Voltar    
  DICIONÁRIOS E MANUAIS DE LÍNGUA DE SINAIS: ANÁLISE CRÍTICA DAS IMAGENS

Cássia Geciauskas Sofiato - Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, PUC – Campinas;
Lucia Helena Reily - Faculdade de Ciências Médicas / CEPRE – UNICAMP e da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, PUC – Campinas.

Introdução
Para que serve um dicionário? Uma pessoa que desconhece a linguagem em funcionamento poderia supor que o dicionário seja a chave de uma língua, e que aquele que estiver de posse do dicionário poderá decifrar e dominar a língua. Na realidade, aprender uma língua utilizando um dicionário é uma estratégia equivocada, porque os sentidos são constituídos em estruturas, na interação social, não em fragmentos lexicais isolados. No entanto, quando uma língua não tem uma forma escrita de registro, o aprendiz se beneficia muito de um dicionário, onde poderá consultar palavras isoladas, ampliando seu vocabulário.
Em nossa atuação docente no ensino de língua de sinais para alunos universitários, temos buscado disponibilizar uma variedade de dicionários, apostilas e manuais ilustrados, para que os alunos possam conhecer os recursos existentes para finalidade didática. Indicadas como fontes bibliográficas, as obras servem primordialmente de apoio para o estudo e para tentativas autônomas de produção dos mais variados itens lexicais. Desenhos, fotografias e formas híbridas são os recursos instrucionais e ilustrativos utilizados nos dicionários de sinais que se mostram fonte valiosa para consulta e para ensinar o usuário a realizar os sinais pertencentes à língua de sinais.
Ao observar os alunos de cursos de língua de sinais consultando tais obras, percebemos suas dificuldades em decifrar a forma correta (convencionalizada pelos surdos) de realizar os sinais apresentados nos verbetes, conforme as ilustrações. Sem a mediação anterior, sem passar pelo processo de demonstração/imitação, é muito difícil acertar, no caso de alguns ítens. Percebemos que a comunicabilidade das imagens instrucionais não é tão transparente quanto os autores pretendem.
Se os verbetes para sinais da Libras não são auto-explicativos, o que estaria atrapalhando? Seria a dificuldade de desenhar as mãos? Representar a tridimensionalidade? O movimento? A representação da expressão facial e corporal que acompanha o sinal e complementa o sentido? Para chegar em algumas respostas, mergulhamos numa pesquisa histórica na busca das primeiras tentativas de coletar os sinais e amestrá-los na forma de publicação.

Ensaios históricos de produção de dicionários de sinais em mosteiros medievais
É provável que alguma forma de linguagem gestual sempre foi usada entre surdos, toda vez que houve agrupamento de pessoas que necessitassem de forma não oral de comunicação. No entanto, a sistematização e o registro gráfico e descritivo de sinais surgiu pela primeira vez na história da humanidade no contexto da constituição da vida monástica na Idade Média (Reily e Reily, 2003). Na virada do século V, duas ordens monásticas foram criadas: 1) a oriental, que baseou seu modo de viver nas Regras de São Basílio (São Basílio Magno, c. 370) e 2) a ocidental, que seguia as Regras de São Bento (São Bento, c.500). Ambas instituíram o Voto do Silêncio, para auxiliar os religiosos a manter um clima de reflexão e oração durante todo tempo, para levar a atitudes de subordinação, e também para criar uma barreira que impedisse a entrada de palavras mundanas. Nas comunidades beneditinas, o ócio era combatido; todos trabalhavam, então uma linguagem sinalizada surgiu como alternativa de comunicação nas tarefas cotidianas. Reily e Reily (2003) deduziram que as formas de alfabeto manual foram inventadas no contexto do scriptorium, no desempenho das escrituras (cópias) de textos (os evangelhos e outros textos bíblicos, breviários, saltérios, hinários, textos clássicos, além de documentos não religiosos como títulos de propriedade, doações, testamentos, documentos de contabilidade da abadia) e outros que eram empregados para acompanhar a liturgia pelos monges copistas. Para finalidade didática (para ensinar os noviços) e com enfoque missionário, para transmissão a outros mosteiros que iam aflorando, listas de sinais foram registradas e copiadas nos Scriptoriae. Durante os saques, guerras civis, e perseguições religiosas da Alta Idade Média e Renascimento (Reforma e Contra-Reforma), e posteriormente por conta da Inquisição, muitos manuscritos foram queimados, mas alguns exemplares das listas de sinais monásticos sobreviveram, conforme coletânea publicada por Umiker-Sebeok e Sebeok (1987). Existem também listagens ainda em uso em mosteiros Trapistas, pois as ordens Cistercienses, fundadas no final do século XI buscaram viver a Regra de São Bento na autenticidade dos preceitos originais (Os Cistercienses: Documentos Primitivos, 1997).
Segundo Eriksson (1993), o primeiro registro monástico de sinais de que se tem notícia é da autoria do Venerável Bede (672-735), reconhecido pela história eclesiástica da nação inglesa (The Ecclesiastical History of the English Natio and the lives of St. Cuthbert & the Abbots, c. 737). O volume De computo vel loquela digitorum contém a mais antiga figura de numerais romanos representados nos dedos. O monge sugeriu que os numerais também poderiam representar letras.
O Monasteriales Indicia é um dos dicionários de sinais monásticos em inglês arcaico aos quais tivemos acesso, re-editado por Banham (1991), com tradução para o inglês moderno. Trata-se de um documento escrito ainda no século X, provavelmente, e apresenta 127 sinais acompanhados de descrições verbais dos movimentos manuais. Alguns são acompanhados de ilustrações no original. Percebe-se que o sinal de leigo, por exemplo, é parecido com o sinal para Homem na Libras atual.
Verbete 126 – “O sinal para leigo é que pega-se no queixo com toda a mão, como se estivesse pegando na barba” (tradução nossa).
Na sua publicação, Eriksson (1993) lista outros manuscritos monásticos, entre os quais temos os que seguem:
? O Thesaurus Artificiosae Memororiae, de Cosmas Rosselius, monge franciscano de Florença, em publicação póstuma datada de 1679, contendo cinco pranchas ilustradas e mostrando três variações de alfabetos unimanuais. Nas três versões, é evidente a tentativa de criar configurações manuais parecidas com as letras gráficas.
? A obra De Furtivis Literarum Notis criado pelo italiano Giovanni Battista della Porta, (1535-c. 1610) e publicado em 1563, que propõe associar letras a partes do corpo, utilizando o apontar, assim Auris (orelha) = A; Barba = B; Caput (cabeça) = C; Dentes = D, e assim por diante. Pelo que se sabe, este recurso não foi utilizado na educação de surdos, mesmo porque os religiosos não aprovavam o apontar para partes do corpo.
? A pequena obra Refugium Informorum, por el Padre Fray Melchior de Yebra, foi publicado postumamente. O autor era o frade franciscano espanhol Fray Melchior de Yebra (1526-1586), e produziu o manuscrito contendo 6 páginas de ilustrações de posições manuais, muitas das quais são parecidas com as grafias das letras. Nos países do sul da Europa, o uso da escrita manual era comum nos mosteiros, praticada na confissão, e com pacientes moribundos.
Nota-se, no entanto que nenhum desses manuscritos e publicações citados por Erikkson chega a ser propriamente um dicionário, pois todos trazem sinais manuais das letras do alfabeto ou numerais, e não palavras/ verbetes. Apesar disso, servem para mostrar que as posições manuais são passíveis de representação figurativa e leitura quando a posição é estática, sem movimento. Os problemas de desenho e interpretação da imagem começam quando entram: 1) o movimento, 2) configurações manuais complexas e 3) expressão facial complementar.

As tentativas de criação de manuais ilustrados para educação de surdos
Existe uma grande lacuna na literatura sobre como os sinais monásticos ganharam passagem do contexto religioso para o contexto da educação dos surdos. Podemos especular com base científica que os sinais monásticos e principalmente o alfabeto manual foram aproveitados nos trabalhos pioneiros de educação de surdos realizados pelo monge Pedro Ponce de Léon (c. 1520-1584), mas os registros do seu método se perderam na Espanha, onde os conflitos civis e religiosos foram particularmente violentos, como evidencia Plann (1997).
O próximo trabalho publicado, Reducción de las letras y arte para enseñar hablar a los mudos, foi da autoria de Juan Pablo Bonet (1620), mas suspeita-se que ele se apoiou, quiçá até plagiou, as imagens do alfabeto manual de Yebra; Bonet não tinha nenhum compromisso com a educação; era mercenário e trabalhou alguns poucos anos ensinando o filho surdo da família que fora servida anteriormente por Ponce de Leon. Bonet apresenta o trabalho como sendo original; não reconhece a contribuição da igreja, nem tampouco do monge. Seu livro não é um dicionário, mas seguindo a tradição monástica, contém um alfabeto manual, que mais tarde foi parar na mão do Abade Charles Michel de L’Épée, e por intermédio de Huet, que estudou no Instituto de Meninos Surdos de Paris fundado pelo abade, acabou chegando ao Brasil em meados do século XIX.
No percurso histórico da educação do surdo, diversas metodologias foram criadas, como maior ou menor ênfase na oralidade. No Século XVIII, em pleno iluminismo, havia um forte interesse na aprendizagem pelos sentidos, e com isso afloraram soluções envolvendo sentidos gustativos, visuais e gestuais como compensação da ausência da audição. O abade Charles Michel de L’Épée, fundador da primeira escola para alunos surdos em Paris a partir de 1776, por exemplo, investiu nos sinais, que ele considerava a língua natural do surdo. Para aproximá-la da gramática francesa, criou um sistema de sinais metódicos. Não chegou a publicar um dicionário, embora tenha se esforçado neste sentido, segundo Rée (2000). Sua metodologia inclui descrições verbais que exemplificam os complementos gestuais adicionados aos sinais simples para indicar a função gramatical do sinal. Sicard, que o seguiu no Instituto de Meninos Surdos de Paris na virada do século XIX, também enfrentou o desafio de representar os sinais visualmente, mas deixou a tarefa sem conclusão, como seu antecessor. O próximo a aventurar-se foi Bébian, que criou o alfabeto mimográfico. Este educador resolveu registrar também as expressões faciais, dividindo o rosto em oito regiões, e assinalando uma curva de formato diferente para cada uma. Foi mais uma proposta que não teve êxito.
Valade resolveu assumir o projeto em 1850, elaborando um dicionário descritivo da linguagem natural, projeto abandonado por Bébian vinte anos antes. Valade considerava a escrita mimográfica absurda e as notações de Bébian muito confusas, segundo Rée (2000). O trabalho de Valade consistia num dicionário de sinais manuais, que trazia uma lista de palavras-chaves em francês, cada uma seguida de uma descrição verbal dos sinais gestuais naturais correspondentes. Eram adicionados, onde necessário, “syrmographs”, ou desenhos de traços estilizados, nos quais momentos sucessivos na execução de um sinal eram sobrepostos numa única imagem. Este foi mais um projeto de dicionário de sinais abandonado.
As iniciativas de produção de dicionários e manuais de língua de sinais são inibidas em 1888 quando os representantes dos vários países no Congresso de Milão assinaram declaração estabelecendo o método oral puro como mais eficaz na educação e instrução de surdos. A partir de então, a metodologia oralista passou a imperar na Europa e nas Américas, do final do século XIX até 1960 , coibindo também a produção de dicionários de sinais para trabalhar com os surdos.
É por isso que, no Brasil houve um grande intervalo entre o primeiro dicionário do surdo Flausino da Gama, ex-aluno do Instituto Nacional de Educação de Surdos no Rio de Janeiro, (Iconographia dos Signaes dos Surdos-Mudos), em 1875 e o segundo dicionário, publicado por Oates em 1969. A inspiração para o projeto de Flausino foram as estampas do surdo Pellisier, professor de Paris, que ele entendia como um meio de os “falantes” conversarem com os surdos. Flausino era um hábil desenhista, e conseguiu levar a cabo o projeto depois de aprender a técnica da litogravura. Explicou seus objetivos na introdução de sua obra:
“Vulgarisar a linguagem dos signaes, meio predilecto dos surdos mudos para manifestação dos seus pensamentos. Os pais, os professores primários, e todos os que se interessarem por esses infelizes, ficarão habilitados para os entender e se fazerem entender” (Flausino, 1875:2).

Em 1969, foi lançado o segundo dicionário brasileiro por iniciativa do missionário americano Padre Eugênio Oates, pertencente à Congregação Redentorista. Nas suas viagens pelo país, interessou-se pela situação dos surdos e aprendeu a língua de sinais, dando início a uma pesquisa sobre a “comunicação natural” que havia entre eles. Percebeu que havia diferenças lexicais nos sinais dos surdos de diversas regiões do Brasil, por isso elaborou o manual Linguagem das Mãos, com o intuito de ajudar os surdos brasileiros a se entrosarem na sociedade, promovendo melhora na vida social, educacional, recreativa, econômica e religiosa (Oates, 1989).
O livro de Oates começa com a datilologia, seguida de 1258 sinais. Os sinais são apresentados um a um, por meio de fotografias, e trazem um pequeno texto que descreve como o sinal deve ser realizado.

A tradição Iconográfica da língua de sinais brasileira
Os materiais selecionados para a análise foram editados na região sudeste do Brasil e a escolha das obras está relacionada à sua representatividade junto às comunidades surdas brasileiras da região. Produzidos em diferentes momentos históricos, são considerados por pesquisadores como referências na área da surdez.
Sabemos que muitos dicionários de língua de sinais que foram produzidos são resultado de uma coletânea de sinais efetuada por pessoas direta ou indiretamente envolvidas com a área. Assim sendo, a pesquisa realizada pelos autores foi um aspecto relevante para a escolha dessas obras. Outro fator preponderante foi a escolha do suporte para a representação visual da língua de sinais por parte do ilustrador.
Em termos de estrutura, as obras selecionadas também apresentam algumas outras características em comum: um destaque para a informação visual, a seleção de conteúdos lexicais que farão parte da obra, o uso de textos complementares com o objetivo de esclarecer ao leitor uma série de questões relacionadas à surdez, o destaque às histórias de vida de surdos, entre outros.
Analisamos as seguintes obras:
? Iconographia dos Signaes dos Surdos Mudos de Flausino José da Gama (1875);
? Linguagem das Mãos de Eugênio Oates, (1989);
? Linguagem de Sinais da Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, (1992);
? Comunicando com as Mãos de Judy Ensminger, (1997);
? Meus Primeiros Sinais de Paulo Favalli, (2000) e
? o Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilingue: Língua de Sinais Brasileira de Fernando C. Capovilla e Walkíria D. Raphael, (2001).
As obras analisadas de línguas de sinais trazem em sua maioria, a ilustração pictórica ou a fotografia referente ao significado do sinal representado e, além disso, verificamos a presença da representação quirêmica, que corresponde à forma como o sinal é realizado, passo a passo. Geralmente trazem ainda o verbete correspondente em português para situar e orientar o leitor. Com o uso dessas estratégias, pretende-se ensinar a língua da comunidade surda.
Em todas as obras escolhidas, verificou-se a escolha de dois tipos de suportes para a representação da língua de sinais: o desenho naturalista e a fotografia. Para que a realização de uma obra de língua de sinais possa se efetivar, é necessário a escolha de um profissional competente que realize a ilustração do material, respeitando todas as características intrínsecas a essa língua espaço-visual, pois além da liberdade poética conferida a cada um durante a preparação da obra, tem que se levar em conta a objetividade deste tipo de trabalho: o desenho de uma informação estabelecida por uma convenção. Trata-se da criação de uma imagem instrucional e como tal essa deve cumprir a finalidade a que se propõe: transmitir uma informação . Parece-nos que este é um aspecto que ainda merece cuidados na produção de materiais de línguas de sinais. Tal afirmação baseia-se na avaliação da qualidade dos materiais produzidos, que em alguns casos não cumprem com o objetivo principal, que seria o de ensinar a língua de sinais sem a ajuda de um mediador, Alguns apresentam um aspecto rudimentar e pouco profissional, devido ao cuidado insuficiente no uso de técnicas específicas para a sua elaboração e à falta de valorização de aspectos estéticos. A qualidade das imagens é um aspecto que merece mais atenção por parte dos autores e ilustradores, pois a imagem em si é um elemento essencial neste tipo de publicação.
Verificamos também uma série de dificuldades relacionadas à representação das configurações de mãos. De acordo com Stokoe, as configurações de mãos dizem respeito à forma que a(s) mão(s) assume(m) ao realizar um determinado sinal. Alguns ilustradores optam por desenhar ou fotografar as mãos vistas conforme a posição que elas assumem ao serem sinalizadas, outros já preferem desenhá-las sob um outro ângulo de visão que facilite o aprendizado do sinal e isso constitui um impasse para o leitor, se ele tiver acesso a vários materiais ao mesmo tempo. Sem a presença de um mediador, é difícil saber qual é a posição correta para a produção manual do sinal. Algumas letras são mais difíceis de serem identificadas devido à forma como são representadas, a saber: o “T”, o “Q”, o “H” e o “F”.
Alguns ilustradores desconhecem a importância atribuída à “localização das mãos”, termo utilizado por Fernandes (2003), ou o local de onde incidem os sinais. Muitas vezes, o enquadramento escolhido não destaca as mãos e as partes do corpo que deveriam estar em evidência durante a realização de determinados sinais. Além disso, o uso da expressão corporal e facial também deveria ser salientado, uma vez que são elementos intrínsecos que reforçam o sentido durante a produção dos sinais. Pudemos perceber que em algumas das obras analisadas esse aspecto também não é valorizado. Observamos “cortes” na cabeça ou em outras partes do corpo do modelo e o uso de expressões que não condizem com o que está sendo representado ou até mesmo a ausência delas. Através das obras, pudemos verificar também que os ilustradores não contam com um espaço amplo onde possam representar os sinais. Na maioria das vezes, as imagens não são valorizadas quanto ao tamanho e apresentam-se muito espremidas. O espaço utilizado tem que ser dividido com outras formas de representações gráficas, tais como as legendas, e as descrições do movimento.
O uso de legendas está sempre presente nas obras estudadas e têm a finalidade de explicar ao leitor a forma de realização dos sinais associada à imagem que geralmente aparece junto. A associação da imagem e da legenda é vista como uma solução neste tipo de material. O leitor que teve acesso à linguagem escrita pode se beneficiar com tal recurso se a imagem não bastar para ele conseguir fazer o sinal apresentado, mas não podemos afirmar que a referida estratégia garante a realização eficaz dos sinais por todos. E no caso das pessoas que não são alfabetizadas, que é a realidade de muitos surdos? Sabemos que o acesso à língua será limitado também devido a este fator.
Encontramos ainda uma série de dificuldades relacionadas à representação do movimento presente em muitos sinais. Esse aspecto é também um desafio para ilustradores experientes e, como nos aponta Gombrich (1999), este é um obstáculo para os profissionais que trabalham com imagens instrucionais. Essa tarefa torna-se difícil porque os ilustradores têm que transformar os fluxos de movimentos presentes na realização dos sinais numa seqüência de posições fixas. Passar do plano tridimensional para o plano bidimensional exige o uso de técnicas próprias da área do desenho e da fotografia. Neste caso, as soluções encontradas pelos ilustradores ou fotógrafos de materiais de línguas de sinais estão relacionadas ao uso de elementos visuais que, acoplados à imagem, teriam a finalidade de elucidar a direção e a qualidade do movimento. Para isso, setas são incluídas em muitas ilustrações e fotografias e também desempenham o papel de vetores, tentando indicar a direção que se deve obedecer para que se realize corretamente o sinal. Mas existem também outros recursos que são incorporados à imagem com a finalidade de demonstrar a movimentação, quando necessário: “curvinhas”, “ziguezagues”, “círculos” e desenhos de trajetória de movimento com o uso do pontilhados.
Alguns ilustradores apresentam como estratégia uma seqüência de imagens que revelam a evolução do movimento durante a produção de um determinado sinal. Gombrich (1999) salienta que esses profissionais devem aprender a isolar os blocos e mostrar a ação do melhor ângulo durante a representação de uma seqüência. As várias soluções utilizadas tentam minimizar o desafio do ilustrador frente ao movimento, mas nem sempre são bem sucedidos durante a interpretação dos sinais e a tentativa de execução dos mesmos. A sistematização dessas pistas gráficas por meio de uma legenda no início do volume auxiliaria o leitor a interpretar a instrução pretendida. Entre as obras brasileiras analisadas, apenas o Dicionário Enciclopédico Trilingue: Língua Brasileira de Sinais de Capovilla e Raphael (2001) teve o cuidado de incluir este tipo de explicação para o leitor.

Discussão
Quase a totalidade dos dicionários foram elaborados por ouvintes, que acabam fazendo as escolhas que dizem respeito à estruturação e organização dos mesmos, baseados em suas experiências com outros dicionários apresentados em sua modalidade de língua, a língua oral.
Não obstante termos Flausino (1875) como precursor da iconografia brasileira, a presença do surdo durante a elaboração das obras, quando ocorre, é tímida e não proporciona uma mudança significativa na sua apresentação, pois a constituição dos materiais continua seguindo o padrão utilizado para a língua de modalidade oral. Não podemos negar que existem obras brasileiras dessa natureza de autoria de surdos, mas como pudemos observar, a forma de elaboração dos referidos materiais também tem como referência os diversos dicionários criados pelos ouvintes. Desta forma, parece-nos que existe uma tradição em elaborar dicionários seguindo os modelos de estrutura já existentes, tarefa iniciada por Flausino em 1875 no Brasil e perpetuada até os dias de hoje. Se os surdos fossem autores ou ilustradores, e estivessem à frente da elaboração dos diversos materiais de língua de sinais existentes, sem a influência dos paradigmas estipulados pelos ouvintes, talvez a sua forma de estruturação fosse totalmente diferenciada. O tratamento dado à informação visual e a forma de indexar o léxico obedeceriam a outros critérios de organização, por causa da facilidade de raciocínio em outras linguagens por meio de suas experiências visuais.
A elaboração de obras impressas de línguas de sinais é um problema que vem sendo demonstrado desde as primeiras formas de representação dessa língua ao longo da história. E diante disso, alguns estudiosos da área e até mesmo instituições que se dedicam ao trabalho educacional de surdos decidiram enfrentar essa dificuldade de forma “inovadora”, mediante a elaboração de dicionários virtuais, geralmente em forma de CD Rom. O uso de tal tipo de recurso para a representação da língua de sinais favorece alguns aspectos relacionados aos parâmetros que constituem a língua, tais como: a melhor visualização das configurações de mãos exigidas para a realização do sinal desejado; a ênfase da expressão facial e corporal durante a realização de um determinado sinal; a compreensão da trajetória do movimento necessário a alguns sinais; a “localização das mãos” que fica mais evidenciada, pois existe uma cena da qual o modelo faz parte, embora se evidencie apenas a região da cabeça, do pescoço e do tronco.
Mas, apesar de todo aparato tecnológico, algumas pessoas ainda têm dúvidas na hora de realizar os sinais de acordo com o modelo apresentado. Ademais, o uso desse tipo de recurso só será possível se a pessoa interessada tiver acesso a um computador compatível com as exigências dos programas utilizados. Sabemos que, infelizmente, esse fator também é determinante ao acesso à língua, pois muitas pessoas e muitos ambientes educacionais não contam com esse recurso. Além do mais, em determinadas situações, o uso do material impresso em forma de dicionário, manual ou livro é mais prático, devido à facilidade de transporte, rapidez durante o manuseio pela busca do sinal e por ser financeiramente mais acessível.

Conclusão
O intuito deste estudo não foi o de desconsiderar as inúmeras tentativas de representação da língua utilizada pelos surdos, mas mostrar os fatores que impedem um melhor aproveitamento por parte dos leitores que se apóiam em obras destinadas ao ensino de tal língua.
Sabemos que a criação de um material dessa natureza é uma tarefa exigente, que envolve muitos cuidados relativos ao tratamento da informação que se deseja transmitir, que nesse caso é visual. Os fatores que interferem diretamente na iconografia da língua de sinais merecem atenção especial por parte dos envolvidos com a questão da representação pictórica ou os que utilizam a fotografia como suporte. Sabemos que, em outras áreas do conhecimento, o uso das imagens em materiais impressos ou multimídia também é bastante corrente, e que muitos ilustradores, quando se deparam com desafios relativos à questão da representação por uma série de impedimentos, buscam formas de se aperfeiçoarem, para realizarem o trabalho da maneira mais adequada possível. Isso deveria ocorrer também quando os materiais impressos de língua de sinais fossem lançados, pois vemos que muitas vezes as pessoas que participam da elaboração desses materiais não conhecem em profundidade a área da surdez e muito menos as características da língua de sinais, língua espaço-visual, com estrutura e funcionamento próprios.
A despeito de todas as questões apontadas e discutidas neste estudo, estamos diante de um problema de difícil solução. De um lado, existe ainda a necessidade de produção de materiais de língua de sinais na forma de material impresso, e, de outro, o processo de registro dessa língua numa dimensão visual e quiro-articulatória é altamente complexa.
Concluímos que ainda faltam estudos específicos na área e tentativas mais assertivas de representação, baseadas em enfrentamento do desafio e capacidade de inovação. A intersecção com outras áreas do conhecimento, mais especificamente a contribuição que as Artes Visuais podem fornecer seria um grande passo para a melhoria deste material imprescindível para a educação de surdos.

Referências Bibliográficas

BANHAM, Debby (org.). Monasteriales Indicia. The Anglo-Saxon monastic sign language. Pinner, Reino Unido: Anglo-Saxon Books, 1991.

BEDE, The Venerable. (c. 737). The ecclesiastical history of the English nation & the lives of St. Cuthbert & the Abbots. Dutton, Nova York: Everyman’s Library, 1965).

CAPOVILLA, F. C., RAPHAEL, W. D. Dicionário enciclopédico trilíngüe: língua de sinais brasileira. São Paulo: EDUSP, 2001, vol. I e II.

ENSMINGER, Judy. Comunicando com as mãos, 1987.

ERIKSSON, Per. The history of Deaf People. A source book. Trad. James Schmale. Örebro, Suécia: Daufr Deaf History, 1993.

FAVALLI, Paulo. Meus primeiros sinais. São Paulo: Panda, 2000.

FERNANDES, Eulália. Linguagem e surdez. Porto Alegre: Artmed, 2003.

FLAUSINO, José da Gama. Iconographia dos signaes dos surdos mudos. Rio de Janeiro: Tipografia Universal de E. & S. Laemmert, 1875.

FRUTIGER, Adrian. Sinais e símbolos. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

GOMBRICH, E.H. The uses of images: studies in the social function of art and visual communication. Phaidon: London, 1999.

L’ÉPÉE, Charles Michel de. (sem data). L’art d’enseigner a parler aux sourds-muets de naissance augmenté de notes explicatives et d’un avant-propos par M. L’Abbé Sicard. Paris: J.G. Dentu.

MOORES, Donald E. Educating the deaf: psychology, principles and practices. Boston: Houghton Mifflin Company, 1987.

OATES, Eugênio. Linguagem das mãos. Aparecida do Norte: Santuário, 1989.

OS CISTERCIENSES: Documentos Primitivos. De Place, Irmão François (Introdução e Bibliografia). Trad. Irineu Guimarães. São Paulo: Musa Editora, 1997.

RÉE, Jonathan. I see a voice: deafness, language and the senses __ a philosophical history. New York: Henry Holt and Company, 2000.

REILY, Duncan Alexander. Ministérios femininos em perspectiva histórica. 2ª Ed. São Bernardo do Campo: Editeo e CEBEP, 1997.

REILY, Lucia e REILY, Duncan Alexander. A constituição da língua de sinais e do alfabeto manual na igreja monástica. Anais do 26° Reunião Anual da ANPEd. (Cd.), Caxambu, MG: 2003.

SÃO BASÍLIO MAGNO. (c. 370) As regras monásticas. Trad. Ir. Hildegardis Pasch e Ir. Helena Nagem Assad. Petrópolis, Vozes: 1983.

SÃO BENTO. (c. 500). A Regra de São Bento. Trad. Dom Basílio Penido. Petrópolis, Vozes: 1993.

SOCIEDADE TORRE DE VIGIA DE BÍBLIAS E TRATADOS. Linguagem de sinais, 1992.

STOKOE, William C. Language in hand: why sign came before speech. Washington D.C.: Gallaudet University Press, 2001.

UMIKER-SEBEOK, Jean e SEBEOK, Thomas A. (org.). Monastic Sign Languages. New York: Mouton de Gruyter, 1987.

www.ines.org.br- Instituto Nacional de Educação de Surdos.

 
Voltar