,29%. As demais, 89,71%. No último ano do colégio, o cenário piora um pouco:

3º. ano do ensino médio:
• Muito crítico: 4,92%
• Crítico: 37,20%
• Intermediário: 52,54%
• Adequado: 5,34%
• Avançado: nenhum caso

O que chama a atenção é que nenhum estudante do último ano do ensino médio consegue ter um contato mais aprofundado com um texto. Cerca de 5% (5,34%) lêem e compreendem as informações sem maiores problemas. 95% (94,66%), número próximo ao quadro existente na 4ª. Série, têm dificuldades com leitura. Aproximando os resultados, e com uma margem de erro mínima, é possível afirmar que de cada dez alunos brasileiros, nove não entendem completamente o que lêem. Raciocínio aplicado, diga-se, ao último ano do ensino médio também. Justifica-se o espanto de Cristovam Buarque.
Uma outra pesquisa, restrita aos alunos paulistas, indica conclusões um pouco mais otimistas. As estatísticas mostram os resultados do Saresp, Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo, aplicado a mais de 4 milhões de estudantes . Havia seis itens de classificação: ótimo, muito bom, bom, regular, insuficiente e abaixo do insuficiente. Os resultados:

4ª. série:
• Ótimo: 0,1%
• Muito bom: 6,8%
• Bom: 25,4%
• Regular: 37,3%
• Insuficiente: 13,8%
• Abaixo do insuficiente: 16,6%

Se admitirmos como pontos positivos os itens ótimo, muito bom e bom, temos que cerca de 32% dos estudantes (32,3%) se dão bem com os textos. 67,7% dos alunos da 4ª. série encontram dificuldades, sendo que quase 17% (16,6%) estão abaixo do que seja considerado suficiente. Na 8ª. série, a situação é muito parecida:

8ª. série:
• Ótimo: nenhum caso
• Muito bom: 5,8%
• Bom: 27,9%
• Regular: 34,2%
• Insuficiente: 13,7%
• Abaixo do insuficiente: 16%

Não há nenhum caso de ótimo, o que é representativo. Muito bom e bom somam quase 34% (33,7%). As demais características representam pouco mais de 66% (66,3%). O quadro é um pouco pior no último ano do ensino médio:

3º. ano do ensino médio:
• Ótimo: 0,2%
• Muito bom: 6,1%
• Bom: 26,4%
• Regular: 38,4%
• Insuficiente: 13,7%
• Abaixo do insuficiente: 15,3%

Os três primeiros itens somam pouco menos de 33% (32,8%). Ótimo, registre-se, foi quase igual a zero, 0,2%. As outras categorias representam cerca de 67% (67,2%). Trocando em miúdos: aproximadamente um terço dos alunos paulistas avaliados pelo governo estadual têm bom aproveitamento de leitura. É um cenário melhor que a pesquisa nacional do MEC, mas ainda aquém de uma situação ideal. Nossos alunos têm grandes dificuldades para ler um texto.

2. A boa aceitação das histórias em quadrinhos

Se as crianças e jovens gastam tanto tempo à frente da televisão, deve ser porque gostam de ver TV. Se não lêem, por analogia, será porque não apreciam a leitura. Ou porque têm dificuldade ler e entender, como sugerem as duas pesquisas apresentadas anteriormente. Mas há alguma leitura que agrada os estudantes? Certamente há, porém não é a preferida pelos professores.
Livrinhos de humor ou de histórias tidas como “banais”, “bobas” ou “não literárias” atraem muita atenção, apesar de serem rotuladas por pais e docentes como sendo “pura perda de tempo”. Não podem ser essas mesmas histórias uma porta de entrada para o mundo da leitura? O que há de tão nocivo nelas que inviabilize sua leitura? Aberto o acesso, cria-se o gosto pelas letras.
Foi mais ou menos essa a conclusão de Mendonça (2002: 194), quando trabalhou com histórias em quadrinhos: “Entrevistas realizadas com alunos do Ensino Fundamental de escolas públicas e privadas demonstram que sua preferência em termos de materiais de leitura recai sobre as histórias em quadrinhos (HQs). Pode-se até dizer que esse gênero não rivaliza com as tradicionais narrativas literárias entre esse público leitor; na maioria das vezes, as HQs ganham de longe a preferência de crianças e adolescentes”.
A autora não dá em seu artigo a fonte da pesquisa, mas isso não inviabiliza a conclusão. Há outro estudo, realizado pela Câmara Brasileira do Livro, que indica grande preferência pelos quadrinhos. E quem prefere tal gênero são não são as crianças. Os responsáveis pelo levantamento dos dados entrevistaram brasileiros com idade igual ou superior a 14 anos, com pelo menos três anos de instrução. Dos que têm hábito de leitura, foi perguntado o que lêem. Os homens colocaram a histórias em quadrinhos em segundo lugar (34%). Entre as mulheres, aparece em terceiro (31%). Para registro, livros religiosos, incluindo a bíblia, são os mais lidos em ambos os sexos.
Se há boa aceitação, se crianças e adultos vêem com bons olhos esse gênero, por que não incluir os quadrinhos no roteiro de leituras do sistema de ensino? Por que não usá-los nas práticas junto aos alunos? Os próprios PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), elaborados pelo governo federal, estimulam o uso dos quadrinhos nas práticas pedagógicas de Língua Portuguesa, tanto no ensino fundamental como no médio. O que falta, então? Medo do preconceito, daquele rótulo de “leitura boba” ou “perda de tempo”? Desconhecimento da linguagem dos quadrinhos e de como utilizá-los junto aos alunos? Talvez não seja nenhuma das respostas, e sim um pouco de cada uma.

3. Uma outra linguagem

Vergueiro (2004a), um dos defensores de que os quadrinhos estimulam o hábito da leitura, entende também que muitas das críticas normalmente feitas não encontram fundamento. “De certa maneira, entendeu-se que grande parte da resistência que existia em relação a elas, principalmente por parte de pais e educadores, era desprovida de fundamento, sustentada muito mais em afirmações preconceituosas em relação a um meio sobre o qual, na realidade, se tinha muito pouco conhecimento. A partir daí, ficou mais fácil para as histórias em quadrinhos, tal como aconteceu com a literatura policial e a ficção científica, serem encaradas em sua especificidade narrativa, analisadas sob uma ótica própria e mais positiva. Isto também, é claro, favoreceu a aproximação das histórias em quadrinhos das práticas pedagógicas” (op. cit.: 17).
Mesmo assim, a penetração dos quadrinhos nas atividades didáticas dos professores, segundo o autor, seriam tímidas. Haveria uma espécie de “barreira pedagógica”, superada nos anos 90 do século passado. Ganha força, passou a ser incorporada a exames vestibulares e a livros pedagógicos, mesmo que ainda de forma tímida.
Talvez a melhor forma de verificar se os quadrinhos são uma leitura superficial seja olhar os quadrinhos. É o que propomos agora: observar o objeto e analisar o que ele diz. É um convite a ler quadrinhos. Vejamos a tira abaixo, Níquel Náusea, de Fernando Gonsales (1999: 19):

Há dois códigos, o visual e o verbal. No primeiro, temos de ler as imagens. Há três quadros. O inicial mostra uma fileira de ovelhas, todas com lã branca. No segundo quadrinho, uma das ovelhas se distingue: está com coloração negra e sorri. Na última cena, ela segura um frasco, parecido com uma garrafa pequena, e acentua o sorriso. Repare que, descrita dessa forma, a história não permite a formação de sentido. Passamos, então, à leitura dos aspectos verbais. A percepção de que se trata de ovelhas é reforçada nos dizeres iniciais: “No meio das ovelhas brancas”. Segue ao lado: “Havia uma ovelha negra”. Ao final, surgem as “falas” “Eu uso ovelhim 2000” e “E disse adeus aos pêlos brancos”.
Não é possível entender este texto apenas com um dos códigos, o visual ou o verbal. É necessário mesclá-los, de modo a depreender o sentido pretendido. O leitor entende que a ovelha negra se distingue por ter usado um produto que tornou sua lã escura. O produto seria o “Ovelhim 2000”. Quem lê, deve fazer referência a um escurecedor de cabelos bastante conhecido, chamado “Grecim 2000”. Sem essa informação, simplesmente não se produz coerência. É necessário o que Kleiman (2002: 13) caracteriza como conhecimento prévio, de ordem cognitiva. “O leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, o conhecimento adquirido ao longo de sua vida. É mediante a interação de diversos níveis de conhecimento, como o conhecimento lingüístico, o textual, o conhecimento de mundo, que o leitor consegue construir o sentido do texto”.
Outro conhecimento prévio que se deve ter é com relação à linguagem dos quadrinhos. Trata-se de uma narrativa. Nos dois primeiros quadros, a voz é a do narrador. Está contida no quadro que envolve a parte verbal. No último quadrinho, quem fala é o personagem “ovelha negra”, fala representada por meio dos balões. Setas ou rabichos, como se costuma chamar, indicam o autor da fala. Mais um detalhe: supõe-se que de um quadro para o outro, há elipses de ação, a narrativa salta de um momento para outro.
Repare que explicar todas essas operações não são tarefas das mais simples, como freqüentemente se rotulam as histórias em quadrinhos. Casos como os do exemplo acima são publicados diariamente nos cadernos de cultura dos principais jornais brasileiros. É um bom exercício de leitura e bastente acessível. Outro caso:

Ao contrário do caso anterior, faremos a leitura já intercalando os dois códigos. Na narrativa, há dois personagens. Um deles é um camundongo, o outro um homem. A caracterização deste é intencionalmente irônica: cabelos divididos, olhos com tamanhos diferentes, dentes expostos. O homem fala de forma curiosa: “Quí – quí – quíí – quí – íí – quí – quí”. Até este momento da leitura, o conteúdo é um mistério. O camundongo induz a uma possível interpretação no segundo quadro: “Alguns humanos fala a língua dos ratos”. Infere-se que o homem esteja imitando o rato. Só esse detalhe não produz o esperado humor da tira, já que se trata de um texto predominantemente cômico. É outro conhecimento prévio que tem quem lê. No último quadro, a surpresa que leva à interpretação engraçada: trata-se de um gago, cuja fala é representada pela repetição do “qui”. Sabe-se, e é informação necessária para a compreensão, por mais óbvia que seja, que gagos têm dificuldade na fala e costumam repetir as sílabas iniciais.
Para entender a tira, são necessárias todas essas noções. Mais as próprias da linguagem dos quadrinhos, como é o caso do balão indicador da fala dos personagens. Comforme for o nível de conhecimento prévio do leitor, ele identificará no camundongo o personagem central da tira, Níquel Náusea. Indo mais fundo, saberá que o nome é uma brincadeira à criação mais famosa de Walt Disney, Mickey Mouse. Quem é leitor assíduo, terá outro conhecimento prévio: Níquel não gosta de ser comparado a Mickey. Repare que a leitura avança.

4. Enfim, na sala de aula

Dizer que os quadrinhos são uma leitura superficial é uma afirmação vazia. Certamente há boas e más histórias em quadrinhos, bons e maus filmes, boas e más obras literárias. O que tentamos demonstrar é os quadrinhos constituem uma leitura que envolve processos de várias ordens, que necessitam de articulação para produzirem sentido. Constituem um eficiente exercício de leitura, que pode facilmente ser aplicado em diversas práticas pedagógicas de Língua Portuguesa em sala de aula. Pode ser também a ponte para outros textos, dos mais variados gêneros.
É importante destacar que não defendemos a idéia de que os quadrinhos são a única solução para o problema da deficiência da leitura. Nem devem ser usados como recurso exclusivo em sala. A literatura, os textos jornalísticos, os vários gêneros oferecem uma gama vasta de material, que não só podem, como também devem ser incluídos à realidade do aluno. O que procuramos demonstrar é que há a real necessidade de se estimular a leitura. É uma das maneiras de aprofundar o nível de leitura dos alunos brasileiros, cujas estatísticas revelam estar muito aquém do ideal. Se os quadrinhos têm boa aceitação, e efetivamente têm, por que não usá-los? Há vários formatos, com várias abordagens. Como utilizá-los? Ramos (2004) indica dez práticas a serem aplicadas. É só um caminho. O limite real é a criatividade do professor. Desde que abra sua visão e abrace os quadrinhos com um dos muitos recursos a seu dispor. Os alunos agradecem.

Referências bibliográficas

GONSALES, Fernando. Níquel Náusea – Os ratos também choram. São Paulo: Bookmakers, 1999.

KLEIMAN, Ângela. Texto e leitor – Aspectos cognitivos da leitura. 8 ed. Campinas: Pontes, 2002.

MENDONÇA, Márcia Rodrigues de Souza. Um gênero quadro a quadro: a história em quadrinhos. In: DIONISIO, Ângela Paiva; MACHADO, Anna Raquel & BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs.). Gêneros textuais & ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002. p. 194-207.

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Parâmetros Curriculares Nacionais – Ensino Médio – Linguagens, códigos e suas tecnologias. Brasília: Ministério da Educação / Secretaria de Educação Média e Tecnológica. 1999.

_____. Parâmetros Curriculares Nacionais – Língua Portuguesa. 2 ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

RAMOS, Paulo. Os quadrinhos em aulas de Língua Portuguesa. In: VERGUEIRO, Waldomiro & RAMA, Ângela (orgs.) Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004. p. 65-85.

VERGUEIRO, Waldomiro. Uso das HQs no ensino. In: VERGUEIRO, Waldomiro & RAMA, Ângela (orgs.).
Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. São Paulo: Contexto, 2004. p. 7-29.

 
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