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  A LEITURA DO ESTUDANTE DE ODONTOLOGIA: TRAJETÓRIAS EM FORMAÇÃO

Jurema Nogueira Mendes Rangel - Universidade Estácio de Sá

1 INTRODUÇÃO

Este estudo tem como objetivo traçar os percursos dos estudantes de odontologia em relação à leitura, focalizando os atos de leitura presentes na sua vida universitária. Acredito que a leitura é fundamental na formação de qualquer universitário, pois favorece o entendimento do mundo numa perspectiva crítica e interdisciplinar, como propõe a abordagem interativa de leitura (KLEIMAN, 1993). Esta perspectiva considera que, ao se ler qualquer tipo de texto, coloca-se em ação um sistema de valores, crenças e atitudes constituídos em diálogo com o grupo social, que acaba instituindo práticas de leitura que conformam e contrastam as formas de ler, criando expectativas e interesses diversos nos grupos de leitores. (CHARTIER, 1991)
Neste sentido, os estudos sobre leitura e suas práticas têm merecido espaço na produção científica apresentada em eventos como o Congresso de Leitura do Brasil (COLE), em 2003 e o Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino (ENDIPE) em 2004, para citar alguns. No entanto, verifica-se que a maioria dos estudos sobre a leitura está centrada na educação infantil e no ensino básico, principalmente, no ensino fundamental, sendo poucos aqueles voltados para como se processa a leitura empreendida pelos alunos do ensino superior. Quando realizados, há um interesse evidente na área de humanas, em especial, os cursos de letras (RAMIRES, 2001) e pedagogia (CARVALHO, 2002; CARVALHO, RANGEL, SANCAS, 2004; CORREA, 1999; LEITE e OLIVEIRA, 2004), visto que os profissionais provenientes destes cursos deverão atuar como formadores de outros leitores. Estes trabalhos têm apontado a necessidade de se criar uma pedagogia de leitura na universidade por meio de uma orientação teórica-metodológica que favoreça aos estudantes uma leitura proveitosa e reflexiva. Mas, e os alunos das demais áreas? Como são constituídos estes alunos-leitores? Quais são as práticas de leitura dos estudantes de odontologia favorecedoras da leitura de mundo?
Tendo como norte estas questões, na segunda parte, faz-se uma contextualização do papel da leitura na universidade, em especial, no curso de odontologia, considerando os aportes teóricos da história cultural que destaca o modo como os estudantes interagem e convivem com os objetos da cultura letrada que alinhavam os contornos do leitor e as contribuições da abordagem interativa da leitura.
Na terceira parte, apresentam-se os resultados do levantamento de uma pesquisa-ação em andamento no curso de odontologia da Universidade Estácio de Sá, junto aos alunos do 1º. Período, cursistas do 1º. Semestre de 2004, sobre suas trajetórias de leitura.
E, por último, as considerações finais sobre as trajetórias de leitura em curso apontadas pelos estudantes.

2 A LEITURA E SUA INSERÇÃO NO CURSO DE ODONTOLOGIA

Os pressupostos que norteiam os documentos oficiais, em especial, a LDB 9394/96, reforçam a universidade como um espaço para a formação profissional que deve reunir o desenvolvimento de ações educativas relativas à busca de informações, ao aprimoramento e uso das tecnologias, à construção e comunicação do conhecimento.
Na esteira destas propostas, os cursos de odontologia vêm sofrendo mudanças significativas em seu projeto pedagógico introduzidas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em Odontologia (BRASIL, 2002). Entre os vários aspectos destacados no documento, o compromisso com a saúde, com a ética e com a atuação filiada à transformação social é um elemento fundamental contido numa proposta humanizadora de educação odontológica (MOYSÉS, S; MOYSÉS, S. J; KRIGER, 2005). Evidencia-se, nestes documentos, não apenas a intenção de cuidar da doença, mas, buscar uma direção na formação do cirurgião–dentista voltada para a promoção da saúde bucal, o que requer uma mudança substancial nos currículos vigentes. Um dos caminhos propostos para atingir esta meta está indicado nas Diretrizes, em seu art 4, inciso III, que destaca a habilidade da leitura e escrita em relação à competência da comunicação. Cada vez mais, a contemporaneidade exige que o sujeito saiba resolver problemas e apresente uma capacidade de abstração que lhe permitam desvendar as situações que emergem do cotidiano.
Assim, a formação crítica supõe um sujeito que pense por conta própria, ou melhor, seja autor de suas idéias. O pensar exige o repensar, o rever, o indagar, o transgredir o conhecimento já construído para que se possa propor, reafirmar, inovar, transformar a realidade.
Nesta perspectiva, pode-se afirmar que ler é pensar, pois, coloca em jogo a imaginação e a realidade, as interdependências, as relações entre os sujeitos, moldadas pelo poder, o possível e a utopia. A leitura, então, requer um processo de construção de sentidos cuja dimensão abrange as formas de representação, prática e apropriação, configuradas historicamente (KLEIMAN, 1993; CHARTIER, 1991). Ler um texto ou decifrar um sistema de pensamento consiste em considerar, ao mesmo tempo, a linha diacrônica, em que se estabelece a relação do texto ou de um sistema de pensamento com as manifestações já existentes e a linha sincrônica que permite relações do conteúdo em pauta com os de outras áreas de uma cultura (CHARTIER, 1991).
Entendida dessa forma, acredito que a leitura atua como um eixo interdisciplinar, devido a sua natureza integradora de saberes e constitutiva da construção de novos conhecimentos. Logo, cabe a universidade aprimorar as competências de leitura que o aluno traz ao ingressar na instituição, com vistas a possibilitar outras leituras de mundo. (RANGEL, 2005; CARVALHO, 2002)
Nessa linha, os aportes de Chartier (1991) sobre o livro, o texto e as práticas de leitura anunciam a existência de diferentes formas de se apropriar do texto. Não se lê um texto da mesma forma, nem igual à leitura feita por outro. As experiências individuais, em diálogo com as representações dos diferentes grupos sociais, formam um todo que impulsionam, determinam, desenham as práticas de leitura valorizadas pela sociedade em detrimento de outras que esta mesma sociedade considera como menores. Ler um livro considerado um clássico é mais valorizado que ler, regularmente, as revistas semanais que fazem circular as notícias econômicas e políticas, por exemplo. As tensões existentes, permeadas de interesses, sejam eles políticos, econômicos e sociais, estabelecem formas de apropriação de textos, gestos e modos de ler que alimentam as trajetórias de leitura do sujeito e acabam confluindo para que o leitor estabeleça um determinado capital cultural. Os estudos da história cultural, desenvolvidos por Chartier, ajudam a entender que a leitura está submetida às mesmas regras de outras práticas culturais e, por estar vinculada, primordialmente, à sistematização escolar, age como um diferencial entre os sujeitos. As experiências individuais de leitura estão inscritas no interior de modelos e de normas socialmente compartilhadas.
Estes elementos merecem ser considerados ao se refletir sobre como se dá o processo de leitura na universidade, pois, é comum, em reuniões e na sala dos professores, ouvir que os alunos apresentam dificuldades em compreender os textos. Além das preocupações metodológicas que podem contemplar “a falta” do estudante em relação a certas habilidades, frente às diferentes dificuldades de leitura com as quais os alunos se deparam, tem-se que compreender as várias formas de apropriação do texto, os tipos de textos colocados em circulação, os diferentes protocolos de leitura (CHARTIER, 1991, p.188) que se relacionam diretamente “às oportunidades objetivas da escrita que tiveram os diferentes grupos de estudantes que chegam à universidade, isto é, o tipo de letramento, aí, incluídos, os vínculos sociais e as disponibilidades culturais”.
Assim, a pesquisa de Leite e Oliveira (2004) é esclarecedora, quando se refere aos eventos de leitura planejados dentro das disciplinas pelos professores universitários do curso de pedagogia, intra ou extra-classe e as experiências vividas pelos estudantes. A leitura científica tem na figura docente o mediador necessário para estruturar e orientar a discussão de textos, promovendo o envolvimento do aluno. O estudo demonstra que esta mediação é transpassada pelo entendimento do professor sobre leitura e as ações que desencadeia em sala de aula constituirão os eventos de letramento vividos pelos estudantes.
Da mesma forma, Carvalho, Rangel e Sancas (2004) revelam que as alunas do 5o. período do Curso de Pedagogia têm um história de leitura que permeia as práticas de ler das quais fazem uso na graduação. Durante o curso, as alunas demonstram ter adquirido uma certa autonomia, aprendendo a lidar com as múltiplas e fragmentadas leituras que lhes são propostas, desenvolvendo uma didática da leitura bastante própria. Distinguem a leitura que pode ser feita de uma forma superficial daquela para fins de estudo
Tudo isto, mais a percepção de que se impõem universos referenciais próprios da academia, (BRITTO, 2003; CARVALHO, 2002) mostra o quanto ainda é necessário se caminhar para que a leitura, na universidade, seja encarada como uma atividade intelectual importante na formação profissional.
Assim, formar o cirurgião-dentista, na perspectiva humanista, implica entender, antes, os processos que envolvem a construção do conhecimento e, dentre eles, a leitura, pois é fundamental compreender “[...] o modo como os estudantes interagem e convivem com os objetos da cultura letrada, em particular com as formas de produção do conhecimento formal” (BRITTO, 2003, p. 176).
Estes pressupostos norteiam a investigação que procura revelar: Quais as práticas efetivas de leitura adotadas pelos estudantes de odontologia? Como estes alunos estabelecem os primeiros contatos com os diversos objetos de leitura que o ensino superior coloca em circulação?

2 AS TRAJETÓRIAS DE LEITURA DOS ESTUDANTES DE ODONTOLOGIA

O estudo tem caráter exploratório, com contorno de uma pesquisa-ação, circunscrito a 70 estudantes calouros do curso de odontologia: 45 freqüentam o campus localizado na zona oeste e 25 estão matriculados no campus da zona norte da cidade do Rio de Janeiro.
Os estudantes, em sua maioria, são oriundos de um grupo social privilegiado e possuem idade entre 18 e 23 anos, em média.
Para a coleta de dados, aplicou-se um questionário com 12 perguntas, sendo 3 abertas. Usou-se o horário da aula da disciplina de metodologia científica lecionada por mim para o preenchimento do questionário, para o qual não foi solicitada a identificação, visando deixar o aluno à vontade para responder. No entanto, dos 70 respondentes, 45 se identificaram.
Os dados quanti-qualitativos foram organizados em categorias apresentados nas partes que se seguem. Nesta linha, pretende-se não apenas traçar um panorama descritivo de aspectos importantes para o entendimento do problema, mas, também buscar compreender a natureza do fenômeno, diante da complexidade que o processo de ler assume nos diferentes grupos sociais, possibilitando o entendimento de particularidades do comportamento dos estudantes. (RICHARDSON et al, 1985). Os aspectos qualitativos retratam os microprocessos instituídos nas interfaces dos sujeitos com seus pares.

2.1 A LEITURA FORA DA UNIVERSIDADE: o repertório construído

A preocupação inicial do estudo está vinculada às ações de ler que os alunos fazem uso no seu cotidiano. Embora neste momento, a investigação não tenha contemplado a formação inicial do leitor no seu percurso escolar anterior à entrada na universidade, não se pode deixar de considerar que este é fundamental para compreender os modos de ler incorporados pelo alunado, que serão abordados em outra etapa da pesquisa.
Carvalho (2002) e Carvalho, Rangel e Sancas (2004), ao analisarem a leitura dos textos acadêmicos pelas alunas do curso de pedagogia de uma universidade pública, mostram que a leitura na universidade é um campo de tensões entre o ponto de vista do aluno e o dos docentes: estes esperam que os estudantes possuam certa capacidade de interpretação dos gêneros textuais próprios do ensino superior e aqueles apresentam preferências literárias específicas, nem sempre reconhecidas como válidas pela academia.
No entanto, os gestos de leitura que os alunos apresentam, na sala de aula, são resultantes de um percurso que não se dá apenas dentro dos muros da instituição. As experiências de leitura a que são submetidos nos vários tempos e espaços, ao longo da vida, também interferem na sua formação como leitor. Se, se pensar que a experiência de leitura, quando envolve o ensinar e aprender, implica a relação de cada um consigo mesmo e com os outros (LARROSSA, 2001, BRITTO, 2003), vê-se que a leitura coloca em jogo uma série de movimentos que vão além da simples decodificação das informações que um texto contém.
Neste sentido, 80% dos alunos parecem considerar estas experiências para se reconhecerem leitores. Os alunos demonstram ser leitores de uma gama bastante ampla de impressos (TABELA 1), que não se restringe às solicitações acadêmicas, à semelhança dos dados encontrados por Carvalho (2002), Carvalho, Rangel e Sancas (2004), Correa (1999) e Ramires (2001) em seus estudos. Estes autores mostram que há uma “leitura paralela”, não obrigatória, que atende aos interesses pessoais e caminha junto com a leitura acadêmica, a leitura de estudo.

TIPO                             N. ALUNOS

auto-ajuda

14

autobiografia

4

ficção científica

8

história em quadrinhos

10

jornais

42

livros religiosos

8

poesia

9

policial

8

revistas semanais

34

romance

18

suspense

1

terror

1

Livros didáticos

1

Considerando que algumas práticas de leitura possivelmente estejam interiorizadas pelos estudantes, pois, pertencem a um grupo social que tem acesso a livrarias e bibliotecas e, portanto, possuem condições de adquirir livros e formar o seu próprio acervo, o livro parece ocupar lugar de destaque nas leituras de preferência. Embora haja um interesse maior pelo romance e auto-ajuda, vê-se uma pulverização dos demais gêneros. De certa forma, o panorama encontrado revela que a experiência de leitura se faz alicerçada na diversidade de objetos impressos, se considerado a presença significativa de periódicos.
Embora se perceba que o livro é um dos suportes de leitura dos estudantes, quando solicitado que identificassem o último livro lido e seu autor, 40 alunos não responderam. Apenas 30 nomearam a última leitura realizada , sendo que alguns mencionaram apenas o título da obra ou o autor. Vale destacar que a turma matriculada no campus da zona norte da cidade indicou um maior número de obras e autores do que o grupo da zona oeste, o que permite levantar a hipótese da possível influência da origem social destes alunos moradores desta região, conhecidos como “emergentes”, no gosto pela leitura.
Por outro lado, sabendo-se da proliferação das leituras devido ao fomento das atividades gráficas e a profusão de textos que assolam os dias atuais, tão bem estampados no acervo encontrado nas bancas de jornais e nas prateleiras das livrarias e que chegam às mãos dos alunos (CHARTIER, 1999), pode-se questionar se há uma asfixia de leituras e pouco fica na memória ou que sentido é atribuído às leituras realizadas.
Dentre as obras mencionadas, estão Harry Porter, O senhor dos anéis, Carandiru que alcançaram grande sucesso de vendas no mercado recentemente, atreladas ao lançamento de filmes das grandes produtoras cinematográficas. Outras, como Dom Casmurro, Senhora, Iracema, O santo e a porca e Memórias Póstumas de Brás Cubas podem estar relacionadas às leituras realizadas nas escolas de ensino médio, onde é comum o uso de obras literárias para fim de estudo em vista da inclusão nas provas do vestibular.
No conjunto, há forte predominância da leitura de publicações periódicas: jornais e revistas semanais. Ambos instituem uma forma de ler diferente daquela promovida pela leitura dos livros. Os alunos dizem ler os jornais de grande circulação na cidade, sendo os de maior preferência O Globo e Jornal do Brasil, seguidos de outros como O Dia e Extra. Apenas 2 alunos mencionaram fazer a leitura de jornal on-line, uma modalidade de leitura que permite o acesso imediato à informação em tempo real, sinalizando a inserção do texto eletrônico como uma prática de leitura do mundo contemporâneo que inaugura um novo protocolo de leitura. (CHARTIER, 1999)
As revistas semanais desenham um repertório diversificado, abrangendo revistas como Veja, Isto é, Época, seguidas por Caras, Superinteressante, Boa Forma, Criativa, Capricho, Contigo, 4 Rodas, Playboy entre outras. Estas últimas apresentam, em suas páginas, temas de interesse bastante próprios da faixa etária em que se encontram os estudantes: notícias de artistas, cuidados com o corpo, roteiro de viagens, moda, etc. Em sua maioria apresentam textos leves, de leitura rápida e linguagem direta e fácil, diferentemente das primeiras que fazem circular reportagens vinculadas aos aspectos políticos e econômicos, por exemplo.
Esta diversificação dos objetos de leitura reforça a idéia de que o estudante lança mão de um tipo de leitura que não corresponde ao cânone escolar que, comumente, define uma leitura como legítima. O problema não está neste tipo de leitura em si, mas cabe ao professor reconhecer a força destas leituras que apontam “[...] práticas incontroladas e disseminadas para conduzir esses leitores, pela escola, [e orientar], sem dúvida, por múltiplas outras vias, a encontrar outras leituras”. (CHARTIER, 2001, p. 104)
Sobre a freqüência de leitura destes materiais, vê-se o seguinte:

Tabela 2- FREQUÊNCIA DE LEITURA

Frequência de leitura

 

n. alunos

 

Jornais

revistas

literatura

em geral

livros

acadêmicos

todos os dias

36

1

 

4

 

2

uma vez/semana

21

24

 

3

 

6

mais de 1 vez/semana

21

19

 

7

 

17

às vezes

 

13

20

 

25

 

23

raramente

9

4

 

22

 

16

nunca

 

 

2

 

6

 

4

em branco

 

 

 

3

 

2

A freqüência de leitura do material impresso vem reforçar os dados encontrados anteriormente sobre a predominância da leitura de jornais e revistas em comparação com a leitura de literatura em geral, (englobando aqui, contos, ficção, romances, poesias, etc.) e de livros acadêmicos, que objetivam proporcionar conhecimentos científicos ou técnicos. Os livros de literatura são lidos por 47 alunos, muito espaçadamente e 6 alunos afirmam não fazer leitura deste tipo de material. De modo geral, a leitura dia a dia não é comum, independente do tipo de texto. A leitura de livros acadêmicos também é esporádica.
Todas estas leituras, independente do gênero, proporcionam gestos e modos de ler que incluem, também, os espaços de ler. Com efeito, a motivação, a leitura em voz alta ou silenciosa, a leitura socializada são indicativos de que a apropriação da leitura se dá por práticas diferenciadas. Ler em casa é a preferência de 40 alunos, que elegem o quarto (20 alunos) como o local de leitura mais usual, indicando que o isolamento e a privacidade são características presentes, incorporadas, historicamente, pela prática da leitura extensiva (CHARTIER, 1991). A sala e o ônibus são os locais escolhidos para ler, igualmente, por 8 estudantes. Outros espaços aparecem listados: praia, varanda, biblioteca ou “qualquer lugar cômodo e com luz boa”. Os espaços socializados e/ou públicos inventam maneiras de ler, mudam gestos e objetos lidos. A leitura é menos atenta, mais rápida e descompromissada, mistura-se com a diversão e o lazer. Pode ser uma leitura descontínua, salteada, que não se incomoda com possíveis interrupções. A leitura, nesses espaços, subverte aquela do espaço retirado e privado.

2.2 A LEITURA NA UNIVERSIDADE: primeiras aproximações

Além das leituras de periódicos e obras literárias, os alunos, ao ingressarem na universidade, começam a ter contato com leituras mais densas que constituem o corpo teórico de cada disciplina, introduzidas pelos professores por meio de suas indicações bibliográficas apresentadas no programa ou mesmo durante as aulas. A leitura científica passa a ocupar um lugar importante visto ser encarada como a leitura de estudo. Porém, os alunos, no 1° período, começam a estabelecer as primeiras aproximações com leituras deste tipo. A qualidade dos textos, as exigências e cobranças dos docentes, a leitura como tarefa (CARVALHO, RANGEL e SANCAS, 2004) modificam a aproximação do estudante com texto escrito, inaugurando experiências diferentes das anteriores.
Além de mobilizar estratégias de leituras específicas para compreender o texto (KLEIMAN, 1993; CARVALHO, RANGEL e SANCAS, 2004), não contempladas no limite deste estudo, espera-se que o aluno faça uso da bibliografia para complementar as anotações de sala de aula, para estudar e rever conceitos debatidos em sala, para buscar o diálogo com outros textos e autores sobre um determinado assunto, o que foi confirmado apenas por 17 alunos. A maioria parece não ter o hábito de consultar as fontes indicadas pelo professor, fazendo deste tipo de leitura um ato esporádico (39) ou mesmo inexistente (4). (TABELA 2). Neste caso, o aluno restringe a possibilidade do pensar que o texto e autor promovem na multiplicidade do dito: “[...] o importante não é o que nós saibamos do texto, o que nós pensamos do texto, mas o que- com o texto ou contra o texto ou a partir do texto- nós sejamos capazes de pensar”. (LARROSSA, 2001, p. 142).
Os dados revelam que, ao serem convocados a identificar um livro acadêmico lido recentemente e a autoria da obra, no período letivo em curso, apenas 8 alunos conseguiram fornecer a informação completa, indicando apenas uma fonte. 28 alunos citaram o título da obra ou o autor e, muitas vezes, o nome da disciplina que solicitou a leitura. A maioria (34 alunos) não conseguiu indicar um livro acadêmico lido recentemente e seu respectivo autor. Para confrontar as respostas dos estudantes, foi feito um levantamento junto à bibliotecária do campus que confirmou a existência de informações trocadas, títulos de livros incompletos e pequenos equívocos sobre a identificação da autoria. Das indicações fornecidas, mesmo incompletas, há indícios de que a área de Biologia Molecular se destaca.
Quanto à leitura de textos indicados no programa das disciplinas, necessários para acompanhar o conteúdo discutido em sala e colaborar para a ampliação dos debates, 49% dos estudantes não mantêm uma sistemática regular de leitura sobre os textos solicitados pelos professores. Apenas 29% da turma costumam realizar as leituras solicitadas.(GRÁFICO 1):

Sem o preparo prévio necessário, os alunos comprometem o nível de participação nas aulas e acabam se colocando no lugar de espectador do tema abordado pelo professor, deixando pouco espaço para uma postura interativa. Na maioria das vezes, as aulas expositivas tomam o espaço da problematização provocada pela leitura, propiciando um afastamento da perspectiva que trabalha a construção do pensamento crítico, baseada na troca de pontos de vista. Ao que parece, há a promoção de atos mínimos de leitura, suficientes para um grupo significativo de alunos que acabam não contemplando a manipulação de textos mais densos que levariam a apropriação progressiva do discurso acadêmico, sob a forma específica de textos científicos.
O volume dos textos lidos pelos estudantes é um indicador importante, no sentido de se verificar a sobrecarga ou não das leituras solicitadas. A média de textos lidos por semana é expressa no seguinte gráfico:

Percebe-se que mais da metade dos alunos (45) afirma ter um volume pequeno de leituras por semana. Se considerado que os alunos do 1º período cursam 4 disciplinas, o volume de leitura deveria corresponder a essa demanda, posto que é possível que cada disciplina solicite leituras a cada aula. Mesmo assim, apenas 29% dos alunos costumam fazer a leitura dos textos solicitados pelo professor. (GRÁFICO 1). Tendo em vista que a maioria dos alunos não exerce atividade remunerada, apenas a função de estudante, depreende-se que há disponibilidade de tempo para a execução das leituras solicitadas, o que sugere uma investigação mais cuidadosa sobre o não cumprimento desta tarefa.
Embora não tenha sido foco do estudo, neste momento, cabe compreender como estas leituras são trabalhadas pelo professor em sala de aula, pois o fato da não leitura pode estar relacionado à motivação desenvolvida na sala de aula. Será que o professor faz uso do texto como suporte da aula? Introduz a prática de leitura assistida (BRITTO, 2003), de forma a orientar, questionar os aspectos apresentados no texto? O professor cobra a leitura? De que forma?
Outro aspecto que mereceu atenção diz respeito à formação de um acervo pessoal sobre odontologia e áreas afins. 21 alunos dizem que costumam adquirir os livros indicados pelo professor no programa da disciplina. Tendo em vista que as obras acadêmicas da área da odontologia têm custo elevado, devido à inclusão de muitas imagens ilustrativas, este dado é significativo. De certa forma, evidencia a iniciativa de alguns em formar o seu próprio acervo sobre a área, comportamento desejável para um profissional em formação. Por outro lado, 32 alunos dizem que, às vezes, adotam este procedimento e o restante, raramente ou nunca costuma adquirir algum livro à semelhança dos resultados encontrados por Carvalho (2002) que confirmam ser privilégio de poucos a compra de livros para a formação de uma biblioteca mínima.
Em relação ao uso da biblioteca, dos 70 alunos investigados, apenas 7 dizem que raramente ou nunca utilizam o acervo da biblioteca do campus. 29 alunos freqüentam sempre o espaço e 34, às vezes. A possibilidade de encontrar a informação desejada na biblioteca é atestada por 17 alunos e 26 dizem nem sempre encontrar o que procuram. Foram poucos os alunos que dizem nunca ou raramente encontrar o material desejado na biblioteca.
Segundo as informações colhidas com a bibliotecária do campus, o acervo disponível atende a demanda dos alunos do 1º período e levanta-se a hipótese sobre o pouco domínio dos estudantes a respeito das formas de busca do material: uso de palavras-chave, indicação da autoria, etc. Embora os resultados confirmem o trânsito do aluno na biblioteca, o uso da internet como recurso para a busca de material para estudo ou pesquisa é uma prática incorporada pela maioria. (GRÁFICO 3). O gráfico mostra o número de alunos que costuma adotar este procedimento.

O acesso à informação pelos meios eletrônicos parece estar favorecido pela própria situação econômica e social destes estudantes e pela facilitação de usarem a sala de informática disponível no campus. Lá, os alunos podem agendar horários de sua conveniência para fazer uso do laboratório e acessar a Internet, além da base de dados disponível na biblioteca.
De qualquer forma, vale lembrar que a leitura do texto no meio eletrônico favorece a leitura privada, recolhida do olhar do outro, bastante diferente daquela realizada no espaço da biblioteca que, mesmo algumas vezes individualizada, está submetida aos olhares dos colegas e a uma certa vigilância dos encarregados do espaço. Embora não se possa questionar os ganhos dessa forma de coleta de informações, é evidente que este suporte de leitura insere novas formas de ler, pois: “ler um artigo em um banco de dados eletrônico, sem saber nada da revista na qual foi publicado, nem dos artigos que o acompanham, e ler o ‘mesmo’ artigo no número da revista na qual apareceu, não é a mesma experiência” (CHARTIER, 1999, p. 128).
Cabe destacar que é responsabilidade do docente, além de fazer as indicações bibliográficas, sugerir aos estudantes, sites referentes às bibliotecas eletrônicas e às instituições de pesquisa relativas a área para que as informações obtidas possam ter a referência científica, o que não invalida a iniciativa dos estudantes de organizarem buscas de livre escolha.
Sobre o uso da biblioteca, buscou-se perceber que tipo de instituição os alunos costumam freqüentar. Do total, 64 estudantes apontam a biblioteca do campus. Quando não encontram o material desejado, usam a Internet. Os alunos não têm o hábito de freqüentarem outras bibliotecas públicas ou privadas ou universitárias, nem a Biblioteca Nacional, apresentada a eles na disciplina de metodologia científica, como atividade extra-muros (RANGEL, 2004).
Embora o contato com a Biblioteca Nacional, na ocasião, tenha causado impacto ao se depararem com a grandeza e variedade do acervo e sua organização, 18 alunos não pretendem lá realizar consulta alguma, pois alegam ser o local distante de onde moram. Um número significativo de alunos (38) afirma não conhecer a Biblioteca Nacional antes da visita. Alguns (13) conheciam o exterior do prédio, mas não o seu interior e 14 alunos conheciam o interior do prédio, mas sem ter realizado uma consulta. Apenas 5 alunos dizem ter feito consulta no acervo desta instituição, porém, antes de ingressarem na universidade.
Mesmo assim, 50 alunos demonstram a intenção de retornar à Biblioteca Nacional para a realização de consultas, justificando que o espaço proporciona “uma pesquisa mais detalhada”, “acervo variado e completo”, mas, apenas, se “a Internet não suficiente” e “não encontrar o que procuro na biblioteca do campus”.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A formação do leitor, estudante de odontologia, assim como a de outros profissionais, é de responsabilidade da universidade que, de certa forma, continua o processo iniciado na escolaridade anterior. O leitor ideal, desejado pelos docentes universitários, ainda não é uma realidade.
Os resultados encontrados espelham que a formação do aluno crítico, delineado nas Diretrizes Curriculares dos cursos de graduação da saúde, tendo a leitura como um caminho para uma postura reflexiva, encontra alguns percalços materializados em práticas que distanciam o estudante de um olhar mais investigativo sobre a realidade, privilegiando o lugar do aluno como receptor da visão do professor sobre os aspectos abordados em sala, visto que as leituras prévias, importantes para acompanhar as aulas e estabelecer um diálogo com o professor, acontecem de forma precária. Os alunos parecem se contentar com a exposição do professor, ficando este encarregado de destacar aquilo que é fundamental na leitura proposta.
O uso de fontes complementares, sugeridas ou não pelo docente para a ampliação do conhecimento tratado em sala, é uma estratégia que precisa ser incentivada. Ler é fundamental para produzir conhecimento.
Da mesma forma, a leitura inspirada no prazer, aquela chamada de livre escolha e que acontece fora dos muros da instituição, apresenta contornos fluidos que precisam ser fortalecidos. A entrada deste tipo de leitura na sala de aula seria um caminho possível, se o professor, mediador da leitura, buscasse pontos de conexão entre os temas discutidos em sala com as matérias veiculadas nos periódicos e na literatura.
A prática do acesso a textos eletrônicos para fins de estudo é uma realidade que deve ser problematizada e incorporada sob o viés da cientificidade, ou seja, possibilitar que o aluno possa acessar as informações com critérios científicos, forma necessária para qualquer pesquisa de informações.
Pode-se concluir que os estudantes calouros deram os primeiros passos para a sua formação como leitores, pois começam a integrar o uso da biblioteca e a organizarem um acervo pessoal na sua prática, mostrando que necessitam da atuação docente como mediadora na construção sua trajetória de leitura.

REFERÊNCIAS

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